Índice de Capítulo

    Lou-reen entrou na torre do CEAET e já foi falando:

    — Amanhã cedo a gente viaja.

    Marco parou o que tava fazendo.

    — Pra onde?

    — Velunthar.

    Marco ficou um segundo a mais parado, tentando lembrar se já tinha ouvido aquele nome em alguma rota de trem, em alguma conversa no pátio, em algum relatório do Exército. Não vinha nada.

    O HUD da Nova abriu no canto da visão dele. Contorno de Taeris, linhas de serra, uma faixa de mar. Um ponto piscou, perto da costa. Nova desenhou uma linha fina saindo da capital e terminando nele.

    “Velunthar. Noroeste. Próximo ao mar.”

    Marco piscou uma vez, só pra tirar o brilho da projeção.

    Ele ficou com a mão no encaixe do telescópio.

    — Velunthar…? Por quê?

    — Houve alguns desaparecimentos.

    Marco franziu a testa.

    — Quantos?

    — Quatro.

    — Quem?

    — Não importa agora. Amanhã cedo a gente sai. Você vai ver com os próprios olhos.

    Marco ficou com a mão na trava do telescópio.

    — Tá. Como a gente vai?

    — Vamos de trem até Yhe-for. Depois vamos seguir com as carruagens.

    O HUD piscou com uma estimativa de tempo, alinhada com a rota do trem. “Saída ao amanhecer. Chegada em Yhe-for no fim do dia.”

    Marco já estava fazendo as contas.

    — Então dá pra eu passar no CEAET de lá e ver a Maera…

    Lou-reen fechou a cara.

    — Sem tempo.

    — Nem…

    — Sem tempo. Desce do trem e vai direto.

    — Mas é do lado. Eu só—

    Kalamera pousou a chave na bancada sem barulho. A luva dela ficou em cima do metal um instante a mais. Olhou pro Marco e esperou ele desistir sozinho.

    Marco insistiu pelo caminho técnico.

    — Eu posso pegar dado lá. Ver o que eles têm anotado.

    — Você não vai negociar parada no meio da missão.

    Lou-reen olhou a bancada por alto.

    — Leva o básico. Nada pesado.

    O olhar do Marco foi pro telescópio maior no canto. Ficou lá por um segundo.

    — O telescópio leve então?

    — O que couber sem atrasar. A gente não vai ficar tempo o bastante pra você montar nada lá.

    — E o inverno… eu devo me preocupar com a viagem?

    Lou-reen não desviou.

    — Se preocupa em estar pronto. O resto é comigo.

    Lou-reen ajustou a luva no pulso e conferiu o cinto num movimento único. Não tinha mais conversa. Ela já se virava pra porta.

    — Eu vou me preparar também.

    O manto abriu um palmo no movimento e o colar apareceu. Um coração azul escuro, simples, preso por uma corrente.

    Marco parou.

    — Você… tá usando.

    Lou-reen travou no meio do passo. Entre as mechas ruivas, a ponta da orelha pegou cor por um instante. A mão dela subiu de novo no manto, fechando o tecido com mais cuidado do que precisava.

    — Não me atrapalha.

    Marco abriu a boca. Fechou. Olhou o coração azul por um segundo.

    — Ficou bonita com ele.

    Kalamera voltou pra ferramenta como se não tivesse ouvido. A mão dela reposicionou o pano, alinhou as chaves, fechou a caixa.

    O rubor espalhou pelo rosto de Lou-reen, alcançando as bochechas. Ela virou o rosto meio palmo e manteve o tom neutro.

    — Vamos sair ao amanhecer.

    Marco assentiu.

    — Então eu vou aproveitar a tarde pra treinar pela última vez antes de partir.

    Lou-reen parou de novo, sem paciência pra coincidência.

    — Treinar o quê?

    Marco mexeu na alça da mochila, olhando pro canto da torre.

    — Coisa minha. Não vai atrapalhar a missão.

    Lou-reen estreitou os olhos.

    — Você anda treinando sozinho faz tempo. O que é?

    Marco levantou o olhar.

    — Eu vou mostrar em breve.

    Lou-reen sustentou o silêncio por um segundo, medindo.

    ***

    O tenente deixou o corredor do Imperador e desceu a escada central. Soldados e servidores cruzaram com ele no corredor, abrindo espaço sem falar. Dois guardas bateram a mão no peito em continência. Ele passou direto. A porta da sala já estava no fim do salão, como se fosse só mais uma sala de serviço.

    Era o mesmo tenente que tinha segurado a folha de madeira pra Lou-reen mais cedo. Ele entrou e parou diante as duas figuras escondidas na sombra. O olhar ficou baixo. A mão foi ao peito, fez uma continência contida, sem pose.

    — A General Lou-reen foi designada para uma missão. Vai até Velunthar investigar os desaparecimentos. — Ele engoliu seco antes de continuar. — O Imperador… tá preocupado com ela. Com a ideia dela se sentir incapaz depois das Olimpíadas. Ele falou disso com ela antes de mandar partir.

    A figura sentada soltou um som de riso que não chegou a virar alegria.

    — Então ela começou a chamar atenção… hm. Bom trabalho. Continue me informando tudo que for decidido na sala do Imperador.

    O tenente não respondeu. Só tornou a tocar o peito e recuou, sem virar as costas até alcançar a porta. Saiu.

    A figura em pé inclinou a cabeça.

    A voz da figura sentada veio baixa.

    — E Velunthar? Qual o último relatório?

    A figura em pé enfiou a mão no bolso interno, puxou uma folha dobrada e abriu, segurando pelo canto pra não amassar. Os olhos correram pelas linhas uma vez antes da voz sair.

    — A cobaia três se mostrou mais proeminente que a dois. Respondeu mais rápido, mostrou mais força. Não precisou ser contida. Ela tá confiante que a quatro vai ser melhor.

    — Excelente. Ela foi uma boa aquisição à causa.

    — Quer que eu vá dar suporte?

    — Não será necessário.

    A figura em pé esperou.

    — Eu quero ver o que vai acontecer.

    A figura em pé assentiu, mínimo.

    A figura sentada virou o rosto na direção dela.

    —  Diz pra ela preparar o primeiro teste da arma. Coloque no caminho da General. O Imperador tá preocupado com o estado dela. Bom. Vamos medir esse estado em campo.

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