Índice de Capítulo

    Uma sequência de batidas secas acertou a porta, despertando Odilon de seu sono. Ele grunhiu, erguendo-se na escuridão. Sonhara um sonho bom. Um com seu pai. Sempre gostava de ouvir seus gritos. Ao menos em sua mente podia escutá-los à vontade.

    Abriu a porta, franzindo os olhos para a luz do archote que o guarda segurava.

    — Perdão por despertá-lo, jovem senhor. Mestre Scalco pede para chamá-lo — sussurrou o homem, sem erguer os olhos para encarar Odilon.

    Era um homem de Jacke. Odilon lembrava de vê-lo várias vezes servindo-se de um vinho à mesa do cavaleiro. O velho Scalco detestava a lentidão dos serviçais comuns. Sempre preferia fazer do homem que o guardava vagar pelo castelo fazendo suas vontades.

    Odilon sempre se perguntou o que ele faria caso um assassino surgisse para tingir aquele pescoço flácido de vermelho enquanto o guarda a seu serviço ia até a cozinha requisitar bolo seco e chá.

    — Quanto falta para o amanhecer? — perguntou, sentindo uma ardência incomodar o olho.

    — A terceira vigília acaba de se iniciar, meu senhor.

    Odilon grunhiu e fechou sua porta.

    Tentava imaginar o que o velho desejava, então chegou a resposta no tempo em que levou para vestir uma roupa que afastasse o frio da madrugada.

    Saiu do quarto, passando pelo mesmo guarda,  que ficou esperando-o e o seguiu pelo corredor mal iluminado.

    O antigo castelo dos Erdon cheirava a fumaça devido aos archotes sempre acesos espalhados pelos corredores. Jeandey Erdon, o pálido, detestava a luz do sol ao ponto de nunca ser visto enquanto fosse dia, e por isso fizera a sede de sua casa sem nenhuma janela, contando apenas com passagens feitas nas paredes rochosas, para que o ar circulasse pela construção.

    Odilon divertia-se do fato de um grande feito de engenharia como aquele castelo ter sido causado por tão estupido motivo.

    Tudo sempre ocorre pela estupidez de alguém, pensou ao se aproximar dos aposentos de Scalco. Não eram tão longe dos seus. Apenas o suficiente para que os dois não se encontrassem não havendo necessidade, como também próximos o suficiente para que Odilon não andasse tanto quando houvesse.

    Um dos guardas que o escoltaram desde seu quarto bateu a porta do velho homem, que a abriu momentos depois.

    — Entre, jovem senhor. Estávamos à sua espera — disse com uma reverência de cabeça.

    Odilon não precisou pensar muito em quem também devia estar lá, acertando os rostos que julgava encontrar.

    — O jovem senhor aparenta sono? — comentou sir Jacke, encostado de braços cruzados contra uma parede. Vestia uma jaqueta de pele castanha, cosida com linhas negras. Não parecia ter acordado a pouco tempo, ou sequer parecia ter dormido.

    Odilon o ignorou, prestando uma vénia ao outro homem que aguardava.

    — Senhor de Erdon, lamento o incómodo de o fazer vir até aqui — cumprimentou o homem de rosto afiado e sobrancelhas finas que sentava na frente de uma prateleira repleta de frascos com os mais variados conteúdos preservados em resina rosa.

    Conde Jandour Erdon fez uma vénia, ele mesmo, e se pôs a falar.

    — Sou eu o culpado por tal incômodo, jovem senhor — disse ele com sua voz fanhosa. — Recebi uma carta endereçada a ti com o selo secreto de vosso pai, vinda de Sepulcro Rubro — o nobre retirou um papel selado com uma imagem de corvo na cera negra.

    Os olhos de Odilon estreitaram a menção do nome da fortaleza dos Fréive. Sir Jacke endireitou sua postura para uma mais condizente com a de um soldado. Scalco umedeceu os lábios rachados com sua língua gosmenta antes de falar.

    — Ainda não a abriu, senhor?

    Os olhos do senhor de Erdon pousaram no velho alquimista.

    — O selo não foi rompido, como se pode ver — disse apertando o maxilar a cada palavra fanha.

    Odilon suspirou.

    — Creio que seja melhor sabermos o conteúdo da carta de uma vez — Estendeu a mão, pedindo-a e quase a arrancando do conde. 

    Quebrou o selo e a abriu, lendo seu conteúdo em silêncio. Sabia que os olhos de todos estavam sobre ele. Curiosos sobre os preparativos. Preocupados com as apostas lançadas ao vento. Aflitos por nada ele falar até terminar de ler a carta.

