Capítulo 139 - Prelúdio Ritualístico
Como tantas vezes, um silêncio pairava em todos os corredores da Arena Shang Mu.
O ambiente milenar selava o ruído externo.
Cada canto, antes tomado por lutadores de toda Avalice, agora retornaram à normalidade, como todos os dias de sua história.
História…
História é uma palavra ambígua.
Pode registrar fatos, distorcer verdades… ou até mesmo inventá-las.
Mas há algo que permanece incontestável: vivê-la é diferente de contá-la.
Dentro dessa ótica, aquele espaço no meio da Zona Milenial da Cidade de Shang Mu ainda guardava muitas delas.
A história que estava acontecendo era real o suficiente para surpreender ainda mais.
Ela seguia para frente, lenta para alguns, rápida para outros… ou só era.
Em um dos corredores, passos eram ouvidos.
O ruído era proveniente de sapatilhas marciais, comuns entre o mundo da luta.
Um barulho macio, com liga e textura.
O ritmo era o mesmo, passadas fortes de quem não estava com pressa mas tinha fúria.
Cruzando o corredor, a sombra de alguém foi vista na parede rubra.
A silhueta entregou alguém de estátua normal, trajado por uma vestimenta rústica.
Ao cruzar, as pegadas se mantiveram.
A cena prosseguiu, subindo lentamente até mostrar seu rosto.
A peça faltante do tabuleiro: era Flórr.

O panda, incansável, continuou seu cortejo, sozinho.
Bem dentro de olhos azuis, havia a determinação de um guerreiro.
Os passos, incessantes, tocavam o solo como batidas de taiko, como único ruído rítmico do ambiente silencioso.
O ar estava fresco, mesmo sem brisa.
O sol do início da manhã já estava alto e mais luminoso — as janelas e portinholas nas paredes mostravam sua graça.
Cada corredor tinha uma tonalidade, em degradê: uns mais escuros que outros.
Após alguns minutos, Flórr avistou uma figura nas sombras.
Tal indivíduo vestia botas, calças e um manto, todos completamente pretos.
Seu rosto estava coberto pelo capuz da vestimenta, e suas mãos estavam dentro do bolso da calça.
Assim que estava a um metro de distância, o panda cessou seus passos, onde a respiração da figura misteriosa tomou o lugar do ruído.
Era forte na inspiração e áspero na respiração.

