Capítulo 59 - Ayumi e o Enigma.
Os olhos da professora Ayumi, a Itsuki me ignorando. O que está acontecendo? O que será que eu fiz?
Está na cara que Ayumi está diferente comigo, mas não sei o motivo.
— Por que você ficou encarando a professora? Tem algum problema com ela? — indagou Lucy, lançando um lápis em mim.
— Ué, por que jogou um lápis em mim?
— Não tente entender, ela é doida assim mesmo — disse Yur, enquanto balançava seus cabelos loiro e sedosos.
— O único ser humano que não bate bem da cabeça aqui é a Aikyo, não eu!
Lucy lançou mais um lápis, dessa vez em Yur. Desse jeito, ela vai acabar lançando uma cadeira em alguém um dia.
— Chega! Vamos focar nesse enigma aqui. Ou é pedir muito? — perguntou Aikyo, segurando o papel em suas mãos.
Centrada e objetiva.
Lucy se posturou na cadeira, com as mãos sobre seu cachecol.
— Hmf… Só vou focar porque preciso de pontos, e não porque você está pedindo!
— Eu quero ganhar porque é assim que funciona para mim, sempre ganho — disse Yur, fazendo uma expressão radiante no rosto.
— Enfim, tanto faz. Vou ler o enigma e tratem de me acompanharem.
Já estou vendo que é melhor eu ficar em silêncio nesse grupo; tem três alunos com personalidade bem estranha e nada amigável para mim.
Aikyo respirou fundo, com os olhos fechados e segurando o papel em sua mão direita. Abriu os olhos com leveza e ditou o que estava escrito:
“Aquele que se apresenta como verdade,
mesmo nunca tendo sido tocado.
Aquele que guia olhares,
mas nunca guia passos.
Aquele que todos seguem,
mesmo sabendo que não chegarão.
Existe para todos…
mas nunca é o mesmo para ninguém.
Quanto mais se aproxima, mais se afasta.
E quando finalmente some…
deixa para trás apenas aquilo que sempre esteve dentro de você.”
“Escolha com cuidado.
Nem tudo que parece resposta… deve ser escolhido.”
— O quê? Que enigma estranho é esse? — disse Lucy, com os braços cruzados.
— E quais dicas nossa humilde professora nos deixou? — indagou Yur, ajeitando seu cabelo com a mão direita.
Aikyo posicionou o papel à sua frente para ler novamente.
— A primeira dica é: palavras são como ventos. Segunda dica: sábios dirigem sua fé a uma cultura mentirosa. Terceira dica: um lugar de caos é o ideal para o pacifista. Quarta dica: o que foi tomado pela morte é sinal de recomeço para as migalhas que ficaram.
Lucy e Yur ficaram de olhos fechados, pensando em seus próprios mundos, reflexivos a respeito do que foi dito.
Aikyo colocou o papel de volta à mesa.
— E então, o que vocês acham? — indagou Aikyo, olhando diretamente para Yur e Lucy.
— Deve estar relacionado à religião dos sábios? — disse Yur, jogado na cadeira, exaurindo seu enorme ego.
— Creio que não! Seria muito conveniente. Citou duas vezes o sábio, no enigma e na dica, mas a mentira também é citada em ambos os locais, logo o principal não é sábios — disse Lucy, com cachecol sobre sua boca.
— Não vamos pensar no primário, vamos pensar no geral. Vocês prestaram atenção no que eu li? Na primeira linha, dizia “Aquele que se apresenta como verdade”. O que se apresenta como verdade para vocês? — indagou Aikyo, com seu jeito sério e objetivo.
— Pois é, o cabelo de flocos, o que você tem a dizer sobre isso? — perguntou Yur, apontando para mim com a mão direita, mostrando sua expressão de arrogância.
Lucy, com seu cachecol sobre a boca, olhou para mim, enquanto Aikyo revirou os olhos com uma expressão de negação.
— Bem, por que eu deveria dizer primeiro? Acho que…
Antes de eu terminar de falar, Aikyo deu um soco na mesa.
— Exatamente, não faz sentido esse garoto falar primeiro. Yur, Lucy e eu somos os melhores da turma Blue Zenith, então não faz sentido deixar esse garoto falar.
