Capítulo 07 - Palavras firmes
“A família Guinel de Urion é a mais rica e poderosa! Então, por favor… faça o seu trabalho como patriarca da família e mande esse cara embora!” pensou Ulisses, quase entrando em desespero. Queria que aquele homem ficasse o mais longe possível dele. Não sabia se Gray iria ou não conhecer Stelle, já que ele, de certa forma, só iria conhecer a garota devido a sempre estar atrás de Ulisses, querendo o tornar um soldado, mas isso não importava mais para ele; estava apenas querendo que aquele homem fosse embora o mais rápido possível.
Estava até cogitando fazer uma cena de uma criança assustada para fazer o seu pai se apressar e mandá-lo embora, mas pensou que não seria efetivo, pelo fato de que o seu pai poderia muito bem apenas mandar os seus filhos para o quarto ou dizer a Gray para irem para o escritório conversar.
— Por favor… — disse Haru — vamos para meu escritório, está atrapalhando a refeição da minha esposa e dos meus filhos. Além disso, uma conversa como essa não deve ser feita numa sala de jantar.
Olhando na direção do patriarca da família, Ulisses podia ver a expressão dele. O semblante de alguém sério, cuja a maior característica será a sua expressão estóica e decidida. Além disso, Haru parecia estar pensando em como resolver essa situação o mais rápido possível. Ulisses conhecia essa expressão, pois era a mesma expressão que fazia no seu trabalho no outro mundo, principalmente quando alguém dizia algo que dava muita pressão para a sua mente.
Porém, essa pequena semelhança acabava ali, pois Haru parecia lidar com a situação de uma forma diferente. Se fosse o Ulisses nessa mesma situação, ele estaria suando frio, engolindo o seco e com o coração acelerado, mesmo que estivesse pensando em mil formas de resolver o problema. Mas o patriarca da família parecia muito mais no controle; a expressão dele estará mais contida e calma, e até mesmo a sua postura era firme, como… como um verdadeiro líder mostrando o seu poder no seu próprio território.
Os olhos castanhos de Haru estarão mostrando a sua determinação e não vacilava em nada; qualquer pessoa que estivesse sendo fitado por aqueles olhos já estaria muito nervosa, mas Ulisses sabia que Gary não seria esse tipo de pessoa, já que ele ainda mantinha a sua postura. Mesmo assim, os olhos de Haru ainda se mantinham bem focados e intensos, sugerindo concentração e determinação.
Porém, mesmo que Ulisses estivesse presenciando toda a posição em que o seu pai estava se colocando, a única coisa que queria era Gray longe daquela casa, longe dele. Nunca pensou que iria encontrar um dos personagens da história original logo de cara, e isso só o deixava com mais vontade para pegar aquele homem e o jogar pela janela.
“Merda, Haru! O que está fazendo?” pensou Ulisses, quase aos prantos, em desespero. “Eu quero ele fora desta casa!”
— Penso que está certo — disse Gray. — Eu vou aceitar o que está dizendo por respeito ao horário da refeição.
— Mamãe, quem é o tio assustador? — Ulisses observou a sua irmã ir para perto da sua mãe. — Eu estou com medo, por que ele está aqui?
— Estão assustando Ellie! — disse Eduina, começando a se levantar do seu lugar. — Se me permitem, irei os acompanhar para o escritório.
— Querida…
— Eu insisto!
Na mente de Ulisses, os seus pais poderiam apenas mandar Gray embora e não conversar com ele. Às vezes odiava a etiqueta dos nobres.
— A sua esposa parece bem decidida em nos acompanhar — disse Gray — e, por mim, não há problema nenhum.
— Certo — disse Haru — então vamos.
— Dominique — Eduina olhou para a babá de Ellie — leve Ellierin e Ulisses para o quarto enquanto estamos conversando com o Sr. Brás.
“Ellierin?” indagou Ulisses em pensamento. “Será que ela chama as pessoas com mais formalidade quando está prestes a fazer algo sério?” Em todo caso, nesse momento, o garoto teve uma pequena gota de esperança de que a sua mãe iria mandar Gray embora. Ulisses já podia imaginar Eduina deixando Gray falar por três minutos, mas o chutando para fora de casa logo depois; seria muito lindo.
— Certo, senhora!
Como Ulisses teria que agir como se não soubesse o que estava acontecendo ou quem era o homem ali presente, apenas saiu da sala de jantar com a babá de Ellie. Estava preocupado com o que poderia acontecer nessa conversa entre os adultos e ficou com receio do que isso tudo poderia levar. Mas sabia que, na história original, ele não iria ser entregue para Gray e ficaria em casa por mais um tempo. Ao menos era assim no enredo original; deveria ser assim.
Com as crianças longe das palavras dos adultos, Haru foi o primeiro a se movimentar. Eduina apenas suspirou e desviou o olhar de Gray, colocando-se ao lado do marido. Ela estava com o corpo tenso, mas isso só poderia ser percebido por alguém que a conhecesse muito bem; a maior prova disso era que ninguém, exceto Haru, havia percebido a tensão em que Eduina se encontrava naquele momento.
