Eliandris tinha cabelos roxos.

    Entre humanos, aquilo raramente despertava mais do que curiosidade, um traço genético incomum, comentado em voz baixa e logo esquecido, nada além de uma excentricidade entre tantas outras que o mundo produzia.

    Mas entre os elfos…

    Mais especificamente entre os altos elfos, entre clãs antigos e poderosos, aquele tom violeta não era apenas raro.

    Era um mau presságio.

    Nojo surgia primeiro, silencioso e instintivo. Depois vinha o desprezo, mascarado por sorrisos educados. E, por fim, o medo… profundo, irracional…

    Eliandris aprendeu isso cedo demais.

    Durante sua juventude, foi observada como algo que não deveria existir. Sussurros cessavam quando ela passava, olhares se demoravam um pouco mais do que o aceitável, seus cabelos a marcaram não como alguém especial, mas como alguém fora do lugar. Mesmo que alguém tentasse parecer gentil, ela encarava a alma da pessoa e sabia, na hora, se era sincero.

    Ainda assim, ela sobreviveu.

    E, por um breve período de sua longa vida, acreditou que poderia ser feliz.

    O pai de Oliver foi o primeiro a enxergá-la de verdade, não por causa de seus cabelos, nem pelo que ela poderia se tornar, mas pelo que já era, doce, atenta. genuinamente bondosa. Eliandris se importava de verdade, algo raro em um mundo onde nobres, humanos ou elfos, viviam encenando virtudes atrás de máscaras bem ensaiadas.

    Com ele, não havia teatro.

    Quando descobriu que estava grávida, acreditou que sua família jamais ultrapassaria certos limites, infelizmente estava errada.

    O desprezo veio rápido, cortante.

    Depois, as exigências.

    Por fim, as ameaças.

    Queriam que ela se livrasse da criança antes que nascesse, queriam apagar aquele erro antes que respirasse pela primeira vez. Quando Eliandris recusou, falaram em aborto forçado, falaram em silenciar o pai da criança.

    Ela jamais imaginou que ousariam ir tão longe.

    Até a noite que foram.

    Fria, chuvosa, silenciosa demais.

    Um assassino foi enviado atrás dela.

    Ao contrário do que aparentava em Corval, Eliandris nunca foi fraca. Treinada nas artes marciais milenares dos elfos, seu corpo conhecia a dança da guerra. Rapieira, arco longo, arco curto, besta, ela dominava cada arma com precisão e leveza. Proibida de desenvolver magia por medo do que poderia se tornar, foi moldada como uma lâmina contida em uma bainha apertada.

    Mesmo assim, quase morreu naquela noite.

    Não por falta de habilidade do assassino, mas porque ele não queria matá-la.

    Ele queria levá-la de volta.

    Arrancar a criança de seu ventre à força.

    Eliandris sobreviveu por um motivo terrível: a missão dele exigia que ela respirasse.

    Durante a fuga, conseguiu avisar seu amado por meios mágicos de comunicação. Palavras apressadas, fragmentadas, carregadas de medo. Jamais imaginou que sua família fosse tão longe. Ainda assim, não houve reencontro, não houve despedida.

    Ela não sabia se um assassino também fora enviado atrás dele.

    Mas decidiu fugir.

    Priorizou a criança que ainda carregava no ventre, mesmo com o peso esmagador da culpa.

    Levava consigo cerca de 300 peças de ouro, dinheiro que carregava casualmente, mas que se tornou a diferença entre a vida e a morte. Com isso, atravessou fronteiras, cruzou todo o território de Sylvaris e, ainda assim, não se deu por satisfeita.

    Escolheu desaparecer.

    No reino vizinho de Osteria, encontrou Corval, um vilarejo pequeno, pacato, com pouco mais de 1000 habitantes e um fluxo constante de viajantes. Um lugar onde rostos se perdiam facilmente.

    O local perfeito para se esconder.

    Para se mascarar.

    Ainda mais quando escolheu o emprego que escolheu.

    Apesar do dinheiro inicial, Eliandris gastou grande parte contratando um especialista local para escoltá-la no caminho. Bandidos eram o menor dos perigos nas estradas. Criaturas dos mais diversos tipos espreitavam caminhos esquecidos, e a morte podia vir de forma banal para quem tivesse azar suficiente.

    Quando chegou a Corval, restavam menos de 50 peças de ouro.

    O homem que a trouxe pretendia permanecer em Osteria. Uniu o útil ao agradável, levando Eliandris consigo. Mesmo depois, ela continuou pagando mensalmente para que ele permanecesse atento, olhos e ouvidos para qualquer sinal de perigo envolvendo ela ou seu filho.

    Esse dinheiro acabou rápido.

    Grande parte se esvaiu garantindo que sua chegada não despertasse suspeitas. E, por mais que desprezasse a ideia, tornar-se uma prostituta foi a escolha mais segura. Cortesãs eram vistas… mas não lembradas.

    Ninguém imaginaria que a filha de uma casa nobre élfica se sujeitaria àquela vida.

