Capítulo 095 — 8 dias após o Natal.
Clyve estava parado sobre uma elevação rochosa, o manto negro oscilando sob o vento seco que cortava o deserto. Atrás dele, seis figuras aguardavam em silêncio absoluto, imóveis como estátuas, os rostos ocultos pela sombra da noite.
— Terminamos o treinamento — disse ele, a voz baixa, carregada de uma frieza entediada. — Agora é hora do primeiro passo.
Ele fitou a vila à frente: um agrupamento simples de tendas, casas de madeira rústicas e fogueiras acesas. Um acampamento fixo, primitivo, pertencente a um dos muitos clãs esquecidos pela civilização.
Ele olhou para os seis atrás de si, um a um, antes de falar, a voz agora mais forte, carregada de uma convicção sombria:
— Eu ensinei tudo o que aprendi no Império… e tudo o que roubei dos mundos que existem além dele. Vocês absorveram minha essência, minhas técnicas, minhas visões. — Seus olhos brilharam com uma intensidade quase febril. — Agora… é a hora de mostrar que valeram a pena.
Clyve apertou o cetro com mais força.
— Eu sempre quis ver até onde a essência poderia ir. Quantas formas ela poderia tomar. Quantas possibilidades ela poderia criar. E vocês… vocês são o primeiro passo. Produtos da multiplicação, sementes do que ainda vamos explorar. — Sua voz soou como uma promessa e uma sentença ao mesmo tempo. — A partir de hoje, vocês não são apenas discípulos. São os Multiplicadores.
O cetro brilhou em sua mão, pulsando com uma luz carmesim viva.
— Vamos começar — disse ele, com um sorriso frio. — Materialização de Essência… runa explosiva.
Uma runa disparou da ponta do cetro, veloz como uma flecha vermelha, cravando-se no telhado de uma das maiores casas da vila.
Por um segundo, houve apenas o brilho tênue de linhas gravadas no ar.
Então, a explosão.
O chão tremeu.
Madeira, pedra e carne foram lançados aos céus num estrondo abafado. Chamas subiram, iluminando a noite com tons de laranja e vermelho.
Foi o sinal.
Cedric Fairwind foi o primeiro a ultrapassar os escombros fumegantes. Suas lâminas curtas dançavam ao redor do corpo como reflexos vivos, metálicos e mortais.
Asora Camadriel veio logo atrás, uma sombra que se moldava entre as colunas de fumaça e pedra quebrada. Suas adagas cortavam gargantas com uma precisão fria e cruel. Ela não errava nem hesitava.
Pátkos Darkwater não precisava de lâminas. Era uma avalanche viva. Atravessava paredes com os punhos nus, esmagava escudos com os ombros, rasgava aço como se fosse couro envelhecido.
Löerg Seaborn caminhava com uma calma sinistra, girando o florete entre os dedos finos. Os inimigos que cruzavam seu caminho congelavam. Havia algo no sorriso dele que paralisava o coração antes mesmo da lâmina perfurar a carne.
Fechando a formação, Auhra Revere avançava como a morte silenciosa. Seus olhos ardiam numa fúria contida. As chamas que surgiam de suas mãos devoravam tudo que tocavam.
E no centro, liderando o ataque como um maestro de massacre, Serana Vaelor atravessava a devastação. Seus olhos cintilavam de prazer sombrio.
Com um impulso ágil, ela transformou as próprias mãos em garras negras e afiadas. Lançou-se sobre os soldados como uma pantera sedenta, dilacerando armaduras, carne e esperança.
Clyve, da elevação rochosa, observava a destruição.
A luz das chamas refletia no cetro em sua mão, e um sorriso satisfeito moldava seus lábios…
Marco baixou lentamente o cetro, sentindo o peso da lembrança ainda pulsando em seus músculos, como se tivesse vivido tudo aquilo em primeira mão.
Diante dele, Lou-reen mantinha a postura firme, mas seus olhos dourados analisavam Marco com intensidade renovada, como se estivesse vendo não apenas o rapaz, mas também as sombras do passado refletidas nele.
— Então foi assim que tudo começou… — a general murmurou, cruzando os braços diante do peito. Sua voz carregava um misto de respeito e reprovação. — O nascimento dos Multiplicadores.
Marco respirou fundo, tentando afastar a sensação de estômago revirado que a memória deixara. O cheiro de sangue, de madeira queimada, de carne estilhaçada, tudo, ainda parecia presente, vívido demais.
