Capítulo 82 - Kanthen e seus Habitantes
Enquanto as borboletas perdem a sua luminescência pelo raiar do sol da tarde, Tejin e os demais chegam na entrada da cidade. Recebidos por um portão enorme de concreto, não há bloqueios ou grades para a chegada de novos visitantes. Entretanto, assim que o ultrapassam, os olhares dos transeuntes na rua principal chovem em cima deles. Todos, sem exceção, são meio elfos.
Seus cabelos escuros, seus olhos com menos luminescência e orelhas pontudas. Os traços das suas linhagens são claros, seja humana ou élfica. Alguns possuem mechas distintas em seus cabelos como um último resquício de uma nobreza que fora negada pelo preconceito.
Mas o momento de julgamento se inicia ali.
一 Tejin! É você!? 一 correndo até o grupo, um meio elfo portando uma lança repleta de runas vem a bater a haste contra o chão; bloqueando a passagem.
Seu cabelo castanho claro penteado para trás e as íris brilhantes como marfim, sobressaltam por todos os quatro. Fitando-os, as pupilas deslizam por Jeanice, Kimich e Raisel.
一 Sou eu, Leander. 一 estendendo a palma para cumprimentá-lo, o comerciante sorri gentilmente. 一 Está tudo bem por aqui? Você me parece agitado.
一 Ah, desculpa por isso… Houve um assassinato recentemente, então os guardas estão muito mais atentos a quem chega e quem saí. 一 vem a cumprimentá-lo. 一 Esse loiro atrás de você é o Senhor Kimich, e os outros dois?
Tejin abre espaço para apresentá-los, enquanto o alquimista e Raisel se encaram de soslaio. Por outro lado, Jeanice é quem toma a frente.
一 A garota, como pode ver, é uma meio-sangue como nós. Ela se chama Jeanice. 一 ele a observa com o canto dos olhos; afiando uma ressonância energética sutil em sua direção.
“Os mais novos não tem noção do que aconteceu em Kromslaing cento e cinquenta anos atrás, mas os anciões desse lugar ainda guardam mágoas contra Alexis. Esconda seu sobrenome. Afinal, você possuí parte do sangue dele e eles sabem disso.”
Ao ouvir a mensagem, a menina levanta a cabeça enquanto tensiona os dedos dos pés contra o chão. Um sorriso breve toma conta do seu rosto, mas completamente distorcido por não levar jeito para interações com desconhecidos.
一 O-Olá… M-Meu nome é J-Jeanice. 一 resguardando os punhos contra o peito, os ombros comprimidos mostram a sua natureza sofrida.
O guarda Leander, por sua vez, arregala os olhos. Ele nota as marcas de costura de Jeanice em sua própria pele, os arranhões e suas olheiras inalteráveis. Num instante, leva a mão até o rosto; sob um tom choroso.
一 Você deve ter sofrido tanto, Jeanice… Não se preocupe, esse lugar é um refúgio e um lar para nós…
Um suor lateral escorre na feição de Tejin. Desviando o olhar por um instante, ele volta a falar após pigarrear um pouco:
一 Você disse que aconteceram assassinatos… Quando foi? Existem suspeitos? 一 o punho sobe até os lábios.
一 Tejin, você não me respondeu sobre o garoto de olhos amarelos. Quem é ele? 一 de repente, o olhar de Leander afiou-se como uma lasca pontiaguda.
A mera pressão assassina do guarda transforma o ambiente em algo hostil. Mas ao olhar para isso, Raisel segue em frente enquanto afasta os seus companheiros delicadamente.
一 Meu nome é Raisel. Estou viajando com Tejin depois de salvá-lo da Ruína que caiu no nosso vilarejo. 一 sem sequer hesitar com o brilho em seus lumes, ele encara Leander.
Com essas palavras e a postura do rapaz, a vontade de Leander oscila. Uma das suas sobrancelhas arqueia agudamente. O abandono de sua agressividade vem através do arregalar de seus olhos.
一 Uma Ruína caiu no vilarejo de vocês…? Por isso você não veio semana passada… 一 ajeitando a pegada na haste da lança, ele a abaixa. 一 Tudo bem. Vocês podem entrar… Sobre os assassinatos, Tejin, é melhor ir até o Quartel.
一 Certo. Irei levar eles até a estalagem da Ema primeiro. Mais tarde eu apareço lá.
Leander acena positivamente; voltando a caminhar para o seu posto.
“Salvar alguém de uma Ruína em Nascimento… Não era mentira. Pude ver pelos olhos dele. Mas… por que a presença dele parece tanto com a de um Sangue Puro? Preciso observá-lo de perto.” 一 fitando-o com a margem de sua visão, pouco a pouco o guarda desaparece entre as ruas paralelas.
Com a ida dele, Jeanice aliviada vem a suspirar, mas é quase completamente ofuscada pela intensidade da expiração de Tejin.
一 Arf… Sempre tantos problemas por aqui. Vamos indo? 一 retirando a mão da feição, apesar de tudo, o comerciante tem um sorriso ligeiro em seus lábios.
Enquanto aprofundam-se na cidade, começam a se aproximar do centro ao passar por incontáveis ruas paralelas. Sob a sombra das grandes árvores, Kanthen está sempre fresca e muito úmida por estar no meio de uma floresta.
Barracas de materiais, com artefatos e acessórios estão em toda parte. Visualizando uma dessas lojas, Raisel se surpreende pelo o que comem. O som crocante entre as mordidas com patas de aranha enormes nas mãos, mancham as bochechas dos meio-elfos de roxo.
Preocupado se comeria aquilo, o semblante do menino fica azul por terror.
Kimich ri como um soluço; escorando a mão no ombro do rapaz.
一 Relaxa. Eles não comem só insetos aqui…~ Também comem tripas e carne crua. 一 segurando mais o riso, o semblante repleto em maldade condiz com a tarefa de assustá-lo.
一 Não o assuste, Kimi… As aranhas-de-argila são como petiscos por aqui. Tipo doces. 一 o homem de cabelos negros verifica se está tudo bem com Jeanice usando a borda de sua visão.
Boquiaberta, os olhos dela nunca brilharam com tanta constância e intensidade antes. Ouvindo sobre os doces, ela imediatamente busca a referência de Tejin com um relance rápido, mas acabam cruzando os olhares. Salivando, os lábios manchados por tinta preta se movem:
一 Parece gostoso… 一 quase como um sussurro, as bochechas e as pontas das orelhas avermelhadas escancaram seu constrangimento.
Nesse momento, os três parecem errar o ritmo da passada.
“Aquilo… gostoso?” 一 até mesmo Tejin se questiona junto dos humanos.
De qualquer forma, os minutos se passam e eles se aproximam da gigantesca árvore envolta por casas. Consumida por pequenas pétalas vindo das árvores menores, a cidade está sempre aromatizada. A leveza que essa sensação de paz transmite nas narinas, fazem qualquer um ficar hipnotizado com a natureza desse lugar. Porém, quanto menos distante a árvore central fica, mais Raisel sente um formigamento consumindo a sua nuca entre os burburinhos dos cidadãos desconfiados, como um grande mau pressentimento.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.