Capítulo 0193: Acordo amargo
O quarto de Mimosa era quente e arrumado. Decorado com as coisas que trazia com ela no vagão; baús de roupas, tapetes de pele e decorações coloridas penduradas aqui e ali — a casa de uma cigana.
Siegfried pôs ela na cama de dossel e então a viu se enroscar e desaparecer por baixo de lençóis de algodão e cobertores de lã.
Silêncio.
Desde que recebeu as suas pernas de volta, Mimosa não lhe dirigia mais a palavra, muito embora parecesse estar sempre por perto — e fizesse questão de ter Wayne ao seu lado. De fato, não ficaria surpreso se descobrisse que o fato do casal ter sido pego no jardim daquela forma não tenha sido um acidente.
Talvez ser pega justamente quando Siegfried estava retornando da investigação fosse algo que ela mesma planejou. Sempre voltava ao final do entardecer, logo antes da última luz. Todos sabiam disso.
— Até quando vai ficar sem falar comigo?
— …
— Por que você tá tão irritada? O que foi que eu fiz?
— …
— Você tem me evitado desde o casamento. Até antes. Se eu não te conhecesse, acharia que tá com ciúmes de uma garotinha de sete anos.
— Não! Eu tô com ciúmes da sua esposa! Tá legal? Era isso que queria ouvir? Você casou com ela! E o que aconteceu com todo aquele papo de ir pro norte? Achei que cê tinha uma missão.
— Espera que eu marche no inverno?
— Tá dizendo que vai marchar na primavera?
— …
— E então?
— É complicado.
— Você ganhou um castelo, uma esposa e agora não quer mais lutar. Parece bastante simples pra mim.
— Eu não disse isso.
— Então o que você tá dizendo?
— Que eu não posso simplesmente seguir em frente como se nada tivesse acontecido aqui!
— …
— Eu sei, tá legal?! Eu sei que devia seguir em frente. Eu sei que preciso me apressar. Tem muita gente que depende de mim. Mas eu não posso simplesmente ir embora. Não dá. Só… Não dá. Isso não significa que eu não me importe. Acredite, eu adoraria ser como os heróis das suas canções. Algum cavaleiro cheio de honra e com uma missão, que atravessa o reino inteiro e nunca para até completá-la. Do tipo que tem uma única missão na sua vida; só uma e nada mais. Eu queria ser assim. Queria mesmo. Só que não dá. Também tem pessoas que precisam de mim bem aqui. E eu não posso simplesmente esquecer delas.
Mimosa se acalmou e sua voz passou de irritada para tímida quando disse:
— Você ainda não respondeu à minha pergunta. Quando vamos partir?
“Agora!”, devia dizer.
“Na primavera”, teria sido uma resposta mais razoável.
“Nunca”, parecia mais provável.
Ao invés disso, disse:
— Eu não sei.
Isso não pareceu agradar Mimosa, que agarrou os lençóis e se enroscou neles novamente, fazendo questão de dar as costas para Siegfried antes de dizer:
— Eu quero as minhas pernas de volta.
— A Kira…
— Não pode fazer nada!
— A Eroth não é confiável.
— Se você não falar com ela, eu falo!
Silêncio.
Uma ameaça? Não. Só uma criança teimosa fazendo birra; embora não duvidasse de suas palavras. Era óbvio que a jovem iria até Eroth novamente, cedo ou tarde. Talvez fosse melhor ele mesmo falar com ela. E foi o que fez.
Encontrou Eroth exatamente onde havia lhe deixado: nas masmorras — acorrentada e nua, como um animal. Não era capaz de ver o seu rosto coberto pelo saco, mas podia sentir o sorriso em seu rosto quando ela começou:
“Lorde Blackfield. A que devo a honra?”
“Corte o teatrinho. Sabe muito bem por que estou aqui.”
“Para receber algumas aulas de teatro? Não lhe faria mal, sabia?! Como um lorde, é bom já ir se acostumando com esses ‘teatrinhos’. Vai precisar usá-los muito em breve, sabia?! Nobres e plebeus esperam isso. Educação e bajulação são as armas da nobreza. É bom aprender a usá-las. E rápido.”
