Capítulo 093 — Sinto… ódio.
A torre mais alta de Ga-el ficava acima do resto como uma lâmina fincada na pedra.
No topo, o vento vinha forte e carregava o cheiro de cinzas, como se ainda tivesse algum incêndio aceso lá embaixo. A luz do dia já ia embora, e o céu perdia o azul, escurecendo antes mesmo das primeiras estrelas.
Dali não dava pra ver as arquibancadas quebradas, mas Marco sabia onde estavam. Lembrava onde ele caiu. Lembrava onde a escuridão tomou o controle.
Ele segurava o Cetro com as duas mãos. A madeira parecia fria, mas não era um frio normal. Era um frio que lembrava alguém. O peso subia pro peito e travava o maxilar.
“Marco.” A voz da Nova voltou dentro da cabeça dele. “Eu voltei agora. Na luta com Asora… eu fui suprimida. Depois que você foi atingido, eu apaguei.”
Um estalo seco atravessou a nuca dele, seguido de uma sequência rápida de cliques, como peças minúsculas se encaixando.
“Me diz o que aconteceu.”
Marco só apertou o Cetro. A madeira rangeu sob os dedos.
Um som de passos subiu pela escada.
Marco não se virou. Ele reconheceu o ritmo.
— Eu sabia que ia te encontrar aqui.
Lou-reen surgiu na entrada do topo, sem pressa. A roupa ainda estava suja de sangue. A camisa tinha um rasgo queimado no abdômen, exatamente onde a Espada da Chama Eterna tinha entrado. Fuligem marcava algumas placas da armadura.
Marco não respondeu.
Ele abriu o braço num gesto largo, oferecendo o céu inteiro.
No horizonte, a luz já descia e o último brilho se apagava. Lou-reen acompanhou com o olhar, entendeu, e ficou ao lado dele. O silêncio ficou entre eles, mas não era confortável.
— Os interrogatórios começaram. — Lou-reen deixou a frase cair. — Hoje. O Imperador quer saber, exatamente, o que motivou Kaertien.
Marco mexeu os dedos no cabo do Cetro.
— E?
— Aí as peças encaixam.
Ele encarou o céu de novo, agora mais escuro. Uma estrela apareceu na borda da visão, tímida. Depois outra.
— Encaixam como?
— Como mandante. Ele deu acesso, cobertura. Foi ele quem arrumou os uniformes para os invasores passarem despercebidos.
Ela falou como se estivesse lendo uma lista que já tinha sido confirmada três vezes.
Marco virou o rosto devagar, só o suficiente para a encarar. A noite deixava os contornos mais duros.
— Mas por quê?
Lou-reen não desviou.
— Ninguém sabe. Ainda.
Marco apertou o Cetro. “Se ninguém sabia, alguém ia ter que falar.”
Ele fechou a mandíbula.
— Ele estava morto quando eu encontrei — disse Marco. — Garganta aberta.
— Eu sei.
Lou-reen assentiu.
— Então por que tá tão… limpo? — Marco inclinou o queixo para a cidade, lá embaixo. — Por que todo mundo aceitou tão rápido?
Lou-reen acompanhou a linha do olhar dele, sem mudar o rosto.
— Porque a gente sabe lidar com guerra. Enterra quem caiu, recolhe o que sobrou, e segue. Amanhã tem outra.
Lou-reen ficou um instante olhando a cidade. A mão foi até a borda de uma placa da armadura e parou ali, o polegar raspando a fuligem sem tirar nada.
— Eu também fiz isso a vida inteira.
Ela virou o rosto o mínimo, o bastante pra ele ver a linha tensa do maxilar.
— Eu nunca tinha perdido. Nunca tinha sido derrubada.
A frase saiu seca, marcando um fato novo que não encaixava.
— Hoje eu fui.
Marco encarou o céu por um segundo. Não procurou estrela nenhuma. Sentiu a raiva tentando subir, mas ela não vinha dele inteiro.
Lou-reen olhou para o cetro na mão dele.
— É pesado, não é? — disse ela.
— Não pesa nas mãos, mas dentro da cabeça. — respondeu Marco. — Consigo sentir as memórias… os ecos de quem o segurou antes. Sinto… ódio.
Lou-reen assentiu com um suspiro.
— Clyve. Ele também sentia isso… e deixou isso consumir tudo o que havia nele, até que restasse só isso. Raiva.
Marco ergueu os olhos para ela enquanto ela continuava.
— Eu o admirava. E ele me odiava por isso… mesmo quando dizia o contrário. Queria me vencer… só isso. Mas o Império não tinha mais conhecimento pra ele. Ele queria algo além do que poderíamos dar. Então ele partiu… para encontrar aquilo que eu nunca poderia alcançar.
Marco apertou o cetro com mais força
— Eu… consigo sentir. É estranho, mas… lembro desse sentimento. Como se a raiva dele tivesse grudado nesse objeto.
Ela se virou de frente para ele.
— Talvez ainda esteja. Mesmo depois da morte, Clyve sempre quis ser lembrado. Mesmo como um inimigo, mesmo como um monstro. Ele queria ser maior que o Império.
Marco deu uma risada sem humor.
— O Império é… literalmente um império.
— E mesmo assim não bastou.
As estrelas estavam mais nítidas agora. E aquilo sempre doía de um jeito diferente: lembrar que o céu era o mesmo, mas a casa dele estava do outro lado do universo.
O silêncio se estendeu entre eles.
E então, Lou-reen deu um passo à frente. Um só. E Marco, pela primeira vez desde a batalha, abaixou a guarda. Ela se aproximou devagar, os olhos nos dele.
— Você não é ele, Marco. Por mais que carregue o cetro… ou o fardo.
Marco ficou parado um instante, o Cetro firme nas mãos. Os dedos ainda tinham fuligem nos cantos e sangue seco na pele.
— A cada dia que passa… eu viro mais soldado. Eu penso em distância, ângulo, cobertura. — a voz saiu baixa. — Penso menos em órbitas.
Lou-reen levantou o olhar para as estrelas.
— Você nunca vai deixar de olhar pro céu, Marco. Pode mudar o resto. Isso não muda.
Ela baixou o olhar de volta para ele. A voz saiu baixa.
— Sinto muito não ter te protegido.
Marco mexeu o polegar no cabo do Cetro, sem tirar os olhos dela.
— Eu ainda tô aqui.
— E eu vou ficar mais forte do que nunca.
Ele soltou um ar pelo nariz, quase um riso sem humor.
— Eu não vou abandonar o céu. Nem isso aqui.
Ele soltou o artefato, deixando-o flutuar ao seu lado, e seus braços buscaram os dela, hesitantes, mas firmes. Sem mais palavras, se abraçaram. Lá embaixo, a cidade ainda queimava em ruínas.

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