Capítulo 14 - Caminhos seguros
Quando Ulisses abriu os olhos, sentiu como se um caminhão tivesse passado por cima do seu corpo. Essa lembrança marcante que teve o afetou mais do que conseguia compreender; por um momento, até sentiu que iria rir de si mesmo, já que, na sua cabeça, essa lembrança já não significava nada para ele e que seria algo trivial. Seentiu-se tão idiota por pensar assim, poderia se esbofetear, mas não queria deixar seu belo rosto marcado com um tapa de si mesmo. Já iria fazer quatro dias que estava tentando os exercícios que Marcus lhe passou, e isso o fazia se lembrar de momentos que geralmente não queria.
Um suspiro escapou, e logo passou a mão pelos cabelos bagunçados. Seus olhos azuis foram na direção da janela; podia ver que estava de manhã. A brisa da manhã entrava e fazia as cortinas do seu quarto mexerem suavemente, levando os pensamentos de Ulisses para todos os lados do quarto. Ao sentar na beirada da cama, respirou fundo e tentou se recompor para mais um dia de preparação. Ulisses balançou a cabeça e apertou os punhos de modo determinado e decidido.
“Vamos, tenho coisas para fazer!” Ele pensou, enquanto se colocava de pé e se alongava, tentando fazer a fadiga e os seus sentimentos conturbados saírem do seu corpo. Logo que seus empregados o ajudarão a se preparar, Ulisses queria aproveitar bem o seu dia, como havia planejado.
Depois do café da manhã, acompanhou Ellie para uma das suas aulas da manhã e logo se dirigiu para a biblioteca, para continuar seus estudos. Antes de sair da biblioteca para o seu próximo compromisso, tentou mais uma vez meditar, mas ainda sem muito sucesso; porém, não iria desistir tão facilmente. Ao se despedir de Borus, saiu da biblioteca com a mente pensando apenas em uma coisa, algo completamente importante para a sua vida: hoje iria matar aula para passar um tempo com a sua irmã.
Deveria ir para a sua aula de etiqueta, mas Ellie deu a ideia para ambos passarem mais tempos juntos. Com o pedido, somado à sua cara fofa de cachorrinho abandonado, Ulisses não pôde dizer “não” para ela. Além disso, saber que ela queria passar mais tempo com ele, antes que ele fosse para o reino dos elfos, lhe dava uma grande satisfação, já que havia gostado desse novo papel de irmão mais velho. Na sua vida passada, era filho único, então não sabia que esse papel poderia ser tão… bom.
Na cozinha, com um pedaço de bolo que havia roubado de uma das formas, Ulisses esperava pacientemente pela irmã. A casa possui três cozinhas por algum motivo; uma era mais usada que as outras, e essa em que estava era o mais vazia, e isso faz Ulisses pensar que a sua irmãzinha fofa realmente pensou bem quando escolheu o ponto de encontro. Houve até mesmo um pouco de orgulho do irmão mais velho. Iriam ir para fora por uma saída da cozinha, que levava para o lado de trás da mansão e que dava acesso à pequena floresta da propriedade. Ellie disse que queria mostrar um lugar bonito para ele, então estava ansioso e curioso. Enquanto esticava a mão para pegar mais um pedaço de bolo, uma voz entrou na cozinha.
— Sr. Ulisses… não deveria estar na sua aula de etiqueta? — ele escutou a voz de Briana.
Ele rapidamente olhou para trás e pôde ver a jovem de braços cruzados, olhando para ele como se estivesse o acusando de algo que ainda não fez. Ainda.
— Ah… bem…
— Se for matar aula, deveria ao menos ser mais discreto, sabia?
Ulisses pôde ver Briana balançar a cabeça, como se estivesse o julgando até os ossos. Pensou que iria levar uma bronca, mas ela estava lhe dizendo para ser mais cauteloso? Esperava tudo, menos isso, até riu um pouco.
— Não vai brigar comigo?
— Eu soube por aí que você irá ficar longe da srta. Ellierin por um grande período de tempo, então vou passar um pano apenas por isso — Briana andou até a mesa e pegou alguns potes vazios — e isso é apenas para ver a srta. Ellierin feliz, fique você sabendo.
— Ah! Que isso, eu sei que vai sentir falta do fã número um dos seus doces, estou certo? — Ulisses riu enquanto cruzava os braços e apoiava as costas na parede. — Me parte o coração ter que me despedir da sua comida.
— Deixe de brincadeiras, seu pirralho! — Briana pegou um pequeno pão de um dos pratos e jogou na direção do garoto, que pegou com as mãos sem dificuldade. — Acha que não tenho outros fãs?
— Pode até ter, mas eu sou aquele que mais dá notas altas.
— Ugh… convencido. — Ela revirou os olhos.
— Hahaha!