— Uha, Aikyo estressada? Isso é novidade para mim. O que você fez para ela ficar assim com você? — perguntou Yur, alisando seu cabelo com seus olhos excêntricos direcionados a mim
— Eu não estou estressada! Enfim, para mim esse enigma não está fazendo sentido nenhum, pois aquele que se apresenta como verdade, mesmo nunca tendo sido tocado, é o sol!
Lucy tirou o cachecol da boca e encarou Aikyo com uma expressão fechada.
— Por que o sol? Para mim seria o medo. Se apresenta como verdade para nós, mas não tem como ser tocado.
— Vocês são tão fracas assim? Uha-hahu. Está óbvio que é a nobreza, se destaca na nossa sociedade como uma verdade, mas não pode ser tocada pelos indignos — disse Yur, piscando para mim.
Que menino estranho…
— Ai, meu Deus, como você é um dos melhores da turma… — murmurou Lucy, balançando a cabeça.
Aikyo estava numa pose pensativa, profundamente imersa em seus pensamentos, ignorando o que Yur estava dizendo.
— Indigno? Indigno… será que envolve líder digno de mover multidões como Moisés fez? Pois aqui diz: “Aquele que todos seguem, mesmo sabendo que não chegarão.”
Yur riu do que Aikyo havia dito.
Lucy balançou a cabeça com os olhos fechados.
— Não foi bem o que eu quis dizer quando citei indignos. Mas, se prosseguirmos com esse seu raciocínio, não trará resultados assertivos, pois como vão seguir alguém digno se essa pessoa não guia passos?
— “Aquele que guia olhares, mas não guia passos” é o que diz aqui. Logo, realmente não faz sentido ser um líder — disse Lucy.
Em meio a essa conversa, estou me sentindo deslocado. Não sobra nada para mim, e é como se eles estivessem ignorando minha existência também depois do que Aikyo disse.
Na realidade, nem sei o que pensar sobre esse enigma.
O que me vem à cabeça agora é saber o motivo de ter Kuma no quadro, o nome do meu primeiro melhor amigo e irmão cachorrinho.
Se Kuma é uma palavra horizontina, qual seu significado?
— Se não é líder, creio eu que pode ser cultura! — sugeriu Yur.
— Cultura molda comportamento, O enigma diz que não guia passos.
Uma coisa que reparei sobre Aikyo é que, quando ela fala algo que pensou profundamente, ela coça seu braço direito com a mão esquerda, estando com os braços cruzados. Um comportamento bem estranho.
— E líder e medo não encaixa, pois se impõem, não disfarça. Religião envolve ação direta, descarta também. Talvez dor? — disse Lucy, com um som abafado por causa do cachecol.
— Engraçado, você não é a segunda melhor no ranking de dedução? Deveria ser fácil para você resolver isso, mas está demorando, não acha? — disse Yur, com seu sorriso arrogante, enquanto mexia uma franja com o dedo esquerdo.
Aikyo ignorou o comentário do Yur.
— Dor quando some deixa para trás cicatrizes mentais, algo que sempre esteve em nós, isso faz sentido, mas não encaixa na frase “Quando mais se aproxima, mais se afasta”.
— O tempo está acabando, turma. Só mais 5 minutos! — gritou a professora Ayumi.
Penso, penso, o que poderia ser? Não estou ajudando nada, apenas vendo eles queimando neurônios.
Como posso ajudar? Que droga…
— Você quer minha ajuda? — disse a voz misteriosa na minha cabeça.
Não! Não quero sua ajuda, eu quero pensar sozinho.
— Temos que pensar nas dicas também, por exemplo, “O que foi tomado pela morte é sinal de recomeço para as migalhas que ficaram” é uma dica direta com o final do enigma — disse Aikyo, apontando para o papel.
Sua expressão fechada e seu tom de voz firme enquanto encara o grupo deixam claro que ela leva os assuntos muito a sério.
Mas ela está me ignorando por completo, e sinceramente estou ficando incomodado.
Pensando bem, no enigma também diz que “Nem tudo que parece resposta… deve ser escolhido”, essa frase soou como uma dica, é essencial pensar sobre ela.
Então talvez a resposta possa parecer ser de fácil interpretação, mas que não será no final das contas, a resposta certa?
— A professora disse que as palavras horizontinas no quadro têm relação com o enigma, certo? Então, escreva no papel as traduções para checarmos com o contexto. — disse Yur.
Finalmente algo útil saiu de sua boca.
