Capítulo 32: O Rei de Espadas
Muitas dessas vidas que vivi foram feitas e construídas através de mortes e temor. Criei reinos com base na lei da selva, onde os fortes sempre irão ofuscar os mais fracos.
Não importa quanto eles tentem, aqueles que nasceram destinados à grandeza um dia terão ela. E os destinados ao breu um dia voltarão a ele.
Um desses reinados me chamou bastante a atenção. Aquela era uma vida da qual iria me arrepender de acessar, mas… tinha alguma escolha?
Era uma memória distante, mas que consegui acessar após tanto esforço mental. Ou melhor, aquela lembrança me escolheu e se fundou em minha mente, quase como se quisesse dominar a fundo minha personalidade.
Não tinha um nome para que pudesse ser chamada. Porém, um título marcava a minha presença, uma presença que fazia com que todos tremessem apenas de citá-lo.
— Aqui, neste momento, venho anunciar a chegada daquela que elevou o nível de nosso reino em muitos anos! A mulher que matou milhares e salvou milhões — bradou o corneteiro, sinalizando para os cavalheiros que ali estavam. — Conhecida por subjugar todos aqueles que um dia se denominavam inimigos do Império! Reverenciem o Rei de Espadas!
Ninguém aplaudiu.
Bater palmas naquela situação era um digno pedido de suicídio diante de mim. Quase como um desrespeito a toda linhagem que um dia pisou naqueles tronos.
Todos os nobres, independentemente de quem fossem, se encontravam de joelhos, formando um lindo corredor com um tapete vermelho.
Aquilo era lindo.
Destinado a uma pessoa que nasceu para governar. E essa pessoa não era ninguém menos do que eu.
Um Rei, algo muito melhor do que um mero Ás.
Todo o meu batalhão andava atrás de mim, carregando cada pedaço de minha capa gloriosa para que a mesma não encostasse no sujo chão.
Afinal, aquele era o lugar de vermes, e nada majestoso poderia tocar nesse… local. Um desrespeito.
Esperava que tudo continuasse assim. Perfeito. Nada fora do lugar e ninguém querendo desafiar seus lugares. Todos tinham suas funções e achavam dignos de servirem como tal.
Lembro-me quase tudo daquela noite. Estávamos celebrando o aniversário do Império com um grande baile.
Odiava esses tipos de coisa. Havia muitos porcos imundos dentro daquelas roupas quentes, mas que faziam muito bem seus trabalhos de rolarem na lama.
Segurava muito bem a sede de sangue que só subia a cada segundo que olhava para mais um rico.
Me segurava pra caralho!
— Levantem-se — disse, exaltando a voz, olhando para a estátua do Patriarca. — O baile de hoje foi organizado em homenagem ao próprio Império fundado pela imagem dele. Seus valores foram enraizados nas regras e disciplinas que ensinamos às nossas crianças, e por isso, hoje em dia, somos os mais fortes. Uma nação forte o suficiente para se considerar a maior e melhor do mundo. E por isso celebramos hoje. Glória ao Império!
Assim que terminei o discurso, todos se levantaram, gritando em uníssono: Glória ao Império!
E, dessa forma, todos se dispersaram em segundos, e logo a música se pôs a tocar.
Sinalizei com as mãos para trás, dando espaço para que meus serviçais pudessem desfrutar do banquete.
Um leve sorriso se abriu em meu rosto, pensando nos momentos bons que passei com aquelas pessoas. Mas eu não conseguia lembrar de seus nomes.
Nem mesmo seus rostos. Por que É algo inalcançável?
Não.
Essas perguntas não tinham sentido algum, assim como nomes.
Palavras simples para denominar alguém… Mas para que? No final de tudo, elas não denominaram nem um terço do que me tornei.
A respeito de seus rostos, era algo que não podia controlar de qualquer forma. Meu cérebro era incapaz de decorar rostos. Só sabia discernir cada pessoa pelo nojo que sentia ao chegar perto dela.
O elegante cheiro de trabalho duro e o desagradável odor da nobreza. Afinal, esse ciclo só se baseava nesses dois tipos de pessoas.
— Meu… Meu rei — sussurrou uma figura desconhecida, o tom deselegante trazendo um frio na espinha. — Será que… poderia tomar um pouco de seu tempo?
Virei-me, algo que nunca fazia em situações como essas, mas de alguma forma fui conduzida a isso.
Suas vestes banhadas a ouro e seu jeito descuidado só me mostravam que era muito melhor ter ignorado essa situação.
— Diga.
— Vejo que… — Ele tremia, limpando seu suor com um lenço. — Vejo que ainda não teve tempo para dar uma olhada nos planos de orçamento para o nor–
Morto.
Antes mesmo que pudesse terminar sua frase, movimentei a lâmina que residia no final de minha trança para dentro de seu pescoço.
O sangue esguichava em meu rosto, sujando a majestade do império com o líquido da escória. Não conseguia sentir nada com sua morte.
Nem mesmo pena por essa alma tão impura.
— Limpem isso — disse, limpando meu rosto com um lenço que pegara de um dos bolsos. — Não quero ver mais esse corpo aqui em alguns minutos.
Após isso, deixei o salão, e a música continuou a tocar.
— Você está bem, minha rainha? — perguntou um dos serviçais, colocando um chá em minha mesa. — Sei que o norte pode não parecer tão agradável aos seus olhos, mas…
Agora estava em meu escritório, escutando apenas o som abafado da banda. Queria… esfriar a cabeça.
— É do norte, por algum acaso? — perguntei, bebendo um pouco do chá. Estava muito melhor do que pensei, então, decidi não matá-la naquele instante.
Coloquei a xícara na mesa, pegando uma das cartas direcionadas a mim.
— Minha terra natal — respondeu sem hesitar. Como se não tivesse medo de minha pessoa, e isso era muito interessante. — Por mais que não tenha um certo apego pelas pessoas que moram por lá, eu ainda adoro aquelas terras.
— Interessante.
— …
— Você é muito interessante, serviçal. Não há cheiro algum em seu corpo — continuei. — É impossível discernir de qual lado você está.
Aquilo era um alerta de perigo imenso contra minha pessoa. Desde que nasci, esse tipo de situação nunca havia acontecido.
Como se algo tivesse falhado.
E falhar nunca é uma opção.
Não pra mim.
— C-Cheiro? — Fungou a si mesma, procurando se havia algo desagradável, mas acabou não percebendo nada.
— Pfft! — Me pus a gargalhar alto de suas reações, ecoando por todo o escritório. — Você é mesmo interessante, serva! Tenho certeza de que não se importará se eu roubar você para mim, não é? Vamos, me diga seu nome!
Ela recuou um pouco diante da grande tirana, mas logo respondeu à minha pergunta.
— Não tenho um nome, minha rainha. — Evitou-me com os olhos.
— Então vou te dar um! — Bati em suas costas, forçando uma intimidade contra a pessoa de quem tanto me interessei. Logo, pensei em algo marcante do qual sempre pudesse me lembrar. Mesmo que mudasse de vida, eu sempre iria lembrar.
— Não é necessário, minha rainha! Dar-me um nome é mui–
— Gaia — interrompi, batendo na mesa. — Que tal Gaia? É como a mãe-natureza. Já que ama tanto as terras desse mundo, te darei esse nome.

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