Índice de Capítulo

    Chega uma onda de frio – Parte III


    Os que sofriam maior censura em Heinessen eram um grupo de refugiados que, menos de seis meses antes, se gabavam de formar o “Governo Imperial Galáctico Legítimo”.

    Tendo em seu poder o Imperador Erwin Josef II, que havia “fugido” da capital imperial de Odin e contando com o poder militar da Aliança dos Planetas Livres, eles derrubariam a ditadura militar de Reinhard von Lohengramm. De acordo com seu pacto com a Aliança, uma mudança para um sistema constitucional era inevitável, mas, sob esse sistema, a soberania e os privilégios da antiga nobreza seriam restaurados e aqueles que não conseguiram evitar a deserção recuperariam muitas vezes tudo o que haviam perdido. A tela de sua autodeterminação estava sendo rasgada em pedaços diante de seus olhos. Aqueles incompetentes não tentariam mais pintar um quadro agradável da realidade dissolvendo suas tintas em água com açúcar.

    Esses eram os pensamentos de Bernhard von Schneider, a quem o chamado governo legítimo havia concedido o posto de comandante. Sendo um espécime inteligente, von Schneider não tinha a menor ilusão sobre o castelo no ar dos nobres exilados, construído inteiramente com base em desejos. Embora não se sentisse desesperançado, ele também não podia agir como se estivesse assistindo a essa farsa de um ponto de vista privilegiado. O objeto de sua lealdade, Wiliabard Joachim Merkatz, desde que desertou do império, não era mais tratado como um “Almirante Convidado”, mas, como Secretário de Defesa do Governo Imperial Galáctico Legítimo, ele estava relutantemente organizando um novo regimento. Mesmo enquanto trabalhava incansavelmente como assessor de Merkatz, von Schneider pensava intensamente sobre o futuro.

    Se a Marinha Imperial invadisse pelo Corredor Phezzan, as chances de vitória da Aliança seriam mínimas. Mesmo com a engenhosidade incomparável de Yang Wen-li ao seu lado, a balança estava equilibrada, na melhor das hipóteses. Na visão de von Schneider, o pior cenário era mais do que provável.

    O máximo que a Aliança poderia esperar era um cessar-fogo e reconciliação. Como parte dessa reconciliação, os altos escalões do “governo legítimo” precisariam ser punidos. A paz seria apenas uma medida temporária. Se quisesse reconstruir suas forças, a Aliança precisaria enfrentar seu egoísmo nacional, o que significava que o “governo legítimo” se tornaria seu bode expiatório. E o Imperador de sete anos, Erwin Josef, estaria sendo levado direto para o local de sua execução.

    Von Schneider sentia dor ao pensar naquela criança infeliz. O imperador infantil, cuja vontade havia sido ignorada em tudo isso, que havia sido explorado como um suporte para a política e as ambições dos adultos, merecia simpatia. Mas von Schneider não podia mais se dar ao luxo de pensar no futuro do Imperador. Ele precisava dedicar todos os seus esforços para proteger Merkatz do ciclone político que estava prestes a atingi-los. Além disso, como ia contra a consciência de Merkatz proteger sua própria segurança às custas dos outros, von Schneider precisava mostrar sua preocupação com Merkatz enquanto fingia indiferença emocional. A expressão de von Schneider se tornou mais intensa e astuta. O jovem soldado olhou-se no espelho, lembrando-se de uma época na capital imperial de Odin, quando era conhecido pelas damas da corte como doce e bonito. Como um homem falido ansiando por sua antiga extravagância, ele se afundou em seu desânimo.


    Von Schneider, no entanto, tinha uma responsabilidade voluntária e uma perspectiva de futuro, enquanto a maioria das pessoas nem mesmo conseguia entender o que deveriam fazer para superar o dia de hoje, muito menos o de amanhã. Mas o Primeiro-Ministro Interino do Governo Legítimo, o Conde Jochen von Remscheid, ficou desequilibrado quando a situação excedeu suas expectativas e só se pode imaginar quantos dias ele passou tentando restaurar seu equilíbrio. Os nobres exilados, sem opiniões fixas e que, sob a influência do Conde von Remscheid, dormiam em um jardim de otimismo, perderam sua razão de ser como objetos do escrutínio sarcástico de von Schneider.

