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    Finalmente estamos aqui, no arco extremamente longo que não faço ideia de quando terminarei. Planejo isso há alguns anos e nem por isso teria a coragem de dizer que isso não será uma bagunça. Boa sorte com minhas loucuras, é daqui em diante que tudo vai ficar ainda mais bizarro!

    Em uma das ruas mais movimentadas do segundo nível, reuniram-se Verion, Lyria, Jeremiah, Jean, Jon e Elemenope. Jeremiah usava novamente sua máscara branca de detalhes dourados.

    À frente, viam uma gigantesca torre com um relógio. O ponteiro marcava o horário e o som das suas engrenagens giradas através de vapor e pressão ecoava misturado ao mar de vozes. O sino no interior da torre tocou.

    Capital de Raptra, Rigel, 03/05/029, às 12:00.

    A pureza do ar surpreendeu todos, muito diferente do que acreditaram que seria. O segundo nível da cidade era alto o suficiente para a poluição abaixo não os atingir de forma muito evidente. Aproveitavam-se da energia gerada por eles, mas apartavam-se do contato com os de baixo. Em sua maioria, não queriam vê-los, nem lembrar de suas existência. Estar abaixo era um sinal de Raptra, o Deus da Caça e da Perseguição, de que eram menos valorosos. Viam assim a situação, era o padrão imposto e incentivado pelo rei.

    As ruas eram amplas e feitas de asfalto no segundo nível, cercadas de calçadas de paralelepípedos de pedra. Alguns veículos, motos rudimentares, movidas a vapor e pressão seguiam em velocidade moderada em direção a uma avenida. Grandes encanamentos transparentes, levando água, pareciam descer para dentro da plataforma.

    “Deve ser parte do sistema de abastecimento das casas.”

    Diversas lojas podiam ser vistas por todos os lados, um comércio imparável e movimentado. Perto de becos e vielas, concentravam-se algumas barracas de comida. Autômatos, alguns robôs humanoides, caminhavam pelas calçadas e esperavam os sinais de trânsito permitirem sua passagem segura. A maioria agia como máquinas comuns, mas alguns possuíam movimentos muito humanos e até mesmo encaravam algumas pessoas por alguns instantes.

    “Esse lugar é mais desenvolvido que Aludra…”

    “Aludra…”

    Verion se distraiu com os próprios pensamentos brevemente e teve a atenção novamente fisgada por Jon. O guia tocou no ombro dele, mantendo um olhar sério.

    — O pagamento, meu compromisso de te trazer até aqui foi concluído. — Ele cruzou os braços. — Já me meti em loucura demais e agora quero meu dinheiro. Eu te disse o que aconteceria se você não conseguisse.

    Ele apontou para Lyria, e ela se escondeu atrás de Verion.

    — Não se preocupa Lyria, ele não vai falar nada pra ninguém. — Um sorriso confiante surgiu. — Só preciso fazer umas perguntinhas pela rua e sei onde consigo seu dinheiro, Jon.

    “Eu realmente preferia como ele me tratava antes de tudo mudar por culpa da Circe.”

    — Espero que esteja falando sério — disse o guia, obviamente duvidando do garoto.

    — Vai ficar tudo bem, sei o que estou fazendo.

    Jeremiah tinha uma expressão inquieta por trás da máscara. Tirou sua espada de lâmina quebrada da bainha e a observou antes de começar a caminhar para longe sem maiores explicações.

    — Aah… Cadê o Jeremiah? — Jean disse e olhou para todos os lados muito rápido.

    O loiro havia desaparecido por completo sem deixar um único rastro para trás. Jean segurou na armação dos óculos com muita força até se acalmar. Achou que nem valeria a pena procurar.

    — Jeremiah?! — Verion gritou e não obteve respostas.

    — Deixa ele pra lá, esse maluco sabe se virar. — Jean cruzou os braços. — Vamos só acompanhar o Verion, alguma hora ele aparece.

    — Acho melhor assim… — O guia em seguida pediu para Verion começar o que tinha planejado.

    Vielas na Capital de Raptra, Rigel, 03/05/029, às 12:07.