    Sentiu vontade de sorrir, mas não o fez.

    Odilon tirou os olhos do papel e vagou até a vela mais próxima, queimando-o. Virou-se para os três que aguardavam em silêncio, até conde Erdon perguntar:

    — Então, do que se trata essa mensagem?

    Odilon olhou para as próprias mãos. Sentia o frio da madrugada enrijecê-las, então apertou levemente os nós dos dedos de uma mão com os da outra, puxando e os estalando.

    — Nosso homem na casa dos Fréive diz que o cavaleiro responsável pelas terras a noroeste de Gauss chegou a Sepulcro Rubro, junto a uma companhia de cerca de cem homens — contou, sentindo o alívio nos dedos.

    — Cem homens apenas? — questionou conde Erdon, engolindo parte das letras.

    Odilon entendeu apenas a terceira palavra.

    — M-menos, meu caro conde. Se tirarmos os que já faziam parte dos homens de sir Belanger, talvez esse número se reduza para menos da metade — corrigiu Scalco, com sua voz trêmula.

    — Reúno mais homens do que isso mijando no portão da minha fortaleza — comentou o conde, cruzando os braços.

    — Cem homens para um pequeno vilarejo é muito, caro senhor Erdon. O suficiente para fazerem total diferença em uma batalha — Jacke comentou, olhando as unhas.

    — Não percam o tempo com tal detalhe — comentou Odilon. — Nosso homem lá nos diz que muito em breve eles estarão partindo para Repouso das Garças. O conde, seu filho, assim como outros nobres vassalos seus.

    Como Belanger.

    — Se assim é, podemos montar uma emboscada na estrada que tomarão e eliminar parte da facção do primeiro príncipe em meia tarde — anasalou o nobre Erdon.

    Odilon pôde ouvir a língua de Scalvo lamber os lábios antes do velho se pôr a dizer.

    — Não será sábio, nobre senhor. O intuito de nossos preparativos é comprometer os planos do inimigo, desviando a atenção deles para isso enquanto nós…

    — Enquanto nós cortamos suas cabeças de forma lenta — Sir Jacke Arnault declarou, com uma voz quase luxuriosa.

    Conde Erdon mexeu o maxilar, erguendo os lábios, como se mastigasse algo amargo.

    — Estou cansado de tantos planos, e tão pouco me agrada este. Em meus tempos as rixas eram resolvidas em campo aberto.

    — E esta será, nobre senhor, muito em breve — esclareceu Odilon, terminando de apertar os nós dos dedos. — E quando este momento chegar, esperamos que teus cavaleiros nos sirvam muito bem.

    O conde fez uma breve e quase respeitosa reverência.

    — Algo mais diz a carta, jovem senhor? — perguntou Scalco a Odilon, que não se apressou a responder, virando lentamente o pescoço em direção ao homem encurvado.

    — Nada além do vos disse. Mas diga-me, há novas da companhia despachada para as terras dos Faux? 

    — A última mensagem que recebi faz uma semana, meu senhor. E dizia que sir Mellys havia adentrado o sudoeste da floresta de Gauss com seus quinhentos homens.

    Odilon assentiu. Tal missão era tão importante que o pai tinha se despojado de seu leal cão de guarda para cumpri-la.

    — Que Elday o proteja em meio àquela floresta amaldiçoada. A ruína dos Fréive virá da ganância sobre ela — lamentou conde Erdon.

    — Se tudo ocorrer como planejado, ela virá muito em breve — brincou sir Jacke.

    — E sir Faucher? — desejou saber Odilon, vendo Scalco limpar a boca salivante.

    — Nada dele sabemos, embora isso seja esperado.

    — Espero que ele não tenha se tornado mais animalesco depois do tempo naquela floresta — zombou Jacke com seu típico sorriso.

    Conde Erdon tossiu.

    — Há algo que ainda não entendi, senhores — anunciou. — Como passarão pelas criaturas que lá vivem? Entendo que goblins são seres frágeis a princípio, no entanto não vejo como quinhentos homens possam fazer uma travessia ilesa a milhares deles, como dizem existir naquele lugar.

    Scalco balbuciou algumas palavras enquanto tentava responder e Odilon o interrompeu.

    — Sir Mellys dará um jeito. No momento, devemos nos preocupar com nossa parte.

    — Nossa parte? — A cansativa voz fanha do Erdon perguntou.

    — Encontraremos com a princesa muito em breve. E devemos protegê-la da trama de assassinato do príncipe.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota