Um garoto correu por entre arbustos, o coração ameaçando explodir pelo esforço constante. Cada músculo seu gritou para parar, mas ele não o fez.

    — Droga, onde está!? — ele se perguntou enquanto entrava cada vez mais fundo na floresta.

    Galhos pontudos arranharam suas pernas e braços finos, arrancando sangue. No entanto, seus olhos castanhos continuaram a correr pela floresta branca.

    A cada árvore, cada arbusto, ele tentava encontrar o que havia perdido — seu gatinho de estimação.

    — Júlio, onde você está!?— gritou.

    Infelizmente, nenhuma resposta veio.

    “Droga! Por que eu deixei ele sair de casa?”, o garoto pensou, suas mãos tremendo de culpa.

    As pequenas escapadas de Júlio, seu gatinho, eram uma rotina conhecida pela família. O pequeno animal sempre gostou de usar a floresta perto da cidade como banheiro.

    E hoje, quando mais cedo ele miou na porta para sair, o garoto a abriu sem hesitar.

    — Júlio!

    Mas agora ele se arrependia profundamente.

    Horas se passaram, mas Júlio ainda não havia voltado. Sua ausência por longos pedaços de tempo era normal, mas sempre que a noite chegava, já estava em casa outra vez.

    “Por que ele não voltou? Será que alguma coisa aconteceu?”, o pequeno se questionou. “Não! Preciso achar ele!”

    Ele aumentou seu ritmo, ocasionalmente trombando com uma árvore ou outra. Mas ele apenas seguiu em sua busca desesperada. Pouco lhe importou seus machucados.

    Finalmente, após o que pareceram horas, o garoto encontrou uma área aberta dentro da floresta. Acima de sua cabeça, a lua tentava iluminar a floresta escura.

    O peito do garoto arfou em dificuldade pelo extremo frio do inverno quando tentou recuperar o fôlego perdido. Em sua pele, ventos fortes batiam violentamente.

    Antes, tão distraído por sua busca sem fim, não notou quando o primeiro floco de neve caiu dos céus. Só o fez quando a floresta se esbranquiçou quase que por completo.

    E quando a neve veio, algo mais veio junto.

    “Está muito frio…”, ele tremeu, olhando a fumaça branca que escapou de sua boca. “Eu tenho que… encontrar ele.”

    No entanto, apesar de sua forte determinação, ele não poderia ficar exposto ao vento daquela forma. Por isso, começou a andar em busca de um lugar para se esconder do frio.

    Para sua sorte, não precisou explorar muito — havia uma caverna bem ao lado, grande o suficiente para que ele pudesse se recuperar do cansaço.

    Ele entrou nela sem hesitar, procurando um lugar para se sentar. No entanto, poucos passos depois, o pequeno garoto parou completamente.

    À sua frente, havia a silhueta de animal caído no chão, praticamente imóvel. Um aperto feroz tomou seu peito com a visão quando suor friou escorreu pelas suas costas.

    — Não… Não… — ele murmurou em choque, sua voz trêmula sendo ofuscada pelos batimentos agitados do seu coração.

    Então, a lua finalmente alcançou a entrada da caverna, revelando completamente a forma do animal. Sua barriga gordinha, que subia e descia fracamente, estava manchada com sangue.

    — Júlio! — O garoto correu até seu gato caído, o embalando em seus braços finos. — O que aconteceu!?

    Seu grito desesperado chegou ao seu gato, que respondeu em um miado fraco, seus olhos fechados. As mãos do garoto tatearam o corpo do animal em busca de um ferimento.

    E ele encontrou — uma marca de mordida no animal, profunda o suficiente para quase o matar.

    No entanto, enquanto tentava entender o que tinha acontecido com o Júlio, um rosnado baixo veio das profundezas da caverna.

    Rargh—

    O garoto olhou para a direção de onde o barulho veio, mas tudo o que pôde ver foi uma escuridão tão densa que nem o fundo da caverna pode ser encontrado.

    Mas ele não precisou ver para saber de algo — aquela era a toca do que atacou o Júlio!

    Agarrando seu gato firmemente em seus braços, o garoto tentou sair da caverna lentamente, não querendo chamar atenção.

    Mas já era tarde demais para aquilo.

