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    — Marcus, viu Dante por ai? — Clara perguntou ao se aproximar das bancadas de preparação de equipamentos e armas. — Eu procurei por ele em todos os lugares, mas não achei.

    Ainda de costas, os dedos do atirador mexiam diretamente nos trilhos do rifle, recriando e alterando seus componentes um a um.

    — Ele não está ficando mais parado. Deve ter voltado para o pátio que prepararam para ele. Os garotos também foram para lá porque queriam ver ele. — Depois de segurar a luneta, e ajustar seu tamanho para um menor, virou o rosto. — Não sei se percebeu, mas depois que ele voltou do Sul, daquela estranha aventura dele, alguma coisa mudou.

    — Ele ficou mais confiante.

    — Não. — Marcus negou com a cabeça. — Foi algo além disso.

    Clara adorava que Dante tinha retornado depois de tanto tempo, alias, foi ele quem criou a esperança dentro da Cuba. Muitas das conquistas pertenciam ao homem que caiu de um portal no meio da madrugada.

    Por dias, pensou que as lutas seriam eternas, mas os dias se passaram e uma paz se estabeleceu.

    — Depois do Rastro, eu vi que ele perdeu as forças — disse Clara, baixinho. — Achei que agora ele ficaria descansando, apenas ajudando e sendo uma pessoa normal. Mas, fui ingênua, não fui?

    O rifle já tinha sido ajustado e preparado. Marcus o abaixou na bancada, concordando com ela.

    — Bastante. Não é só ele, qualquer um que veio lutando não conseguiria ficar parado. Eu ouvi de alguns que eles preferem morrer lutando do que viver uma vida pacífica. E agora com essas novas cidades aparecendo, eu não sei se os Felroz são o maior problema.

    — Não subestime aquelas bestas. — Sua memória era fresca ainda sobre o passado. — Quando menos esperar, elas aparecem para destruir o que conquistamos.

    — Se vierem — ele puxou o ferrolho do rifle, criando um brilho no cano —, vão precisar de ajuda para voltarem ao buraco deles. Mas, você precisa conversar com Dante sobre isso. Tudo isso. A cidade vai crescer, Duna já informou a todos nós, mas precisamos que ele esteja ciente do que foi conversado no último conselho.

    — Estou procurando ele para discutir isso diretamente. Vamos até o pátio?

    — Estou com a senhora.

    Os dois trataram de caminhar pelo primeiro pátio da cuba. Ali, onde a luz do sol batia, os bancos de madeira e de pedra foram forjados para que os moradores pudessem sentar e conversar. Havia um pequeno jardim sendo cultivado, e nos andares superiores, alguns ramos espalhados junto das luzes.

    A luz era um sinal de clareza e também de proteção. A energia e água provida por Heian, Arsena e Duna foram fundamentais. Depois de criarem um sistema de esgoto, um tratamento de água parcial dentro da própria Cuba, a própria Veronica conversou com Duna, forjando um material didático para que moradores pudessem trabalhar.

    No entanto, o que ainda era um grande problema era a comida. Kalish, mesmo trazendo suas fazendas com as sementes da Zona Cega, ainda tinha um problema de logística muito grande. Cuba era pequena demais para suportar o tamanho de pessoas que viviam lá, por isso, ele ainda precisava ir e vir para entender como a Cuba estava se desenvolvendo.

    O plano era que alguns meses seriam suficientes, mas a mão de obra era curta demais. Para expandir a Cuba, seria necessário mais do que algumas pessoas. E a ideia de Duna era justamente usar uma das maquinarias para derrubar as casas e prédios ao redor, usando do terreno e dos escombros para levantar uma nova remessa.

    O conselho se reunia algumas vezes na semana, mas nunca havia uma voz direta. Ninguém se colocava diante da situação diretamente. Clara não sabia o motivo. Hesitavam antes mesmo de tentar.

    — Ouviu isso? — Marcus levou a mão rapidamente ao coldre na cintura. O som alto de choque. Segundos depois, o vento sacudiu levemente suas roupas. — Alguma coisa está lutando aqui.

    A voz de Juno rapidamente chegou até eles.

    — Rápido, não deixe que cheguem perto. Dinamite, levanta agora.

    — Estou tentando. Secure, troca de lugar quando eles chegarem perto.

    Um outro som e a voz de outra mulher chegou até eles.

    — Merda. Juno, o que eu faço?