A pessoa estava encostada na parede, não dando atenção a aparição de Flórr.
Por ironia, uma conversa se iniciou.
— Como sempre, você já se preparou.
Não houve resposta, sequer reação.
Ele continuou:
— Sabe, eu gostei muito dessa hora que ficamos no meio de fracassados. Não que isso mude muita coisa, mas consegui avaliar as doutrinas e as ideologias de muita gente. Eu estou até com nojo…
Mais uma vez, Flórr falou ao vento.
E não parou.
— Eu sei que você não é de falar muito. E vou te dizer uma verdade: tem toda razão de ficar em silêncio. Foi essa a minha estratégia após te ver fazer isso.
Era praticamente um monólogo.
— Você ficou aqui por causa daquele leonino, não foi? — ele encostou na parede, também com uma das mãos no bolso. — Aquele miserável me humilhou em público, fez piada de mim e… Bem, você tomou conhecimento e está aqui agora.
A figura, ao ouvir isso, desencostou da parede, retirando suas mãos do bolso — elas também tinham pelagem escura.
Virou sua cabeça para Flórr, aproximando do panda.
Foi até seu ouvido e lhe disse algo — inaudível para os de fora, restando a Flórr essa experiência.
— O que? Ele já foi? Hum… Que inconveniente. Mas, você gostou do que viu?
A figura voltou ao local de origem, mas, desta vez, pôs as duas mãos para frente, fechando os punhos.
Um estalar de dedos ecoou.
— O torneio é daqui alguns minutos, mas sabemos que muito dele já foi travado nesse lugar — falava Flórr. — Essa gente antipática, sem talento e obcecada por honra e glória já caiu, mas ignoram sua própria insignificância. Eles ainda acreditam que fazem parte desse mundo…
A figura misteriosa deu um passo para frente, quase dando o segundo — o panda impediu.
— Ei, espere. Você está tão impaciente assim? Hehe, sei que não suporta estar em um time, mas as regras do torneio exigem que faça parte de um.
O indivíduo olhou para trás, bufando.
Após isso, retornou para onde estava, repetindo o gesto: um dos pés na parede, se apoiando, e mãos nos bolsos.
— Você se aquieta com facilidade, sabia? Faça sempre isso e iremos longe.
A pausa na respiração dela foi um sinal, junto com o olhar para Flórr.
O panda agiu rápido.
— Ei, calma… — levantou as duas mãos, com cuidado. — Eu só estava brincando. Sutileza não é sua área, eu entendo.
Devagar, a pessoa retornou, se pondo como antes.
Flórr segurou um pouco suas palavras.
Cinco segundos.
— Eles já estão vindo. Foi aqui que marcamos, lembra? Como você disse uma vez: “vocês são o que o mundo renegou, que teve seu lugar retirado e a palavra calada”. Isso me motivou muito. E a eles também…
Flórr encarou o misterioso indivíduo.
Por alguns segundos, não mais que dez, o fez a fim de testá-lo.
Gargalhou um pouco, como uma descontração forçada — fora de tom e momento.
Enfim, recorreu a outras coisas.
— Você também disse: “ser pequeno entre grandes é uma vantagem; você só tende a crescer, eles a perecer e sumir”. Simplesmente brilhante.
Só ele falava.
O outro se continha, ignorando o monólogo.
— Os que seguem um caminho são os grandes. Porque? Óbvio: eles se baseiam nos dogmas marciais, nas normas, regras, doutrinas… tudo que lhes dão identidade. Patifes!
Flórr emanou sua aura: verde escuro.
Golpeou o ar com um soco, o direito.
Sem parar, executou o segundo, com o esquerdo.
Extravasou, o olhar estava focado.
— Todos estão longe do mundo da luta: você segue vários caminhos, obtém o melhor dos mundos, consegue poder… supremo e incontestável! Sem raiva, nem ódio. Só o puro esforço e treino. O único caminho atrasa o lutador… Tolos!
Sozinho na conversa, ficou em silêncio por três segundos.
Nesse tempo, um flash temporal ocorreu, lhe trazendo um vulto lilás, cuja energia brilhava, trazendo asco a seu rosto.
— Aquela dragão… também me humilhou. Ela está longe de ser uma ameaça, mas suas palavras devem ser caladas, como todos os outros que tentaram me aniquilar. Não é vingança, tampouco ressentimentos. É justiça… A nossa justiça. A real.
Flórr tinha ódio no olhar, mas não esboçava o mesmo ar maldito.
Era indignação — ele andou de um lado para o outro após falar — e também inquietude.
No fim, se aquietou, voltando ao lado da figura.
— Eles estão vindo…
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OST: Breakdown Eternity
No rodapé. Ouça se quiser
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Nisso, ambos olharam para o fundo. De uma esquina, ruídos de passos foram ouvidos.
Um sorriso de satisfação surgiu em Flórr; também se moveu para frente, ficando com o corpo levemente inclinado.
— Enfim, o Time Akumu… se encontrou nos corredores.
As três pessoas viraram a esquina, caminhando ao encontro da dupla.
O caminhar, carregado de muita tensão e desprezo pelo espaço milenar, era como um ritual macabro.
— Hehe… a Joia Não Lapidada. Vahn.
Mais à direita, havia uma chacal.

A luz das portinholas tocou sua pelagem de forma irregular — o rosa suave não parecia natural sob aquele ambiente milenar.
Era como se aquela cor não pertencesse àquele mundo.
Seus passos eram leves… até demais.
Não tinha peso.
Não havia som proporcional à presença.
A única coisa que denunciava sua existência eram os olhos.
Escarlates.
Fixos.
E atentos.
Não observavam o ambiente — avaliavam.
Esse julgamento não era arma.
Era opressão. A linha tênue entre o que deve ou não existir.
Seu olhar eram lanças afiadas e pontiagudas.
E assim se fez existir.
E havia outros — Flórr estava ansioso.
— O Guardião das Trevas Vermelhas. Gran.
Um raposo vermelho estava ao centro.