    Desde que fugiu com Erwin Josef de Odin, o Conde Alfred von Lansberg foi empregado como Subsecretário Militar do Governo Legítimo. Sua lealdade ao Imperador infante 1 e à dinastia Goldenbaum era inabalável, mas, como um homem poético não apenas no coração, mas também na mente, doía-lhe não ter elaborado nenhum plano concreto para proteger a família real. O ex-capitão Leopold Schumacher, que o ajudara a se infiltrar na capital, nutria um sentimento nada pequeno pela traição da tradição pela família real Goldenbaum.

    Não saber do bem-estar de seus subordinados em Phezzan o deixava bastante inquieto. Ambos se sentiam impotente, e tudo o que podiam fazer era evitar que suas emoções caíssem no abismo.

    A primeira reunião do Gabinete do Governo Legítimo no ano novo foi convocada às pressas, mas dos sete ministros do gabinete, nem o Secretário das Finanças, Visconde Schaezler, nem o Secretário da Justiça, Visconde Herder, estavam presentes.

    Entre os cinco que estavam presentes, o Secretário da Casa Imperial, Barão Hosinger, estava furioso como um dragão guardando seu tesouro alcoólico. A garrafa de uísque em sua mão circulava silenciosamente pela mesa de conferência. Até mesmo o Secretário de Defesa, Almirante Merkatz, mantinha um silêncio pesado. Isso deixou o debate sobre o futuro do governo no exílio nas mãos de três homens: o Primeiro-Ministro e Secretário de Estado, Conde von Remscheid, o secretário do Interior, Barão Radbruch, e o Secretário-Chefe do Gabinete, Barão Carnap.

    Como a incubação de um ovo não fertilizado, o debate foi um esforço sério, mas fútil, e foi interrompido pelo riso histérico do Secretário da Casa Imperial. Banho de olhares de raiva e reprovação, Hosinger esticou seu rosto azulado-escuro em uma exibição ostensiva. “Que tal dizer a verdade, meu nobre e leal cavalheiro. Você não está nem um pouco preocupado com o destino da Dinastia Goldenbaum. Você só se preocupa com sua própria segurança, você que desafiou descuidadamente o Duque von Lohengramm. E quando aquele pirralho dourado pisar em nosso solo como vencedor, onde você vai se esconder?”

    “Barão Hosinger, tem certeza de que quer manchar seu nome em um acesso de embriaguez?”

    “Não tenho um nome para manchar, Excelência, Primeiro-Ministro. Ao contrário de você.” Seu riso era repugnante e seu hálito cheirava a bebida.

    “Eu posso gritar dos telhados coisas que vocês nunca diriam por medo de arruinar suas preciosas reputações. Entregar Sua Majestade, o jovem Imperador, ao Duque von Lohengramm, por exemplo, apenas para ficar do lado bom dele.”

    Ele esperou com a respiração suspensa pelas reações de seus colegas, cujo orgulho ele havia ferido com uma lâmina imaterial. Até mesmo Merkatz ficou momentaneamente sem palavras e olhou para o Secretário da Casa Imperial com horror. O Secretário do Interior, Radbruch, chutou sua cadeira ao se levantar de um salto.

    “Bêbado sem vergonha! Quando você perdeu sua integridade como nobre imperial? Você esquece as inúmeras graças e honras que o Império lhe concedeu e pensa apenas em sua própria segurança, seu…”

    Incapaz de encontrar o insulto apropriado, Radbruch ficou sem fôlego e, em vez disso, olhou para Hosinger com cara feia. Ele procurou apoio na mesa redonda, mas nem mesmo o Primeiro-Ministro e Secretário de Estado, Conde von Remscheid, fez qualquer esforço para desfazer o emaranhado desse silêncio tenso, mesmo que fosse apenas porque ele entendia que o verdadeiro oponente de Radbruch não era Hosinger, mas o monstro do egoísmo que erguia sua cabeça feia sob sua própria consciência vergonhosa.

