Me movi até a guilda, passando por diversas pessoas na rua. Algumas tentaram me parar para conversar, mas as dispensei educadamente antes de continuar.

    No final da rua, o edifício da guilda se revelou, de forma imponente, para mim. De lá, ouvi o som de risadas e conversas altas.

    Empurrei bruscamente a porta, alheio aos olhares direcionados a mim pelos curiosos. Naquele momento, minha atenção estava voltada à procura de um certo alguém.

    O ambiente lotado dificultou meu trabalho, movimentado pelo horário de almoço dos visitantes.

    O forte cheiro de temperos das sopas fumegantes ameaçou abrir meu apetite, afinal não havia comido nada o dia inteiro. No entanto, continuei minha busca.

    Então avistei uma mulher de cabelos pretos comendo.

    Ela se sentava solitariamente em meio às conversas, comendo sua comida sem pressa. De vez em quando, levava o copo de cerveja do lado até os lábios.

    Sua postura serena, apesar do barulho, parecia desconexa com seus arredores. No entanto, ninguém pareceu desconfortável pela sua presença.

    Me aproximei lentamente dela, não querendo a alarmar da minha presença. Mas isso se mostrou inútil quando ela se virou para mim, seu rosto tão inexpressivo agora quanto sempre.

    Paralisei sob seu olhar, não sabendo como reagir.

    “Eu tenho que me desculpar com Aurora”, suor escorreu por minhas bochechas.

    Mas ao contrário dos meus pensamentos, meu corpo continuou parado. Era como se eu tivesse me tornado uma estátua, servindo apenas para ser observado sem nunca reagir.

    Aurora, aparentemente desistindo de esperar uma reação minha, retornou a comer sua comida.

    Encarei-a com choque, surpreso por sua naturalidade em ignorar minha presença.

    De fato, ela devia estar extremamente chateada com as atitudes que tomei. Assim já não posso continuar parado sem fazer nada.

    Me joguei de joelhos em frente à ela, um som poderoso reverberando pelo lugar quando toquei o chão de madeira. Imediatamente senti os olhares sobre mim, mas os ignorei.

    Aurora ainda continuava a comer em silêncio, coisa que eu não podia permitir. Então…

    Pow—

    Bati minha testa contra o chão, atraindo ainda mais atenção do público para meus atos.

    Pessoas cochichavam sobre o que poderia estar acontecendo ali, pessoas que eu já havia conversado e que me conheciam.

    Normalmente, tal situação seria extremamente vergonhosa — o que ainda é —, mas eu ignorei isso com naturalidade forçada.

    — Senhorita Aurora, por favor, me perdoe!

    Meu apelo desesperado silenciou todas as fofocas. Agora, seus olhares se concentraram não apenas em mim, mas em Aurora também.

    Eles esperavam ansiosamente por uma resposta, mesmo que fossem completamente ignorantes quanto ao porquê de tudo aquilo.

    Então, Aurora se virou para mim, arrancando suspiros do público.

    — Por que eu deveria desculpar você, Arthur?

    “Ela está muito brava mesmo!”

    — Eu agi de forma rude com você, aquela que me deu tanto, senhorita Aurora! Mesmo que suas intenções fossem tão puras, ainda fui um idiota!

    Ouvi barulhos altos atrás de mim, como se corpos estivessem caindo no chão. Quando virei minha cabeça na direção do som, algumas mulheres estavam jogadas, seus rostos vermelhos como tomate.

    Franzi a testa, surpreso com aquela situação estranha.

    “O que está acontecendo aqui? Um ataque talvez?”

    — Não fale assim, Arthur — Aurora me tirou dos meus pensamentos.

    No entanto, sua fala serviu para alimentar meu medo. Será que ela estava tão furiosa que nem me ouviria?

    Isso nunca aconteceu antes!

    — Por favor, me perdoe, Mestra! — a chamei formalmente, esperançoso de que isso fosse aliviar seu coração.