“Não vim aqui atrás de conselhos sobre como governar.”
“Não. Veio aqui por causa da sua namoradinha. Bem. A outra namoradinha. Você tem tantas, não é?! Por falar nisso, como vai minha filha?”
“As pernas da Mimosa…”
“Elas se foram.”
“Você sabia.”
“Ora! Mas é claro. Eu disse a ela que, sem os materiais adequados, mesmo a minha magia teria limites.”
“Então não pode fazê-la voltar ao normal?!”
“Não foi isso que eu disse. Eu só preciso dos meus equipamentos.”
“…”
“A sua paranoia cresce cada dia mais forte. Não tem com o que se preocupar.”
“Discordo.”
“Eu posso lhe ser útil e sabe disso.”
“Também pode me trair.”
“Qualquer um pode traí-lo.”
“Humpf! E então? O que quer em troca?”
“Ora! Servi-lo, é claro.”
“E espera que eu acredite nisso?”
“Não. Mas é a verdade.”
“As coisas que você fez…”
“Não farei novamente. A menos que você me permita.”
“Mentira! Certa vez, você me disse que seu objetivo era ver Thedrit queimar. Espera que eu acredite que mudou de ideia?!”
“As pessoas mudam.”
“…”
“Brincadeira. Você devia aprender a sorrir mais. Um rapaz tão bonito não devia fazer uma cara tão carrancuda. Vai se tornar um velho ranzinza nesse ritmo. Bem! Seja como for, não tem com o que se preocupar. Sim, eu verei Thedrit queimar. Um dia. Não tenho pressa. Além do mais, algo me diz que você mesmo vai provocar um belo incêndio. Não vejo por que não ajudá-lo.”
Mentiras.
Cada palavra que saía da boca dela fedia à mentira. Mas que escolha tinha? Não era só por causa de Mimosa. Se deixou Eroth viver, era porque sabia que poderia usá-la. Aquela seria uma boa oportunidade para testá-la.
— Não haverá segunda chance. Se você me trair, eu te mato. Se conspirar contra mim, eu te mato. Se me oferecer menos do que a sua lealdade total e incondicional… Eu te mato! Fui claro?
“Como cristal.”
No fundo do seu coração, Siegfried sabia que estava cometendo um erro. Ainda assim, abriu as grades, removeu as correntes e libertou Eroth.
A elfa se levantou e esticou bem os braços, como se tivesse acabado de acordar. O seu corpo despido, levemente sujo de poeira e nada mais. Os seios permaneciam firmes e os cabelos, sedosos. Estava na prisão já há dezenove dias, mas sua beleza não fora manchada. Nem seu orgulho.
Siegfried a escoltou até o balneário e depois lhe deu uma muda de roupas para que não tivesse de andar despida pelo castelo.
As servas viram e entraram em pânico. Cada uma delas correndo para contar às outras; e estas, por sua vez, vindo depressa conferir os boatos. Estavam todas assustadas. Embora a maioria soubesse que Eroth havia sido trancada nas masmorras, algumas pareciam pensar que este era apenas um boato sem fundamentos. Outras talvez rezassem para que Lady Kroft passasse o resto de sua vida nas masmorras. Nenhuma delas parecia esperar vê-la novamente.
De algum modo, o Castelo dos Ossos havia se tornado um lugar mais frio de repente.
Mas Eroth cumpriu com a sua palavra. Após se banhar e vestir suas roupas, foi ao antigo laboratório dela no primeiro andar, onde Kira estudava e dormia entre livros, pergaminhos e frascos — como estava cega, cabia a Tom ler para ela as palavras.
E, assim que viu Eroth passar pela porta, o garoto entrou em pânico e procurou por uma arma para se defender. Apesar disso, não foi difícil lhe explicar a situação e acalmá-lo.
O mesmo não poderia ser dito de Blossom.

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