A caminhada até o escritório foi silenciosa, e Haru sentia que, em cada passo, era como se o chão o engolisse por completo. Porém, mesmo com tudo isso, sentia as suas forças resistindo, pois tinha a sua esposa ao seu lado, mesmo que ela estivesse na mesma situação que ele. Não era para menos, já que o momento estará cheio de ingredientes para um pequeno caos, um caos cujo nível de gravidade o patriarca não sabia medir..
— Entre — Haru abriu a porta e, logo que Eduina entrou, e deu espaço para Gray entrar também.
Gray apenas assentiu e entrou no escritório. Seus olhos analisaram o local brevemente, como se nada daquilo importasse, o que já era previsto, já que aquele homem havia ido à casa Urion por um motivo e iria falar sobre isso diretamente com quem fosse necessário; afinal, fora mandado ali por uma razão.
— Como eu disse antes… — Gray se sentou em uma das poltronas — eu vim aqui por um motivo em específico.
— Sim, eu sei — Haru suspirou.
— Eu poderia começar a me lembrar dos bons tempos, mas infelizmente não posso fazer rodeios e acredito que ninguém aqui quer esticar essa conversa mais do que deve.
— Está certo, Sr. Brás — Eduina disse no seu tom calmo, mesmo que por dentro, os seus pensamentos estivessem intensos — e devo dizer: esse assunto não deve ser tratado com leveza.
— Minha esposa está certa — os olhos de Haru foram para Grey enquanto se sentava na sua cadeira e apoiava os cotovelos na mesa — e, já que o assunto já foi dito sem rodeios na nossa refeição em família… vamos ter que conversar sem tentar suavizar nada.
— Está certo… — Grey sustentou o olhar de Haru.
Eduina soltou um pequeno suspiro, enquanto andava com graça e leveza até o lado do marido, que continuava a olhar para o homem sentado na poltrona. Grey podia ver que o casal Urion pareciam bem intimidadores para qualquer um que não os conhecia; porém, o Sr. Brás sabia que isso era apenas para esconder os seus verdadeiros sentimentos, principalmente quando se tratava dos seus preciosos filhos.
Eduina, mesmo que não se deixasse transparecer, estava com os sentimentos agitados, assim com os seus pensamentos, e Grey sabia disso melhor do que ninguém. Porém, ele também sabia que, com Haru, seria um pouco diferente. Haru Guinel de Urion, quando mais jovem, era alguém impulsivo e sempre protegia aqueles que lhe eram importantes, e mesmo agora não era diferente; porém, ele era muito mais controlado quanto aos sentimentos, dificilmente se deixava levar pelo impulso.
“Esse pirralho realmente cresceu”, pensou Gray.
— Como disse antes, sem muitos rodeios… hoje é o 21° dia do mês 6 do ano 305, e eu fui instruído pela Vossa Majestade a vir cobrar o que lhe foi prometido.
— Eu entendo…
Haru suspirou, mantendo o seu olhar firme, mas, por dentro, tudo estava um caos. Podia se lembrar do que prometeu ao Imperador muito tempo atrás, quando era apenas um aventureiro comum, indo de lugar em lugar, entrando em masmorras e matando bestantes com o seu grupo. Lembrava-se muito bem do que o levou a tomar a decisão de fazer tal juramento ao Imperador, que naquela época era apenas o príncipe herdeiro.
Eduina era uma nobre apenas pelo nome; a família havia sucumbido às dívidas, e ela estava com uma doença: Raízes de sangue, uma condição que faz a pessoa perder mana gradualmente e, sem mana, nenhum ser vivo do continente pode sobreviver. Porém, o príncipe herdeiro nasceu com poderes de cura incomparáveis com ninguém e, se ajoelhando no chão, Haru pediu, entre lágrimas, que aquele homem ajudasse a curar Eduina.
“Prometo qualquer coisa… apenas salve minha mulher!”
Foi o que ele disse naquela época, e, no final, o príncipe pediu que, quando Haru tivesse filhos, um deles seria o seu braço direito. Naquele tempo, Haru pensou que era um acordo bem leviano; porém, após anos, soube que era algo muito além do esperado. Ele era um dos magos mais fortes do continente, amava a família e faria qualquer coisa por eles.
Se o imperador estivesse com seu filho, teria Haru na coleira, além de poder usar qualquer um dos seus filhos como arma, já que tanto Ulisses quanto Ellierin, terão uma grande quantidade de mana e um enorme potencial. No primeiro treinamento de Ulisses, pôde ver com os seus próprios olhos.
— E o que exatamente espera que eu faça? — perguntou Haru.
— Vossa Majestade está apenas querendo que envie um dos seus filhos para a capital, pode ser qualquer um.
— Vossa Majestade deseja treinar crianças que nem chegaram à puberdade? — Eduina cruzou os braços.