    Mas quando olhei para sua expressão, notei apenas seu cenho contraído.

    Fiquei em silêncio, esperando uma resposta dela. Qualquer uma serviria, mesmo que fosse uma repreensão. Mas Aurora continuou quieta.

    Ela me lançou um olhar, antes de desviar sua atenção para o público ao redor. De forma natural, balançou a cabeça em meio a um suspiro.

    — Se levante, Arthur.

    — Mas mestra…! — tentei discutir, mas ela me interrompeu logo em seguida.

    — Agora.

    Percebendo que seria melhor ouvi–lá, me levantei do chão imediatamente. Bati as mãos nos joelhos, tirando a poeira ainda presa na roupa.

    — Eu não fiquei brava com sua atitude, Arthur. Não com você, ao menos.

    — O que você quer dizer?

    — Quando você falou comigo sobre ficarmos mais tempo em Veldoren, simplesmente assumi que você estava resolvendo alguns assuntos antes de partir…

    Aurora bebeu um gole de sua cerveja, olhando fixamente para a parede. Ela ficou momentaneamente em silêncio, pensando em o que dizer, quando voltou a falar.

    — Mas então, quando você gritou comigo, eu entendi o meu erro. Foi um pouco antes, na verdade, que notei que você havia se apegado a esse lugar. Mas eu não sabia o quanto até aquele momento.

    Finalmente, Aurora se virou para mim. Seus olhos cinzas ainda eram tão vazios como sempre foram. No entanto, eles pareciam me olhar com sinceridade.

    — O motivo de eu ter ido embora foi porque… eu não sabia olhar para você. Eu desconsiderei tão facilmente seus sentimentos, que aceitei sua raiva e me afastei.

    Observei sua expressão composta vacilar um pouco, como se estivesse rachando e revelando seus verdadeiros pensamentos. Minha garganta secou com a visão.

    — Senhorita Aurora, eu…

    — Está tudo bem se você quiser ficar aqui por mais tempo. Esperarei até que se sinta confortável em partir comigo, Arthur.

    Aurora terminou de beber sua cerveja, se levantando de sua cadeira. Ainda havia comida em seu prato, mas ela decidiu ir embora mesmo assim.

    Se eu deixasse ela sair agora, eu teria vindo aqui em vão. Nossa relação ainda permaneceria instável, como se pisássemos em ovos.

    — Eu irei com você! — gritei em meio ao silêncio da guilda.

    Finalmente notei que o lugar estava estranhamente quieto a um bom tempo. Parecia até como se fôssemos os únicos ali. Só eu e Aurora.

    Mas agora eu vejo a verdade. Cada um deles, fossem homens ou mulheres, nos olhavam com curiosidade, assistindo ao drama que acontecia alí.

    Senti minhas bochechas se avermelharam, meu rosto pegando fogo. Contudo, eu tive que continuar com o que estava dizendo.

    — Daqui duas semanas, quando a caravana chegar, partiremos na nossa jornada!

    Aurora parou de andar, se virando para mim. Se antes sua expressão revelava parte de sua angústia interna, agora mostrava sua surpresa.

    — O que você está dizendo — ela questionou em choque.

    — Eu lutarei ao seu lado para… exterminar o Mosteiro de Deus!

    A boca do público se abriu com minha afirmação, aparentemente chocados com minha bravura. Então, gritos começaram a ecoar pelo lugar.

    Diversas pessoas aplaudiram, enquanto outras comemoravam algo minha fala. Naquele momento, percebi meu erro.

    “Isso é extremamente vergonhoso!”

    Aurora me olhou por um instante, e então soltou uma pequena risada. Não foi nada muito grandioso, quase tão baixo que passou despercebido pela maioria.

    Mas eu notei.

    — Confiarei nas suas palavras, Arthur.