    Pow— Pow—

    Trotes fortes, tão fortes que quase o derrubaram no chão, reverberaram pelas paredes da caverna. A cada novo segundo de ansiedade, o som se tornou mais alto.

    Então, uma criatura surgiu de dentro da caverna, banhada pela luz da lua que refletia em seus pelos brancos que se camuflavam com a neve ao redor.

    Rargh—

    O animal, várias vezes maior que o garoto trêmulo, rosnou alto, se aproximando do mesmo em passos lentos. A criatura exibiu seus dentes afiados, ainda sujos de sangue.

    Naquele momento, uma verdade antes inconcebível chegou à mente do garoto — ele iria morrer.

    “Não, não, não!”, ele apertou seu abraço sobre Júlio, em meio ao cenário desesperador.

    De seus olhos, lágrimas ameaçaram escorrer quando sua visão embaçou. Aquele seria o seu fim, e ele chorou por isso.

    “Por favor… alguém… alguém me ajuda!”, o garoto implorou por alguém.

    Mas em meio àquela floresta escura e solitária, quem poderia o salvar?

    Como se pensasse o mesmo, a criatura abissal se aproximava cada vez mais dele. Toda vez que sua pata caia sobre o chão, um tremor tomava a região.

    Então, sua boca se abriu bizarramente, suas bochechas rasgando conforme seus dentes se projetavam para fora.

    Ela pretendia, com uma única mordida, engolir o garoto por inteiro.

    Seu bafo horrível, fétido devido suas presas anteriores, chegou ao nariz do pequeno, que agora chorava profusamente.

    “Mãe, eu sinto muito…”

    Seu corpo relaxou de frente para a morte. Ele, que não possuía força suficiente para se proteger, apenas esperou pelo seu fim silenciosamente.

    No entanto, seu fim nunca chegou.

    “O que houve?”, ainda com medo, ele abriu aos poucos suas pálpebras. E a visão que teve o deixou chocado.

    O monstro assustador, que a poucos segundos atrás avançava sem cautela para devorar o garoto, havia recuado vários metros com o corpo trêmulo.

    Os olhos da criatura se mantiveram fixos em um único lugar, na barreira intransponível que bloqueou o seu caminho — um homem de vestes brancas e uma longa espada prateada.

    Toda a escuridão pareceu se dissipar pela mera presença daquele indivíduo conforme a luz do luar era refletida em sua lâmina desembainhada.

    O coração apertado do garoto foi, aos poucos, se acalmando. Todas as ondulações causadas pelo medo desapareceram de seu peito.

    As costas firmes do homem, bloqueando a visão daquela criatura feroz, se fixou na mente jovem do garoto. Com a voz trêmula, ele chamou pelo seu nome.

    — Arthur…?

    O homem se virou para o pequeno quando seu nome foi chamado. Seu rosto, mesmo naquela situação perigosa, ainda exibia um sorriso singelo.

    — Kevin — a voz de Arthur saiu suave, mas firme, quando disse o nome do menino — Dolores está muito preocupada, sabia?

    — A Mamãe? 

    — Exatamente. Agora, enquanto eu lido com isso, que tal você voltar para casa?

    Kevin logo percebeu sua situação. Aquela era a oportunidade de escapar e levar seu gato para cara, são e salvo.

    Foi quando ele se lembrou de algo.

    — Arthur, Arthur! O Júlio está ferido! — Ele estendeu o gato para o homem ver.

    A testa de Arthur franziu quando notou o sangue que cobria a pelagem do Júlio, mas logo ela voltou ao normal.

    — Me dê ele por um momento. E segure isso — ele pediu, entregando a espada para Kevin.

    — Sim! — Kevin acenou com a cabeça, dando Júlio para Arthur.

    Segurando o gato em uma de suas mãos, com a outra que estava livre, o homem começou a infundir uma energia estranha no animal.

    De suas mãos, escapou uma névoa azul translúcida, que caiu na ferida aberta de Júlio. Mas como se fosse uma miragem, a marca de mordida logo começou a cicatrizar.

    Quando a respiração do gato se tornou mais estável, e sua ferida quase completamente curada, a energia de Arthur parou.

    — Ele já deve estar melhor agora, Kevin. Mas peço que, quando chegar em Veldoren, o leve até minha mestra para que ela termine meu serviço. Infelizmente, não sou tão bom com magia de cura.

    — Sim, eu farei isso!

    A expressão de Kevin brilhou com a notícia, pegando Júlio em seus braços outra vez. Como Arthur havia dito, agora seu gato estava dormindo tranquilamente!

    — Hã! Sua espada! — o garoto exclamou, devolvendo a espada para Arthur.

    — Agora, saia da floresta — Arthur avisou outra vez.

    Acenando com a cabeça freneticamente, Kevin logo correu para longe. Mas em sua mente, uma nova constatação surgiu.

    “Nossa, o Arthur é tão incrível!”

    As costas do garoto, em meio a densa floresta, logo desapareceram. Para trás, ficaram apenas Arthur e o monstro trêmulo, que recuava lentamente.

    No entanto, sua fuga discreta chegou ao fim quando os olhos cerrados de Arthur caíram sobre ele. Então, o rapaz abriu a boca.

    — Um Lince das Neves, hein? Não é comum encontrar vocês… — sua voz saiu com a mesma suavidade de quando falou com Kevin.

    Mas o animal paralisou de medo, se deixando ser observado como uma peça de arte.

    Ele se sentiu sendo devorado pelo olhar predatório do rapaz, mas não conseguiu reagir.

    — Ouvi dizer que sua carne é bem gostosa.

    O Lince ouviu com atenção as palavras de Arthur e, mesmo que não pudesse entender o que saia de sua boca, o aperto do rapaz em sua espada o alertou de suas intenções.

    Então, virando de costas para Arthur, o Lince disparou entre as árvores. Com seus pelos pálidos, logo desapareceu em meio a mata.

    Arthur observou o animal fugir. Balançando a cabeça em decepção, ele se culpou por enrolar em frente à caça.

    “Ah, eu não queria ter que correr… Melhor eu ir atrás dele logo.”

    A mesma energia estranha e incolor de antes escapou do corpo de Arthur, se estendendo em direção ao animal que corria rapidamente.

    Mesmo sem o ver, Arthur pôde sentir plenamente sua presença pela mana que o animal liberava constantemente.

    Então, seguindo os rastros do Lince, ele também mergulhou no fundo da floresta.

    ×××

    — Ei, ei! Nos conte como você conseguiu caçar aquele Lince das Neves, Arthur! — um homem bêbado gritou no meu ouvido.

    Seguindo-o, outra pessoa também perguntou, derrubando um pouco de bebida na mesa.

    — Com quantos golpes você o derrubou, um? Hahaha, você é mesmo incrível, Arthur!

    Depois deles, outros começaram a me perguntar sobre minha caça, cada questionamento mais específico que o anterior.

    No entanto, mesmo com o bafo de álcool e a gritaria, eu não dispensei eles. Afinal, eu também vim para a guilda comer e beber.

    — Sim, sim. Então, quando eu vi ele correndo para a floresta… — Assim, prossegui em contar como foi lidar com um aninal tão raro quanto um Lince.

    Não era fácil encontrar um animal daqueles, visto que o principal método de caça deles era emboscadas. Mas houve algo de especial naquele indivíduo.

    Ele era um Monstro de Mana.

    — Monstro de Mana, o que é isso? — uma pergunta interrompeu minha história.

    Mas o tom familiar chamou minha atenção. Me virando para ver quem era, tive uma agradável surpresa quando encontrei Lya, vestida com seu uniforme de garçonete.

    — Lya! — a chamei contente.

    Sem me conter, a abracei firmemente, seu longo cabelo ruivo balançando pelo movimento repentino. 

    — Tudo bem, Arthur, acho que já pode me soltar — ela respondeu, fugindo do meu abraço. — Você está fedendo a álcool.

    — Estou? Mas eu nem bebi… — respondi confuso.

    Lya soltou uma pequena risada com a minha reação, aparentemente tendo gostado da minha cara.

    — Mas então, Arthur, o que é isso de Monstro de Mana? — ela me perguntou, se sentando ao meu lado.

    — Nada demais, é algum animal que, através do excesso de mana no organismo, sofre uma mutação genética.

    Suspiros audíveis tomaram a mesa em que eu estava. Não apenas Lya, mas muitos outros não tinham conhecimento sobre Monstros de Mana.

