Capítulo 29: Reencontro
No vão entre o vivo e o morto, na divisão entre as águas claras da realidade e o vazio das profundezas do oceano, um conjunto de ilhas sem começo nem fim, sem lógica, ordem ou propósito, conhecido como a Cidade dos Afogados flutua na imensidão dessa dualidade.
Transitando entre as águas claras e as abissais, centenas de baleias nadavam pacificamente, cantarolando sua canção de ninar para os cadáveres dos esquecidos nas profundezas.
Seus números já foram maiores, seu canto havia ressoado por muitos oceanos acalmando a fúria e colocando para dormir os ecos de seres castigados pelos éons, enfraquecidos e contidos pelo sal do mar. Entretanto, estava mais baixo a cada dia que passava. Esse era o maior indício do fim dos tempos.
Ali, nas ilhas onde os caídos que ainda são lembrados habitam, duas criaturas feitas do amálgama das águas místicas do abismo caminhavam em uma praça no meio do vazio do distrito comercial da Cidade dos Afogados.
Olhando para o pequeno grupo de baleias cruzando as fronteiras do físico e espiritual a sua frente Abyara falou:
— Yaci ainda não quebrou o selo do sangue. O que está planejando agora?
— Ninguém quebra o selo em uma semana. Isso já era esperado. Pelo menos tivemos avanços. Em um mês, ela deve estar pronta para dar o próximo passo. — Respondeu o Professor
— Ela quebrou em uma semana! Você sabe que não temos mais tempo.
— Não compare a Yaci com a aberração que você chama de irmã!
Por um instante só o canto calmo das baleias foi ouvido. Os olhos do professor se encheram de lágrimas salgadas, apenas para se misturarem com o oceano à sua volta.
— Você, você sabia! E achou que eu não ia perceber!
Ele vociferou. Sua voz agora estava cheia de raiva, escorrendo com décadas de fúria reprimida. E então, continuou:
— Como? Como ela está viva? Como ela está nesta era?! O que você e sua família sem escrúpulos fez?
— Não foi a gente, seu velho desprezível, parece que estar morto por tantos séculos fez você se esquecer o tipo de filho que criou. — Abyara rebateu.
Ela não aguentava mais ver aquele crápula desonrar seu sangue. Mesmo agora, depois de tantos acontecimentos, esse julgamento não cabia a ele.
— Não sei o que Aíara pensou quando se casou com o fracassado do seu filho. Mas pelo menos no fim da vida ele fez algo de valor. Não como eles fizeram essa situação existir, mas isso não importa agora, só precisamos garantir que a Yaci sobreviva.
Por um instante o Professor parou e um pensamento fugaz passou pela sua mente, enquanto um suspiro cansado escapava em bolhas que subiam no mar e desapareciam sem deixar rastros.
“Porra, moleque, depois de puxar tudo da sua mãe, você tinha que se parecer comigo justo nos piores detalhes…”
— Não vou torturar a Yaci com os métodos sujos da sua família nojenta. Ela precisa viver, não só sobreviver.
— É por coisas assim que sua família só criou fracassados.
Sem levar a ofensa para o pessoal, o professor respondeu solenemente, em um dos seus poucos momentos de seriedade.
— Não Aby, nunca criamos nenhum fracassado, é a sua família que matava crianças para criar monstros. Me pergunto se meu filho trouxe de volta o pouco que restava da humanidade da sua irmã. Pena que eu não estava mais vivo para ver os dois se casarem. Só o meu garoto idiota para ver beleza naquele monstro.
Cruzando os portões de mármore e ouro, Yaci fitava a cidade com cuidado. A estrada de tijolos brancos levava para uma grande praça.
Aromas de comidas e temperos desconhecidos enchiam o ar. As pessoas, felizes, passeavam pelas ruas com leveza e calma.
Hilda parou ao seu lado tão surpresa quanto ela.
Mesmo após adentrar os muros de Verdemar, e se aprofundarem na selva de concreto, a leveza do ambiente nunca diminuiu.
Andaram por mais meia hora, mas nunca alcançaram o distrito industrial da cidade. E nunca passaram por algum lugar do qual tinham que andar com cuidado.
Não havia um distrito da miséria. Todos ali eram cidadãos. Uma cidade planejada, mapeada e estruturada desde sua concepção.
Pensada metodicamente para abrigar com carinho e leveza aqueles que tinham bolsos pesados. E excluir silenciosamente, o resto.
A cidade vivia de importações, um centro comercial interno e externo do império. Navios nunca pararam de chegar e sair do porto. O fluxo de todo tipo de pessoa, trabalhador, nobre ou burguês era incessante.
Não existia espaço para pobreza a céu aberto, nem para o preconceito desmedido e descarado. Em Verdemar, as engrenagens do sistema funcionavam por trás da fachada de terra dos sonhos.
Após chegarem com a carroça no ponto designado de entrega, todos aos poucos foram se despedindo. Yaci não se estendeu, deu um rápido, mas respeitoso e firme aperto de mão nos dois exploradores que tanto a ensinaram, e um grande aceno com os braços para quem ainda estivesse lá para ver.
Hilda, Pietro e Yaci seguiram juntos com a multidão de pessoas para as docas. Estava na hora de passar para a próxima página.
O silêncio da caminhada foi cortado por uma pergunta gentil.
— O que pretende fazer depois de oferecer as moedas ao mar? — Hilda observou, esperando a resposta de Yaci.
O pensamento da menina se voltou para a carta guardada na mochila presa em seu ombro. Ela tinha alguém para encontrar depois de deixar as ondas do mar levarem para longe seus arrependimentos.
Mas ela ainda estava insegura.
