Oliver não conseguiu dormir direito na noite anterior.

    Ele sabia o que tinha feito, mas não imaginava que as consequências viriam tão cedo  e daquele jeito.

    “Nomes… eu preciso saber quem fez isso.” O pensamento não largava a sua mente.

    Mesmo que não pudesse fazer nada agora, ele gravaria o nome e devolveria o “favor” no futuro.

    Sua mãe, por outro lado, parecia não se importar tanto. Seguiu a rotina com disciplina: cozinhou, lavou roupas, limpou quartos no bordel…

    Mas Oliver sabia que aquilo era fachada. Ela não estava tão calma quanto fazia parecer.

    O motivo era simples: Oliver via a cor da alma dela. Literalmente.

    O tempo inteiro, Eliandris brilhava num azul intenso. Oliver conhecia bem aquele tom. Às vezes, a mesma cor podia significar coisas diferentes, mas sempre vizinhas.

    Ele tinha uma espécie de “dom”. A mãe dizia que interpretar as cores era algo inato dos Elfos da Alma, mesmo quando ela tentava explicar com palavras, ele entendia com um único olhar, não precisava de explicações. Agora não era diferente.

    O azul significava culpa, tristeza… algumas vezes a alma dela brilhava com tons arroxeados, medo… preocupação… angústia…

    Isso fazia Oliver afundar cada vez mais em pensamentos perigosos de vingança. Ele sabia que aquilo não resolvia nada, mas era difícil evitar.

    “Forte! Preciso me tornar mais forte! Só assim eu posso resolver nossa situação” Pensava Oliver.

    Ao contrário do que se esperaria de uma criança de sete anos, Oliver não ficaria parado esperando a situação se resolver. Ele sabia que, devido à aparência atual de sua mãe, os próximos dias seriam difíceis. O dinheiro com que viviam já era sempre no limite quando ela podia trabalhar. Agora, sem poder trabalhar, isso seria preocupante. Eles definitivamente passariam fome por algum tempo.

    Ele ajudou sua mãe com alguns afazeres. Havia algumas garotas bondosas que moravam nos casebres de madeira ao lado, elas trocavam as faixas e passavam algum remédio nos ferimentos de Eliandris. Nesses momentos, o senso de união das damas da noite se ativava: elas se compadeciam pela situação de Eliandris, mas não é como se pudessem ajudar financeiramente. Afinal, não estavam numa situação financeira melhor que a da mãe dele, o dinheiro delas também era apertado.

    “Eliandris, não se preocupe. Em uns quinze dias você já deve estar melhor… vai se recuperar rapidinho.”

    “Se não fosse o inchaço, até daria pra disfarçar com maquiagem. Mas sua bochecha parece uma bola… vai ter que esperar desinchar.”

    As meninas ofereciam palavras de consolo enquanto cuidavam dos ferimentos. Oliver ficou por perto, observando as cores que as almas delas emitiam.

    “Dourado… elas realmente sentem empatia pela mãe…”

    Quando sua mãe se distraiu por um instante, ele saiu do campo de visão dela, atravessou o bordel e subiu um andar. Parou diante de uma porta de carvalho bruto e entrou sem bater.

    A sala tinha o tamanho de um quarto generoso. O piso de madeira escura rangia discretamente sob os passos, e as paredes revestidas até meia altura com painéis de carvalho davam ao ambiente um ar sóbrio.

    Uma escrivaninha robusta dominava o centro do cômodo, sua superfície organizada com precisão: um tinteiro de bronze, uma pilha ordenada de documentos, uma pena repousando sobre um suporte de madeira. Atrás dela, uma cadeira de espaldar alto forrada em couro castanho, já moldada pelo uso. Do outro lado, duas cadeiras menores aguardavam visitantes.

    A única janela, parcialmente coberta por cortinas de tecido pesado cor de mostarda, deixava entrar luz suficiente para trabalhar sem forçar a vista.

    O ambiente poderia se disfarçar com sucesso como o escritório de um pequeno nobre, mas o cheiro de fumaça e álcool barato ainda entregava a natureza do local, ou pelo menos da proprietária desse quarto. 

    Sentada atrás da escrivaninha, havia uma senhora humana, perto dos sessenta. O rosto enrugado carregava os vestígios de uma beleza que, décadas atrás, provavelmente abria portas e esvaziava bolsos. Agora, aquela mesma face era uma máscara de astúcia calculada.

    Sua alma emitia uma cor branca. Agatha lia documentos de uma pilha de papéis, tão concentrada que nem ergueu a cabeça.

    “Nem se importou comigo entrando sem bater…” Oliver respirou fundo e falou:

    “Senhora Agatha, tenho assuntos a tratar com você!”

    A voz de Oliver fez com que houvesse uma mudança na alma dela, a cor agora mudou levemente para um vermelho escuro.

