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    No teatro, quando Lyria aceitou o acordo ao segurar a mão dela, Verion e Jean ficaram momentaneamente confusos com a facilidade com que ela concordou com aquela ideia sem muitos detalhes. Elemenope pareceu não se importar, tal como não se importava com nada no geral.

    — Lyria, não acha que seria melhor ficar por perto da gente? Se nos separarmos pode ser que aconteça algo perigoso e não tenha nenhum de nós por perto pra ajudar — Verion indagou, preocupado.

    — Eu quero saber logo o que vim saber aqui… Desculpa, mas preciso disso.

    — Como poderíamos ter certeza de que você está segura aqui?

    — Não sei, mas quero ficar aqui… — Ela se afastou deles, numa mistura de receio e esperança. — Quero entender quem eu sou… Saber mais sobre a Lya vai me ajudar mais nisso do que qualquer outra coisa que vocês poderiam fazer por mim nos próximos dias. A biblioteca está fechada, mas a Monet parece saber bastante dela e ter acesso às informações que eu quero… Então quero ficar por aqui.

    — Monet — Verion a chamou, sério.

    — Pode falar, respondo qualquer coisa que quiser saber. — Permanecia o tempo inteiro sem esboçar qualquer falta de confiança.

    — O quanto você sabe sobre Lya Seshat? Como você teria acesso às informações sobre ela se a biblioteca está trancada agora como você mesma afirmou?

    — É simples, sou amiga pessoal de Louis Khrizantema! Caso eu peça para entrar, conseguirei sem problemas ou impedimentos. Não é qualquer uma que ele deixaria realizar um show em seu renomado teatro.

    — Confirmo isso, Verion. — Elemenope deu as costas para todos e foi na direção da saída. — A família Khrizantema é extremamente orgulhosa com suas propriedades intelectuais e construções, então é uma certeza de que Monet não é uma pessoa comum. Ela deve ser muito próxima deles.

    — Ei, para onde você está indo? — Jean foi tomado por uma breve confusão ao vê-la ir embora.

    — Sei como isso vai acabar, então esperarei lá fora para não perder muito do meu tempo ouvindo essa conversa. — Acenou sem olhar para trás.

    — Qual é a dela, hein? — Ele ajeitou os óculos, incomodado.

    Verion deu de ombros, não entendendo nada também. Elemenope era um pouco misteriosa e não tinha qualquer ligação com eles além de ser conhecida de Jon. Era estranho até dizer o que ela ainda estava fazendo com eles naquele ponto.

    — …Lyria, não quero desrespeitar suas vontades, mas quero ter certeza de que você vai estar segura mesmo se ficar aqui. — A expressão de Verion foi manchada por uma sensação de descontentamento. — Não queria que você sofresse de novo, de nenhum jeito. Não sei o que vai acontecer se…

    Monet soltou a mão de Lyria e foi até ele, olhando-o de cima para baixo com a mesma feição confiante e sorridente que manteve na maior parte do tempo. Levou a mão até a bochecha enquanto pensava.

    — Pelo seu nome, suspeito que seja da família Velgo. Não devem ter muitas pessoas com o nome Verion no mundo, então acho que estou falando com a pessoa certa.

    — Sim…

    — É um prazer tê-lo no teatro, filho do falecido Anjo. Tenho um grande apreço por seu pai, pelas coisas que ele fez, então, em consideração a ele, serei o mais clara possível com seu descendente!

    — Agradeço… — Sentiu-se acuado.

    “Como que ela consegue ser mais confiante que o egocêntrico do Aurelius?!”

    — Não existe lugar mais seguro no mundo do que ao meu lado, é simples assim — ela declarou.

    “Ela é mais convencida que ele mesmo!”

    Monet uniu as mãos com delicadeza. De repente, o ar foi destroçado. O teatro estava submerso… a realidade mudou para Verion com uma alucinação orquestrada por ela. Ele viu tudo desaparecer e ser engolido por uma água escura e densa. O pânico veio quando as bolhas de ar escaparam de sua boca.

    Sentia uma pressão terrível e um frio abissal consumir cada centímetro de sua pele, mas não havia água de verdade. Seu corpo estava seco, enquanto seu cérebro acreditava que ele estava em perigo.

    — O que é isso? — Verion tentou mover a mão. O braço pesava, movendo-se através das águas que nunca molhavam.

    “Isso é uma ilusão?”

    — Eu tenho controle completo sobre os sentidos, sentimentos e sensações de todas as formas de vida em um raio de 500 metros — a voz dela ressoou dentro da mente dele, perigosa.

