Índice de Capítulo

    Arena Shang Mu

    Escritório Milenial | Manhã

    Huli, logo após a saída de Lilac do local, continuou com seus afazeres burocráticos, com a seriedade marcada no seu rosto maduro.

    Carimbava documentos, organizava livros e pastas, assim como protocolava papéis da inscrição de cada time — seu rito imutável.

    Porém, ao ter em mãos o do time de Lilac, ele observou cada nome, como se quisesse encontrar algo.

    Os olhos tremeram, a testa franziu, deixando claro que um desconforto travava uma batalha contra sua natureza controlada.

    — Aquela jovem dragão… Ela não pestanejou em mudar o nome do próprio time. Gostaria de saber o porquê, mas não tive coragem de fazer essa pergunta.

    A tinta no papel ainda estava fresca. O assunto recente martelava sua mente.

    — Time Avalice. Seis jovens, que tentarão contra monstros das artes marciais…? Ilógico, talvez imprudente e vão… mas nunca romântico.

    Ele, ao colocar o documento junto com os outros, lacrou a pasta que os acomodava com um zelo maior — como se estivesse fazendo uma aposta.

    — “Um deles, Ashem Viktorius, sentiu meu punho e, agora com Lilac Sash, ela indiretamente me devolveu o golpe… e foi dolorido.”

    Após colocá-lo no armário, o raposo, com um pergaminho em mãos, deixou que os cabelos cobrissem seus dois olhos.

    Ficou calado, algo como um pensamento interno veio.

    — “Tenho a autoridade, mas não a razão plena. Essa análise não foi direcionada à dragão…”

    Gotas de lágrimas escorreram, mesmo com seus olhos cobertos.

    Elas seguiram paralelas — reflexo de sua alma.

    — “Eu quem estava sendo… analisado.”

    Sozinho, com todos os ensinamentos milenares como testemunhas, Huli chorou, com um sentimento de culpa crescendo em sua mente.

    — “O psicológico deles foi completamente impactado pela minha falta de cuidado. Eu falhei, mas não mais.”

    Imediatamente, as lágrimas cessaram.

    Junto a isso, a burocracia diária: Huli guardou o pergaminho dentro do tubo protetor — o papel áspero e grosso causou fricção ao raspar.

    Esse era o único barulho da sala.

    O ruído da tarefa minuciosa de um curador.

    Um guardião silencioso.

    Porém, eventos que antecediam o torneio — e que ocorriam ao mesmo tempo que o atual presente — contrastavam com essa atuação de Huli.

    Pelos quatro cantos da Arena Shang Mu.


    Em uma das salas VIP da área, conversas ocorriam no espaço que o Time do Templo Kirameku Kitakaze.

    Mais cedo, foi servido yuebing (bolo lugar), com uma fatia sobrando na mesa — o aroma agridoce de tangerina desidratada e envelhecida perfumava o ambiente.

    — Time, hora de irmos — Kaura Shiran falou, seguindo até a porta.

    O local, luxuoso e com paredes vermelhas aveludadas, foi o refúgio da reptiliana rosada e seu grupo desde os eventos tempestuosos pelos corredores.

    Mas…

    — Não… tão rápido… honorável Kaura Ssshiran.

    Uma voz carregada de silvados e sibilante foi ouvida, o que fez a reptiliana se voltar.

    Assim que o fez, se deu de frente a outra, só que com escamas verdes nos braços — o rosto era mais claro, com manchas.

    Usava uma vestimenta mais atrevida — um qipao (vestimenta feminina chinesa), milimetricamente ajustado — de cor verde bordado, com seus cabelos sedosos, da mesma cor, sobre a vista.

    Um fato curioso: ela estava na frente de uma mesa que continha componentes químicos, como Erlenmeyer, potes de compostos e destilador — segurava uma vidraria, inclusive.

    A rosada, com um pouco de incômodo no rosto — testa franzida — disse:

    — Jade Gya-wawa, outra vez com suas ideias incabíveis?

    Faccço parte… da equipe. Ou… tem alguma objeccção, sssim?

    — Não há nenhuma. E já conversamos mais cedo: o Time Kirameku Kitakaze não utilizará suas poções para obter vantagens em luta.

    — Huhu… E quem dissse que issso… é proibido?

    — Nenhum dos membros do time precisa de vantagens. Já é algo definitivo, sejam eles naturais ou não!

    A reptiliana esverdeada caminhou até sua rival.

    Era exótica até nisso — ondulava para os lados, quase um ritual, intencionalmente ameaçador.

    Fitou-a, sem vergonha.

