Capítulo 100 — Dá pra usar isso pra voltar pra casa?
O vento cortava o topo do CEAET.
Marco ficou sozinho no terraço, antes de escurecer de vez, com Lauris ainda alto o suficiente pra riscar uma faixa clara por trás das nuvens finas. Kalamera estava no quarto, desmontando e reorganizando as próteses pra viagem.
Ele manteve o olhar no chão do terraço.
Ele escolheu dois pontos fixos. Um perto do parapeito, onde a pedra tinha uma lasca mais clara. Outro do outro lado, junto à base de uma coluna, onde a superfície tinha uma trinca fina, escura.
A Nova falou na mente dele, em modo de teste.
“Teste de deslocamento. Alvo fixo registrado. Prontidão?”
— Eu vou sozinho. — Ele hesitou. — Isso seria bem mais fácil com a TARDIS. Gerônimo.
Marco flexionou os dedos dentro da luva e puxou essência pra si. O corpo respondeu com aquele peso interno que ele já reconhecia. Ele prendeu a atenção no ponto da coluna, sem deixar a imagem escorregar.
O ar estalou e o espaço onde ele estava ficou vazio.
No mesmo instante, outro estalo respondeu do outro lado do terraço. Marco apareceu junto à base da coluna, bota em cima da trinca, corpo inteiro já no lugar.
A bota bateu na pedra e deslizou. O tornozelo virou. Marco puxou o peso de volta pro centro e travou antes de cair, mão abrindo no ar pra achar equilíbrio sem encostar em nada.
O estômago revirou um segundo depois. Ele ficou parado, sem piscar, mirando a trinca sob a sola até a tontura perder força.
A Nova falou na mente dele, seca.
“Erro de posicionamento: cinco centímetros. Vetor lateral. Corrija ancoragem.”
Marco virou o rosto, medindo o espaço que tinha atravessado sem atravessar. Entre os dois pontos não tinha nada. Nenhuma trilha, nenhum meio. Só o antes e o depois. Ele ficou olhando aquilo um instante a mais, segurando a vontade de rir de nervoso. Ainda parecia impossível. E, mesmo assim, tinha acabado de acontecer.
Ele voltou andando até a lasca clara perto do parapeito, medindo o ritmo da própria respiração.
Puxou essência pra si, prendeu o alvo na cabeça e sumiu do lugar.
O ar estalou do outro lado. Marco apareceu junto à coluna, bota cravada quase em cima da trinca. O deslize foi mínimo.
“Erro de posicionamento: dois centímetros. Melhor.”
No quinto salto, o terraço escureceu por um instante no olhar dele.
Ele reapareceu meio passo fora e o ombro encostou no parapeito. Marco travou a postura e puxou o corpo de volta pro centro antes de escorregar.
“Consumo acima do padrão. Sua reserva caiu. Mantém mais dois saltos, no máximo.”
Marco soltou o parapeito e voltou pro centro do terraço, olhando pros dois pontos como se eles tivessem se afastado. Ele puxou essência do ambiente e veio quase nada.
Ele parou.
Ficou olhando o vazio entre os dois pontos.
E deixou a pergunta sair, direta.
— Dá pra usar isso pra voltar pra casa?
O silêncio da Nova durou um segundo a mais que o usual.
“Dá. Eu já rodei simulações. A possibilidade existe.”
Marco sentiu a frase abrir uma porta e, ao mesmo tempo, jogar ele no escuro atrás dela. A raiva subiu antes de qualquer coisa boa.
— Por que você não me disse isso antes?
“Porque você não tinha como executar.”
— Eu tô executando agora.
“Você está saltando aqui.”
Marco apertou a mão.
— Então fala o que falta.
Nova respondeu do jeito dela: seco e técnico.
“Ponto fixo exato.”
O HUD acendeu e marcou a lasca clara no chão com um círculo. Depois marcou a trinca na base da coluna. Depois projetou círculos errados em lugares piores: parapeito, parede, céu aberto, beirada da torre.
“Sem ponto fixo, seu erro vira destino. Você aparece onde a matemática deixar.”
Marco sentiu a nuca esfriar.
— Eu sei mirar.
“Você mira dentro do espaço que você vê. Você reconhece o entorno. Se errar aqui, você ainda cai em algum lugar perto. Agora saltar pra um planeta é tentar acertar um ponto num mapa que você não enxerga. Um erro de cálculo e você para do outro lado do sistema solar, se tiver sorte.”
Ele travou o maxilar.
— Na outra vez funcionou.
Nova não discutiu o fato. Ela explicou o motivo.
“Na órbita, funcionou porque era um salto curto e porque havia referência clara. Um lugar específico que você conhece e que eu consigo localizar com segurança. Poucas variáveis.”
A palavra “órbita” passou pelo corpo dele como lembrança ruim. Vazio, silêncio, o planeta embaixo, pequeno demais. Ele segurou a imagem longe e ficou no terraço.
— E pra Terra?
Nova cortou antes que ele tentasse transformar desejo em plano.
“Pra Terra, não é ‘um lugar’. É acertar um alvo a sessenta e quatro bilhões de anos-luz. Eu preciso de localização astronômica confiável. No mínimo: galáxia certa. Via Láctea. Idealmente mais do que isso.”