A cauda sinuosa e elegante era um destaque logo atrás de seu corpo esbelto… e um sorriso persistente.
O tecido do changshan ondulava de forma sutil a cada passo, como se o próprio ar abrisse espaço para sua passagem.
O sorriso… não mudava.
Nem quando cruzou o olhar com Flórr.
Tampouco quando fitou a figura encapuzada.
Era constante.
Imutável.
E por isso mesmo… errado.
As mãos ocultas nas mangas não se moviam, mas algo ali dentro parecia vivo — não visível, não compreensível, mas presente.
Ele não caminhava como alguém que chegava.
Caminhava como se já estivesse ali há muito tempo.
Dono do lugar? Não.
Um guardião não é dono — esse protegia… as margens do abismo.
Porém, seu sorriso pertencia a ele… e que também entregava ao mundo.
Talvez o presente mais terrível.
E, à esquerda, um truculento urso de pelagem toda verde caminhava.
Os passos eram mais pesados… e terríveis.
Seus músculos eram impressionantes.
— E meu eterno amigo. Ox, o Guerra Mórbida. Estão todos aqui…

Ele possuía uma máscara de panda quebrada no rosto, que só cobria uma parte.
O som veio antes dele.
Um peso seco contra o chão.
Depois outro.
E então o ar mudou.
Não era apenas o tamanho — era a pressão.
A presença do urso distorcia o espaço ao redor, como se cada passo exigisse que o mundo cedesse um pouco.
A máscara quebrada não escondia.
Ela revelava.
Metade de um símbolo, de algo que já foi inteiro.
E que, agora, não precisava mais ser.
Quando ele parou, o silêncio voltou — mas não era o mesmo silêncio de antes.
A figura ficou imóvel, Flórr sorria.
Nada disso atenuou o ambiente — Ox destoava muito.
Era mais denso.
Mais pesado.
Sua única vestimenta — uma calça vermelha — talvez fosse o único item novo que possuía em anos.
Guerra poderia ser seu nome, se quisesse.
Mas não.
A palavra entregaria sua natureza — esse tipo de lutador prefere o simples.
Ox é um dínamo campestre.
Seu corpo não foi forjado.
É um legado que o tempo lhe entregou.
O ambiente estava transbordando em tensão, mesmo que o vazio ao redor dissesse o contrário.
A arena era grande, imensa.
Porém, aquele lugar, o pequeno quadrante onde o Time Akumu estava, virou um tipo de habitação.
Era um covil… de colapso.
O grupo, reunido, só trocava olhares.
Essa era a melhor forma de se comunicarem.
O que quebrou a reunião foi o caminhar inesperado do indivíduo oculto por entre eles, indo na direção contrária.
Ele tomou o mesmo corredor que o Time Monsenhor Sesto.
Passou em frente à porta deles; tirou a mão do bolso e, com uma delas, passou suas garras.
Ele deixou um arranhão considerável, como um chamado para a guerra.
As regras do torneio proibiam golpes e armas cortantes ou perfurantes.
Esse alguém parecia tripudiar disso.
Flórr viu aquilo e:
— Hora de entregar ao mundo da luta o que eles tentaram tirar de nós. No fim, terão sorte se a vida for misericordiosa com cada um deles.
E assim, o panda caminhou, sendo seguido pelos demais membros do time.
Eles marchavam, deixando um rastro de pavor e corrupção pelo extenso caminho.
Não era só ódio ou raiva.
O Time Akumu possuía algo além disso.
Uma força diferenciada, opressora e angustiante.
Eles eram os juízes da desonra, que lutaram contra um dia.
Se no mundo existe justiça, a Arena Shang Mu estava prestes a testemunhar um evento paralelo.
Não era só um torneio.
O nome Tormenta tomaria um novo significado.
Os portões se abriram e, com isso, uma algazarra explodiu.
Era o início.
Em breve.
Em homenagem a Chuck Norris.
“Eu não envelheço, eu evoluo”
☀️ 1940
⭐ 2026

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