Briana até riu um pouco, se recusando a admitir que aquele pirralho realmente era a pessoa que mais elogiava a sua comida, principalmente seus doces. Desde que chegou na casa Urion, nunca pensou que estaria falando tão casualmente com Ulisses, um nobre. Se alguém falasse que isso iria acontecer, com certeza diria que era mentira, mas ali estava, rindo e brincando com aquele garoto.
— B-Briana! — Ellie apareceu na porta, seu rosto mostrando a sua surpresa.
— Srta. Ellierin, por favor… vá logo, antes que o bobo do seu irmão coma todos os bolos dessa cozinha — Briana olhou para a garotinha — e o faça perder algumas calorias, ele comeu muito.
— Não vai brigar com a gente? — dava para se ver um ponto de interrogação surgir em cima da cabeça de Ellie, em pura confusão.
— Se você fizer seu irmão perder as calorias que ganhou, suponho que posso te perdoar por essa… façanha — Briana piscou para Ellie e saiu da cozinha, levando os potes com ela.
Ellie ficou em silêncio e logo sentiu que deveria fazer jus ao pedido de Briana. Ulisses pôde ver a garota apertar os punhos e um brilho de determinação aparecer naquele olhos castanhos. Ela realmente estava levando as palavras de Briana a sério?
— Vamos, irmão! Vamos agora!
— Mas-
Antes que Ulisses pudesse responder, Ellie o puxou para a porta de trás da cozinha. Ele até pensou em dizer algo ou até mesmo perguntar, mas sabia que seria inútil, de certa forma, então apenas se deixou ser levado pela irmã. Provavelmente ela iria se cansar primeiro que ele, então era só seguir o fluxo. Esse pensamento até que fez um pequeno sorriso surgir no canto dos lábios. Queria soltar uma pequena risada, mas logo desistiu, já que não queria ter que explicar o motivo daquilo.
◇◇◇◇
Quatro dias, e Eduina havia percebido que seu marido estava muito pensativo. Mesmo que Haru não falasse nada sobre isso diretamente com ela, o que achou um absurdo, já que Haru sempre compartilhava com ela as suas preocupações, nem que fosse poucas. Durante esses dias, ela o observava sempre que podia, e o conhecia bem; sabia que seu marido, sempre que estava pensando em algo que o preocupava, mexia em algumas mechas do próprio cabelo, e Eduina não deixava de perceber esse pequeno movimento sempre que estava entre as refeições de família.
Em certo momento, quando cansou de esperar que Haru explicasse o que estava acontecendo, decidiu procurar a resposta por si mesma. No momento que terminou os seus afazeres daquele dia, levantou da sua cadeira e saiu do seu escritório. Enquanto andava pelo corredor, seus passos se mantiveram tranquilos, como se a nuvem de sentimentos não estivesse rondando seus pensamentos a cada segundo, e a maior prova de que estava “calma” eram os seus servos, que passavam por ela e a cumprimentavam, e ninguém havia visto a sua agonia.
Quando chegou à porta do escritório do marido, ela apenas suspirou e abriu a porta sem bater. Haru até deu um pequeno pulo ao escutar a porta ser aberta tão repentinamente. Os seus olhos castanhos se arregalaram ao encarar o rosto da esposa, principalmente aqueles olhos azuis de Eduina, que pareciam brilhar. Haru até engoliu o seco, pois ele sabia que sua esposa só ficava assim quando queria saber de algo.
— Querida… — Haru coçou a nuca.
— Apenas diga o que está acontecendo! — Eduina disse com rapidez, se aproximando de Haru e batendo as mãos na madeira da grande mesa. — Esperei a sua explicação por muito tempo.
— Hã? — Haru suspirou.
— Faz quatro dias que você fica suspirando por aí feito um condenado e ainda fica com cara de besta. Você só fica assim quando está preocupado.
Haru ficou em silêncio. Ele até desistiu de suspirar, então apenas desviou o olhar e começou a pensar no que poderia falar a ela. Não queria preocupar Eduina; era por causa disso que não explicou nada a ela, mas, aparentemente, sua esposa se recusava a ficar de fora do assunto. Por um momento, se condenou por ter esquecido esse detalhe sobre ela e, mais do que isso, por algum motivo, Haru acreditava que essa parte dela era adorável.
“Determinada e direta, como sempre” pensou Haru.
— Querida, eu não queria te preocupar com isso.
— Haru, você lida muito bem com política, mas fica feito um idiota quando se trata de família, pois seus sentimentos entram muito em comflito, e isso me leva a crer que isso deve ter algo relacionado com Lisses. Então eu quero saber. De preferência, agora. — Eduina cruzou os braços, seu rosto mostrando o quão séria ela estava sendo.
— Como consegue deduzir tudo tão rápido?
— Não tente me enrolar.
— Haah… certo…
Eduina se sentou em uma das cadeiras e logo cruzou as pernas e os braços, uma clara posição de que queria escutar uma boa explicação e que não iria sair daquele escritório sem o que queria. Haru, reunindo todas as suas energias, começou a contar tudo que estava acontecendo e o que Marcus havia pedido. Eduina escutou tudo em silêncio e com muita atenção, sem interromper seu marido nenhuma vez.