    Em um piscar de olhos, o oceano evaporou. O frio se esvaiu, dando lugar a um calor infernal. Verion sentiu o cheiro de carne queimada… a própria carne. A visão do teatro foi devorada por um incêndio violento e destrutivo. Ele sentiu tudo arder, a agonia das labaredas tocando seu rosto, mas, ao olhar para as próprias mãos, elas estavam intactas.

    “Não é real, não é, não é, não é, não é!”

    — Se existe uma única dúvida em você sobre eu ser forte o suficiente… — Monet caminhava pelas chamas falsas, intocada, com uma expressão neutra. — Te garanto que seria capaz de acabar com esse país se essa fosse minha vontade.

    Verion piscou e tudo mudou. Não era mais o teatro, estava em casa. O cheiro de terra molhada e rosas… o entardecer calmo que ele conhecia tão bem. Ao longe, viu Yunneh. O coração dele disparou em um alívio momentâneo, que logo se transformou em desconforto. Monet estava lá, parada no meio do jardim de rosas de sua memória, uma intrusa. Ela sorria docemente.

    — Ahh… — Enquanto hiperventilava, a viu se aproximar.

    — Ninguém ouviu o que acabei de te contar. Ninguém além de nós dois está vendo isso — ela sussurrou ao lado de seu ouvido. — Lá fora, tudo continua normal como sempre foi. Eu poderia estar arrancando sua pele agora, e os outros continuariam apenas vendo uma conversa educada.

    — Quem é você? — Verion recuou, cambaleando. — Esse poder… é terrível.

    — Sou só uma filha de uma péssima família… — A luz do sol no horizonte projetava a sombra de Monet longa e distorcida contra Verion. — Tive o azar de nascer com essa habilidade nojenta. Não quero te forçar a aceitar meus desejos… eu jamais faria isso com o filho do antigo Anjo.

    — Não parece ser o caso com essa ameaça tão clara…

    — Ameaça? Eu nunca faria isso com alguém em toda a minha vida. — Ela se conteve para não rir.

    Verion meramente assentiu, aceitando a situação calado para não complicar ainda mais as coisas. Como permaneceu em silêncio, Monet voltou a falar.

    — Minha vida está em jogo. Se meu show não for um sucesso, todas as minhas memórias serão apagadas e eu serei vendida. É parte de um acordo envolvendo minha família… Acredito que eu não lhe deva maiores explicações. Então, é simples, Lyria será minha para esse show. Ela é perfeita para isso e eu a quero comigo.

    — Você me jura que vai cuidar dela? Essa é minha única preocupação aqui… — Verion tinha uma expressão angustiada, afligido pela sensação de estar em seu lar e ter certeza de que era mentira. — Existem alguns deuses atrás de mim e provavelmente atrás dela também…

    — Eu resolvo. — Monet deu um sorriso meigo. — Se eles chegarem perto, transformarei a existência deles em um inferno sensorial inigualável. Quero cuidar da sua amiguinha… eu preciso dela para continuar viva.

    — Tudo bem… — Verion cedeu, sentindo que não existia nada a fazer naquele momento a não ser confiar nela.

    — Sou uma mulher de palavra. — O cenário da casa se desfez como cinzas sopradas pelo vento. Novamente a visão do teatro. — E, honestamente, odeio mexer com os outros assim. Ter essa liberdade para moldar a realidade de alguém me enche de pensamentos tão horríveis que tenho medo de dizer.

    Ela concluiu: — Fiz coisas das quais me arrependo e hoje em dia tento me segurar. — Seu olhar dourado tornou-se calmo. — Então tento fingir que nada disso existe. Mas lembre-se de não ficar no meu caminho. Não é nada pessoal contra você, apenas quero ter certeza de que estarei viva quando esse ano acabar.

    — …Se Lyria estiver segura com você, aceito tudo isso sem problemas…

    — Você é tão compreensivo, adoro isso nas pessoas, sabe? — Monet desviou um pouco o olhar. — Não se preocupe, ela estará em boas mãos nos próximos dias, não precisa se preocupar com nada.

    Aos poucos toda a ilusão se quebrou e o mundo real voltou a ser o que Verion via. A mulher de cabelos verdes lhe deu um último sorriso antes de segurar Lyria pela mão e descer rumo ao palco com ela.

    — Obrigado por entender, Verion — Lyria agradeceu feliz, feliz por uma conversa que existiu sem que ele soubesse. Monet escolheu suas palavras para todos, jogando-os em uma ilusão para fingir que tudo estava normal, enquanto ele não tinha contato com a realidade.

    — Ele é um ótimo amigo, não é?

    — Sim.

    Verion ficou confuso por alguns segundos, mas logo foi chamado por Jean. Não sabia o que pensar sobre aquela situação tão repentina, aquela força monstruosa que não podia ser parada por ele nem em seus maiores sonhos.

    O dia continuaria sem Lyria ao seu lado.

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