Capítulo 80 — Reunião
No palácio imperial, o imperador se reunia com seus dezesseis capitães na sala de discussões. Precisavam de providências contra as células rebeldes restantes e contra suas duas maiores ameaças: a Emota, que iniciou o conflito; e a Ordem dos Cavaleiros Brancos, a principal ameaça.
— Daremos início à reunião, meus capitães. Como sabem, estamos lidando com uma praga que a cada dia corrompe e destrói o Extra-Mundo. Esses rebeldes não sabem que somos a cura, a salvação. Eles insistem em viver como animais irracionais, assim como era na Era dos Deuses. — dizia o imperador, pouco antes de jogar documentos sobre a mesa. Os capitães logo pegaram os papéis. — Eu, o Grande Imperador, Impero Maximus, não deixarei essa praga acabar com meu mundo e meu império! Eu os livrei da miséria, dei trabalho e comida, e eles retribuem mordendo a mão de quem os alimenta?! De agora em diante, toda a distribuição de comida e água está proibida para as cidades que se negarem a entregar o paradeiro dos rebeldes.
— É uma boa iniciativa. Posso propor na próxima reunião do senado que medidas mais rigorosas sejam adotadas. — disse Baltar.
— Posso me reunir com os líderes das famílias nobres, talvez eles possam influenciar as grandes massas a nos ajudarem. — falou Sora, com um olhar calmo. — Querendo ou não, eles possuem mais influência que os nossos políticos que nunca fazem nada.
— Isso não é o bastante! Precisamos intensificar nossos ataques aos rebeldes. Capturar seus líderes deveria ser nossa prioridade. Os toleramos tempo suficiente. — Pontuou Lux, com um leve sorriso no rosto enquanto olhava para os outros.
— Estava na hora de tomar uma atitude quanto a isso, meu Imperador. Permita-me relatar os acontecimentos da minha missão de reconhecimento no outro mundo. — disse Haythan, fazendo uma breve reverência. — Eu ataquei o portador das Chamas Negras. O garoto parecia mais perdido e desesperado do que determinado. Como prova disso, eu destruí o local onde estávamos e ele não foi capaz de fazer nada.
Os outros capitães o ouviam com atenção, exceto Cascavel, que o encarava com fúria. Haythan deu um sorriso largo ao perceber a reação do outro capitão.
— Parece que você se enganou a respeito dele, Cascavel. Ele fez isso com você por pura sorte, não acha? Ele não é forte, foi incapaz de acompanhar meus movimentos.
— Ainda dúvida de mim, Haythan? Acha que fiquei assim por conta de um golpe de sorte de um moleque? Aquele garoto tinha alguns meses de treinamento e quase me matou com um só golpe. Você o pegou indefeso e desprevenido. Kamito não é o que aparenta ser. Eu posso sentir seu instinto de luta e sua vontade assassina. Ele foi feito para lutar. — Cascavel afirmou com seriedade.
Sua nova aparência era mais intimidadora, mas não funcionava com Haythan. Do outro lado, Andrus exibia um sorriso maldoso e um olhar sádico.
— Você entende, não é mesmo, Andrus? — Cascavel se voltou para ele. — O Manifestador das Chamas Negras não é alguém comum. Ele é um prodígio da luta! Em quatro meses ele foi capaz de rivalizar com a Ordem dos Cavaleiros Brancos e quase me matou. Acha mesmo que isso é pura sorte?!
— “Um prodígio da luta”? A forma como você fala desse jovem e o interesse do nosso Imperador por ele me faz querer tê-lo como oponente para minha última luta. — comentou Kairus, pensativo. Talvez tivesse encontrado alguém digno de herdar seu conhecimento? — Meu Imperador! Por favor, deixe-me encarregado do treinamento desse homem. Eu o farei atingir seu potencial máximo!
