Após a sessão usual de Regnum com Erina, Oliver saiu do bordel e tomou o caminho da cidade. Eliandris confiava o bastante para deixá-lo andar pelo vilarejo, num lugar com cerca de mil habitantes, ela não acreditava que existissem grandes perigos à espreita. Ainda assim, o que mais sustentava aquela confiança era a maturidade que Oliver exalava, às vezes, ele não parecia um menino de sete anos, e sim um adulto preso num corpo pequeno.

    Seguindo pela única avenida de Corval, Oliver parou diante de uma barraca de carne. Atrás do balcão, um meio-orc jovem o observava com calma: alto demais para a porta de qualquer casebre, físico atlético, presas inferiores discretamente saltadas e pele verde-clara. Os cabelos negros, longos, caíam como uma cortina pelas costas e, como sempre, ele estava sem camisa.

    “Por que esse cara tá sempre sem camisa? Eu sei que tá calor, mas não é pra tanto…”, pensou Oliver.

    A barraca era toda de madeira bruta, montada com tábuas grossas e remendos antigos, como se tivesse crescido ali aos poucos, peça por peça. O balcão, gasto de tanto uso, carregava manchas de gordura e cortes superficiais deixados por lâminas apressadas. Por trás dele, ganchos de ferro sustentavam tiras de carne penduradas: algumas ainda úmidas, outras mais escuras, curadas pelo sal e pela fumaça.

    Oliver encarou o meio-orc em silêncio.

    “Vai levar algum corte, garoto? Ou vai ficar só olhando?” perguntou ele, sem grosseria, apenas sendo prático.

    A alma do meio-orc era um cinza escuro, indicava indiferença total.

    “N-não. Eu não como carne. Elfos só comem verduras.” respondeu Oliver.

    O cinza escuro estalou num vermelho intenso.

    “Eu meio que tenho um dom de irritar os outros, aparentemente.”

    “Se não vai comprar nada, vai embora. Tá espantando os clientes” disse o homem, abanando a mão.

    Oliver respirou fundo. Era a segunda vez, em pouco tempo, que alguém tentava enxotá-lo do mesmo jeito.

    “Senhor Talruk… eu vim pedir um favor. Queria que o senhor me ensinasse a caçar.”

    Talruk ergueu uma sobrancelha.

    “Caçar? Ué. Elfos não comem verdura? Você não faz muito sentido, criança. E a sua mãe? Ela ia gostar? Você sabe muito bem qual é a relação entre as nossas espécies.”

    Ele mantinha o rosto sério, mas a alma brilhava num ciano claro indicando curiosidade.

    “Sim. A mãe disse pra eu não me envolver com orcs, porque eles são irracionais… mas o senhor é meio-orc. Isso significa que o senhor é racional. Então não tem problema!”

    Talruk soltou uma gargalhada, alta e franca.

    “Hahahaha! Você é bom, garoto. Sua mãe não tá errada. Um dos motivos de eu ter deixado o clã foi a brutalidade dos orcs… às vezes beirava a insanidade. Mas ainda não respondeu: por que quer aprender a caçar?”

    “Minha mãe se machucou com um cliente. Ela não vai poder trabalhar por alguns dias. Se eu caçar e vender pro senhor, a gente não passa fome.”

    Talruk coçou o queixo, ponderando. A alma dele clareou para um branco concentrado.

    “Tá. Eu não vejo problema em te ensinar. Mas preciso da autorização da sua mãe. E fica é melhor você saber: eu tô te fazendo um favor de verdade. Não vou ganhar nada com isso.”

    Oliver ainda tinha outras portas a bater. Morando em Corval há tantos anos, ele conhecia quase todo mundo  e, se precisasse, pediria favores onde fosse possível. Mas não esperava conseguir tão rápido, e muito menos com alguém que parecia não se importar com nada.

    “Ótimo! Eu falo com ela e volto já.”

    “No fim… não dá pra julgar o livro pela capa.” pensou enquanto caminhava.

    O caminho de volta ao bordel foi tranquilo.

    No casebre úmido que chamavam de casa, Oliver encontrou a mãe e explicou o plano.

    “Meu filho… eu agradeço o esforço pra melhorar nossa situação, mas… de tanta gente nesse mundo, você foi pedir ajuda logo pra um meio-orc?” Eliandris perguntou.

    A alma dela tinha um brilho azul discreto, indicava … decepção.

    Orcs e elfos carregavam uma história antiga, e nada agradável,  naquele mundo. Houve tempos em que clãs orcs invadiram aldeias élficas e deixaram um rastro de morte, sequestros e violência. Muitas meio-orcs, nasceram desse passado de abuso e violência. Eliandris não era exatamente “racista”, mas, com uma memória coletiva tão dolorosa, especialmente entre os elfos, era natural que ela olhasse para orcs e meio-orcs com desconfiança.

    “Mãe, eu sei dessa história… mas você também não devia ser tão preconceituosa. O tio Talruk foi receptivo. Ele vai me ensinar sem cobrar nada.”

    Eliandris hesitou por um segundo.

    “Tudo bem. Você pode ir… mas seja cuidadoso.”

    Oliver piscou, surpreso.

    “Ela aceitou fácil demais… não era pra resistir um pouco mais?”

    O que Oliver não sabia era que Eliandris já conhecia, havia muito tempo, as pessoas em quem podia, e não podia, confiar em Corval. Ela pesquisou. Ou melhor: pagou pela informação, e ainda pagava todo mês. Talruk não era um desconhecido para ela.

    Além disso, havia outro detalhe.

    “Ele é uma boa pessoa”, pensou Eliandris. “Mesmo sendo meio-orc… a alma dele nunca me mostrou nada podre.”

    “Tá… mas ele disse que só me leva se ouvir de você mesma que tá autorizado” avisou Oliver, relutante.

    Eliandris ainda evitava aparecer em público. O rosto machucado atraía olhares e perguntas, ela não queria nenhum dos dois.

    Mesmo assim, vestiu um manto preto que cobria parte do rosto e foi até a barraca. Trocaram poucas palavras, o suficiente para Talruk entender e, por fim, assentir.

    “E outra coisa, Oliver” acrescentou ela, fitando-o antes de ir embora. “Se você quiser, pode comer carne. A dieta dos elfos é cultura, não lei. Você escolhe.”

    Oliver ficou parado, como se tivessem puxado o chão debaixo dos pés.

    “O quê? Então esses anos todos… eu fui vegano à toa? Eu sempre pude comer carne?”

    Entre os elfos, a alimentação à base de folhas, legumes e raízes era comum. Havia plantas ricas em proteína, e verduras custavam menos que carne, o que, para quem vivia no limite, fazia diferença. Ainda assim, não era uma regra, era  apenas um costume.

    No dia seguinte, Oliver acordou cedo, pronto para a primeira caçada.

    Ele nunca tinha feito algo assim naquela vida. O peito vibrava de ansiedade.

    “Tomara que ele me ensine a caçar alguma coisa com carne de verdade… faz tantos anos que eu nem lembro do sabor.”

    Talruk chegou pouco depois e entregou a Oliver um arco com um punhado de flechas, além de uma faca curta.

    “Hoje você aprende o básico” disse ele.

    Juntos, entraram na floresta.

    Oliver ainda não sabia que o que deveria ser uma caçada comum estava prestes a virar um inferno.

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