    Jeremiah caminhava por aí despreocupado, mantendo sua espada em mãos. Fazia algum tempo que havia abandonado sua armadura — por conta de Lyria ter a destroçado na luta da floresta —, mas ainda sentia-se surpreso com a liberdade de movimentos que tinha sem aquilo.

    Andava por becos e vielas para atravessar de área em área pela cidade, procurando por uma loja que vendesse espadas e outros itens do tipo. Não teve muito sucesso imediato em sua busca, sentando-se em um banco de madeira para pensar.

    — Isso tá ficando muito mais frequente, né? — disse um homem baixinho na calçada.

    — Sim, sim… Os casos de pessoas vindas daquele outro mundo aumentaram recentemente. O primeiro que todo mundo conheceu foi aquele tal de Rotsala… — respondeu um senhorzinho de vestes modestas.

    — Ouvi falar que umas pessoas desse tipo estão morando aqui no segundo nível da cidade. Espero que não tenhamos problemas com esses estranhos por aqui. Ninguém precisa de um segundo Rotsala na nossa era.

    “Ouvi falar dessas pessoas, mas acho que nunca vi.”

    “Melhor continuar andando. Tenho pouco dinheiro e pouco tempo, então é melhor eu fazer um bom negócio.”

    “Hehehe, diria que tenho uma ótima intuição para negócios!”

    Minutos depois, Jeremiah deparou-se com uma loja um tanto escondida, mas que tinha um fluxo de clientes aceitável. Seus passos e a curiosidade o levaram até a fachada do lugar. Ferraria Ea-Nasir. Um texto dizia:

    Um cobre tão impressionante que parece de outro mundo!

    Ele entrou no estabelecimento e avistou alguns clientes conversando enquanto observavam de perto os produtos que compraram. Foi adiante até um balcão, chamando por um homem de estatura mediana e cabelos castanhos.

    — Saudações, viajante. Por qual mercadoria possui interesse? Busca lâminas de bronze forjadas no fogo ou adornos dignos da nobreza da cidade? — O vendedor tinha uma barba bem cheia e um olhar animado.

    — Tenho poucas Zaykkas, então quero saber se consigo uma espada decente por um preço justo. Minha espada antiga quebrou durante uma luta. — Jeremiah demonstrou a espada escarlate que foi rachada no meio horizontalmente. — Eu quero conseguir me defender e estar vivo pra encontrar pessoas que são importantes pra mim…

    — Teus lábios proferem palavras com sinceridade e espírito, o que agrada o meu coração… — O mercador deu as costas ao loiro e começou a mexer num baú. — Creio que seja digno de empunhar uma grande lâmina. É justo que os jovens guerreiros possuam os meios para conquistar glória, e certamente o que forjei te concederá isso!

    Jeremiah deu todo o dinheiro que tinha para o vendedor e pegou sua nova espada. Era um pouco grande, maior que sua anterior, com alguns detalhes adornados em sua estrutura que lembravam o fluxo das ondas. Sorriu vendo que parecia ter em mãos um ótimo achado.

    — M-Muito obrigado, senhor Ea! — Sorridente, Jeremiah segurou as duas espadas, uma em cada mão. A quebrada e a de cobre. — Caramba, nem sei como te agradecer! Tem algo que eu possa fazer por você por ter me ajudado tanto?

    — Jovem, parte agora e empunha minha lâmina para o que almeja! Este é o maior favor que pode me fazer! — Seu semblante era confiança e inabalável, não dando chance de que o loiro duvidasse. — Ao verem o que minha criação pode fazer fora dessa velha loja, meu nome crescerá… Lembre-se de falar sobre mim.

    — Sim! — Ele correu para fora da loja e…

    “Uh?”

    A espada se transformou em uma grande tábua de argila, esfarelando de tão velha. Virou-se para trás e encarou a loja, que agora não tinha nada, completamente vazia. Correu para dentro e notou que os clientes que conversavam lá dentro eram apenas argila moldada. No balcão, apenas uma placa com escrituras e um pequeno sorriso desenhado.

    Caramba, tava precisando garantir meus almoços da semana, que bom que você foi otário de cair no meu papinho. Realmente acreditam em qualquer pessoa que fala bonito. Tchauzinho, estou indo para outro beco enganar algum bobo.

    — FILHO DA PU…

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