Capítulo 097 — Último dia.
— Calendário… o que é isso?
Marco ficou olhando os dois por um instante, o dedo ainda em cima da curva mais baixa. O tique do pêndulo preenchia o espaço entre as palavras.
Ele apontou com o queixo para o relógio.
— Isso aí separa o dia em partes. Antes, vocês falavam “quando o sol tá alto”, “quando escurecer”, “quando der”. Agora vocês falam uma hora. E a mesma hora serve pra todo mundo.
O soldado olhou o pêndulo como se ainda fosse um animal que podia morder.
— Serve.
Kalamera não tirou as mãos da bancada.
— E o calendário faz isso com…?
Marco assentiu.
— Com o ano e com as estações. Ele dá nome e número pra um ciclo que já existe.
O soldado franziu a testa.
— Mas a gente já vive isso. Frio vem, passa, plantam, colhem, voltam os ventos, volta o frio. Sempre foi assim.
Marco virou o caderno um pouco, só o suficiente pra encaixar o desenho no campo de visão deles.
— Vocês vivem. Só que vivem atrasados.
— Atrasados?
— Vocês reconhecem a mudança depois que ela chega. — o dedo dele bateu numa marca no meio da curva. — A neve cai e vocês chamam de “inverno”. O sol fica alto por mais tempo e vocês chamam de “verão”. O vento vira e vocês chamam de “época”. Sempre depois.
Kalamera soltou um som baixo, quase um acordo.
O soldado cruzou os braços.
— E como isso ajuda? O frio vem do mesmo jeito. Eu posso prever o golpe, mas ainda assim vou ter que aguentar ele.
Marco apoiou o caderno na bancada, firme.
— Ajuda porque você para de ser surpreendido pelo mesmo golpe todo ano.
“Você tá tentando explicar estratégia pra quem foi treinado pra obedecer.” A Nova entrou, seca. “Boa sorte.”
Marco ignorou.
— Olha pra você. — Apontou a tábua de medidas do soldado. — Por que você marca número todo dia?
O soldado olhou pra tábua, sem drama.
— Porque me mandaram. O coronel falou pra eu ficar aqui e anotar o que você pedisse. Eu anoto.
Marco assentiu, uma vez.
— Pra comparar. Pra prever. — Marco tocou na coluna de marcas. — Se a medida caiu, você sabe que algo cedeu. Se subiu, você sabe que algo esticou. Você não espera quebrar.
O soldado ficou quieto, a resistência dele mudando de lugar. Ele olhou de novo pro caderno, como se tentasse achar onde a ferramenta mordia.
— Tá. Mas como você divide esse ciclo? Como você sabe onde começa e termina?
Marco apontou pra cima, sem teatralidade.
— A lua. Ela muda num ritmo que qualquer pessoa consegue ver. Ela fecha um ciclo. Se você usa isso como marca, você cria blocos. Ciclos. Você começa a dizer “na segunda lua depois do solstício”, e a frase vira concreta.
Kalamera soltou o ar pela ponta do nariz.
— Você tá transformando céu em tabela.
— Eu tô transformando céu em referência. — Marco virou outra página e mostrou as colunas. — Eu marco amanhecer, marco altura, marco intervalo. Não é magia. É repetição.
O soldado tocou o próprio queixo.
— E se o céu fecha por dias? Se a neve cobre tudo? Como você marca?
Marco apontou para o soldado, direto.
— Com disciplina. Você perde uma noite, você não perde o padrão. Você marca quando dá, e ajusta com média. A curva não some.
Kalamera mexeu os dedos, como se já estivesse pensando na rotina.
— E você quer esperar um ciclo inteiro.
Marco assentiu.
— Um ano inteiro. Eu não vou chegar no Imperador com “talvez”. Eu vou chegar com “aqui está”.
Ele tocou a marca mais baixa.
— Se o padrão se repetir, daqui a cinquenta ou sessenta amanheceres isso começa a subir.