    — Eu… não sssou uma pesssoa vã, honorável… Kaura Ssshiran! Meusss compossstos… sssão naturaisss!

    — Então recue nessa sua vontade de “fazer o bem” para a equipe. Sei de seus talentos em combate… e você é competente em cada um deles.

    — Gya… vocccê sempre querendo me bajular.

    Embora o clima parece pesado, as duas tinham respeito mútuo no olhar.

    Contudo, havia outros membros por lá.

    — Sifu Gya-wawa, pare de provocar nossa líder, por favor? Temos um torneio a disputar, então precisamos mostrar toda a honra do nosso templo. Mostre respeito à tradição!

    Era um Akita Inu (raça de cachorro) com uma postura marcial acima da média.

    Sua pelagem clara com detalhes em vermelho nos braços era uma combinação perfeita — pureza mais fúria, assim como a cor presente em seus olhos.

    Vestia Kimono e Hakama, e ele parecia se orgulhar de usá-lo. Além disso, ele praticava a nobre arte de praticar ideogramas com pincéis milenares.

    Mas mesmo sua voz jovial não foi capaz de manter a postura marcial por muito tempo: Jade foi até ele com uma rapidez digna de um predador — ela era uma dragão… de komodo.

    Ela o pressionou contra a parede, forçando seu corpo ao dele, com o rosto a poucos centímetros do canino branco.

    — S-senhorita J-ade… o que… — ele tremia.

    — Haitou… Sssizzzuturigi

    A fala da dragão de komodo parecia saborear o nome do canino.

    — Gah… o… q… — o rubor transformou seu rosto branco em vermelho completo.

    A furão Haiiro Gakatta, que estava ao lado de Kaura, foi até lá, mas impedida por uma das mãos da reptiliana esverdeada.

    Mesmo assim, ela não tirou os olhos de Haitou — Jade dominou o espaço da furão e do canino ao mesmo tempo.

    — Sifu Gya-wawa, solte o Sizu-kun agora!

    Mesmo o pedido não foi o suficiente.

    Ela manteve o domínio. E suas palavras voltaram.

    — Devo contar para elesss… que vocccê fica me… obssservando enquanto sssintetizzzominhasss poccçõesss, gya?

    — O q…q… que…? — ele não estava só vermelho; já estava brilhando.

    Os olhos de Jade eram magenta suaves, com uma sensualidade bem destoante de sua aparência corporal.

    Esse detalhe foi usado por ela, e o pobre Haitou não resistiu por muito tempo à sua encarada.

    Com o time os olhando, veio a confissão:

    — Eu fiquei te olhando… porque te acho muito habilidosa, capaz… e bonita!

    Um silêncio ocorreu — ou dois, ou três.

    Ambos se olharam, com Jade o encarando com espanto.

    Ao fundo, Kaura sorriu, assim como Haiiro.

    No fim, Jade soltou o canino, com os olhos cobertos por seus sedosos cabelos.

    Mas, mesmo nesse cenário onde Haitou respirou aliviado, ela não ficou calada.

    Sssizzzuturigi… Gya… — as palavras saíram presas, o corpo estava rígido.

    — Ah… o q-que, S-sifu Jade…?

    — Não ssseja tímido… por muito tempo…

    — Hã?! Mas… p-porque está me dizendo isso?!

    Ela lhe deu as costas, indo na direção de Kaura, mas deixou um recado importante:

    — Outro pode… ccchegar primeiro… Gya!

    Ela foi a primeira que saiu pela porta, acompanhada por uma leve vermelhidão no rosto.

    — “Maldita hora… que eu fui ser messstra!”

    Ela foi na frente, dando passos de vantagem.

    Haitou, já restabelecido, ficou lá travado, com seu semblante entregue a dúvida.

    — Mas o que é que aconteceu aqui? Ela falou que eu estava observando ela e eu disse que sim, e disse que ela é habilidosa e… bonita. O que eu fiz de errado?

    Kaura escondeu seu rosto atrás do leque florido que tinha, ao mesmo tempo que Haiiro se aproximou.

    A furão foi direta.

    — Sizu-kun… Ela lhe disse o poruquê. Você não perceberu?

    — Ora, ela saiu daqui escondendo o rosto. Eu vi. O que tem?

    A “cara de bobo” que ele fez era ao mesmo tempo impressionante e, no ponto de vista de Haiiro, muito inocente — até demais.

    — A Sifu Gya-wawa te falou o que tem que fazeru! Não é possível que não tenha percebido!