Quando Haru terminou de falar, Eduina ficou em mais um silêncio. Por longos três minutos, ela ficou apenas com o olhar baixo, deixando Haru ainda mais nervoso. Os olhos azuis de Eduina, antes expressivos, mostravam apenas um brilho das engrenagens da sua mente trabalhando intensamente, como se estivesse ponderando todas aquelas informações.
Após esse pequeno período de tempo, ela finalmente encontrou os olhos preocupados de Haru.
— Ele quer… levar Lisses para Isclaris… sozinho, sem escolta?
— Sim… — Haru suspirou pesadamente. — Ele disse que vai ser importante, já que vai ensinar muitas coisas a Ulisses nas paradas.
— O que mais? — perguntou Eduina.
— Ele… ele fez o juramento.
Eduina arregalou levemente os olhos, surpresa pelas palavras de Haru. Se Marcus fez um juramento, então ele estava bem sério sobre levar Ulisses em segurança. Apenas os dois, sozinhos.
Mesmo que esse fosse o caso, Eduina tinha alguns receios. Não queria deixar Ulisses em perigo e tão pouco queria que ele se machucasse, porém seus pensamentos foram inundados por uma pergunta.
— Marcus… está realmente pronto para sair?
— Bem… de acordo com ele… sim.
Eduina pôde sentir um leve pesar na voz do marido, a angústia em seu rosto e ela entendia isso. Podia entender a preocupação de Haru em deixar Marcus levar Ulisses até Isclaris sozinho, um caminho tão longo que poderia ser perigoso e que qualquer coisa poderia acontecer com eles.
— Eu não sei se concordo em deixar os dois irem sozinhos… e se algum perigo aparecer? — Eduina disse com uma voz preocupada. — Você sabe que Marcus é muito inteligente, mas ele não é tão forte para proteger alguém…
— É isso que me deixa com receio, querida.
— …
— Sei que Marcus nunca iria colocar nosso filho em perigo, mas… não consigo parar de pensar no pior.
Houve um silêncio entre os dois, ambos pensando sobre o assunto. O tópico deixava seus ombros pesados, como se houvesse um peso, uma carga que seria difícil jogar fora.
— Lisses só tem nove anos, como posso pensar em deixar meu garotinho sem proteção?
— É uma decisão difícil, mas… se pensar por um lado, pode até ser… bom.
— O que?! — disse Eduina rapidamente.
— Pense comigo, querida… Se Marcus ensinasse algo para Lisses em meio à viagem, ele não iria chegar no reino dos elfos de mãos vazias e o treinamento não iria ser tão… difícil para ele.
— Bem…
Eduina desviou o olhar, apertando o tecido do vestido, como se estivesse tentando segurar em algo para manter os pensamentos sob controle. Se fosse pensar bem, o que Haru dizia não era errado. Eduina sabia que o treinamento élfico seria difícil, principalmente para alguém tão jovem e inexperiente como Ulisses, e esse pensamento a deixou mais angustiada. Ela queria proteger Ulisses, mas também não queria prolongar o inevitável. Se Ulisses chegasse no treinamento com as mãos vazias, seria mais difícil.
Os Elfos não iriam facilitar a vida de Ulisses só pelo fato dele ser uma criança, pois já havia visto como os treinamentos eram. Para uma criança despreparada, o treino seria difícil de suportar, e ela não queria que seu filho sofresse mais do que poderia aguentar. Ela queria que ele ficasse forte, forte o suficiente para… ganhar o Abate de sangue e voltar para casa, para a sua família.
— Acha… acha que esse é o certo?
— Marcus, apesar de ser fraco, é cuidadoso e é bom para evitar perigos.
— Só temos que confiar… eu acho… — Eduina suspirou. — Mas tem certeza?
— Não, mas vamos dar uma chance. Além disso, podemos colocar feitiços de proteção e deixá-los bem preparados para a viagem. O que acha, querida?
Eduina ficou em silêncio, sua mente indo para todos os lados possíveis, mas então, ela levantou a cabeça. Seus olhos ainda mostravam preocupação, mas também um lampejo de entendimento pela situação.
— Tudo bem, mas vamos dar a ele todos os equipamentos necessários para uma viagem segura.
— Sim, vamos fazer isso.
— Certo, eu vou colocar o feitiço de proteção o quanto antes. — Eduina se levantou da cadeira.
— Vou pedir para providenciarem todo o equipamento necessário e vou conversar com Ulisses sobre a decisão.
Com isso, Eduina assentiu com a cabeça e se virou para sair. Seus passos eram apresentados, sua mente já trabalhando para escolher o melhor feitiço de para seu filho, para ele conseguir chegar em Isclaris o mais seguro possível.

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