    “Ei, pirralho. Quem te deu o direito de entrar aqui sem bater e sem ser chamado? Xô! Tô resolvendo uns problemas financeiros. Não me enche o saco.” Ela abanou a mão, mandando-o embora.

    Oliver ignorou e se aproximou. Com uma olhada rápida, pôde ver que era um balanço dos últimos dias. Agatha estava presa nos números, tentando arrancar sentido deles.

    “Comparado ao planeta Terra, a matemática desse mundo não parece ter evoluído tanto… talvez, devido à magia, ninguém se preocupe em desenvolver as ciências”, pensou ele, analisando as contas.

    “Para de olhar pra esses documentos como se entendesse alguma coisa, seu pirralho! Tá achando que vai resolver o quê?” Agatha já estava pronta para expulsá-lo quando Oliver disse:

    “Você anda cobrando barato demais pela bebida. É o que mais vende e tá te dando menos retorno do que deveria. Aumenta o preço em 50%, você vai se surpreender com o quanto ainda vão continuar comprando. E… por que tem uma categoria escrita ‘suborno’?”

    A primeira reação de Agatha foi o susto: o garoto tinha lido o documento com precisão depois de um olhar rápido. A segunda foi prática, puxou a folha para longe.

    Mesmo que nem tudo estivesse ali, as principais despesas estavam. Oliver podia repetir por aí. Crianças não eram as melhores pessoas para guardar segredos.

    “Que assuntos você tem comigo garoto?” perguntou, tentando desviar do assunto das finanças.

    “Nada demais. Eu só quero que a senhora cubra a alimentação minha e da minha mãe pelos próximos dias. Ela se machucou trabalhando no SEU bordel. É SUA responsabilidade arcar com as consequências.” Oliver falou como se fosse o óbvio.

    “Ahm? Tá achando que isso aqui é instituição de caridade, garoto? Eu não devo nada nem pra você nem pra sua mãe. Na verdade, é o contrário: vocês me devem.”

    Agatha falava como quem recita regra de negócio. A alma dela escureceu num cinza de indiferença.

    “Eu impedi vocês de morrerem de fome por anos. Se sua mãe não trabalha, não recebe. Simples. Quando ela melhorar, volta.”

    “A senhora é tão insensível. Parece que nunca precisou se virar como uma dama da noite. Se estivesse no lugar dela, também ia precisar de ajuda.” Oliver tentou virar o jogo.

    “Eu nunca estaria na situação da sua mãe pelo simples fato de não ter a merda de um filho pra criar! Ainda mais um moleque que não sabe o lugar dele e provoca gente que não devia!”

    O tom subiu. A alma dela ardeu num vermelho intenso: fúria.

    “Vaza daqui, pirralho.”

    Ela o empurrou para fora. Em um segundo, Oliver já estava no corredor, ouvindo o baque da porta batendo com força.

    “Velha maldita… não tem um pingo de compaixão.” Oliver murmurou, seguindo para outra sala.

    Chegando em outro quarto, Oliver bateu na porta. Ao ouvir um “entre”, ele se encontrou com a única amiga que havia feito nesse mundo. Erina era uma Cornídea de pele azul profundo, possuía chifres curvos, asas e cauda. Oliver olhou para ela, na sua frente, havia um tabuleiro com peças devidamente organizadas dos dois lados. Oliver se sentou à mesa, ficando frente a frente com Erina. A cadeira ainda era um pouco alta demais pra ele, ficava com os pés levemente flutuando no ar.

    “Tia Erina… eu preciso saber quem fez isso com a mãe.”

    Foi a primeira coisa que disse, encarando-a.

    “E pra que você quer saber? Vai fazer o quê com essa informação?” Erina perguntou. O tom soou ameaçador, mas o ciano emanando de sua alma entregava que estava curiosa.

    “Por agora? Nada. Mas no futuro… se eu tiver a chance, não vou deixar barato.”

    “Muito bem. O nome do homem que fez isso com sua mãe é Garet. Ele trabalha pra Balthazar Venn.” Erina respondeu, casualmente.

    Não era difícil coletar informação morando num bordel. Era um lugar onde se ouvia de tudo, das damas da noite aos homens que saíam com elas.

    Oliver, no entanto, não pescava tanta coisa assim. Apesar de viver ali, ele não frequentava o salão no “horário de trabalho”. E, mesmo quando ouvia algo, raramente era o que precisava. Tinha de filtrar.

    “Ótimo.” Oliver mexeu uma peça no tabuleiro. “Agora eu vou chutar sua bunda no Regnum, tia Erina.”

    “Vai sonhando, garoto. De ontem pra hoje, minhas habilidades deram um salto. Você vai ficar surpreso com o quanto eu melhorei.” Erina moveu outra peça.

    Oliver voltou para casa após uma sessão de Regnum, ele ainda tinha mais algumas ideias para tirar seu sustento nos próximos dias.

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