Marco ficou imóvel. Olhou pro céu escurecendo.
— Não podemos usar as constelações invertidas como referência?
Nova não demorou.
“Isso te dá um padrão, não um endereço. Você vê o desenho. Você não sabe a distância real de Asteris até as estrelas que formam esse desenho. Sem paralaxe medida, sem escala, sem coordenada absoluta, eu não tenho como fixar posição. Eu preciso de certeza.”
Marco sentiu o gosto ruim disso. Ele entendia. Doía porque era verdade.
“E, além da localização, você precisa de energia em quantidade absurda.”
Marco soltou o ar devagar. Aceitou o peso da frase.
— Quanta energia?
Nova demorou.
O HUD apagou por um instante, como se ela estivesse escolhendo a forma de não destruir ele com uma frase. Quando voltou, a voz veio com cuidado raro.
“Escala estelar.”
Marco esperou, sem piscar.
— Traduz.
“Qualquer estrela serve. Eu estou te dando a menor referência: a energia de um minuto de uma anã vermelha.”
Ele travou.
— Um minuto.
“Um minuto. Cenário otimista.”
— E Lauris?
“Lauris é G2V. Um minuto de Lauris passa disso. O problema não é existir energia. É capturar.”
Marco a esperou continuar, mas Nova ficou em silêncio tempo demais.
— Só isso?
“…”
— Nova.
“Existe outro jeito de chegar nessa escala.”
— Qual?
Ela fez outra pausa.
— Qual, Nova?
“Em termos de essência humana, o equivalente a um milhão e meio de pessoas.”
Marco ficou parado.
— Então eu preciso de um milhão e meio de pessoas me entregando Essência Primordial?
A ideia veio automática, pragmática. O Império tinha gente. Tinha cadeia de comando. Lou-reen conseguia mover um exército com uma frase.
— Isso… isso não é impossível. Se eu explicar… se eu pedir…
A Nova cortou antes da frase fechar.
“Não é assim.”
Marco virou o rosto.
— Como não?
“Não é só essência entregue por vontade. Não é só alguém puxar e passar pra você.”
Ela fez uma pausa, escolhendo o termo certo, sem suavizar.
“É além da reserva: é energia vital. É o que mantém cada corpo funcionando. Pra chegar nessa escala, você não coleta ‘um pouco’ de muita gente. Você esvazia todas elas.”
Marco sentiu a garganta travar.
— Esvazia…
“Literalmente. Toda a energia viva.”
Marco reconheceu o toque pelo nojo que veio junto.
— Foi assim que Clyve reuniu essência da última vez.
“Foi.” A Nova confirmou. “Ele acumulou essência humana nessa escala.”
A memória apareceu na cabeça dele, toda uma cidade apagada em uma tarde. A garganta dele fechou.
— Então foi por isso que ele destruiu Aethra.
“Foi.”
Ele tentou fechar a conta do jeito errado, por instinto, pra poder odiar com direção.
— Então ele matou pra abrir caminho. Pra rasgar o mundo e…
“Não.”
Nova cortou, mais dura. Marco levantou o queixo, insistindo.
“Ele não matou pra teletransportar.”
O ar ficou mais frio.
“Ele queria destruir o continente. Esse era o objetivo. Ele ia liberar uma quantidade absurda de energia de uma vez.”
O HUD projetou linhas subindo, como uma curva que não respeitava limite.
“Quando você tenta soltar Essência Primordial nesse volume, o tecido espaço-tempo cede. Ele rasga.”
Marco sentiu o estômago revirar.
“Buraco de minhoca é vazamento desse rasgo. Um atalho que nasce do excesso.”
Ele lembrou do ponto negro no vazio, crescendo sem aviso. Lembrou do puxão. Dos sensores dizendo “nada”. Do controle de missão pedindo explicação enquanto a gravidade aumentava.
Ele tentou reagir. O cabo de segurança rompeu, os propulsores não seguraram, e o corpo dele foi sugado pra dentro da distorção.
Nova prendeu a explicação no tempo certo.
“A Runa da Destruição já escalava o céu. Estava prestes a completar. Naquele instante, a esfera negra apareceu. Você caiu.”
Ela deixou a última frase cair, sem suavizar.
“Seu ‘portal’ foi acidente do apocalipse dele.”
Marco ficou parado.
A conclusão encaixou sem piedade: pra juntar energia nesse nível no chão, ele teria que repetir Aethra em escala. Não tinha versão limpa disso.
O Cetro vibrou na bolsa tiracolo. O puxão veio na mente. Uma sede de sangue empurrou por baixo da pele, oferecendo um caminho curto, simples, eficiente.
Marco firmou os pés no terraço.
— Nunca.
A luz mudou.
Uma faixa de nuvem abriu e Lauris apareceu com força suficiente pra ferir o olho se ele encarasse direto. O terraço ficou claro por um instante, e a pedra pareceu menos fria.
Marco manteve o olhar alto.
“Uma estrela pequena.”
Marco olhou pra Lauris. Uma estrela resolvia o problema.
— Então eu preciso voltar ao espaço.

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