    — Ela saiu daqui! Eu percebi! O que está acontecendo com ela, afinal?

    — Deuses de Avalice… — franziu a testa, com a mão sobre o rosto. — Sizu-kun, por favoru

    A cena divertida animou um pouco os momentos finais antes do torneio.

    Mas Kaura, mesmo com o alívio que ainda aproveitava, só tinha pensamentos para outro alguém.

    — “Samui… Gostaria que você estivesse aqui e não afastado de nós… É até irônico que o quinto membro seja tão anti social.”

    E também em seu novo amigo.

    — “O honorável Serpryin Papakadah não deveria ter saído daqui sem uma escolta. A matilha de Pawa Geiza pode tê-lo seguido. Contudo…”

    Ela passou a se abanar.

    Um leve desconforto veio à tona — a rosada franziu seu rosto, o deixando fechado.

    Olhando para seu time, mesmo que Haitou fosse atabalhoado nas nuances e Haiiro tivesse muita energia, seus pensamentos continham intrigas.

    — “Serpryin parecia alguém submisso à Família Geiza. Mas, após conversarmos, foi bom saber que meu novo aliado sabe se cuidar. Eu confio nele… e sei que está bem.”

    Os eventos passados que ocorreram na zona da Família Geiza ainda atormentavam sua mente.

    Mas, a propósito, só o tempo dirá como será daqui para frente.


    Enquanto os outros lutadores se movimentavam para o início do torneio, uma área VIP destacada era o cenário dessa vez.

    A temática era a mesma — luxo e beleza, com vermelho aveludado — mas o tom era completamente diferente.

    Na frente do lugar estavam duas aves… porém amedrontadoras.

    Uma garça usando vestimentas de guerra — de cor verde, com runas antigas — fazia a guarda da primeira entrada — até suas patas possuíam proteção armadurada.

    Seu bico apontava para frente, como um radar. E os olhos, vermelhos, pareciam holofotes por estarem iluminados.

    Na segunda entrada havia um pavão — este usando uma vestimenta toda fechada de cor verde musgo — que prestava proteção como um totem.

    Suas plumas estavam retraídas, e formavam um tipo de pilar estável nas parte de trás, como mais um subterfúgio defensivo.

    Um manto lhe cobria a cabeça, com o bico preto à mostra — ele fazia um ruído ritmado.

    — Tsu… tsu… tsu… — o som era baixo, como uma reza antiga… de guerra.

    Adentrando o corredor rubro, o cenário era aconchegante: mobília rasteira, sob medida, bem ao estilo oriental mais tradicional.

    Lá dentro, sob um ar leve e aromático — chá de camomila — estavam dois indivíduos.

    Um era o monge codorna Serpryin Papakadah, de olhos abertos — de cor azul — servindo chá a um outro alguém.

    — Mestre Papakadah, peço desculpas por termos demorado tanto.

    — Não se desculpe, Jyn Onagadori. Eu me descuidei… e também não paguei tributos aos Geiza. Me arrependo por isso.

    Era um galo com crista longa e plumagem escuras pelo corpo, mais claras no rosto — sua fala era suave e controlada, como se expressasse com justiça em cada letra.

    Possuía uma longa cauda aviária, com imensas penas listradas, que brilhavam com a iluminação baixa do local.

    Suas vestimentas orientais — verdes na base, com detalhes em preto — eram de tecido fino, cuja sua condição hierárquica era quase como um nobre ao meio de plebeus.

    — Nobre monge, todos do Clã Orudofeza (オールドフェザー | Pluma Antiga) estamos cientes da injustiça. E tenho o dever moral de entregar à Família Geiza um requerimento de retratação à sua honra!

    As manchas deixadas por Pawa e seus asseclas ainda permaneciam na manta moral de Serpryin.

    — Meu desejo é que você não faça absolutamente nada, nobre guerreiro.

    Mesmo sob alento, as promessas de contenção não pareciam resolver as coisas.

    — Mas nobre monge…

    — Eu já paguei a dívida.

    A definição cortante calou Jyn Onagadori.

    O galo, fechando seus olhos, disse:

    — Isso acalma seu coração, nobre monge?

    — É óbvio que não, Jyn Onagadori. Mas aquieta Pawa e seus seguidores.

    Uma nova rodada de chá ocorreu.

    O codorna sabia do ritual — base baixa, bule a meia altura e temperatura da água a 73 graus.

    O sabor e o aroma estavam em sintonia perfeita. A camomila cheirava tão doce quanto a flor que lhe dava origem.

    Após degustar da bebida relaxante, Jyn não deixou o assunto fugir.

