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    Besta Prânica de Grau Prata Especialista — Centinger!

    A criatura exibia um corpo semelhante ao de um sapo, protegido por um casco de tartaruga. Da parte inferior pendia uma cauda de peixe, o que lhe conferia grande agilidade em movimentos subaquáticos, enquanto as pernas anfibianas permitiam saltos a longas distâncias.

    Quando ameaçado, o Centinger podia se recolher no casco rígido, capaz de suportar até os ataques mais devastadores.

    O traço mais aterrorizante, contudo, era a cabeça. Assemelhando-se à parte superior do torso de uma centopeia, possuía centenas de garras afiadas capazes de dilacerar até as carapaças mais resistentes das Bestas Prânicas e atuava como sua principal arma de ataque.

    Esse segmento chicoteava no ar como uma espada flexível para fatiar o alvo, ou agia como uma serpente, enrolando-se na presa para esmagá-la por completo. O pior de tudo, porém, era que, apesar de se comportar e parecer uma cabeça, aquilo não era uma de verdade.

    O cérebro não se encontrava ali. Até mesmo o par de olhos visíveis não passava de terminações nervosas conectadas aos olhos verdadeiros, que ficavam ocultos nas profundezas do corpo, resguardados pelo casco de tartaruga. O cérebro também repousava no torso, protegido pela carapaça.

    Portanto, quando essa falsa metade superior era destruída, o Centinger simplesmente a descartava. E, assim como um lagarto que regenera a própria cauda, ele desenvolvia uma nova cabeça de centopeia no lugar.

    Graças a essas características inatas, a criatura tinha tudo para ser uma ameaça letal no mundo marinho, ostentando uma capacidade de combate apavorante. Contudo, ironicamente, os Centingers eram herbívoros.

    Alimentavam-se exclusivamente da flora marinha e das conchas vazias de Bestas Prânicas crustáceas. Eram criaturas pacatas que jamais fariam mal a outro ser vivo, a não ser que o bando sofresse um ataque não provocado.

    Essa índole pacífica, no entanto, mudava drasticamente durante a temporada de acasalamento, que ocorria apenas uma vez a cada século. A cultura reprodutiva da espécie era rigorosa e peculiar: somente um macho, designado como o líder absoluto, ganhava o direito de acasalar com todas as fêmeas.

    Aos demais, restava apenas amargar a rejeição em um canto, privados para sempre da chance de passar seus genes adiante. Como consequência dessa disputa brutal, a natureza dócil desses monstros evaporava por completo durante a temporada.

    Na disputa pelo trono da liderança, os Centingers travavam uma competição de premissa bastante simples: caçar a maior ameaça possível.

    Aquele que eliminasse o maior número de perigos seria coroado líder, o que lhe garantiria o monopólio do harém de fêmeas. Por causa disso, os machos entravam em um estado de frenesi sanguinário e exterminavam brutalmente qualquer ser vivo que cruzasse seu caminho.

    Era exatamente por esse motivo que as cinco Bestas Prânicas de Grau Prata haviam feito de tudo para apagar seus rastros e se esconder do mundo exterior. Se fossem descobertas, virariam a caça perfeita para que os competidores provassem seu valor.

    A morte seria inevitável.

    Qualquer Centinger era formidável por natureza. Apenas na forma base, já possuía força suficiente para abater Bestas Prânicas de Grau Prata mais fracas. Porém, ao se adicionar as habilidades inatas à equação, a criatura se elevava ao patamar de um verdadeiro desastre natural ambulante.

    Natureza Primária — Artilharia Derretedora de Ossos!

    As centenas de garras afiadas no falso torso de centopeia operavam como canhões biológicos. Despejavam um autêntico inferno sobre a região visada e a dizimavam como uma chuva implacável de meteoros. O mais cruel de tudo, porém, era a propriedade corrosiva do ataque.

    Ao entrar em contato com um dos projéteis, os ossos do alvo derretiam instantaneamente, o que justificava o batismo da Natureza Primária. A energia canalizada era seletivamente permeável, capaz de atravessar qualquer objeto físico sem danificá-lo, apenas para agir de forma exclusiva sobre o tecido desejado.

    No caso de seres vivos, o alvo era sempre a estrutura óssea. É claro que a investida de um Centinger também podia liquefazer outras superfícies, ainda que com eficiência reduzida, mas a criatura não dava a mínima para esse detalhe.

    Ter o próprio esqueleto liquefeito resultava em morte instantânea. Entretanto, como o poder atroz da artilharia não corrompia outras matérias biológicas, o corpo da vítima permanecia intacto por fora, reduzido a um mero saco de carne flácida.

    Isso acontecia por um motivo metódico: os Centingers precisavam contabilizar a pontuação do jogo mórbido. Como apenas os ossos se desfaziam, a carcaça ainda retinha traços visíveis de Prana, o que servia como um medidor exato do nível de poder que a presa possuía em vida.

    Com base nessa energia residual, as fêmeas calculavam a qualidade e a quantidade dos abates de cada macho, atribuindo-lhes notas como em um esporte. O competidor com a pontuação mais alta garantia o prêmio máximo.

    Antes de o jogo sequer começar, as feras drenavam as águas do Rio da Corrente Vermelha para canais subterrâneos. Isso transformava o leito seco do rio em um vasto campo de diversões para a carnificina. E, como em toda competição, havia regras estabelecidas. Uma delas determinava os limites do território.

