Capítulo 137 - Minutos Imprevisíveis
Diante do quadro informativo que Tats ajeitou para que o time fizesse leituras e bolasse estratégias, Sheng ainda o observava.
O felino respirava fundo, um misto entre ansiedade e preocupação, dados os fatos levantados.
Entretanto, esse impacto momentâneo deu lugar a uma lembrança recente, de alguém que enfrentou o mesmo desafio com o qual lidava.
Em sua mente, Sheng encontrou um jovem determinado a lutar contra a lógica, alguém a quem menosprezava, não por maldade, mas sim por misericórdia.
— “Viktor…”
Vê-lo suportar, mais cedo, a pressão do Nirvana aflorado de todo o time bateu junto com o colapso de saber da presença do Tier S no torneio Tormenta.
— “Será que… ele sabe?!” — A dúvida o fez fechar os punhos com mais força. — “Nem brincando que ele lidaria com isso se soubesse da realidade. Mas, mesmo assim, eu o vi aguentar tudo aqui e… ele não recuou.”
Sheng voltou a observar os dados, leituras de textos e gráficos detalhados dos adversários — tudo estava contra, mas seu time tinha o mesmo quilate.
Tinha que ter.
— “Sou do Monastério Omna. Cair está fora de cogitação. Joshy me chamou para somar porque sabe do meu potencial. E todos aqui são destaques em cada família. Então, não importa se há um Tier S entre nós. Vamos para cima, com tudo!”
A sua confiança era palpável, mesmo diante da verdade.
Em contraste, no outro lado da mesa, Pawa, sempre com o rosto fechado, bufava a ponto de chamar a atenção de todos.
— Aquela desertora do monastério já deveria estar aqui. Onde está a “agente” renomada? Aquela traidora…
Tats franziu sua testa, mostrando incômodo.
Ela o olhou, e não ficou calada:
— Já conversamos antes: Waaifu Soul Omna não é uma traidora.
— Isso é o que você pensa. Quem foge das obrigações do nosso monastério é e deve ser considerado um traidor. Ou acha que eu não sei o que ela anda fazendo naquela sala?
A conversa indigesta chegou até Joshy, que respirou fundo. O lobo branco sentiu um leve desconforto, o que o fez pôr seu escudo sobre a mesa.
Sem ruídos, tampouco maiores danos, o utensílio era tão pesado, que desalinhou a plataforma — Pawa percebeu isso.
— Ato de guerra, soldado?
— Eu respeito você, Pawa. Sua honra, orgulho, até sua postura marcial… — Falava, marchando até o outro lado.
Ele se sentou, apoiando o queixo nas mãos, fitando o avermelhado.
— Mas não vou tolerar que tripudie de qualquer membro do nosso time. Jamais.
— Está defendendo aquela agente? — Um olhar ofensivo ocorreu.
— Estou defendendo… e ele se chama Waaifu Soul Omna.
— Trair o Monastério Omna por acaso é motivo de tanto apreço por ela?
— Defina isso.
— Redigir as escrituras antigas, milenares e imaculadas, do monastério é o suficiente para você? Todos os esforços de mais de mil anos de artes marciais em Avalice foram reduzidos a números por aquela tratante!
Pawa foi muito longe.
Mais do que deveria.
— Ela previu isso.
— Uh? Do que está falando, Joshy Sapphire Omna?
— Waaifu… Ela me disse que você ficaria duvidando de sua fidelidade ao monastério. E ela me disse ainda mais coisas…
— Interessante. O que mais?
— Que você irá cair… mas não do jeito que imagina, de uma forma que nunca mais irá se levantar.
Pawa grunhiu, com o Nirvana voltando a sair de sua testa. Mesmo o pouco dito, a mensagem de quem veio fez com que fechasse seu rosto.
Joshy não parou, mesmo assim — a encarada continuou.
— E, mesmo que você consiga se erguer, já que até ela previu que você fará isso, estará com o ego e orgulho tão feridos e vulneráveis… que você não conseguirá juntar os cacos.
O lobo avermelhado se levantou, batendo um dos punhos na mesa — controlou a força, mas deixou avarias — e mostrou os dentes.
Seu ódio ficou tão evidente que chegou a fechar os olhos e a pressioná-los, como se quisesse explodir.
Pelo contrário: ele se segurou, mas com a voz presa ao dizer:
— O que você tem a dizer sobre isso? Grr…
— Eu a repreendi — falou, sem esboçar movimento algum ou alterar o tom de voz.
Pawa abriu a boca, surpreso ao que acabou de ouvir.
Mas, antes que pudesse perguntar, a resposta veio:
— Você se lembra do que eu disse? “Não vou tolerar que tripudie de qualquer membro”, e é esse o porquê de estarmos conversando. Entendeu agora o que eu quis dizer, Pawa Geiza Omna?