O soldado encarou a marca como se encarasse um inimigo pequeno demais pra ser visto.
— Você tá dizendo que dá pra saber quando o frio vai recuar.
— Dá pra estimar. — Marco não entregou certeza falsa. — E estimativa já vale mais do que não saber.
***
O sino do Colégio Militar de Velunthar ecoou pela praça central, marcando o fim da última aula. O frio já tinha tomado conta. O chão estava úmido e gelado, a respiração virava fumaça.
As portas pesadas abriram e a turma saiu em ondas, sem a linha perfeita do treino. Ainda tinha rigidez nos ombros, mas o passo já era de gente indo embora.
Halikah Facyne veio no meio, uniforme azul-escuro sem uma dobra fora do lugar. A boina estava firme, a mochila alta, a postura de quem já tinha virado referência e sabia disso.
— Último dia.
Halikah puxou a alça da mochila e olhou pro portão.
— Sobrevivemos. Sem medalha por isso, infelizmente.
Elssien abriu os braços, o tecido do casaco estalando no movimento.
— Último dia daqui. Agora é só esperar chamarem nosso nome.
Reinna deu um toque com o cotovelo no braço da Halikah. Ela tinha o olho direito verde e o esquerdo castanho-escuro.
— Eles vão chamar você primeiro. — o queixo dela apontou pras fitas e medalhas no peito de Halikah. — Melhor da turma três invernos seguidos. Não finge que não sabe.
Halikah virou o rosto, uma sombra de riso no canto da boca, mais por reflexo do que por vaidade.
— Eu só fiz o que mandaram.
Elssien soltou um som seco.
— Mentira. Você fez mais. Você fez parecer fácil.
Reinna puxou a gola do casaco, tentando esconder o arrepio.
Elssien puxou a boina e soltou o cabelo no vento gelado, como se desobedecer a um detalhe fosse a única vitória do dia.
— Tá. Mas pelo menos a gente vai sair daqui. — Ela olhou para as duas, animando de novo. — E trocar instrutor velho por tenente novo. Eu aceito.
Reinna balançou a cabeça.
— Novo, mas gritando igual.
Halikah deu de ombros.
— Grito eu já conheço. Eu quero é treino que presta.
Reinna deu uma risada curta demais pra virar graça, mas suficiente pra quebrar o peso. Elssien apontou pra rua que descia pro lado de fora do perímetro, onde as casas ficavam mais baixas.
— Hoje é nosso último dia aqui. A gente tem que fazer alguma coisa que não envolva marcha.
Reinna levantou uma sobrancelha.
— Você tá sugerindo o quê?
Elssien deu um passo pra trás e abriu um sorriso grande, teimoso.
— Mar.
Halikah travou um segundo, como se confirmasse que era possível.
— Tá frio.
— Melhor. — Reinna ajeitou o casaco e inclinou o rosto. — Se a gente encostar o pé na água e sobreviver, a Academia não assusta.
Elssien bateu palmas uma vez.
— Então fechou. Amanhã de manhã.
Halikah apontou com o queixo, concordando.
— Sem faltar.
Reinna respondeu no mesmo nível.
— Sem faltar.
Elssien já estava andando de lado, como se liderasse uma tropa invisível.
— Eu quero ver a cara de vocês quando o vento bater de frente. Vocês vão implorar pra voltar pro dormitório.
Reinna empurrou ela com o ombro.
— Eu imploro é pra você calar a boca.
Enquanto isso, do outro lado da rua, uma sombra ficou parada na transversal, protegida por barris velhos e madeira empilhada.
Uma garota magra, cabelo longo prateado como névoa sob lua, observava sem mudar o peso do corpo. O frio não parecia tocar nela. O olhar brilhava com uma luz vazia.
As risadas diminuíram e viraram som distante quando as meninas dobraram a esquina e sumiram. A figura prateada recuou um passo para trás, engolida pela sombra entre os barris.

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