    Mesmo sendo uma guilda, esse edifício também operava como uma pousada. Afinal, mesmo pequena, Veldoren ficava perto de uma importante rota comercial.

    Logo, a maioria dessas pessoas eram cidadãos comuns que nem ao menos haviam caçado em suas vidas pacatas.

    Parando para pensar, Lya também não sabia sobre isso apesar de trabalhar na guilda. Curioso do porquê disso, me virei para ela.

    — Mas você nunca viu nenhuma menção de Monstros de Mana no quadro de missões, Lya?

    — Ah, isso… O papai não me deixa nem encostar naqueles papéis velhos do quadro! Sempre dizendo que sou nova demais para entender algo.

    “Haha, Frank realmente parece a enxergar como uma criança ainda.”

    — Na verdade — Lya continuou — ele me permitiu atualizar o mural de notícias!

    Ela se levantou rapidamente da mesa, deixando todos surpresos, antes de correr para algum lugar. 

    Inconsciente, ri das suas ações hilárias. Apesar dela ser alguns meses mais velha do que eu, de vez em quando parecia uma criança.

    “Acho que posso entender seu pai.”

    Logo, as perguntas daqueles sentados comigo voltaram. Fui os explicando meus métodos de caça a cada vez que tinham dúvida.

    O tempo passou sem que eu percebesse, a conversa se aprofundou e uma pergunta surgiu.

    — Então, Arthur… você está namorando a Lya?

    Imediatamente parei o copo que levava à boca, o colocando de volta na mesa. Olhando para quem havia feito a pergunta, notei que era uma mulher mais velha.

    Por algum motivo, eu não respondi imediatamente. Pelo contrário, fui tomado por um calor estranho nas bochechas.

    Quando pensava sobre isso, era uma pergunta entendível.

    Lya era uma garota linda, com sua pele branca e sardas nas bochechas. Mas além disso, ela também era alguém extremamente gentil.

    Ainda me lembro de quando cheguei em Veldoren, cabisbaixo e sem vontade de seguir em frente.

    Se não fosse por ela, eu acho que não seria quem sou hoje.

    Como passávamos muito tempo juntos, mal-entendidos como esse eram extremamente comuns.

    No entanto outra mulher já tinha a posse do meu coração.

    Quando eu estava prestes a negar para a mulher de meia-idade, um grito estridente tomou o edifício.

    Toda a conversa morreu, um silêncio desconfortável pairando pelo lugar. No entanto, ele era quebrado por um murmúrio constante.

    — Não… Isso é impossível…

    Me virando, encontrei Lya caída no chão. Havia um corte em seu joelho, de onde sangue vazou, mas ela pareceu alheia a isso.

    Mesmo no chão, seus olhos verdes permaneceram fixos nos papéis que tinham em mãos. Nada mais parecia importar para ela naquele momento.

    — Lya! — gritei preocupado com ela.

    Rapidamente a levantei do chão e coloquei ela para se sentar.

    — Você está bem, Lya? O que houve? — perguntei em busca de respostas. No entanto, ela apenas me olhou com um olhar vazio.

    — Eu… sinto muito, Arthur…

    “O quê? Por que ela está se desculpando?”.

    Então, meus olhos caíram sobre a folha de jornal ainda firmemente presa em suas mãos. Qualquer que fosse o motivo do terror de Lya, estava guardado alí.

    Delicadamente para não assustá-la, puxei o papel de suas mãos e comecei a ler seu conteúdo.

    Como me arrependo de ter feito isso.

    Naquela folha pálida, uma imagem impressa me deixou atônito. Casas em chamas, pessoas correndo desesperadas e algo mais…

    Ao fundo, pessoas encapuzadas com tochas na mão atacavam os inocentes. E em suas vestes, uma coroa de espinhos estava adornada.

    O papel rasgou sob minhas mãos quando lembranças de tempos sombrios tomaram minha cabeça.

    Aquele desespero que senti e a coroa de espinhos presa em minha mente… Jamais me esqueceria disso.

    Como poderia, quando foram justamente eles quem incendiaram parte da minha vida?

    Joguei aquele papel rasgado no chão. Eu deveria focar em Lya agora, que estava em pânico.

    No entanto, o título da manchete ainda era legível…

    “O Mosteiro de Deus retorna!”

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