Ainda boquiaberto, Pawa manteve a raiva no rosto. Escolhendo bem as palavras, dado seu estado, ele ficou de pé, apontando com o indicador para Joshy.
— Você não tem uma convicção!
— Diz isso com tanta certeza… Por quê?
— Deveria buscar um viés, mas, ao invés disso, se coloca sempre sobre o muro. Você tenta agradar a todos, mas, ao cair, não terá chão. Flerta com o fracasso, soldado.
Joshy fez o mesmo: ficou de pé. Mas ele não ficou calado:
— Eu sou o que quer destruir esse muro ilusório que você disse.
— O quê? — recuou o braço, fechando o punho. — Isso é algum tipo de piada?
— Esse “muro” é o limite de todos vocês, o que impede de brigarem. Pois bem, sou eu quem decido se ele vai ruir ou não… e o que quero é destruí-lo.
— E por que, posso saber?
— Para que a doença do Monastério Omna seja exterminada completamente!
Foi o ponto final que faltava.
Pawa fechou sua boca, voltando a se sentar. Cruzou os braços e inclinou levemente seu corpo para trás.
De olhos fechados, jogou mais palavras ao ar enquanto Joshy recolhia seu escudo.
— Revolucionário tolo — falou, com tom de voz baixo. — Em algum momento seremos adversários. Torça para que nunca cheguemos às vias de fato, soldado. A arte da guerra tem mais de mil anos… e você sabe do que estou falando.
Joshy ignorou, cruzando a sala sem esboçar uma só palavra.
Pawa, outra vez, fechou seu semblante. Agiu como alguém que esperava que a semente que pôs em um solo fértil germinasse — sequer a metáfora se fez real.
Ele ameaçou se levantar, para tirar satisfações, mas uma mão feminina o impediu.
Ele olhou, era Tats.
— O que pensa que está fazendo, médica?
O olhar simpático dela deu lugar a outro, que fez com que Pawa se surpreendesse.
Tats mostrou em seu rosto uma feição de batalha: aura aflorada (azul), com traços de maturidade marcial em cada centímetro de seu rosto.
— Não sei quando, onde e como, mas… Se você tentar atingi-lo de forma covarde, pensar em denegrir seu nome ou, pior, mandar seus asseclas atentarem contra suas ideias, a “guerra” que tanto procura no Joshy vai começar pela Família Aoi, entendeu?
Ela o soltou, caminhando com a mesma elegância de sempre, mas longe do mesmo rosto belo de antes.
Naquele instante Pawa a olhou diferente: não era só uma desilusão, um ledo erro de caminho.
Ele viu a fúria estampada em outra pessoa. Só que, dessa vez, com texturas mais cinzentas.
— “O que está acontecendo aqui? Essa mulher… Ela nunca agiu assim comigo. Grr…”
Seu pensamento o lotou de dúvidas.
Ele viu Sheng sair pela porta, e teve a impressão de que tudo conspirava.
— “O soldado, o fedelho, essa médica insolente… e a agente herege. Todos parecem ir contra os mais de mil anos de artes marciais em Avalice. Suas ideias os distanciam do verdadeiro propósito do Monastério Omna.”
Era chegada a hora.
A poucos minutos do início do torneio, ele também saiu do aposento milenar.
Mesmo sozinho, Pawa estava determinado.
— “A justiça dos milenares corre pelas minhas veias. Tenho o dever moral e marcial de manter o legado são e salvo de influências externas… e internas.”
Enquanto caminhava, ele teve uma visão: uma vitória perfeita, com seus seguidores o louvando com todas as honras.
No chão, seu espólio principal: era Milla, derrotada… e desacordada.
— “Aquela aberração… será destruída completamente! E que seja pelas minhas mãos, pelo bem dos mais de mil anos de artes marciais em Avalice!”
Ele fechou sua mão e, ao contrário do que vilões fariam, ele a balançou, como se segurasse a mais pura justiça.
Ao fim, caminhou lentamente para fora do salão, indo em direção à saída da Zona Administrativa do Monastério Omna.
A porta imponente se abriu, ao mesmo tempo que a luminosidade tomou força…
Tal luz tomou foco e levou a cena até os corredores adjacentes do local milenar, metros atrás onde passos eram ouvidos.
Sob tensão, um grupo de lutadores caminhava, todos já munidos de grossas luvas.
A que liderava, mais à frente, era Ametista Superior, acompanhada por Gil Son, logo a seu lado.
A jovem boxeadora só olhava para frente, ignorando os demais.
Seu comportamento não era imprudente ou sequer arrogância barata.
Seus pensamentos disseram o porquê:
— “Ele já está indo para lá… Eu sinto.”