    Apenas uma área delimitada a uma certa distância das margens originais era considerada válida. Como essa fronteira imaginária se estendia por mais de trezentos quilômetros, a restrição geográfica nunca chegou a ser uma preocupação limitante para os monstros.

    Para eles, a estratégia mais inteligente de maximizar a pontuação em tempo recorde era atacar os epicentros mais populosos nos territórios das Bestas Prânicas. Um desses alvos cobiçados era justamente o Reino Ganrimb, que havia prosperado e se fortalecido vertiginosamente nas sombras.

    — O problema é que, normalmente… — Duvara soltou um longo suspiro, com a exaustão a pesar nos ombros. — Menos de vinte Centingers aparecem por aqui. É um número que conseguimos administrar mantendo nossas baixas no mínimo aceitável. Porém, desta vez, a julgar pela velocidade alarmante com que o rio está sendo drenado, uma horda muito maior marchará em nossa direção.

    Ninguém sabia ao certo a verdadeira população da espécie escondida no Continente de Sumatra, pois as bestas habitavam e migravam por toda a extensão do Rio da Corrente Vermelha, cujo curso sinuoso cortava pelo menos um quarto das terras do continente.

    Agrupavam-se em colônias nômades e viajavam sorrateiramente pelas rotas submersas que mais lhes agradassem. Como o Rio Angan — o afluente do Rio da Corrente Vermelha que banhava a região delimitada pelo anel do Vazio Cinza-Arenoso — possuía águas rasas, os gigantes raramente se sentiam tentados a visitar o local.

    E, quando visitavam o local, costumavam pertencer aos bandos mais fracos e inexpressivos. Infelizmente para o Reino Ganrimb, o contingente atraído para suas fronteiras neste ciclo pertencia a uma linhagem colossal. Tinha sido um mero capricho sádico do destino; o mais puro e cruel azar.

    — Não podemos simplesmente jogar a culpa nas costas do destino — retrucou Duvara, com a voz severa em eco. — Pode haver fatores ocultos que atuaram como isca e atraíram uma colônia tão formidável para as portas do nosso Reino. Ainda estamos investigando esses motivos obscuros, mas, no fim das contas, a tempestade já está armada sobre nossas cabeças.

    Varreu com o olhar os rostos pálidos e temerosos que preenchiam a câmara de reuniões.

    — E é por isso que exijo que todos aqui elaborem estratégias pragmáticas para proteger a capital. Em dois dias, emitirei uma ordem marcial para que as vilas e cidades periféricas busquem refúgio imediato dentro de nossos muros. Preciso de propostas sólidas de contingência para gerir o caos que virá a seguir.

    — Abrirei os estoques dos meus armazéns para garantir que nossas linhas de frente estejam armadas até os dentes. — Maharell foi o primeiro a se pronunciar na mesa redonda. — Armas de cerco, provisões médicas e até mesmo as reservas de Elixires. Tudo o que o meu império comercial possui está à disposição da coroa. Mas não de graça, que fique claro.

    Sem dar margem para objeções idealistas, o magnata prosseguiu:

    — Meus contadores registrarão o valor de mercado de cada lâmina e gota de poção retirada. As frentes de batalha só precisarão se preocupar em quitar o débito após sobrevivermos a esta Crise existencial. E, como gesto de camaradagem, não cobrarei um único centavo de juros. Se algum infeliz tombar no campo de batalha, o débito morrerá com ele; não irei extorquir de suas viúvas ou filhos desamparados.

    — Como o homem de negócios mais influente e responsável da Cidade de Ellora, é o mínimo ético que posso fazer — concluiu com um aceno solene.

    Era um fato imutável que o índice de baixas na infantaria seria grotesco. Matematicamente, isso significava que o calote financeiro engolido por ele seria astronômico. Contudo, Maharell, antes de qualquer patriotismo, era um tubarão do mercado.

    Aquele gesto orquestrado de falsa benevolência lhe renderia a adoração cega e o respeito incontestável das massas. Na prática de mercado, isso garantia que, assim que a economia do reino respirasse novamente, os cidadãos priorizariam consumir em suas frotas comerciais antes de olhar para a concorrência. Afinal, aos olhos ingênuos do povo, ele havia arriscado a falência pelo bem-estar da nação na hora do apocalipse.

    No balanço trimestral imediato, ele sangraria moedas e arcaria com um déficit doloroso. A longo prazo, porém, a reputação do sindicato comercial alcançaria um status messiânico. Escudado pela devoção inabalável comprada com sangue de soldados, ele poderia simplesmente marchar e anexar todo o monopólio da Rua do Teatro para si — e a opinião pública não daria um único pio de censura.

    Pelo contrário: inebriados pela gratidão cega, os plebeus festejariam a tomada de poder, convictos de que o grande patrono da salvação administraria as casas de show melhor do que a nobreza estagnada. Acima de tudo, cidadãos vivos continuavam a ser mão de obra e força consumidora. Manter a classe trabalhadora respirando era, fundamentalmente, o investimento mais rentável para expandir a própria fortuna.

    Para Maharell, a perspectiva de um massacre urbano não era uma crise; era o cenário perfeito.


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