A estrada à sua frente parecia se estender infinitamente. Não havia mais solo fértil e não chovia há dias. Tudo que restava era o largo platô de mármore velho e machucado, a estepe ao lado sem vida, a terra seca, fina e desnutrida de todo necessário para gerar vida. O céu chorava, dele caía a ocasional fuligem, carregada por quilômetros pelas massas de vento incessantes.

    Ali, naquela mancha de morte no meio de um território fértil, um lembrete de como o mundo terminaria se a ganância fosse a rédea que guiava os humanos.

    Benjamin estava com sede, muita sede. Nunca chovia na mancha que o Império lutava tanto para esconder. Primeiro bebeu o que conseguiu do seu cantil, durou dois dias. Depois tentou cavar, nunca teve esperanças de que iria chover. Parou sua caminhada e cavou. Até um metro abaixo da terra, mas o solo continuava seco.

    O mármore aos seus pés aquecia com o calor, o terreno rachava de secura e tortura pelo sol.

    Depois de mais 3 dias, finalmente saiu da cicatriz deixada no mundo pelo Imperador. Estava próximo de Verdemar, mais algumas horas de caminhada e chegaria lá, a entrada de contrabando da muralha, a entrada sul.

    Os vícios dos nobres precisavam ser alimentados, o mercado clandestino precisava girar sua economia e é claro, tudo de ilegal precisava de um caminho para entrar e uma vitrine para se vender.

    Finalmente tocou as muralhas, só precisava margeá-las e chegar ao sul.

    Porém, depois de tantos abusos auto infligidos, seu corpo finalmente cedeu. Não havia chamas que pudessem gerar água para matar sua sede. Não houve fagulha forte o suficiente para nutrir seu corpo a partir do nada.

    “Agora não! Eu estou tão perto, perto demais. Só mais algumas horas”.

    Ele pensou, mas seu corpo não respondia mais. As extremidades do corpo ficaram dormentes e a sensação de sonolência pesava em cada parte do seu corpo. Suas pálpebras eram como chumbo, e de pouco em pouco se fecharam. Sua mente desacelerou, cruzou sua mente que provavelmente não abriria os olhos de novo.

    “Me perdoem, eu fracassei… de novo! E de novo!”.

    Nessa repetição ele adormeceu, confiante de que seria de forma definitiva, desta vez.

    ***

    Fazendo sua patrulha matinal, um guarda da fronteira de Verdemar caminhava, seus ombros relaxados, e o ocasional bocejo nunca lhe renderia uma punição, até porque estava sozinho. 

    Tirou o capacete, bagunçou os cabelos castanhos, e se deleitou com aquela liberdade momentânea.

    Longe das entradas, ou das multidões, ele havia dado uma escapadinha para descansar. Aquela vida não era para ele! Só queria deitar na grama, ler um bom livro e relaxar. Seu desempenho era suficiente para ser mantido na corporação, mas insuficiente para ser percebido ou mesmo lembrado pelos outros.

    Era um figurante de respeito! Sabia onde se posicionar para não ser notado, atrás de quem se esconder quando não quisesse ser requisitado para uma tarefa, era um mestre da mediocridade! E vivia pelo “somente o necessário”.

    Ao se aproximar do seu local de cochilo favorito. Onde a grama era mais fofa, o vento mais gentil e a cacofonia da cidade não o alcançava, ele se deparou com algo que odiava. 

    Algo extraordinário e que fugia completamente da rotina.

    Um jovem pequeno, do qual não conseguia distinguir a idade, desmaiado no chão. Tinha a aparência de um viajante moribundo, sua mochila pequena quase sem pertences, cantil vazio, e roupas sujas de terra seca, o que só podia significar uma coisa. 

    Que tinha cruzado “aquele” lugar. Como alguém tão jovem havia conseguido fazer tal jornada sozinho era um mistério. O fato era que sem ajuda, o menino morreria.

    Hesitou por um instante, era óbvio para onde ia. Aquele garoto, poderia muito bem ser um criminoso. De todas as opções que ele tinha, nenhuma era de seu gosto. Entregá-lo em uma delegacia faria com que ele próprio fosse notado, percebido, até mesmo recompensado, esse não era seu estilo.

    Se virar e deixá-lo morrer? Nunca, não conseguia pensar em dormir a noite se o fizesse.

    Mas o pior, era ir até a rota de contrabando, levar o garoto para lá, era sinônimo de cobrar favores de pessoas que não gostaria de reencontrar.

    A hesitação realmente durou um instante, tinha uma dívida a pagar, e uma promessa para cumprir. Afinal, se não fosse uma certa senhorinha, ele poderia ter o mesmo destino deste garoto.

    É assim, mais uma vez pagou sua dívida. Já havia se esquecido quantos desses pestinhas salvou das ruas junto da vovó.

    Com cuidado deu água ao jovem moribundo, colocou-o nos ombros e partiu para encontrar sua avó, ou melhor, a avó de todos.

    ***

    Primeiro não tinha corpo, só sabia que existia, que tinha consciência. 

    “É essa a sensação de estar morto? Que merda, esperava que eu só sumisse, mas pelo visto ainda existo…”

    Porém a calma e paz da morte duraram pouco, naquele mundo escuro, onde só sua mente corria livre, a distância, ouviu farfalhar de metal e plástico.

    “Eu ouvi? Eu tenho ouvidos?!” 

    Nesse instante, a calma foi substituída por pânico. Seu coração acelerou, e aos poucos a sensibilidade no seu corpo também. Começou pelas extremidades, subindo até seu rosto.

    Ele estava chorando. Sentia o rio de lágrimas descendo pelas maçãs do seu rosto.

    Ele estava chorando porque estava vivo.

    “Malditos! Malditos sejam todos vocês Ardore, não pude nem morrer em paz. O que mais querem tirar de mim!”

    Queria gritar, mas sua garganta estava seca, seus lábios grudados, sinal de quanto tempo passara desacordado. O esforço doeu e ele não tinha forças para suportar mais dor.

    Se recusou a abrir os olhos, não queria ver as paredes daquela casa. As decorações opulentas, os emblemas da família à mostra em cada cômodo, As pinturas e as artes, retratando os sorrisos falsos daqueles imundos. Só as lembranças o faziam ferver, o desejo de atear fogo a tudo o que já pertenceu à sua família, isso incluía a si próprio.

    Logo as lágrimas pararam de cair, mas ele continuava chorando. Cortinas finas de vapor saíam de seus olhos.

    Apertou a mão em busca de coragem para abrir os olhos. Sentiu no seu antebraço um frio metálico, estava em uma maca. Surpreendeu-se então por não estar algemado pelas mãos e pescoço. 

    Cerrando os dentes decidiu abrir os olhos. A luz no ambiente o cegou por um momento, mas estava pronto para o que veria.

    Aceitou que seus seis anos de fuga haviam acabado. Que todo desastre e morte que presenciou foram em vão.

    Porém, quando seus olhos se acostumaram à luz, não se viu na opulenta mansão dos Ardore. Viu um singelo papel de parede desbotado, velho, com as junções já descolando um pouco.

    Era azul piscina e não tinha o menor traço de riqueza.

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