    Agatha, a dona do bordel, ficava com metade dos ganhos. Alguns chamariam de abusivo. Na verdade, era pouco. Outros lugares cobrariam 70%, 80%. Além disso, Eliandris pagava pelo uso de seu filho aos lugares de convivência do Bordel, cerca de 20%. No fim, cerca de 70%  ficavam com Agatha.
    Outros 20%  iam para informações e proteção, os 10% restantes mal sustentavam alimentação, roupas e remédios.

    Não sobrava nada.

    Era uma vida apertada, sufocante, mas uma vida que ela escolheu viver.

    Para os clientes, Eliandris era apenas um rosto bonito, burra, vazia, sem conteúdo além do corpo. Suprimiu seu carisma, sua inteligência, sua energia, tudo para permanecer invisível.

    Ainda assim, tinha muitos clientes.

    Com o tempo, acostumou-se a todo tipo de homem. Se não fossem os gastos elevados, poderia viver em uma casa alugada como as outras garotas. Mas aceitava o casebre mofado que dividia com seu filho.

    Falando em seu Oliver…

    Desde o nascimento, ele era diferente.

    Inteligente demais, atento demais, nunca gostou de brinquedos, nem de brincadeiras infantis. Nunca demonstrou interesse em crianças da própria idade. Eliandris pensou, no início, que fosse preconceito por parte das crianças, ela estava errada.

    Era desinteresse por parte de Oliver.

    Ela o ensinou a ler e escrever cedo, e se surpreendeu com a velocidade absurda de aprendizado. Em pouco tempo, Oliver dominava o élfico e o universal. Caminhou aos seis meses, falava fluentemente com um ano. Aos três, jogava Regnum com Erina. Aos cinco, ajudava nos afazeres domésticos.

    Era uma máquina de aprender.

    Eliandris lamentava não poder oferecer uma vida melhor, mas Oliver jamais pareceu se importar.

    Ela não pretendia permanecer nessa vida para sempre.

    Ela planejou ir embora quando Oliver tivesse 15 anos. Até lá, ensinaria a ele as artes marciais élficas. 15 anos era um período curto na vida de um elfo que poderia viver centenas de anos.

    Era apenas mais uma noite chuvosa.

    Noites assim tornavam o bordel mais silencioso. O cheiro de álcool barato, suor e fumaça ainda impregnava os lençóis, denunciando a natureza do lugar. Mesmo assim, parecia que seria uma noite tranquila.

    Mas a intuição de Eliandris gritava.

    Chuvas sempre a lembravam do dia que fugiu de casa.

    O cliente daquela noite fingia estar bêbado. Atuava bem, para padrões comuns. Para ela, era transparente, viveu séculos entre a alta sociedade élfica, todos eram exímios mentirosos e manipuladores.

    Eliandris olhou para ele, conseguia ver mais que a aparência dos outros, conseguia ver a alma deles, a alma do homem brilhava em tons intensos de azul, tons de culpa, tons intensos de rosa, vergonha. Eliandris não sabia o que estava prestes a acontecer, mas sabia que não seria divertido.

    No quarto, o homem falou antes de agir:

    “Desculpe-me pelo que está prestes a acontecer, mas não tenho escolha.”

    O golpe veio em seguida.

    Eliandris caiu, gritou, chorou. Poderia se defender, mas não o fez, preservar sua imagem de mulher fraca era essencial, o homem nunca mirou pontos vitais. Queria apenas estragar seu rosto.

    “Eduque melhor o seu filho. Isso só está acontecendo porque ele faz o que quer e provoca quem não devia”, comentou o homem.

    Quando os guardas entraram, tudo pareceu comum: apenas um bêbado violento, nada além disso. Eles arrastaram o homem para fora do bordel, jamais poderia pôr os pés ali de novo, mas o estrago já estava feito…

    Eliandris soube pelo próprio homem o motivo disso estar acontecendo…

    Vestiu uma capa preta e voltou para casa.

    Tratada, limpa… ainda inchada.

    Nos próximos dias, ninguém pagaria para dormir com ela, para sua persona que só tinha a beleza como valor, esse foi um golpe duro.

    A chuva caía fina, persistente, como se o céu tivesse decidido apagar rastros que não deveriam existir.

    Eliandris caminhava devagar pelas ruas de Corval, o capuz baixo, o tecido pesado encharcado colando no corpo. Cada passo doía, não pelos hematomas, mas pelo que vinha depois. Pelo momento que se aproximava inevitavelmente.

    Ela já conseguia ver.

    Via a alma do filho.

    Oliver estava acordado.

    Ela parou por um instante antes de entrar no casebre mofado de madeira. Respirou fundo, o ar frio queimou os pulmões, não era o rosto inchado que a preocupava, nem o gosto metálico de sangue seco nos lábios, era o olhar dele, o olhar de seu filho.

    Ela empurrou a porta.

    O rangido foi baixo, tímido.

    A casa estava escura, iluminada apenas pela chama fraca de uma lamparina sobre a mesa. O cheiro de sopa fria ainda pairava no ar. Oliver estava ali, sentado, pequeno demais para aquela cadeira, os pés balançando sem tocar o chão.

    Quando ele levantou o rosto…

    O mundo de Eliandris quebrou em silêncio.

