Índice de Capítulo

    Uma nuvem negra no céu branco. Aves carniceiras nos picos montanhosos feitos de milhares de crânios inimigos. A areia do deserto a saudá-lo, com seu manto intransponível. De um belo sonho Burak fora despertado.

    Desejava dormir um pouco mais, sonhar um pouco mais, desejando que o sonho se tornasse realidade.

    Mas o anfitrião o chamara. E se o chamara, deveria ir. Embora seu senhor Baaz tenha demorado muito para fazê-lo. Burak imaginava se Saadi tinha algo a ver com isso, tendo certeza que sim.

    Controlou um bocejo enquanto andava com passos pesados até o lugar da reunião, ignorando os homens menores do que ele, que olhavam para seus pés enquanto ele passava, incapazes da coragem que o fez adquirir uma arma como aquela que agora levava na cintura. Incapazes de segurá-la.

    Sim, uma arma que até o feiticeiro desejava, podia perceber. Desejava, mas não a teria.

    Ele atravessou as portas de pedra, entrando no largo espaço que tantas vezes fora recebido, um lugar com algumas boas lembranças, e um fedor asqueroso.

    O salão de audiência do Anfitrião cheirava a cinzas e óleo queimado das lamparinas que pareciam em sempiterna queima, como se para afastar o frio e a escuridão que cobria todo aquele mundo.

    E no entanto meu senhor Baaz não se atreve a ir para a superfície, o pensamento o atingiu como seta disparada por um arqueiro.

    Deixou-o de lado, ajoelhando-se em reverência ao homem sentado no cadeirão à frente.

    — Erga-te, Burak, servo leal meu — declarou Baaz.

    Vestia uma vestimenta composta por uma camisa de três diferentes cores costuradas em padrões triangulares, e calças de tecido grosso, muito semelhante às usadas pelos prisioneiros da caravana atacada. Braceletes de ouro, prata e ferro adornavam seus braços e um chapéu com uma pena, a sua cabeça.

    Ao seu lado, Burak viu o rosto abominavelmente branco do feiticeiro, tal como sempre estava. Os olhos amarelos brilhando como lagartas erichnas prestes a devorar as lavouras de cactos.

    — O anfitrião me chama? — perguntou Burak voltando sua atenção para o seu senhor.

    — Te chamo, pois muito desejo saber de tua parte sobre a expedição por ti liderada — declarou o anfitrião em sua voz imponente. Agradável aos ouvidos de Burak. Embora já tenha sido mais em outros tempos.

    Burak assentiu.

    — Capturamos muitos hereges invasores, meu senhor. Sua bagagem agora ornamenta os tesouros da vila. As cabeças dos homens que resistiram foram deixados para as criaturas do deserto. As mulheres mais belas receberam de bom grado a semente dos nossos homens. E as crianças darão bons cultivadores e criados domésticos aos nossos residentes — comentou com a boca apertando-se num sorriso orgulhoso. — Muito embora — continuou ao olhar para o feiticeiro —, nada vimos do que fomos buscar, pois temo que vosso conselheiro tenha errado a respeito dos tais tomos de que tanto lhe falou.

    Burak olhou para o rosto do feiticeiro, esperando ver ali nervosismo, medo, ou algo que fosse, mas Saadi nada esboçou. Continuou com seu olhar satisfeito e indiferente.

    Baaz voltou sua atenção para o feiticeiro.

    — Já discutimos sobre tal coisa, e muito em breve teremos em nossa posse os tomos — declarou, tornando a olhar para Burak.

    — Mandará mais homens atrás dele, meu senhor Baaz? — perguntou Burak, franzido o cenho.

    — Já foram enviados por Saadi — afirmou o anfitrião.

    — Não compreendo. Por quê lançar outra expedição por algo que sequer temos conhecimento das capacidades, além do que o feiticeiro nos diz?

    — Não lhe é necessário compreender nada. Se digo que devemos tê-lo, então está decidido. Afinal tudo o que está na passagem é nosso, sejam as vilas, ou os tomos — respondeu secamente Baaz. A voz soando como o raspar de unhas na rocha sólida.

    A língua de Burak agitou-se amargosa em sua boca, e seus joelhos de repente se tornaram desconfortáveis ante o peso do resto de seu corpo. Baixou a cabeça, percebendo o quão incômodo era aquele movimento, e as palavras pareciam espinhos perfurando sua boca e garganta quando respondeu.

    — Perdão, meu anfitrião, apenas não entendo sua importância.

    Apertou os dentes após falar, e depois ainda mais quando uma voz macia o respondeu.

    — Perdoe-o, meu senhor Baaz. Este é um guerreiro, não um sábio. Não entende as sutilezas que as palavras antigas possuem — sibilou Saadi.

    Burak ergueu a cabeça, encarando o feiticeiro com intensidade.

    — Além do mais, os enviei enquanto ainda estávamos a caminho da vila. Nenhum problema há, então — prosseguiu ele, abrindo os lábios finos.

    — Como bem ouviu, nada tem a reclamar — declarou.

    — Sim, a expedição foi um sucesso, de fato. Consegui mais além dos tomos. Muito embora algo valiosa tenha escapado.

    Burak franziu o cenho, sentindo o cheiro singular do óleo de cacto queimando nas lamparinas. Lembrou-se dos prisioneiros que Saadi exigira posse, e que um deles havia fugido no meio de uma confusão causada por um ataque inimigo. Não se importara com isso antes. Tão pouco se importava naquele momento. O feiticeiro sim. E isso o alegrava.

