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    A noite havia finalmente chegado e, com ela, veio também o fim do jejum do dia da humildade — para a alegria dos convidados.

    O casamento de Siegfried e Eva Blackfield se encerrou com um grande banquete.

    A entrada começou com pães assados com manteiga, mas o prato principal foi o assado de javali — cozido lentamente com cebolas, cenouras, alho e ervas locais. Purê de nabo temperado com ervas. Beterrabas assadas com gordura. Além de amêndoas, nozes e uvas-passas para a sobremesa; para não mencionar a cerveja que fluía como um rio que nunca secava.

    Dentre os dezessete na festa, apenas cinco eram homens: Siegfried, Melias Kroft, Benn Kroft e os dois plebeus que Blossom trouxe. Talvez fosse de se esperar que o número de bêbados acabasse sendo menor com tantas mulheres, mas a realidade não poderia ter sido mais diferente…

    Mesmo as crianças mais novas enfrentavam um ou dois goles de cerveja antes de vomitar tudo no chão, embora houvesse bem poucas delas — apenas três das nove mulheres que Blossom trouxe tinham menos de dez anos. As demais eram, em sua maioria, jovens adultas que variavam entre dezoito e trinta anos, com apenas uma tendo quinze e outra com quarenta.

    Todas estavam bêbadas e a maioria comia feito um bando de glutonas.

    De algum modo, o fato de estarem em maior número parecia tê-las deixado desinibidas e irresponsáveis… Ou talvez Siegfried apenas estivesse acostumado demais com mulheres nobres e recatadas.

    “Talvez todas as plebeias sejam assim.”

    De fato, Eva Blackfield era a única que não havia sequer tocado na bebida. Bem… Ela e Blossom, mas a Blossom não conta.

    Sua pequena esposa passou o jantar inteiro sentada à sua direita na mesa. Comportada. Silenciosa. Se chegou a dar duas mordidas na comida, foi muito.

    — Sem apetite?

    Eva tomou um susto ao perceber que o rapaz se dirigia a ela, mas foi rápida em esconder o espanto e responder:

    — N-não, milorde.

    — Não precisa me chamar de ‘milorde’.

    — Sim, milor… S-sim, senhor.

    — Siegfried.

    — …

    — Você tem medo de mim.

    — E-eu…

    — Não foi uma pergunta.

    — S-sim, senhor. Sinto muito.

    — Sabe por que nos casamos?

    — …

    — Isso sim foi uma pergunta.

    — Ah! S-sim, senhor. E-eu… Hum. A-a senhora Andrella me disse que o senhor seria um bom marido.

    — Não foi isso que eu perguntei.

    — Sinto muito.

    Nesta altura, Eva parecia prestes a chorar. Ainda assim, manteve a cabeça baixa e controlou as lágrimas como se sua vida dependesse disso. Medo. Não. Terror.

    Siegfried prosseguiu:

    — Nos casamos porque você é a única filha do seu pai. Eu e seu avô fizemos um acordo. O Castelo dos Ossos é meu. Mas para que eu possa mantê-lo, preciso de você. Preciso de uma esposa com sangue Kroft. Por mais nova que ela seja. Você entende isso?

    — Sim, senhor.

    — Bom. Então o que você acha que eu vou fazer com você?

    — E-eu… Eu não sei… Milorde.

    — A resposta é ‘nada’.

    — P-perdão?

    — Não pretendo fazer nada com você. Me foi assegurado que a cerimônia de hoje era tudo o que eu precisava para fazer de você minha esposa. E eu fiz. Ponto final. Somos casados e minha autoridade sobre o castelo está assegurada. Isso é tudo que eu queria. Não precisa ficar tão assustada. Não planejo exigir mais nada de você. É minha esposa, mas não espero que faça mais do que isso. Irá me acompanhar quando necessário e se sentará ao meu lado, sim. Pelo bem da minha aparência. Mas isso é tudo.

    Por um breve momento, os olhos de Eva se iluminaram e brilharam como ouro derretido. Esperança. Até mesmo chegou perto de um sorriso, mas logo vestiu a sua máscara de menina comportada e voltou a ficar em silêncio.