    Oliver congelou.

    Os olhos dele se arregalaram, não em medo imediato, mas em algo pior: incompreensão absoluta, a mente tentando negar o que via, o rosto dela estava inchado, um dos olhos semicerrado, a pele arroxeada sob a luz amarelada, um fio fino de sangue seco marcava o canto da boca.

    A chuva escorria pelo cabelo roxo, pingando no chão de madeira.

    Por um segundo interminável, nenhum dos dois falou.

    Ela tentou sorrir.

    Falhou.

    “…Mãe?” a voz dele saiu baixa demais, frágil demais.

    Aquilo doeu mais do que qualquer golpe.

    “Está tudo bem” Eliandris disse, rápido demais. A mentira saiu treinada, automática. “Foi só… um acidente.”

    Ela fechou a porta atrás de si com cuidado excessivo, como se o barulho pudesse quebrar o filho em pedaços. Tirou o capuz, pendurou o manto molhado no gancho. Cada movimento era calculado para parecer normal.

    Oliver desceu da cadeira.

    Não correu.

    Caminhou.

    Devagar.

    Cada passo dele ecoava dentro da cabeça dela. Quando ficou perto, parou. Pequeno. Magro. Os olhos vermelhos subiram, analisando cada detalhe que ela tentava esconder.

    Ele levantou a mão.

    Parou no meio do caminho.

    “Quem…” a voz dele tremeu “Quem fez isso?”

    Eliandris ajoelhou antes que o silêncio respondesse por ela.

    Ficou da altura dele.

    Isso foi um erro.

    Porque ali, tão perto, ela viu, não apenas o choque, não apenas a raiva, mas algo ainda mais profundo e perigoso começando a se agitar na alma do filho. Uma aura negra parecia emanar dele, ela conhecia bem aquele sentimento, e sabia que nenhuma criança de 7 anos deveria carregá-lo.

    “Ninguém importante” ela disse, firme. “Oliver, olhe pra mim.”

    Ele não desviou o olhar nem por um instante.

    “Foi por minha causa?”, perguntou. Oliver não era estúpido, pelo aviso do guarda, sabia que havia algo errado. O garoto parecia importante, talvez filho de alguém influente. Ainda assim, jamais imaginou que usariam sua mãe para atingi-lo.

    A pergunta caiu como uma lâmina.

    Não porque fosse lógica, mas porque era verdadeira demais, Eliandris nunca esperou que Oliver entendesse tão rapidamente o motivo mais provável disso ter acontecido com ela.

    “Não” ela respondeu rápido demais outra vez “Nunca por sua causa.”

    Mentira.

    Oliver apertou os punhos pequenos, ele estava tremendo.

    “Tia Baldric disse pra eu tomar cuidado, que o gordo não era uma pessoa simples e agora você está nesse estado…”

    Ela sentiu o peso disso, sentiu o arrependimento antigo se contorcer no peito.

    O silêncio se esticou entre eles, a chuva martelava o telhado como dedos impacientes.

    Eliandris fechou os olhos por um segundo.

    Viu flashes do passado: salões de mármore branco, olhares frios, vozes suaves ordenando mortes com educação impecável, viu a fuga, o sangue, o medo constante. 

    Quando abriu os olhos, Oliver ainda estava ali, esperando.

    “Escute” ela disse, segurando o rosto dele com cuidado, desviando para não tocar com força demais. “O mundo não é justo, nunca foi, algumas pessoas… machucam o que é fácil de machucar.”

    “Você não é fácil de machucar, não deveria ser…”  ele disse, com raiva, crua.

    Ela sorriu de verdade dessa vez.

    “Para eles, eu sou”

    Ela se levantou com esforço, o corpo reclamando, caminhou até o pequeno banco e sentou-se, o inchaço latejava. Precisaria de dias até poder voltar ao bordel.

    Dias sem dinheiro.

    Dias perigosos.

    Oliver ficou parado, olhando para ela como se tentasse memorizar cada ferimento.

    “Eu vou consertar isso” ele disse.

    Não soou como  uma promessa infantil.

    Eliandris sentiu.

    Sentiu algo se mover errado dentro dele,  um fluxo acelerado demais, uma vibração que não deveria existir ainda…

    “Não” ela disse, mais dura do que pretendia. “ Você não vai fazer nada”

    Oliver virou o rosto.

    “Eu não vou deixar fazerem isso com você de novo.”

    A alma dele brilhava em vermelho carmesim, viva de ódio. E, misturado a isso, havia um preto profundo, uma intenção de matar tão pura quanto assustadora.

    Ela levantou de repente, segurando os ombros dele com força suficiente para fazê-lo olhar.

    “Você não vai fazer nada!” disse, cada palavra cravada com medo. “Prometa”

    Ele hesitou.

    Promessas tinham peso.

    “Oliver”

    “…Eu prometo” disse, por fim.

    Ela o puxou para um abraço.

    Ele era pequeno demais.

    Frágil demais.

    Enquanto a chuva continuava caindo do lado de fora, Eliandris fechou os olhos, sentindo o coração do filho bater contra o seu.

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