    — Vejo também que adquiriu uma nova arma — observou Baaz. Seus olhos, espremidos entre pálpebras gordas, seguiram para a cintura de Burak, onde se via a empunhadura de sua espada recém adquirida.

    — Sim, meu senhor — Sua boca pareciam pedras raspando-se uma na outra enquanto falava.

    — Dei-me — ordenou o anfitrião. A voz grave pareceu rasgar os ouvidos de Burak.

    Como se suas pernas estivessem coladas no chão, ele precisou de um esforço anormal para se erguer. Os braços pareciam querer desobedecê-lo quando retirou a cinta com a empunhadura.

    Os passos que deu lhe pareceram cada vez mais longos, e ao mesmo tempo curtos, enquanto os dava, até estar ao alcance do anfitrião. Depositou a arma sob seus pés, e permaneceu parado, sem desejar se mexer até que um aceno de Baaz o espantasse.

    Burak se afastou, apertando os punhos. Então algo estalou em sua mente. Por um momento, enquanto segurava a espada, uma sensação estranha lhe sobreveio. Algo que nunca pensara ou percebera.

    — Tenho ouvido conversas sobre essa arma. Relatos sobre suas capacidades — comentou o anfitrião. — Sabe algo a respeito dela, Saadi? — olhou para o feiticeiro.

    — Muito pouco, meu senhor. Pelo que pude perceber, é uma arma de um lugar distante. Além do mar dourado, ou do azul. Um lugar a que chamam de terras verdes — comentou o feiticeiro.

    Os dentes de Burak rangeram ante a menção daquele nome profano.

    Nada existia além do grande deserto. Nada. Nisso tinha total certeza. Como poderia ter algo além do deserto, da passagem? Do cadáver de Eresh e do juízo de Ash’hurr?

    Fantasias do estrangeiro, isso era. O homem que corrompia a vila com suas tolices. Baaz fizera um bem aos céus por exilá-lo no expurgo ao tornar-se anfitrião. Seu único erro fora deixar as filhas vivas por uma delas ter uma benção, ao invés de lavar as sementes podres.

    Ao menos uma delas havia morrido na expedição.

    Burak sempre detestara abençoados. Nenhum homem deveria ter capacidades que outros não tinham. Que ele não tinha. Porém agora ele tinha uma capacidade que poucos tinham. Uma que poderia subjugar até o mais forte abençoado. Uma que naquele momento estava sendo entregue a outro homem.

    Ele observou enquanto Baaz tomou a arma em sua mão. O rosto do homem apertou-se em uma expressão lamentosa. Não mais do duas respirações levou até Burak vê-lo estremecer enquanto seus gritos reverberavam pelo salão de audiências preenchido pelo cheiro das lamparinas acesa. Que agora era sobrepujado pelo de carne queimada.

    O antes grande e orgulhoso anfitrião soltou a arma no chão, encolhendo-se em volta do braço, onde uma fumaça emanava da mão lacerada.

    Os servos saltaram para perto de seu senhor, e guardas surgiram pelas entradas secretas, prontos para protegê-lo. Nada viram se não um homem velho e um tanto gordo rolando pelo chão em volta do braço de forma quase suplicante.

    Burak permaneceu onde estava, olhando-o. Então, num momento, voltou sua atenção a Saadi. O feiticeiro mantinha sua expressão de indiferente satisfação, devolvendo o olhar.

    — Afastem isso de mim! Levem para longe! — Ouviu o anfitrião bradar.

    Um dos guardas tomou a espada em sua mão, erguendo-a poucos centímetros até o som de carne torrando ser ouvido, junto de seu grito. Soltou-a, caindo ele também no chão.

    Os outros se afastaram da arma. Então Burak decidiu se mover.

    Caminhou com passos mais confiantes do que já percebera de si mesmo, e tomou a arma em sua mão, sentindo a força por ela emanada espalhar por seu corpo.

    Vermes cortando a areia, raízes marrons infiltrando na rocha, o bico de uma ave carniceira perfurando um crânio.

    Sentiu a energia se apossar de seu corpo, e a dominou, como sempre fizera.

    Dominou e a ergueu, com o calor fluindo da lâmina ainda embainhada e os olhos dos demais sobre ele. Seu espanto, sua inveja. Sua admiração.

    Então olhou para o anfitrião. O senhor de toda a vila. Baaz, aquele que dominaria toda a passagem. O único homem acima dele ali. Mais uma vez um estalo retiniu em sua mente. O mesmo pensamento de antes.

    Quão fácil seria desembainhar tal arma, e tornar-se anfitrião num fumegante golpe de espada?

    Uma voz desprezível tirou-o de seus desejos.

    — O anfitrião está indisposto. Creio que devamos levá-lo para seus aposentos. Não concorda, guerreiro? — disse Saadi, olhando para ele com seus olhos amarelados.

    Burak respirou fundo e olhou-se, percebendo que a mão estava na empunhadura da espada, prestes a retirá-la.

    — É como o diz, feiticeiro — concordou, endireitando-se e amarrando novamente o cinto em volta da cintura.

    Acompanhados por Saadi, uma dúzia de servos e guardas levaram Baaz por uma saída lateral em direção aos seus aposentos senhoriais. Burak os observou partir, e então foi por seu próprio caminho, sem rumo entre as vielas e corredores da vila. 

    Homens inferiores, pensou, lembrando da expressão do anfitrião após tentar empunhar a arma e não conseguir.

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