— Ora, ora. Parece que o velho quer roubar a presa dos outros. Não fique no meu caminho nem no caminho do Kamito. O destino nos reuniu. Posso sentir minha Manifestação gritar para enfrentar as Chamas Negras da Calamidade. Sei o quanto você quer lutar, Velho, mas ele é meu. — Andrus o fitava com os olhos arregalados, forçando o dedo anelar contra a mão até o quebrar.
A maioria dos capitães se levantou para repreendê-lo. Apenas Navaro, Cascavel e o Imperador permaneceram sentados.
— Por que vocês estão com essas caras? É só uma brincadeira boba, vamos. Não é como se eu fosse matá-lo. Até porque, se eu quisesse, vocês não seriam capazes de me parar. Seria uma bela exposição de sangue e corpos. — ele provocou.
— Dobre sua língua, Andrus! Você não é capaz de nos enfrentar de uma vez só. Não faça uma ameaça tão leviana, principalmente na presença do Imperador. Se desculpe com ele imediatamente! — Nini o encarava com seriedade enquanto aproximava a mão esquerda da cintura; os demais capitães também se preparavam para qualquer conflito. — Peça perdão, Andrus! Não nos force a isso, idiota!
— E-ei! Não acho que isso seja necessário! — comentou Melina visivelmente nervosa.
— A violência não é a solução, companheiros, deixem isso para nossos inimigos. — falou Ângelo, tentando apaziguar os ânimos. — Nossos inimigos não estão nesta sala.
— A insolência dele já passou do tolerável! Ele merece ser punido! — brandiu Jack preparando sua postura de combate.
— Concordo. O fato de ser um Manifestador Negro não o torna superior! — Disse Keila enquanto o encarava.
— Se eu soubesse que essa reunião seria tão agitada, teria trazido uma garrafa do meu melhor rum! — Kaliko gargalhava enquanto batia a mão na mesa.
— Toda essa discussão tá me dando dor de cabeça. Se querem resolver isso, vamos lá! Me ataquem todos de uma vez! — brandiu Andrus, abrindo os braços. — Vou adorar matar cada um de vocês!
A tensão só piorava. Os capitães elevavam suas energias lentamente enquanto encaravam Andrus. Melina deu um passo para trás, trêmula. Baltar, Sora e Ângelo acompanhavam com apreensão, prontos para agir se fosse preciso. Navaro apenas os observava com desaprovação.
Mesmo sem demonstrar, o descontentamento do Imperador era nítido através do olhar. Trocou olhares rápidos com Navaro e Cascavel; o bastante para fazer o mais novo desistir do combate. Os demais capitães, por outro lado, permaneciam no impasse. Quem daria o primeiro golpe? Quem desencadearia uma batalha ali mesmo?
— Basta! — ordenou Impero. — Não estamos aqui para brigar. Temos um inimigo em comum. Andrus apenas está animado com a possibilidade de lutar contra um Manifestador Negro. Creio que todos vocês também estão, mas, primeiro, devemos focar nos rebeldes. Ivar, crie uma estratégia para um possível cerco. Também quero que elabore um contra-ataque surpresa. Sora, Baltar e Ângelo, usem suas influências para colocar o povo contra os rebeldes. Façam o povo acreditar que o corte de comida é culpa deles. Keila, quero que você encontre e se infiltre em outra célula rebelde. Dessa vez, encontre a Emota e os traga para mim. Haythan, Melina, Jack, Nini e Lux, reúnam todos os homens que Ivar precisar. Os demais, retornem às suas posições.
Impero se levantou e se retirou sem pressa. Navaro e Cascavel o seguiram em silêncio. Os capitães restantes trocaram olhares breves. Alguns sorriam, outros pareciam preocupados. Todos sabiam o que deveriam fazer.
Aos poucos, deixaram a sala um por um. Sora, Baltar e Ângelo, os últimos por ali, se encaravam como se algo não estivesse certo. Se retiraram pouco depois. Ao passarem pela porta, se depararam com Andrus e Lux conversando despreocupados.

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