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    Siegfried observou em silêncio a estaca vazia suja de sangue.

    Elliot Kroft havia sumido.

    Passavam-se apenas cinco dias desde a sua execução. Após decapitá-lo, tinha-o empalado e deixado seu cadáver exposto na entrada do vilarejo para que todos pudessem ver. Não estava mais lá.

    Siegfried visitava o vilarejo todos os dias, tal como o Conde Gaelor lhe ensinou. Precisava se familiarizar com seus servos e estes, por sua vez, precisavam aprender a reconhecê-lo e respeitá-lo — até mesmo temê-lo, se necessário. Dia após dia, trazia o seu cavalo para uma volta, conversava com os plebeus e ouvia suas preocupações. Por isso, sabia que o cadáver havia desaparecido há pouco tempo; durante a noite, talvez. Um animal teria deixado traços, por isso sabia também que o sumiço era obra de uma pessoa.

    “Ainda tem alguém leal aos Kroft?!”

    Era possível.

    Siegfried casou-se com Eva e não tinha a menor dúvida de que isso o beneficiou de várias formas, mas talvez alguns plebeus ainda lhe guardassem rancor. E não era muito difícil imaginar o porquê…

    Um mercenário estrangeiro que matou seu suserano e casou à força com a filha órfã dele para roubar o seu castelo.

    A única questão era: seria apenas um velho servo que quis dar um enterro digno ao seu falecido lorde ou a fagulha de uma revolta? Acabaria ali ou este seria apenas o começo de uma série de incidentes problemáticos?

    “Não é à toa que tantos nobres acabam ficando paranoicos.”

    Fosse como fosse, havia bem pouco que pudesse fazer naquele momento. Tentar encontrar o cadáver e o culpado apenas o faria parecer fraco. Quem se importa com um monte de carniça?!

    Siegfried sentiu os primeiros neviscos em seu cabelo e decidiu que era hora de voltar.

    O Castelo dos Ossos estava frio e deserto, como de costume.

    Embora o pior do inverno ainda estivesse longe de chegar, os dias se tornavam cada vez mais curtos e cada vez mais frios. Sem muito o que fazer, as mulheres preferiam se aquecer na cozinha ou embaixo de lençóis. A única alma viva que encontrou foi Wayne, esperando ansiosamente o seu retorno para que pudesse lhe abrir o portão e correr de volta para algum lugar mais quentinho.

    Ironicamente, o garoto não parecia lhe guardar qualquer rancor, nem mesmo as mulheres. Matou seus amigos e familiares, sim, mas também lhes deu comida, abrigo e uma cama quente, o que parecia ser muito mais importante — especialmente no inverno.

    Ainda mantinham uma distância respeitosa, mas não pareciam temê-lo ou odiá-lo.

    Siegfried levou o seu cavalo até o estábulo, onde uma jovem cavalariça lhe tomou as rédeas e cuidou do animal. Estava voltando para o prédio principal, quando viu Andrella sozinha no velho jardim de Eroth; estava de joelhos, encarando algumas flores mortas, quando ouviu Siegfried se aproximar e pôs-se de pé, alarmada:

    — S-Sieg?! Ah! Quero dizer: Lorde Blackfield. Sinto muito. Não estava esperando companhia, milorde.

    — Não precisa ser tão formal comigo.

    — Sim, senhor.

    Silêncio.

    Silêncio longo e constrangedor.

    — Então — disse Siegfried —, o que você tá fazendo aqui?

    — Nada, milorde. Apenas pensando.

    — Sobre?

    — Hum. E-eu… S-sobre o meu marido… Milorde.

    — Melias?

    — Sim, senhor. Ele tem estado um pouco… Distante, desde que viemos pra cá. Quase não o vejo. E quando vejo, estamos sempre brigando. Pensei que fosse apenas nervosismo. Que tudo fosse voltar ao normal depois que…

    — Eu executei o filho dele. É isso o que ia dizer?!

    — …

    — Acha que ele está de luto?

    — Não sei, milorde… Não. Sinto muito. Na verdade, não acho que seja isso. Eu o vi quando nossa filha estava à beira da morte. Sei como é quando ele está de luto. Dessa vez é diferente. Ele só está… Distante. Como se não quisesse mais ficar perto de mim. Como se quisesse apenas… Ficar sozinho.

    — Então é um idiota.

    — P-perdão?

    — Venha!

    Então se virou e foi até o prédio principal do castelo. Andrella hesitou por um momento, mas logo começou a segui-lo de uma distância segura; silenciosa e tímida como uma donzela, mas foi apenas depois de chegarem ao quarto que o rapaz entendeu o motivo.

    “Só que agora eu sou um homem casado”, brincou.

    Na verdade, apenas pensou que ela estivesse com frio e queria fazer algo legal. Não era certo deixar uma mulher sozinha lá fora no meio do inverno. Por isso, mandou as servas trazerem um pouco de chá quente e biscoitos de sal.

    Para ser bastante sincero, no entanto, não chegou a aproveitar a companhia de Andrella.

    Como esposa e mãe, tudo o que sabia falar era a respeito do marido e da filha. O quanto estava preocupada, grata e ansiosa por isso ou aquilo. Não saberia dizer quanto tempo se passou, mas a sensação era a de que ela havia falado por um ano inteiro, por isso se sentiu grato quando foram interrompidos.

    Se algum dia Siegfried duvidou da existência dos deuses, ele teve certeza absoluta de que não apenas existiam, mas que também eram infinitamente bondosos quando ouviu um grito vindo do lado de fora e foi correndo ver do que se tratava.

    “Por favor, seja um ataque”, implorou. Uma brincadeira, é claro… Bem, mais ou menos.

    No fim das contas, não era um ataque.

    Mimosa havia caído da escada enquanto tentava subir. Por sorte, ela ainda estava nos primeiros degraus quando isso aconteceu e acabou não se machucando muito.

    Siegfried desceu para ajudá-la, mas foi só quando ela já estava de pé que o rapaz notou… As pernas dela. Haviam voltado.

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