    — Pedirei desassociação imediatamente.

    Serpryin tomou mais um gole — se fez como desentendimento.

    Isso irritou o galo.

    — O nobre monge me ouviu?

    — Hm… — mais um gole veio.

    — A bebida irá acabar. Nem ela poderá resolver seus problemas.

    O único ruído ouvido após sua fala irritada foi o arranhar da colher ao fundo da cerâmica milenar da xícara e o aterrissar do bule ao fogareiro próximo.

    As chamas não estalavam e o calor era controlado — irônico.

    Jyn, frustrado, mostrou que iria se levantar — ledo engano.

    — Não terminamos, Jyn Onagadori.

    A frase o fez voltar a seu lugar.

    O galo estava curioso, tanto que tomou uma postura mais frontal a seu mestre.

    — Nobre monge, eu pensei que não desejasse mais conversar sobre o assunto.

    — Você é o melhor lutador do clã, Jyn Onagadori. E seu nome todo não é uma redundância que prossigo dizendo exaustivamente.

    — Nobre monge, dê lugar ao assunto. Por favor, eu quero mesmo saber o que tem a me dizer!

    Serpryin se levantou, ocasionado por uma obrigação como símbolo sênior.

    Calmo e sempre sereno, pegou mais pétalas desidratadas de camomila dentro de uma vasilha.

    Simples, pôs o composto orgânico dentro do bule e imergiu água quente — o processo indicou uma nova rodada.

    Junto com isso, a resposta.

    — Dar à Família Geiza o que deseja não é indigno. Porém, dá-lhes razão de se sentirem indignos é, de fato, uma manobra arriscada.

    Jyn o olhou com confiança, observando o rito do preparo como um aluno entusiasmado.

    Ele até levou sua mão para sobre a lousa rasa, sendo repreendido pelo sênior — era hora de ensinar e não receber ajuda.

    — Eu sempre estou disposto a aguentar humilhações e me explicar gentilmente para quem tenta me ajudar. Sou igualmente grato a essas pessoas… e aqui não foi diferente.

    — O que está dizendo, nobre monge?

    — Kaura Shiran, do Templo Kirameku Kitakaze.

    A crista de Jyn enrijeceu, o olhar buscou foco imediatamente.

    — O que?! Eles estão aqui?

    — Então conhece esse distinto templo?

    — Eles tem lutadores formidáveis. Um tempo escondido pelos vales da Região Rampeira do Quarto Canto. É um lugar remoto, quase inacessível.

    — Foi o que minha nova aliada disse.

    — O que? Aliada? Está me dizendo que… o nobre monge está se associando a eles?

    Um leve sorriso surgiu no bico de Serpryin, seguido por mais uma rodada de chá.

    Esperançoso, o senhor falou:

    — Vê agora o que uma boa dose de camomila pode fazer?

    — Certamente, nobre monge.

    — Muito bem, Jyn Onagadori. Acho que está quase na hora de fazer o seu nome ser mostrado a todos desta arena milenar. Mas ainda temos alguns minutos antes do início.

    — Sim. Aprossyh e Tatawaskay estão vindo para cá, para completar o time.

    — Ótimo…

    A politicagem permeava os bastidores.

    Há muito tempo — talvez até mais.


    Zona administrativa do Monastério Omna

    Sala de reuniões | Manhã

    — Vocês três abstiveram o voto por quê? Aqueles insurgentes macularam o nome do monastério! Como podem ser passivos a isso?

    No salão simplório da propriedade milenar do monastério — havia luxo nas paredes, mas só uma mesa grande de madeira no meio e cadeiras — Pawa falava aos demais membros do Time Omna.

    Como informado, houve três que se opuseram a votar… contra o time de Lilac, o rebatizado Time Avalice: a Família Sapphire, Aoi e Daiyamondo.

    Na mesa, Joshy o olhava com seriedade, Tats continha indiferença, e Sheng só coçava a orelha.

    — Cadê a Waaifu? Só ela votou… e foi contra! Aquela desgarrada é uma desonra para sua família! Só que vocês foram longe demais… ESTÃO OUVINDO?

    Ele gritou, as atenções se voltaram só para ele — ao mesmo tempo que o líder estava de pé ao seu lado.

    — Pawa Geiza Omna… — a encarada foi brutal.

    — Joshy?! Desde quando você… — ele foi interrompido.

    Sem desviar o olhar, o lobo branco deixou claro sua posição.

    — Cale-se… e isso é uma ordem.

    A tensão no recinto alcançou o teto.

    O choque foi absurdamente alto.

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