Capítulo 521: Um Pouco de Treino Não Faz Mal
Juno não se lembrava da última vez em que sentira algo tão próximo de conforto. Havia um calor silencioso em estar cercada por pessoas em quem confiava — gente que carregava, nos gestos e nos olhares, o mesmo pacto não verbal de proteger aquilo que consideravam importante. Aquilo a fazia lembrar de quando ainda fazia parte de um grupo, antes que o mundo tivesse se tornado tão afiado.
Vinigo não era uma ameaça. Ela sabia disso. Pela forma como ele observava, como escolhia as palavras e evitava o confronto direto, só queria consertar algo quebrado em casa. Mas não encontraria respostas ali. Ainda assim, todos se moveram juntos quando ouviram falar do inimigo — sem hesitar, sem perguntas.
Quando o viu partir de mãos vazias, levando consigo apenas o peso de uma derrota moral amarga, Juno deixou os ombros cederem um pouco. O corpo finalmente aceitou o descanso que a mente ainda recusava.
— Estava com receio deles? — a voz de Veronica veio áspera, quase cortante. — Nem cem deles seriam capazes de te derrotar.
— Não é isso. — Juno não virou o corpo. As pessoas já começavam a retornar para a Cuba, em pequenos grupos. Arsena e Magrot acenaram de longe; ela respondeu erguendo a mão, um gesto simples. — Ainda estou pensando naquele dia.
Veronica hesitou. Houve um silêncio breve, pesado.
Dinamite passou por elas com vários dos seus, vindos da Zona Cega, a voz ecoando pelo espaço aberto:
— Ei, menina dos raios. Quer treinar depois?
Juno sorriu. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro.
— Me espera no pátio. Vou te fazer comer poeira de novo.
Dinamite gargalhou e seguiu andando. Os que vinham com ele trocaram olhares rápidos, meio incrédulos diante daquela naturalidade com algo tão violento quanto o treino. Quando se afastaram, o silêncio voltou a se espalhar, lento, ocupando os espaços deixados.
Juno sentiu o desejo antigo se reerguer dentro dela. Queria ser mais forte. Queria ser alguém em quem Clara pudesse confiar de olhos fechados — como confiava em Marcus, em Jix, em Dante.
Ela os avistou então. Clara, Dante e Jix parados em outro prédio. Os dois mais velhos ainda sentados, conversando sem pressa, como se o tempo lhes pertencesse. Clara permanecia ereta, calma, quase imutável — um lembrete silencioso de que a Cuba era forte porque pessoas como ela existiam.
— O Rastro não vai sumir — disse Veronica.
Enquanto falava, o corpo dela começou a mudar. Carne e ossos se desfizeram em filamentos esbranquiçados, que se retraíram e penetraram novamente em sua forma, como fios retornando ao tear.
— Se quer aprender a lidar com essa sensação — continuou —, vai precisar enfrentar um monstro do mesmo tipo.
Veronica inclinou a cabeça, os olhos fixos em Juno.
— Eu te empresto minha habilidade.
Ela voltou por último. Em vez de usar os raios para se movimentar, aproveitou o tempo para caminhar. Os prédios destruídos e as casas destroçadas pelo tempo, consumidas pela vegetação era a paisagem habitual da cidade.
O cheiro das flores, das árvores, do tempo que armava para chover pouco, lembrava de quando parou ali em Kappz. Sua mente se dividia em algumas lembranças, do Capitão e dos seus antigos aliados, até o Rastro e sua quase morte.
Não fazia ideia de que seriam dias tão intensos. Quanto mais tempo passava, mais a Cuba se desenvolvia. Duna era uma máquina estranha que gostava de pensar fora da caixa e trazia muitas inovações.
Ouvia o som de marteladas e também de algum objeto elétrico furando as pedras quanto mais perto da Cuba. Duna queria criar uma espécie de córrego, ligando o esgoto para que não haja problemas com o cheiro ruim. E também estava preparando a estufa gigante, com Rupestre, um pouco mais distante.
A Cuba tinha se tornado independente. Comida, energia, pessoas…
— Aquele velhote tinha dito que precisava de mim para algo. — Veronica se desgrudou do seu corpo novamente, materializando-se em carne e ossos. — Não se preocupe, não estarei longe. Sua Energia Cósmica atual consegue me manter nesse corpo por muito mais tempo.
— Cuide-se.
Veronica não se mexeu, ainda fitando-a.
— Sua mente se torna mais fraca se suas dúvidas chegam primeiro que as perguntas. Existe diferente nelas. Afie sua mente fazendo o que seu corpo pede. — Ela deu de costas, partindo na direção dos sons de construção. — Só existe uma pessoa na Cuba que pode nos levar ao extremo, garota.
Eu sei disso, respondeu mentalmente.
Seus pés a levou até o pátio externo da Cuba. Ali, os moradores já se reuniam para tomar café, conversar sobre as coletas e outros, que seguiam a ronda, seguir suas rotas para verificarem se tinham Felroz espalhados.