    Esse confronto não era pouca coisa. Com exceção de Merkatz, a participação deles no governo no exílio era, de fato, resultado de interesses próprios e, quando esses interesses falhavam, outros inevitavelmente tomavam seu lugar em seus corações. A ideia de que eles haviam entregado o Imperador criança ao Duque Reinhard von Lohengramm para salvar suas próprias peles, embora fosse um salto intuitivo tentador, era suficiente para mergulhá-los em uma auto-aversão tão profunda que o álcool era sua única defesa contra ela.

    Para complicar ainda mais o humor dos líderes do governo exilado, estava o fato de que o objeto de sua lealdade, o Imperador infante Erwin Josef, não poderia se importar menos com sua simpatia. Nunca tendo aprendido a suprimir seu ego e inconsciente de que o expressava apenas através de ataques violentos, esse menino de sete anos emocionalmente instável, aos olhos de seus súditos cansados, era também uma manifestação de seus demônios mais íntimos. Sua lealdade não passava de narcisismo refletido no espelho distorcido que era Erwin Josef. Naturalmente, porém, nada disso era responsabilidade de uma criança de sete anos que fora arrancada de seu trono involuntário tão rapidamente quanto o assumira. Dos adultos que o admiravam e respeitavam com afeto formal, nenhum jamais assumira a responsabilidade pelo desenvolvimento de seu caráter.

    Erwin Josef não era mais digno de ser chamado de Imperador. A mais de dez mil anos-luz de distância, na capital imperial de Odin, uma mudança no senhor do trono já estava em andamento. Após a partida de Erwin Josef, no trono de ouro e jade sentava-se uma criança cujos dentes ainda não haviam nascido: a “imperatriz” Katharin Kätchen I. Ela era a soberana mais jovem da história do Império Galáctico e também seria a última governante da dinastia Goldenbaum, fundada por Rudolf, o Grande, cinco séculos atrás. Erwin Josef já estava listado nos registros públicos como um “Imperador Destronado”.

    Quando o fluxo político-militar de eventos entre o Império despótico de Lohengramm e a Aliança dos Planetas Livres passou de um riacho rápido para uma cachoeira violenta, o estado de espírito dos nobres exilados foi inevitavelmente abalado. O interesse próprio reinava supremo — o suficiente, como Hosinger havia comentado descuidadamente, para cegá-los ao fato de que haviam entregado o “Imperador Destronado” ao seu inimigo mortal Lohengramm para se protegerem. Por mais que tentassem negar, eles haviam superado sua vergonha e entregado o Imperador nas mãos do inimigo, sem nenhuma garantia de que o Duque von Lohengramm os perdoaria. Na verdade, era provável que ele os perseguisse e punisse severamente por sua traição e jogo sujo.

    Fugir das forças invasoras na crença de que um dia a dinastia Goldenbaum seria restaurada significava uma vida de fuga e vagabundagem. Embora romântico em teoria, na prática tal vida estaria longe de ser fácil.

    Sem a proteção política da Aliança dos Planetas Livres ou a influência econômica e capacidade organizacional do Domínio Terrestre de Phezzan, além de carecerem até mesmo de poder militar incipiente, era improvável que conseguissem levar uma vida fugindo em território inimigo. Por mais que esses nobres pudessem ter carecido de previsão, eles não podiam ser tão inconscientes assim. No final, não havia saída à vista. Sabendo que era inútil, von Remscheid sentiu pena de Hosinger e encerrou a reunião, tendo atingido o limite de sua fadiga.

    Outra assembleia séria, mas improdutiva, de nobres exilados foi realizada no dia seguinte. Mas Jochen von Remscheid, atuando como Presidente, se deparou com cinco cadeiras vazias e o Secretário de Defesa Merkatz sentado sozinho em silêncio. Von Remscheid havia sido abandonado.

    1. https://dicionario.priberam.org/infante []

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota