Capítulo 78 — A Ida ao Extra-Mundo
Preocupação, senão desespero, estampou o semblante da Senhora Karin quando recebeu os jovens em casa. Kamito tentou acalmá-la, sem sucesso. Karin já fazia uma checagem cuidadosa. Akane precisou conter a mãe, as bochechas coradas.
Já passava das dez horas quando Kamito voltou para casa. Perto do portão de entrada, verificou o celular e se deparou com inúmeras ligações perdidas do mesmo número. Enquanto se dirigia até a varanda, retornou as ligações. A resposta foi rápida.
— Kamito?! É você?! Você está bem?! A Karin me ligou e contou o que aconteceu. — dizia uma mulher com a voz trêmula, segurando o choro. — Estão falando sobre esse atentado em todos os jornais. Diga que está bem, por favor. Por que não atendeu antes?! Onde você está? Está seguro?! Tem mais alguém com você?
Aquele tom de voz preocupado e receoso era familiar. Kamito sentiu o peito doer. Se lembrava de como essa mesma voz tremeu no dia que se separou daquela mulher.
— Eu estou bem, mãe. Já estou em casa. Não pude falar antes porque não vi as ligações e estava resolvendo um assunto importante. Obrigado por se preocupar. Só estou um pouco pensativo. — ele dizia com calma, se encostando numa pilastra, curiosamente a mesma que Raishi se escorou quando se encontraram pela primeira vez. — Sinto sua falta. Eu me sinto perdido e sem rumo. Parece que vou sumir a qualquer momento, sabe? Eu não sei se tenho um objetivo ou aspiração.
— Eu também, filho. Não tem um dia que não penso em voltar para te ver. Eu sou uma mãe horrível… Deveria ter ficado com você e deixado esse maldito trabalho. Nada nem ninguém importa mais nessa vida do que você, Kamito. Você é meu único tesouro. — ela olhava para um retrato com o filho, mais calma. O sorriso não impediu os olhos de se encherem de lágrimas. — Eu sei que você encontrará um caminho. Você sempre encontrou. Você é muito mais do que aparenta ser, Kamito. Não sumiria por tão pouco. Você é meu filho. É um homem forte e determinado que nunca desiste e sempre cumpre com o que promete. Tenho certeza de que você achará a solução.
— Você fala como se eu fosse um super-herói. — ele sorriu, envergonhado, e passou a observar a rua. — Eu só sou eu, mas você está certa numa coisa: eu sempre cumpro com a minha palavra. Obrigado, mãe. Você me salvou com suas palavras.
O sorriso despretensioso só mostrava como ele gostava de falar com a mãe e como encontrava conforto nas palavras dela. Mesmo querendo aproveitar a chance de falar com a mãe, Kamito suspirou — precisava avisar sobre sua viajem.
— Mãe, acho que não vamos conseguir nos falar nos próximos dias. Preciso resolver algo muito importante. Não só comigo mesmo, mas com outras pessoas. Eu vou ficar bem, entendeu? Você tem a minha palavra.
— Não sei o que você pretende fazer, mas eu confio em você. Não posso te impedir de ser o que você quer ser, Kamito. Você me lembra bastante o seu pai, sabia? Ele era cheio de mistérios. Você herdou isso dele. — ela riu brevemente; mesclava as memórias do marido com o triste fato do filho não o ter conhecido. Nunca falou sobre ele e Kamito nunca tive coragem de perguntar. — Pena que você não pôde conhecê-lo, mas saiba que ele te amava e fez o melhor por você. Você está se tornando um homem bom, como ele. Só espero que você não tenha herdado sua tolice. Você pode se parecer com ele em aparência, mas, em personalidade, tem que ser igual a mim!
Ambos riram em conjunto. Gostariam de passar mais tempo juntos. Gostariam de viverem como uma família outra vez, mas seus compromissos ainda os impediam.
A conversa se estendeu por mais algum tempo, num tom mais descontraído. Ao fim da ligação, Kamito olhava para o céu com um sorriso fraco. Não demorou para entrar em casa. Enquanto Lília preparava o almoço, ele foi ao quarto para descansar.
O tempo passou sem pressa. Parecia agraciá-los com um período de paz antes de mergulharem no caos. E, assim, chegou o grande dia da ida ao Extra-Mundo.
Lília e Kamito esperavam Akane se despedir da família — precisaram criar uma boa desculpa para justificar tantos dias fora. O ponto de encontro seria um local na floresta, onde Raishi daria mais alguns avisos antes de irem para o outro mundo.
Chegaram no local após duas horas; todos já estavam presentes. Raishi então se posicionou à frente de todos, chamando as atenções para si.
— Como estão todos aqui, podemos começar. Kamito, Akane, lembram que, durante o treinamento das Relíquias, eu lhes falei sobre os Reinos de Poder? Naquela ocasião eu falei de sete dos doze Reinos. Ainda não há necessidade de falar sobre os outros. Dessa vez, vamos focar no Oitavo Reino: A Transição de Mundos. — ele falava com seriedade. Yujiro, Ryruka e Camily o ouviam com atenção; também não sabiam fazer a dita transição, mesmo estando no Sexto Reino. — Para fazê-la, precisam concentrar uma fonte de energia constante em todo o corpo enquanto abrem um caminho pelo Véu Espiritual. Essa proteção de energia os impede de serem afetados no percurso. Agora, vocês devem estar se perguntando como que se abre um portal pelo Véu, correto? É simples. Como o nosso poder vem do Véu, basta forçar sua energia contra ele em um ponto específico, o forçando a abrir um caminho para você. A quantidade de energia que você forçar também definirá o tempo que ele se manterá aberto.
— Então é por isso que temos que manter uma proteção de energia constante durante a travessia. Somos um corpo estranho e o Véu está tentando nos eliminar da mesma forma que nosso corpo age quando ficamos doentes. Falando assim até parece ser fácil, mas na prática não é. — Ryruka cruzou os braços, encarando o irmão. Por um breve momento, fitou Kamito pelos cantos dos olhos. Ele seria capaz? — Suponho que você abrirá e manterá o portal, correto? Assim, nós só teremos que nos preocupar com a proteção de energia constante. Mas por que escolheu esse local?
— Acertou, Ryruka. Como estou aqui, vocês não precisam se preocupar com o portal. Aqui, o Véu Espiritual é mais vulnerável. Não chega a ser uma fenda igual aquela que fechamos ano passado na luta contra o Falcão, mas fazer a travessia aqui não será tão agressivo quanto forçar uma abertura nova. Comecem a treinar a proteção. Imaginem que ela seja uma Vestimenta Espiritual que cobre todo o seu corpo.
Após se pronunciar, ele se afastou para conversar com o Coruja. Estendeu a mão esquerda com muita energia concentrada. Aos poucos, uma fenda azulada se abriu.
— Parece que esse local é mesmo ideal para se abrir portais. Acho que descobrimos de onde que os batedores do império estão vindo.
Enquanto isso, os demais praticavam.
— Não deve ser tão complicado! Graças aos treinamentos da Lília, acho que consigo fazer isso. Eu só preciso manter minha energia correndo. — Kamito fechou os olhos.
Imaginava uma aura de energia cobrindo seu corpo. Suas Vestimentas Espirituais se ativaram logo depois, um pouco diferentes: a camisa, antes cinza, exibia alguns detalhes pretos; o cachecol ficou mais cumprido. Ele continuou se concentrando, até que conseguiu criar a proteção de energia.
— Consegui! Eu sabia que aqueles treinamentos seriam úteis!
— Esse é o meu aluno! Você fez bem, Kamito. Basta manter essa energia estável até chegarmos no Extra-Mundo. — pontuou Lília, orgulhosa. No entanto, a mudança nas Vestimentas Espirituais do rapaz não passaram despercebidas por ela e pelos outros. — Não se esforce muito. Deixe sua energia fluir naturalmente. Deve ser mais fácil a controlar assim do que durante uma luta, não?
— Se o Kamito conseguiu, eu também consigo! — Akane ativou suas Vestimentas.
Dessa vez, o sobretudo do namorado compunha o traje da garota. Manifestar a proteção de energia foi fácil para ela; um sorriso orgulhoso crescia em seus lábios.
— Eu consegui! Eu consegui! Kamito, você viu?! Eu fui muito bem, não é? Pode me elogiar! Eu sei que você quer me elogiar! Agora, eu estou quase no seu nível!
— Você foi muito bem, Akane. Conto com você. Eu me sentirei muito mais seguro com você me protegendo. — ele sorriu, envergonhado. Lília e Ruby os observavam, deixando-o ainda mais constrangido. Só restava disfarçar. — E também tenho o pingente que você me deu! Enquanto eu o tiver, sempre estarei protegido por você.
— Como o amor é lindo! Até mesmo num treinamento eles ficam animados! Parece que esses dois foram feitos um para o outro, assim como eu e meu querido Adfectus. Isso é tão nostálgico… Eu estou torcendo por você, Akane! — Ruby chacoalhava o indefeso Solum, animada. Logo depois, correu para abraçar o amado por trás. — Ei, Adfectus, vamos ter um encontro romântico quando chegarmos no Extra-Mundo. Temos tantas lembranças naquele lugar… Por favor. Você me deve!
— Nós estamos indo a uma guerra, não para um passeio romântico! Não seja tão egoísta, Ruby. Foque apenas na nossa missão ou falharemos antes mesmo de tentar. Não podemos nos dar ao luxo de realizar coisas estúpidas. — pontuou Ryruka, já com a proteção de energia e suas novas Vestimentas Espirituais: uma calça preta, um par de botas marrons, uma camisa de manga longa branca e um colete vermelho.
Após ouvir esse comentário, Yujiro, usando um kimono azul escuro com detalhes em verde escuro, se aproximou e a tocou no ombro.
— Não seja tão rigorosa, Ryruka. Não é porque estamos indo lutar contra o império que não podemos rever as belezas daquele mundo. — ele sorriu; ela se afastou.
Ele sabia que amiga agia assim porque iria, enfim, rever o mundo que chamava de lar. Ryruka não pensava em diversão, apenas em salvar seu mundo.
— Eu te levo onde você quiser ir. Também quero conhecer melhor o nosso mundo. Podemos fazer isso juntos. O que me diz?
— Resolvam isso quando chegarem lá. Venham, o portal está pronto. — disse Raishi. — Formem uma fila, não quero bagunça. Eu vou primeiro. Ruby, você vem comigo. Lília será a terceira, depois Solum e Camily. Kamito e Akane logo atrás, depois você, Ryruka. Yujiro e Coruja serão os últimos. Sejam fortes, e todos voltaremos para casa.
Todos se reuniram perto do portal, entrando um de cada vez. O Extra-Mundo e seus perigos estavam logo ali, do outro lado daquele portal.

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