O javali boxeador percebeu essa “calma” camuflada da felina.
Cada passo tinha um significado, ele sabia.
— “Hehe… garotas da idade dela pensariam diferente, mas depois de conversarmos, já ficou na cara quem ela está caçando…”
Três passos mais.
Isso foi o suficiente para que Ametista percebesse alguém de seu interesse logo ao horizonte no corredor.
Os ruídos marcados por cada pegada deixaram evidente de quem ela tinha tanto fascínio… marcial.
Era Joshy.
— “Aquele lobo… o que lutou contra o meu pai e…”
Seus punhos se fecharam ainda mais, o barulho do couro das luvas se contraindo era audível o suficiente para que Gil e os demais percebessem.
Os óculos dela pareciam ser mágicos, dado o foco destacado que aplicou no lobo branco — uma rivalidade que destoava.
Enquanto os devaneios ocorriam em sua mente, uma luva foi ao encontro de seu ombro.
Antes que isso ocorresse, seus olhos viraram de direção e, como reflexo imediato, um potente direto de esquerda foi executado por Ametista, com uma precisão ímpar.
Um som seco foi ouvido, cortou o ar, e o impacto soou como areia sendo golpeada — um “brum” opaco.
Igual à sua performance, um outro felino de pelagem escura e olhos castanhos defendeu seu soco — a clássica guarda Peek-a-boo — e se utilizou da própria luva para defender o rosto.

Ele era um cougar.
Seu físico bruto — definição do abdômen e braços era visível mesmo sob a roupa toda branca — não deixou que a ação cessasse; contra-atacou com o mesmo tipo de golpe — direcionado no nariz.
Mas Ametista não só se esquivou, como emendou um outro soco, imitado pelo outro lutador.
Como juiz, Gil Son se intrometeu e segurou com ambas as mãos os dois golpes potentes.
— Gostei do entusiasmo, mas vamos parar por aqui, ok? O torneio ainda não começou e vocês já querem pular etapas…
Amy sorriu, recolhendo seus punhos. Não foi um comportamento esperado, mas Gil Son sabia o porquê.
— Gostou do que viu, Nevada Clinch?
Ele se referiu ao felino, que ajeitou seu longo cabelo verde — um rabo de cavalo volumoso e aéreo.
— Essa fixação nesse lobo… — falou, tom de voz forte. — Existem presas que não foram feitas para serem caçadas. A capitã do Time Demifaiku agindo assim é estranho.
Ele usava uma calça de lutador, assim como uma camisa regata, todos da cor branca.
Um pouco mais atrás, uma coiote parda com uma perna mecânica se aproximou.
Ela abraçou o gato pelo ombro, dizendo:
— Está com ciúmes, Nevada? Hehe, ela tá tão na do Joshy, não é?
— Não seja ridícula, Ohio! Minha prima merece mais. E somos parentes, não se esqueça!
— Bla bla bla… Sei não, heim! Haha!
Seu porte — braços musculosos, barriga definida, ombro com envergadura grande — ostentava as cores verdes de sua vestimenta.
Era cega de um dos olhos, com cicatriz que varava o rosto de cima para baixo, e tinha cabelo curto loiro.

Mesmo que o momento fosse de descontração, seu rosto sempre mostrava uma feição intimidadora, por mais feliz que estivesse.
A conversa descontraída do grupo foi interrompida por uma voz bem jovial, mas que trazia verdades.
— Ele empatou com o velho Ouro… Ouça o idiota do Nevada, é um adversário em outro patamar, Amy-Su.
Era uma jovem esquilo, também de luvas; ela usava um collant composto de cor branca e trazia uma bermuda de compressão — Seus cabelos eram longos de cor vermelha.
Sua pelagem era marrom, com cauda bem peluda.
— Detroit, quem você está chamando de idiota?! — repreendeu o felino.
— Falou o “maninho” que quer dar lição de moral na “fedelha” que fala na cara.
— Sua arrogante esnobe! — caminhou em sua direção.
Ele estava virado para a garota e a olhando, mas bastou piscar para que ela sumisse bem diante dele.
— Droga! Cadê ela?! Outra vez isso…
Ele ficou olhando ao redor, não sabendo para onde ela foi, mas, por estar levando a sério — defesa alta, base sólida ao chão — sabia o que estava por vir.
Por um microssegundo de desatenção — nível alto — Nevada sentiu uma pressão absurda empurrar seu rosto para o lado, fruto de um violento soco que o acertou em cheio.
Porém, foi um golpe que nunca foi desferido na realidade. Mas ele o sentiu. O choque ocorreu, mas sem danos físicos — mas seu rosto foi deslocado para o lado.

Do canto, uma risada mais jovem foi ouvida.