— Uma promessa perante o Sol do Império é como uma cicatriz que só irá sumir se for cumprida.
— Como isso-
— Tenho certeza que eu e minha esposa podemos chegar num acordo justo — Haru disse rapidamente, interrompendo Eduina — e, até lá, por favor, acomode-se até chegarmos a uma conclusão.
Eduina até tentou dizer algo, mas havia ficado tão surpresa pelas palavras do marido que as palavras ficaram presas na garganta. Haru iria mesmo pensar em entregar Ulisses ou Ellierin para a capital? Ela não gostaria de acreditar nisso; era tão absurdo que a sua mente tentou se convencer que Haru terá um plano para conseguir reverter essa situação, mesmo que seja difícil.
— Vou ter isso em mente — Grey se levantou da cadeira.
— Iremos chamá-lo quando tomarmos nossa decisão.
— Eu entendo, Sr. Urion.
— Fique confortável até lá.
Enquanto Grey saia, um empregado já estava o esperando na porta. No momento que a porta se fechou, Eduina rapidamente se virou na direção de Haru, seus olhos azuis exigindo uma explicação. Sempre que a esposa fazia esse olhar, Haru teria que pensar muito bem nas suas próximas palavras, ou iria se arrepender.
— Como assim “podemos chegar num acordo justo”?! — Eduina bateu a mão na mesa. — Está mesmo querendo fazer isso?
— Para ser sincero, eu não sei — ele se levantou da mesa, dando uma pequena distância entre os dois.
— Eu pensei que sabia.
Eduina lançou um olhar mortal para Haru, como um demônio olhando para a sua presa. Não iria desistir até conseguir uma boa e convincente explicação daquele homem. Como mãe, tinha que zelar pelo bem-estar dos seus filhos, que nem adolescentes eram, que não sabiam nada sobre o mundo e os males que existiam nele.
— Eu realmente não quero ter que entregar um dos nossos filhos ao Imperador.
— Então suponho que precisamos ver outras opções — a voz de Eduina saiu firme e determinada.
— Se não entregarmos, poderemos ter complicações — Haru colocou a mão no queixo, pensando numa solução — e, no final, o Imperador pode nos matar por quebrar uma promessa…
— E quais outras opções podemos ter?
Isso com certeza não era nada fácil. Uma promessa será como um juramento; mais do que isso, essa promessa que havia feito não era apenas por palavras, mas também no papel. Haru havia assinado um documento que atestava as suas palavras, o que tornava tudo ainda complicado. Porém, ao olhar para a mesa, viu um pequeno vaso de flor com pétalas amarelas, uma cor que o lembrava da cor dos olhos de alguém.
— A não ser…
— O que é?
Eduina sentiu seu coração bater mais rápido; ela estava confiante que Haru encontraria uma solução.
— O… Abate de sangue.
— O quê?! Não!
— Querida, é o único jeito.
— Sabe quantos anos Ulisses e Ellie tem?
— Podemos tirar Ellie dessa equação.
— Sabe quantos anos Ulisses tem?!
— Não estou dizendo para colocar nosso filho numa arena de combate logo de cara.
— Explique-se direito, meu querido marido… — Eduina cruzou os braços; a última frase havia saído como facas afiadas.
Haru suspirou. Ele sabia que o Abate de sangue seria e é muito complicado, porém, ele não iria, de jeito nenhum, permitir que o Imperador ficasse com um dos seus filhos. Ainda assim, teria que conversar com o seu filho mais velho primeiro; não queria obrigá-lo a algo que não queria ou que fosse de mais para ele. Por mais que quisesse Ulisses longe da capital, no final, Ulisses estava crescendo e provavelmente já estava criando a sua própria opinião.
— Vou pedir um tempo para preparar nosso filho mais velho e, nesse meio-tempo, vamos preparar Ulisses para conseguir ganhar o abate.
— Vai mesmo conseguir treinar Ulisses em pouco tempo? Você é muito lento como professor; se preocupa tanto com detalhes que os treinamentos são bem longos.
— Não estou falando de mim como professor… você sabe que o meu treinamento foi diferenciado, mas… — Haru se aproximou da esposa, colocando as mãos delicadamente sobre os ombros dela. — Eu sei onde ele pode treinar.
Sem nem Haru dizer o nome, Eduina já sabia a que lugar ele estava se referindo, e isso a fez arregalar os olhos.
— Mas o treinamento de lá…
— Eles disseram que poderiam nos ajudar quando quiséssemos, então… esse é o momento.
Haru havia colocado um plano na sua mente que poderia dar muito certo ou poderia dar muito errado. O Abate de sangue simplesmente será uma forma que qualquer pessoa pode usar para quebrar promessas com honra, uma quebra que ninguém poderia questionar ou criticar. Porém, como o nome mesmo já diz, o Abate será uma luta de um contra um e o perdedor poderia perder a vida de um jeito brutal.

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