— Ei, Juno. — Tifany se aproximou correndo. Era uma das garotas que treinava com Leonardo e Gerhman. — Eu soube do que aconteceu lá fora.
— Só uns desavisados. — Ela sorriu. Tifany era um ano mais nova, e um olhar puro e tranquilo. — Viu Clara e Dante por ai?
— Clara entrou para conversar com o senhor Leonardo e Marcus. O senhor Dante está no pátio dele. — Ela segurou as duas mãos, prendendo a ansiedade. — Vai treinar? Posso ir ver? Por favor, por favor.
— Vai ficar pior do que Dinamite se continuar querendo treinar assim. — Juno deu uma risada e concordou. — Dante treina sozinho, mas não sei se você consegue aguentar o ritmo dele. É muito diferente.
Tifany não parecia sequer com medo.
— Eu já vi ele treinando os outros. Até o senhor Leonardo diz que é difícil vencer ele mesmo sem habilidade. — Ela a encarou, extremamente curiosa. — Consegue me dizer como ele era antes? A força dele era imensa mesmo como todo mundo diz?
— Sendo sincera, é até difícil descrever. — Juno lembrava a primeira vez que enfrentou. — Ele conseguiu me imobilizar com alguns golpes, e estava se segurando tanto que qualquer movimento errado eu poderia morrer. Teve vezes que ele fez o céu se abrir. E limpou um Lagmorato com Marcus sozinho, isso eu não vi, mas todo mundo diz que ele lutou contra um Felroz Mutante e venceu na base dos punhos.
A garota parecia prestes a se derreter nas histórias. Juno também gostava de ouvir e contar elas. Mais ainda, gostava de vê-lo. Assim que abriu as duas portas de ferro que dava para o pátio de treino de Dante, isolado e restrito para quase todo mundo, deu de cara com uma cena inesperada.
Dinamite e Secure trocavam movimentos. Corriam e usavam suas habilidades para se locomover mais rápido, mais precisamente, e mais letal do que antes. E seu inimigo, era o próprio Dante. Os dois punhos erguidos e as pernas separados, com um pequeno impulso, desviou do soco de Dinamite, segurando seu pulso em seguida e seus sentidos focaram onde Secure apareceu.
Secure conseguia trocar de lugar com qualquer coisa que tinha Energia Cósmica, e isso também colocava Dante como um lugar de troca.
Secure trocou de lugar com Dante. Dinamite foi solto e respirou pesadamente.
— Isso é estranho — Juno ouviu Dinamite comentar, enquanto ela e Tifany se aproximavam. — Ele parece mais forte do que antes.
— E mais rápido também — completou Secure, o peito subindo e descendo com dificuldade. — Já gastei boa parte da minha Energia Cósmica só pra escapar dos movimentos.
Os dois se preparavam para avançar de novo quando Dante mudou a postura. Ergueu o braço com rapidez e acenou, a voz tranquila demais para alguém em combate:
— Juno, Tifany. Vocês chegaram bem na hora.
Os rapazes viraram a cabeça, soltando de uma vez o ar preso no peito. Quando perceberam que aquilo era uma pausa improvisada, se jogaram sentados no chão. O suor escorria de suas testas, pingando no concreto quente.
— Desculpe atrapalhar, senhor — disse Tifany depressa, inclinando levemente a cabeça. — Queríamos treinar um pouco. Podemos ficar para assistir?
— Assistir? — Dante riu, um som curto e fácil. — Juntem-se a eles. Venham com tudo. Um pouco de treino nunca fez mal a ninguém, não é?
Juno adorava isso nele. Não importava a hora ou o lugar, ele mostrava que treinar era tão importante quanto respirar ou comer. A sensação de pertencimento era único, que apenas uma pessoa teria capacidade de entender perfeitamente.
Era por isso que desejava caminhar na mesma estrada daquele que a ensinou. Por isso que sem perceber, os raios começavam a se libertar de seus poros, aos poucos, clareando sua visão e deixando sua mente afiada.
— Não vou pegar leve, Dante — ela deixou avisado e se atirou para frente.
O chão levantou poeira quando seu corpo se riscou no ar em um tom azulado. Os punhos dela foram cobertos por uma armadura fina elétrica azul, e vendo seu inimigo mobilizar os dois braços para confrontá-la, soube que seu corpo ainda não tinha se recuperado completamente.
Mas era impossível avançar sem força. O sorriso, a aura, a presença, a força e energia que o homem na sua frente exalava era como um chamariz para quem quisesse lutar. Era como se Dante fosse o único capaz de segurar tudo o que ela poderia entregar numa luta.
O corpo reagiu com os raios, acelerando os membros e acertando fortemente onde deveria ser o tronco. E encontrou a palma de Dante aberta. O choque fez o ar se mover, mas o homem não saiu do lugar.
Da última vez, ele não conseguiu segurar direito.

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