    Superando até mesmo a vergonha da comemoração ao meu redor, senti um alívio em meu peito. Era como se uma tonelada de peso tivesse sido dissipada.

    A sensação estranha que eu senti o dia inteiro pareceu ir embora também.

    — Sim, senhorita!

    Aurora voltou para sua cadeira, se sentando novamente. Seguindo seus passos, também me sentei com ela na mesa.

    Felizmente, as pessoas na guilda começaram a dispersar sua atenção sobre nós, retomando a tomar suas bebidas. Por um momento, me senti mais relaxado quanto à isso.

    Mas um riso baixo surgiu atrás de mim.

    — Hahaha, nossa… isso foi tão vergonhoso, hahaha — Lya disse em meio aos risos.

    — Lya!? Você estava aqui esse tempo todo?

    Fiquei assustado com sua presença. Afinal, ela era a última pessoa que eu queria que tivesse escutado aquilo.

    — É claro que sim, Arthur. Se esqueceu que eu trabalho aqui?

    Lya se aproximou de nós, pegando uma cadeira para ela. Aurora observou nossa interação quieta, franzindo a testa quando Lya falava.

    — Então… você realmente vai embora em duas semanas? — ela me perguntou cautelosamente.

    “Sim, eu também terei que me despedir dela.”

    A ideia de me afastar de Lya me deixou incomodado. Não parecia correto. No entanto, eu não voltaria atrás em minhas palavras.

    Mas como seria para ela quando eu partisse? Fora eu, Lya não possui nenhum outro amigo da sua idade em Veldoren.

    Lembranças de quando nos encontramos pela primeira vez vieram até mim. A forma como eu me afastei dela, assustado pela sua presença, ainda era muito recente na minha cabeça.

    Mas aquilo havia acontecido cinco anos atrás.

    Cinco anos não é muito tempo, na verdade. Isso equivale a apenas um quarto da minha vida. Porém foram os anos mais felizes dela.

    Apesar dos pesares, era muito difícil me imaginar longe de Lya, a pessoa que foi minha primeira amiga depois daquela tragédia.

    Olhei fixamente para o rosto dela, estudando sua expressão. Em pouco tempo, eu não veria mais aqueles olhos verde-esmeralda.

    Nem mesmo as sardas laranjas na sua bochecha que se esticavam sempre que ela sorria para mim.

    — Sim, eu irei — respondi.

    — Isso realmente está acontecendo, não é? Parece que foi ontem que você treinava até tarde na floresta, e depois voltava machucado para casa.

    Sorri com suas palavras. No fim das contas, mesmo que eu vá embora, ainda teremos nossas lembranças conosco.

    — Inclusive, me lembro de ficar muito preocupada quando você se isolou em casa durante seus primeiros meses em Veldoren.

    — Haha, é mesmo, eu tinha me esquecido. Sinceramente, foram tempos terríveis para mim.

    Lya e eu conversamos por vários minutos, trocando memórias de quando éramos mais novos.

    Houve tantas histórias hilárias e absurdas que riamos sem parar, mesmo com Aurora nos observando com uma expressão séria.

    Infelizmente, ela ficou ausente por boa parte do tempo em que estive em Veldoren, sempre em missões perigosas. Ela não possuía nenhuma lembrança aqui?

    Essa ideia era triste demais para ser ignorada. Então, me lembrei de algo.

    — Senhorita Aurora, você disse que partiremos junto da Caravana Comercial de Trown, certo?

    Ela se virou para mim, pensando sobre a pergunta que fiz.

    — Sim, você está certo. Sempre que eles chegam em Veldoren, ficam aqui por alguns dias. Então, ocorre um festival em larga escala.

    Festival.

    Essa palavra despertou algo em mim. Essa não seria a oportunidade perfeita para criar novas memórias para Aurora antes de partirmos?

    Um plano começou a se formar rapidamente na minha cabeça.

    — Então, senhorita Aurora, o que você pretende fazer?

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