Capítulo 75 - Compartilhando Fardos
Já faz quatro dias que se estabeleceram nessa base temporária. Os trigêmeos foram levados para um espaço chamado Schule, Raisel estava treinando arduamente desde que chegou e Jeanice passou a estudar com Tejin. Mas havia alguém que a jovem ruiva não notou todo esse tempo.
“Onde será que o Kimich foi? Parando pra pensar, ele sempre dá essas escapadas… mas não é perigoso sair sozinho em um momento como esse?”
Com uma espécie de cestas de roupas em mãos, a garota se aproxima de um quarto próximo ao ‘Jardim’, no primeiro andar. Ao abrir a porta, ela vê sua mãe, Carmen, ainda completamente desmotivada e desesperançosa.
一 Mãe, quer comer alguma coisa? Eu estava esperando você acordar para irmos tomar café juntas. 一 vibrante, Raquel deixa as roupas lavadas no canto e se senta na beirada da cama.
一 Não estou com vontade de sair ainda, filha… Você pode trazer aqui algumas coisas? 一 as olheiras de cansaço não são mascaradas em seu sorriso singelo.
O olhar de menina pesa com o cenho levantado. A palma dela se apoia sobre a da mãe para lhe dar algum conforto.
一 Posso sim… mas estou preocupada com você. Deveria caminhar um pouco. Você não saiu do quarto após conversarmos com a Yolina no primeiro dia. 一 erguendo a mão dela com cuidado, a garota beija as costas da palma da mulher.
一 Oh, meu amor… Desculpa. Eu só… estou pensando sobre o que eu vou fazer agora. 一 desviando a atenção pelas paredes, os dedos agarram a mão da filha.
Sob o bater das borboletas de luz contra o vidro da lâmpada, o calor de Raquel eventualmente chega até o frio e pálido corpo de Carmen.
一 Eu nunca gostei de campos de batalha, mas sempre… amei treinar. Depois que o Castelo da nossa família ruiu, eu tive que ir para as linhas de frente mesmo após ter vencido a sua tia, Sarina, e ter ficado no território Spencer para ser a matriarca. 一 remoendo essas memórias, elas ainda estão amargas mesmo após tantos anos.
一 Eu lutei sozinha por alguns dias, mas eu dei sorte. Yurgen encontrou a Sarina e já havia formado seu grupo nômade, os Forscher. Eles me resgataram da morte iminente enquanto o exército de Balmund avançava…
A mulher respira fundo e fecha os olhos. Sua conexão com Cassiopéia nunca esteve tão fraca, até mesmo seu Glanz oscila com a perda do seu braço. Era através dele que podia separar até mesmo as conexões dos outros com suas entidades protetoras, mas agora, sua principal força se tornou a sua maior fraqueza…
“Essas palavras… eu ouvi isso antes da Sarina.”
Retornando para esse episódio, foi quando eles acamparam em Eramelyn, a Cidade do Vale, após protegerem a parte norte da fronteira com Roderich, pois uma Ruína de Hércules havia sido encontrada lá.
“Estávamos sentadas no telhado da pousada encarando as estrelas. Era um hábito que nós tínhamos após todos irem dormir. Lembro que Volkanfor sempre reclamava do nosso barulho…” 一 com um sorriso de canto, lembrar desses pequenos detalhes doía seu coração.
一 Carmen, você já percebeu que você é muito dependente do Tennung? 一 a ruiva de cabelo curto ondulado encarou a irmã de soslaio enquanto enchia a boca de uvas verdes.
一 Mas é justamente por ele que eu sou mais forte que você, Segundo Lugar.~ 一 sorriu de modo pretensioso com os olhos afiados.
O vulto de uma uva atingiu a sua testa com força; cambaleando para trás.
一 Sua idiota! Tô falando isso pro seu bem, tanto faz eu ser mais fraca. Mas você é quem tem que tomar cuidado com isso. Sua técnica é tão boa quanto a minha, só que essa sua dependência pode se tornar uma fraqueza… Já que nem todos inimigos vão ser muito afetados por terem suas conexões rompidas. Nesses casos, você fica muito na defensiva por não confiar nas suas capacidades de ataque! 一 apontou o dedo para ela diversas vezes, esbravejando entre as mastigações.
一 Tá bom. Entendi! Para de ser chata, sua resmungona! É por causa desse seu jeito sério com tudo que você vive discutindo com o Yurgen! Ele vai acabar te largando desse jeito! 一 retrucou entre berros e agarrões.
一 S-Sua filha de uma égua! 一 corou como um morango.
E acabaram se estranhando no telhado como duas gatas.
一 Suas loucas! Parem de fazer tanto barulho! 一 cutucando o forro com uma vassoura, a voz desgastada de um homem idoso deixa tudo ainda mais caótico.
Entre as sombras da noite, uma lágrima solitária escorre das arestas do olho direito da mulher; pingando sobre o vazio e criando ondas planas sobre o colchão.