    Os dois aceleram o passo, chegando no pátio reservado. O som do choque foi ouvido novamente e o ar desdobrou mais uma vez. Mais forte dessa vez, fazendo Clara forçar a visão. Então, percebeu que os quatro lutavam de verdade, mas não contra um monstro.

    A arma de Marcus foi abaixando lentamente.

    — Alguma coisa realmente aconteceu no sul, senhora.

    Dante usava Lilo como um cavalo no ar, se jogando para todas as direções enquanto flutuava. Ele saltou no ar, de repente, pegando Dinamite de surpresa. O rapaz tinha usado suas explosões para se aproximar, mas se precipitou.

    Os dois braços para trás forçavam as explosões, e quando usou da última vez, ficou exposto ao ataque. Ele não conseguiria se mover para aparar o golpe. O punho de Dante apareceu diante dele. E a resposta foi um raio vindo da direita.

    Os fios elétricos de Juno se enroscaram em seu pulso. Ele parou na parede, com outras dezenas prendendo na parede, dando tempo para Dinamite ter tempo para escapar.

    — Não vai fugir de mim.

    A outra mão se moveu. Rápido e precisa. Dante segurou o colarinho de Dinamite, o girando no enquanto começou a cair, e a outra mão, enroscada de fios, puxou Juno para baixo.

    Ela sentiu o aperto, mas não conseguiu duelar contra a força impulsiva. Foi puxada junto, descendo velozmente. Ouviram a risada de Dante soar mais uma vez, mas quando os três iam chegar ao chão, ouviram um estalo seco.

    Os dois jovens foram trocados por folhas marrons. Dante tocou o chão, curvando a perna e fitando-os velozmente.

    — Ele não está dando tempo para se recuperarem — comentou Clara. — Já o vi fazendo isso contra Leonardo, mas não sei pra que serve.

    — Aumento de raciocínio lógico e reação, senhora. Dante fez isso comigo algumas vezes. Melhorei o saque das armas por causa disso. Ele força você a lutar em um nível acima, e quando você se acostuma, aquilo se torna o seu normal.

    Clara assentiu ao se esgueirar para um local onde havia um pequeno banco de pedra. Ela sentou e Marcus a seguiu.

    — Mesmo sem a habilidade, Leonardo não conseguia derrotar ele numa luta direta — disse Marcus. — Agora está usando os bichos de estimação para conseguir igualar o que tinha perdido. Juno e Dinamite sabem lutar sozinhos, mas são péssimos quando estão em conjunto, sabia?

    — Não. Achei que eles eram bons nisso porque sempre estão duelando.

    — Não, senhora. É muito diferente. Quando eu entrei no Reservatório junto de Dante, nunca tinha lutado com alguém ao meu lado. Havia falhas nos meus movimentos que nunca consegui identificar sozinho. Sua visão, seus sentidos, tudo precisa estar aberto para que possa entender o campo ao seu redor. Um erro contra uma montanha de inimigos e você morre.

    — Não me disse isso quando conversamos — Clara o fitou. — O Reservatório foi um inferno, eu sei disso, mas como realmente limparam aquele lugar?

    — Posso dizer que foi sorte, mas não foi. — Marcus continuava encarando Dante. — Depois de muitos meses pensando, eu cheguei numa conclusão pessoal e espero que não leve para o lado pessoal.

    — Pode falar.

    — Para vencer um Lagmorato e limpar aqueles monstros, você precisa ter pelo menos um monstro igual do seu lado. — Houve um silêncio da parte deles, mas Dante se movia com a ajuda de Lilo e Nolan. Segurava o pelo, mas não estava montado neles, só apoiado lateralmente, arrastando os pés no chão. — Não precisa pensar como eles, nem agir como eles, só precisa ser… um monstro.

    Dante saltou no ar. Dinamite o seguiu com as explosões. No meio do caminho, Juno encurtou o espaço na direita. Secure fez uma troca de pedras com Tifany, a puxando para a esquerda. Eles iriam encurralar o inimigo, o verdadeiro monstro.

    — Mas, Dante é mais esperto, mais forte e ainda mais estranho do que uma criatura que vive protegendo um lugar.

    A voz do velho chegou aos ouvidos deles:

    — Vão deixar seu principal suporte desprotegido? — Os rostos deles viraram para Secure, juntos. Até mesmo Marcus e Clara fizeram. — Pra onde estão olhando?

    Ele rotacionou rapidamente, numa velocidade estranha e anormal demais para quem estava sem habilidades. Seus pés tocaram o alto da parede do pátio, e suas pernas tensionaram.

    — Nick, agora.