— Eles não foram criados apenas para serem soldados — disse ele, a voz mais rouca do que pretendia. — Clyve queria… possibilidades. Ele queria quebrar os limites da essência primordial. Criar algo que nem os antigos mestres ousaram.
Lou-reen deu alguns passos lentos ao redor de Marco, circulando-o como uma fera testando as defesas da presa.
— E conseguiu. — A palavra soou amarga em sua boca. — O que ele criou não foram discípulos. Foram aberrações.
Marco fechou a mão em torno do cetro. O artefato vibrou em sua pele como um coração doente. Parte dele, uma parte que ele odiava, conseguia entender a lógica de Clyve. O fascínio pela multiplicação infinita da essência. O desejo de ultrapassar as barreiras naturais.
Lou-reen parou diante dele, olhando-o nos olhos.
— E agora você carrega o cetro dele. — A acusação estava lá, sutil, enterrada sob o tom neutro.
Marco ergueu o olhar. Não fugiria. Não mais.
— Carrego, sim.
Lou-reen puxou a espada com um único movimento fluido, o metal cintilando sob a luz fria da arena. Sem hesitar, caminhou até o canto, pegou uma segunda lâmina e a lançou para Marco com força controlada.
Marco soltou o cetro no mesmo instante. O artefato flutuou, orbitando-o lentamente como uma lua. Ele estendeu a mão sem nem olhar e agarrou a espada no ar.
Quando seus dedos envolveram o cabo, a lâmina explodiu em chamas, um fogo denso e silencioso que percorreu a extensão da arma como se estivesse vivo, respondendo à essência que pulsava dentro dele. Na lateral de sua visão, uma projeção geométrica tremeluzia: Nova.
“Iniciando protocolo de combate… Análise: chance de vitória contra Lou-reen Egalyn… 0.000008%.”
A general ergueu a própria espada em guarda, um sorriso de desafio cruzando seus lábios.
— Vamos ver se você aprendeu algo novo — disse ela, a voz cortante como lâmina nua.
— Ha! — gritou Marco, lançando um arco de fogo que cortou o ar com um silvo.
Mas Lou-reen já não estava lá.
Num piscar de olhos, ela surgiu ao lado dele, desviando com um giro elegante. Com a parte chata da lâmina, acertou seu ombro. Marco foi jogado ao chão como uma pluma atingida por um vendaval.
Arfando, ele rolou para o lado e se ergueu de um salto. A espada flamejante em mãos, o cetro girando logo acima de seu ombro, como se aguardasse sua ordem para intervir.
— Você não está se segurando nem um pouco, né? — disse, meio ofegante.
Lou-reen o encarou com um sorriso de canto.
— Você está treinando contra uma general, Marco. Isso é o mínimo que posso fazer por você.
Ele avançou de novo, mais rápido, a essência correndo por seus músculos como um trovão líquido. Seus sentidos se aguçaram, tentando prever os movimentos dela. Tudo em vão.
Lou-reen simplesmente desapareceu da sua frente.
Um sussurro cortante atrás dele.
Marco virou-se rápido e a lâmina estava ali, a poucos milímetros de seu pescoço. Imóvel.
Lou-reen recuou, guardando a espada em um movimento limpo e técnico.
— Você melhorou muito.
Marco bufou, limpando o suor da testa. A espada se apagou, voltando ao metal puro.
— E ainda sou um alvo fácil. — resmungou.
— Porque está lutando contra um general treinado em Taeris. E você não é. É um explorador, um cientista…
Marco desviou o olhar, fitando o cetro que girava lentamente ao seu redor. A aura dele tremulava com um poder antigo, maior do que ele compreendia. E, por um instante, Marco se lembrou do ataque dos Multiplicadores. Lembrou-se da fúria que o tomou, do ódio pulsando em suas veias. Um ódio que não era dele.
— Eu não quero lutar com o poder de outra pessoa. — murmurou. — Quero ter minha própria força.
Lou-reen se aproximou e estendeu a mão para ajudá-lo a levantar.
— E vai ter. Mas vai precisar sangrar por ela.
Marco segurou sua mão e se ergueu com esforço.
— Então me prepare pra mais treinos.
— Muitos. — ela respondeu com um sorriso contido.
No canto da visão dele, Nova recomeçava seus cálculos.
“Iniciando plano de sobrevivência: versão 27.”

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.