— Haha. Brincar com sua mente é tão fácil…
— Detroit, venha aqui e lute com honra! — ele lhe apontou o punho.
— Venha você aqui e lute como uma “garotinha”! — ela o chamou e o provocou.
Todos estavam rindo, com exceção de Nevada. Tudo aquilo parecia tão natural que o evento incrível não tinha o peso de tensão que merecia.
— Detroit, se você não parar com sua Intenção Manipuladora, não vai ganhar sorvete depois do torneio.
— Ah, não faz isso! Você prometeu que ia me dar se eu viesse fazer parte do time!
— Então para de usar seu Nirvana em mim!
— Isso não é justo…
Sem que piscasse, Detroit foi pega facilmente. Ohio executou um salto, a tomando nos braços.
Não havia ruídos, nada de som. Mesmo com o físico desenvolvido da coiote, ela aterrissou sem que fosse ouvido barulho algum.
— Ei, eu sei me mexer assim, ok?
— Eu já estava cheia de ficar ouvindo o Nevada ficar chorando… Por isso agi.
Isso foi o estopim para que ele fosse tirar satisfações.
— Que negócio é es… — ele mesmo se interrompeu.
Antes que pudesse fazer qualquer coisa, um soco já estava prestes a atingi-lo, cessado no último instante por Ohio — a força foi tanta que soltou a presilha do cabelo do felino, esvoaçando os fios.
Como antes: sem ruídos.
— Você caiu facilmente na Intenção Manipuladora dela… e receberia meu soco também — o encarou, com seriedade. — Fica esperto, Nevada. O velho Ouro Superior me avisou sobre você…
Ele empurrou o punho dela para longe, mostrando os dentes em seguida.
— Da última vez que você levantou seu punho para mim, seu destino foi a lona. Não se esqueça disso, Ohio Yankee!
O clima descontraído deu lugar a inimizades inesperadas — mas não por muito tempo.
— Vocês três… parem de agir como se fossem pessoas desmioladas!
Era Ametista. Seu rosto tomou contornos mais maduros, assim como sua voz.
— Ficamos o tempo todo evitando sermos vistos juntos e, agora que nos juntamos, vocês querem jogar tudo que construímos fora? Tenham ciência de que meu pai está contando com a gente. Então, por favor, comportem-se!
Ela deu as costas, voltando a caminhar.
Mas deixou algo antes de ir:
— Não me façam passar vergonha.
Essa última frase desarmou os três ao mesmo tempo.
Detroit saiu do colo de Ohio, que abaixou seus braços. Nevada fez o mesmo, mas foi além: estendeu sua mão para a coiote, dizendo:
— Sem ressentimentos?
Ela segurou sua mão com força, e veio também com um sorriso.
— Ok, mas eu vou querer sorvete depois do torneio também, ok?
— Ah, mas o que… — novamente interrompido.
Detroit o abraçou pelas costas, dizendo:
— Você agora tem duas promessas! Dois sorvetes pras amigas! E não aceitaremos não como resposta!
Risadas voltaram, assim como conversas amistosas.
Esse era o Time Demifaiku.
— Hehe… Guria, seu pai teria muito orgulho de como está conduzindo o time.
— Faço o meu melhor… porque tenho os melhores ao meu lado!
Os passos voltaram, rumando para o interior da Arena Shang Mu.
Contudo, sob o olhar compenetrado de Amy, seus pensamentos a levaram a refletir — não era só Joshy o foco.
— “Mesmo com o tio Gil Son conversando comigo mais cedo, não é exagero eu ficar preocupada com aquele moço dos quatro chifres. Eu o vi de muito longe, mas sei o que senti ao vê-lo: o Karma dele… é incrível.”
Até mesmo Ametista Superior teve contato, mesmo que visual, com Baron Hornberg.
O bode elegante deixou marcas em variados lugares.
Dito isso, seu time estava reunido em um salão distante dali, local mais reservado e VIP que os demais templos milenares e de destaque na arena.
Percorrendo os corredores, já mais vazios, enquanto lutadores rumavam para o centro, o salão nobre e cheio de luxo abrigava o Time Monsenhor Sesto.
Elyra Cealestine, assim como seu mestre e pupilo Theo — que dava nome ao time — deram as honras aos membros remanescentes.
— Baron… Princesa Amu Amu… sejam bem-vindos ao torneio Tormenta! — falou o leonino, os reverenciando como a etiqueta mandava.
Porém, em um dos cantos da luxuosa sala, estava debruçado confortavelmente em uma das poltronas finas um certo felino… azul.
— Le Baron Hornberg?! Hmm… Je dois être au paradis! (Eu devo estar no céu)
O rubor tomou seu rosto, por completo.
— Me segurem… C’est très excitant!

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