“E se a Vovó já tiver voltado para a Central? Nesse caso, eu ficaria andando por aqui como uma idiota, esperando uma chance de voltar para a Cidade Central.”
Ela não tinha como saber, mas ela aprendera a dar um passo de cada vez, agora é um momento de despedida.
— Não sei, mas vou tentar achar uma conhecida por Verdemar. Ela me deixou uma carta, me pediu para esperar até ela voltar para que possamos decidir juntas o que fazer em relação ao futuro. Mas vamos ver se conseguimos adiantar nossos planos aproveitando que já estamos aqui né!
Já estavam se aproximando do porto, à distância, as docas, com os navios ancorados, já eram visíveis. O fluxo de pessoas aumentava a cada instante e as ruas se alargavam em um grande boulevard.
Duas grandes seções dividiam pedestres de carruagens. O chão da área daqueles que andavam a pé era composto de milhões de paralelepípedos de pedra.
O branco do mármore já não se via mais, substituído pelo cinza rústico e robusto, de pedras firmes para aguentar a maresia. As calçadas e as fachadas das casas e apartamentos eram adornados por arvores e arbustos aqui e acolá.
— Mas, você já pensou em onde ficar enquanto procura? — Esperou, mas não houve resposta, então supos o pior. — Yaci, você tem que se planejar mais. Já pensou que talvez você não encontre sua amiga no primeiro dia em que estiver aqui. Foi uma viagem exaustiva, já está começando a entardecer e você não pode ficar vagando pelas ruas, não sabemos nada sobre esse lugar!
O sermão foi gentil e de fato necessário. Yaci realmente não tinha planos de onde ir e não sabia onde iria ficar. Mas isso também não era um problema. Já estivera em situações mais angustiantes, e tinha o suficiente para se manter. Realmente, o conceito, e a maneira como ela lidava com problemas definitivamente mudou.
— Não pensei muito nisso, mas vou dar um jeito. Sempre tem um.
E assim foi, deu de ombros e continuou em frente.
— Ok, mas pelo menos vem passar a noite no hostel que vamos ficar, muitos viajantes vão fazer o mesmo. Você pode só passar a noite, para dormir com um teto em cima da cabeça e sair de manhã. a gente paga pra você.
— Pode ser. Eu ainda estou pen…
Yaci não terminou a frase, seus olhos começaram a percorrer a multidão de pessoas sem parar. Foi por um instante, talvez por menos de um momento, mas ela tinha certeza que tinha visto.
Cruzando de uma calçada para a outra, andando rápido e acompanhada de dois homens. Estava a talvez quinze, talvez vinte metros. Mas Yaci ainda conseguiu distingui-la claramente mesmo em meio a multidão.
Ela a mesma, exatamente igual a lembrança de Yaci, a única mudança, foi seu vestido. Hoje, ela usava um amarelo um pouco mais escuro e sóbrio. Mas a estampa floral ainda estava lá, mesmo que sem seu destaque habitual.
Yaci apertou o passo. Fazendo Hilda e Pietro a chamarem, mas ela só ignorou.
Não tinha tempo a perder. A maré de pessoas era infindável, às vezes ela perdia Dona Heloísa de vista, apenas para encontrá-la novamente a alguns metros mais distante. Ela não podia perder essa chance, sabia que não teria tanta sorte da próxima vez.
Continuou a mergulhar na multidão, tentou ao máximo ser cuidadosa, mas com certeza esbarrou em muita gente. Cruzou todo aquele boulevard rapidamente seus passos ressoando nos paralelepípedos que compunham a rua.
Finalmente, estava a alguns passos de distancia dela.
— Dona Heloísa — Chamou um pouco envergonhada pela multidão.
Ela ouviu fracamente seu nome ser chamado, parou por um momento para olhar ao redor. Mas não foi o bastante, ela se virou de costas, abanando a cabeça com engano, mas Yaci estava perto demais para desistir.
— Vovó Heloísa!
Dessa vez ela gritou. E com espanto a senhora a sua frente virou, sua cabeça rodando procurando de onde a voz familiar vinha.
Seus olhares finalmente se encontraram. E para ambas, uma mistura de alegria e surpresa refletia neles.
Em um ultimo esforço, Yaci forçou sua passagem na contra mão do fluxo de pessoas e depois de alguns olhares tortos e xingamentos baixos ela finalmente estava de frente para a gentil senhora.
Ali, paradas atrapalhando o tráfego de pedestres, Yaci abriu os braços para abraçar a aquela que em um momento de dificuldade estendeu sua mão para ela.
Mas subitamente parou no meio do caminho. Seus olhos pararam na figura encapuzada ao lado de Dona Heloísa. Seu corpo travou, seu coração pulou uma batida enquanto sua mente tentava racionalizar a situação impossível na qual ela se encontrava.
Ali, um adolescente um pouco mais alto do que a própria idosa estava parado ao lado dela. Seu rosto pálido estava coberto por cicatrizes de queimadura. Yaci nunca se esqueceria daquele rosto, mesmo que agora tivesse muito mais cicatrizes e machucados do que se lembrava.
O capuz não conseguia esconder o cabelo vermelho vibrante do jovem, que se destacava como um pôr do sol, seu cabelo estava mais comprido, o vermelho mais vívido, mas ainda estava bagunçado, mal arrumado como sempre.
O jovem olhava para ela com olhos brilhando com espanto e orgulho marejados de lágrimas. A mão cobrindo a boca levemente, tentando esconder a mesma cara de choro de sempre.
Ele estava igual, era o mesmo bebê chorão corajoso que a criou, que tirou todas aquelas crianças da rua. Que ensinou e aprendeu com eles, o que era uma família de verdade.
— Benjamin…
Ela sussurrou, sem crer que finalmente estava frente a frente com seu irmão.

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