    O Sugador apareceu no ar, na frente dos três. Era uma habilidade de camuflagem. E então, uma imensa explosão de água foi enviada para todos os lados. Dinamite esticou a mão para explodi-la, mas algo enroscou em seus dedos, subindo velozmente enquanto aumentava seu tamanho. Lilo enroscou em seu ombro, aumentando e chegando até a perna em segundos.

    Tifany não teve tempo de reação. Foi pega pela explosão de água e enviada para trás, quando bateu contra a parede, uma pata tinha tocado seu peito, obrigando a ficar deitada. Nolan fazia a força de seu corpo contra o dela, num olhar orgulhoso e risonho.

    — Está rindo de mim?

    Juno foi quem reagiu mais rápido, subindo e conseguindo escapar… ou assim esperava. Nick foi mais rápido e genial do que pensava. Quando ela tocou o teto com os raios, dezenas de raízes se libertaram juntas, puxando para dentro de um casulo e forçando seus braços e pernas. Ela tentou se soltar, e até mesmo a expulsar os raios, mas seu corpo foi amordaçado como concreto.

    E no chão, antes de conseguir usar a habilidade, Secure tinha visto Dante desaparecer.

    Ele levou os dedos para um estalo, como costumava, e uma mão prendeu a sua. Sentiu uma dor nas costas, e foi de peito no chão, sem ar algum no peito. Os quatro, três deles sendo guerreiros diretos no Lagmorato do Hospital, foram derrotados em algumas trocações francas.

    Para o atirador que observava, era o óbvio a acontecer.

    — Eles melhoraram — disse Marcus. — Estão mais rápidos e conseguem entender que o inimigo era mais forte, mas ainda estão se segurando.

    — Se segurando?

    — Juno tem um poder ofensivo muito maior do que qualquer outro, perdendo só pro Heian, mas ela não usa por medo de machucar quem estiver ao redor. O controle dela é abaixo do esperado. Jix tem tentado ensinar mais, mas não houve progresso nenhum nas últimas semanas.

    Clara entendia bem o medo de machucar os outros.

    — E Veronica não ajuda em nada — continuou o atirador. — Ela deve estar colocando uma trava em si mesmo. Ela precisa ouvir palavras que possam conduzir bem esse controle, Dante pode fazer isso se quiser.

    — Ele poderia ajudar mais se…

    — Mas que merda é essa que vocês estão fazendo, hein? — Eram as gentis palavras de Dante chegando a eles. — Acham que um Felroz vai ficar esperando vocês se recomporem depois de receber um soco ou um chute? Antes de eu sair, a habilidade de vocês causava mais dano. O que aconteceu? Estão com medo de machucarem a mim? — A risada dele foi suficiente para deixar até Marcus um pouco irritado. — Pelo amor, quem fez vocês pensarem em algo tão baixo? Por isso perderam no Hospital mesmo. Estão treinando com quem? Contra pessoas mais fracas? É isso?

    Os quatro ainda estavam presos, ouvindo amargamente o sermão.

    — Quando estiverem lutando contra um inimigo, mesmo sendo contra mim, devem me imaginar pior do que o próprio Rastro, entenderam? — Dante tirou o joelho das costas de Secure, o deixando respirar. — Porque eu sou pior do que qualquer um deles. Posso não ter mais minha habilidade, mas ainda sou mais inteligente do que qualquer inimigo que já enfrentaram. Posso bater nos piores lugares e citar as piores lembranças. Posso nublar seus pensamentos e deixá-los no escuro.

    Os quatro já tinham se levantado. As caras derrotadas ainda fitando o velho:

    — Na Cuba, eu sou um homem que luta para deixar tudo melhor para as pessoas. Lá fora, eu luto para proteger todo mundo que está aqui dentro. Lutando desse jeito, vocês estão protegendo quem? Olhem um para o outro, entendam quem está contigo e confiem. Eu não preciso dizer tudo para Nick, Lilo ou Nolan, eles fazem o que acham ser certos, e eu faço tudo para apoiar eles. Façam o mesmo, entendam o risco e assumam ele.

    Dante respirou fundo, exalando a aura que Marcus sempre achava desconfortável e descomunal. Suas palavras poderiam ser que Dante se assemelhava a um monstro, mas quando sentia aquilo, seu corpo se inquietava.

    É como se realmente houvesse um monstro observando o lugar inteiro.

    — Agora se levantem e pensem em como perderam. Conversem um com o outro. Quando estiverem prontos para lutarem novamente, voltem.

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