    A conversa, no entanto, parece ter reacendido o apetite de sua pequena esposa, que logo terminou o seu pedaço de javali assado e passou para as sobremesas.

    O banquete terminou como todo banquete sempre termina: com os convidados caindo de bêbados no chão e dormindo ali mesmo. Apenas alguns poucos permaneciam de pé.

    Benn Kroft, de quatro anos, dormia no colo de Blossom, enquanto Andrella discutia com Melias Kroft em outro canto mais distante do salão de jantar. Uma ou outra garota ainda estava acordada o bastante para vomitar no próprio cabelo e isso era tudo.

    Eva Blackfield, tal como o irmão mais novo, também caiu no sono. Estava deitada com a cabeça no colo de Siegfried, quando o rapaz decidiu pegá-la no colo e finalmente dar a noite por encerrada.

    Chamou por Blossom e os dois levaram as crianças de volta ao prédio principal.

    Havia apenas uma preocupação…

    Esmond Kroft fora confinado ao seu próprio quarto, mas este ficava não muito longe dos aposentos de Eva, por isso Blossom foi ordenada a vigiar a garota.

    — Não acho que o irmão dela seja idiota de tentar raptá-la novamente, mas prefiro não arriscar.

    E, simples assim, o dia de Sir Siegfried, lorde do Castelo dos Ossos, chegou ao fim…

    Ou assim pensou.

    O quarto de Mimosa ficava naquele mesmo andar e o rapaz não resistiu a lhe fazer uma rápida visita. Mas ela não estava lá. De fato, o quarto continuava exatamente como ele o deixou naquela tarde.

    “Ela ainda não voltou.”

    Um pensamento sombrio lhe cruzou a mente por um instante: Mimosa sozinha lá fora, no meio da neve. Teria ela tentado escapar? Se fosse este o caso, poderia ter desmaiado no meio do pântano. Ou pior: talvez tivesse sido encontrada pelo ogro.

    Então pensou em algo ainda mais perigoso e foi até as masmorras.

    Desde a fuga, não havia mais monstros nas masmorras. Todos foram mortos ou fugiram. Havia apenas dois prisioneiros nas celas. E, como era de se esperar, encontrou Mimosa em frente a um deles.

    Em frente à cela de Eroth.

    — Mimosa — chamou Siegfried.

    A garota não respondeu.

    Estava parada em frente às grades. De pé na sua cauda. Quieta como um cadáver. Os lábios fechados. Nada. Apenas silêncio.

    Siegfried se aproximou, tocou ela no ombro e só então Mimosa pareceu notá-lo. Tomou um susto, olhou ao redor e então se acalmou.

    — S-Sieg? O-o que você…? Eu tava…

    — Você não devia estar aqui.

    — …

    — Vamos. Eu vou…

    Mas quando tentou tocá-la novamente, a garota recuou e perguntou:

    — Por que você tá aqui?

    — Eu vim te procurar.

    — Por quê?

    — …

    — O que você quer de mim?

    — Eu só tava preocupado.

    — …

    — O que houve?

    — Nada.

    — …

    — Não vai dizer alguma coisa?

    — O que você quer que eu diga?

    — Nada!

    Silêncio. Silêncio longo e constrangedor. Até que Mimosa finalmente perguntou:

    — Você lembra do que eu te disse? Quando a gente se conheceu. O motivo de eu querer viajar com você.

    — Você disse que queria transformar minhas aventuras em canções.

    — Tragédias românticas — ela corrigiu. Sua voz triste. — Só não pensei que eu acabaria escrevendo uma sobre mim mesma.

    E então o olhou direto nos olhos. As lágrimas escorrendo. Mas havia algo mais. Algo mais profundo do que tristeza. Raiva. Até que ela finalmente disse:

    — Eu queria nunca ter te conhecido!

    Mas antes que Siegfried pudesse dizer algo, Mimosa fugiu em direção às escadas como uma sombra e desapareceu.

    “Que rapaz mais cruel”, disse Eroth. “Você não devia brincar com o coração de uma garota desta forma, sabia? A fúria de uma mulher desprezada pode ser terrível.”

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