“Eu só não ouvi seu conselho, mas como também errei completamente sobre o amor entre você e o Yurgen… Ele lutou tanto por você, irmã, ao ponto de vender a própria alma para tentar curar uma doença incurável… Eu o julguei tanto quanto ele partiu, mas pelo menos pude cuidar de você acamada tanto quanto cuidou de mim quando estava saudável.”
一 Mãe… 一 os lumes azulados de Raquel lacrimejam ao ver a melancolia da mulher que ela mais admira nesse mundo.
As mãos de Carmen, trêmulas pelo medo de seguir em frente e somadas aos arrependimentos do passado, fazem a menina não ter o que falar. Tudo o que ela pode fazer é continuar ali presente para confortá-la, mas como se as palavras não a alcançam?
O silêncio pouco a pouco acalma a mulher.
“Ela dormiu… Vou deixar algo para ela comer aqui… Preciso ir ver o Raisel.” 一 cabisbaixa e frustrada, o lábio inferior mordiscado continua até fechar a porta.
As horas se passam. O entardecer flamejante, aos poucos, cede para a implacável chegada das estrelas e o luar.
No seu quarto, o rapaz está sem camisa e apenas de calção para ir dormir. A toalha enrolada no pescoço tapa parcialmente a grande cicatriz eterna deixada pelo dragão, rasgando o torso ao meio na diagonal.
Entre os corredores silenciosos e pouco iluminados da madrugada na base, os fios do longo cabelo ruivo ficam para trás. Subindo as escadas na ponta dos pés, essa pessoa se aproxima com extremo cuidado.
Alguém bate à porta. Com um susto, Raisel salta com os ombros enquanto prende o cabelo.
一 Raisel, sou eu… Posso ficar com você? 一 a voz abafada pelas paredes era inconfundível.
一 Oi, Raquel. O que aconte- ceu…?
Ao abrir a porta, ele vê a sua namorada de pijama. Os olhos dele deslizam de cima à baixo, mas ao focar na expressão dela, repara que o brilho azulado está turvo e lacrimejante; como se correntes estivessem afundando-a em um abismo sem fim.
一 Entra. Vamos conversar. 一 de imediato, o garoto fica sério e abre espaço para ela.
Ela se senta sobre a beirada da cama, entrelaçando os polegares dos pés uns nos outros. Encarando o chão, a mente carregada de pensamentos sequer repara no rapaz, focando completamente na sua companhia.
Após um suspiro pesado, os lábios confessam tudo.
Raisel, em pé, se demonstra tão surpreso que os olhos poderiam saltar para fora. Mas no instante seguinte, a expressão se fecha ao também encarar o chão.
“Então foi isso o que aconteceu naquela época… Eu me lembro vagamente, pois foi a única vez que eu vi a Carmen e o irmão Olga chorarem. Mas eu era muito pequeno… eu tinha oito anos.”
Cuidadosamente vem a sentar ao lado da garota. O braço direito a envolve, fazendo-a escorar a cabeça em seu ombro. Com o seu calor, esperava que pudesse confortá-la e isso trouxe resultados imediatos. As lágrimas saem como uma chuva sem fim. Firme, ele a aperta ainda mais.
Os minutos ficam para trás e o ritmo das lamentações de Raquel decaem. Secando os olhos com as mãos, o rapaz primeiramente enxuga o ombro encharcado para que ela pudesse se limpar.
一 Raquel, eu acho que seu papel agora é permanecer com a senhorita Carmen… Ela precisa mais de você do que nunca. Então não acho uma boa ideia deixá-la sozinha enquanto você vem comigo para Kanthen. 一 esfregando o ombro dela com cuidado através da palma destra, ele permanecia colado à ela.
一 Sim… Eu pensei sobre isso o dia todo. Eu também me decidi. 一 recuperando o fulgor no olhar, eles se encaram.
O dourado dos olhos de Raisel e o turquesa vibrante dos olhos de Raquel…
一 Sobre o que? 一 arqueia uma das sobrancelhas.
一 Eu quero aprender a lutar… Seja para proteger a mamãe, ou para proteger a mim mesmo. Quero salvar quem eu puder… Não posso continuar acorrentada aos meus medos. Então, vou pedir isso para a senhora Yolina como parte do meu desejo. É a oportunidade perfeita. 一 encosta a mão direita sobre o centro do peito.
Inconscientemente, a vontade de Andrômeda pulsa acima da cabeça dela.
Sorrindo com um misto de emoções, o sentimento predominante no coração do garoto é o orgulho. Saber que ela tem a coragem para se proteger sozinha, traz uma sensação de alívio para a sua alma, mas consequentemente, uma preocupação futura.
一 Então a “santa” do vilarejo quer virar uma heroína? Nem nos livros fantásticos que a gente lia eu vi sobre algo assim.~ 一 naturalmente, a felicidade dele é refletidas pelos seus olhos afiados.
一 Até mesmo as santas podem surpreender, sabia? 一 a mão dela se escora na bochecha dele.
Entre o apagar das borboletas luminescentes, ambos se deitam na cama unidos como um só.
Portanto, o quarto dia se encerra enquanto sentiam a pele um do outro.

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