Aikyo pegou um lápis que Lucy havia jogado debaixo da mesa, virou a folha do enigma e escreveu todas as palavras e suas traduções ao lado.
“Parvre = Religião
Clust = Núcleo
Kintu = Segredo
Logrese = Guardião
Juvia = Chuva
Kuma = Pesadelo
Rintu = Medo
Doris = Mentira
Chiheisen = Liberdade ”
Yur e Lucy encararam o papel, lendo as traduções.
Eu consegui ler também, mesmo estando de longe, consegui ampliar minha visão sem mexer a cabeça.
— Que droga, como pode ver, “Doris” significa mentira, o que se repete duas vezes no nosso contexto. Isso está nos forçando a dar voltas em nossos raciocínios. — disse Aikyo, colocando sua mão entre seus olhos e uma expressão descontente.
Yur, com seu sorriso irritante estampado no rosto, apenas alisou seu cabelo e fechou os olhos.
— Voltando no assunta da mentira, ela se apresenta como verdade! Isso não tem objeção. Mas pode ser tocado? — indagou Lucy.
— Pode até ser, mas primeiro temos que saber a resposta do enigma para depois escolher a palavra horizontina — disse Aikyo.
— Então use sua lógica dedutiva e resolva para nós, senhora detetive. Uha-hahu — disse Yur, piscando para Aikyo.
— Sim! Pensei durante esse tempo todo, peguei emprestado seus raciocínios e até a inutilidade do revoltante aqui no grupo e estou chegando a uma conclusão, me dê um tempo!
— Wow, a espertinha precisa de tempo — disse Lucy.
Nosso grupo ficou em silencio por alguns minutos.
Yur ficou olhando para sua unha grande enquanto Lucy estava mordendo seu cachecol.
Aikyo com olhos fechados e braços cruzados não parecia que estava centrada.
Eles estão levando isso a sério?
Isso está estranho, Aikyo é a segunda no ranking de dedução, e pelo que entendi, Yur e Lucy devem ser os melhores da turma, não deveria estar acontecendo isso.
— E então, menino estranho, vai ficar calado aí mesmo? Estava tão falante no início, agora está aí mudinho — indagou Yur, me encarando com seu sorriso estampado.
— É que… preferi ficar em silêncio, escutando o que vocês tinham a dizer.
— Ohh… Observador então. — murmurou Yur.
— Hmm, pelo menos pensou em algo? O sentido de grupo é todos cooperarem. — indagou Lucy, tirando o cachecol da boca.
— Sim eu sei, pensei em algo e acho que esse enigma tem duplo significado, um para atrapalhar e mostrar como verdade, mas sendo a resposta errada, enquanto a certa está escondida.
— Como assim? O que você quer dizer com isso? — indagou Lucy.
Aikyo continuou olhando para o chão com sua pose pensativa, me ignorando.
Yur mordia sua unha enquanto me observava.
— Bem, o que eu quero dizer é que vocês estão olhando para apenas um lado da pergunta, sendo que o lado certo é o oposto do que vocês estão vendo.
— Isso eu entendi, espertalhão, quero que você me explique melhor isso e como podemos descobrir a resposta correta.
— Certo. O enigma fala claramente de algo abstrato, não concreto, isso ficou claro na quarta linha, quando diz que não guia passos, apenas olhares. Logo, não é físico, mas sim visto.
Lucy cruzou as pernas e ajeitou seu cachecol para uma posição melhor.
Enquanto eu continuei explicando:
— E se é visto, podemos dizer que podem ser memorias do passado, ou até mesmo lembranças sensoriais do que ocorreu conosco alguma vez.
— Entendi, assim como diz no enigma, “Existe para todos, mas nunca é o mesmo para ninguém”. — disse Lucy.
Yur com sua pose egocêntrica, disse:
— E como vivencia passada ou até mesmo presente existe para todos, nunca será igual a nossa, nossos sentidos são os mesmos, mas passamos e sentimos coisas diferentes.
— Sim, e para concluir, tudo isso que disse, e tudo que vocês falaram, leva a uma progressão linear de raciocínio que a professora queria intencionalmente que nós seguíssemos, mas não é esse que nos levará à resposta correta.
— E o que levará então? — perguntou Lucy.
Depois disso tudo, finalmente Aikyo levantou o rosto e direcionou seu olhar para mim, interessada no que eu iria dizer.
— No meu raciocínio, o que nos levará à resposta correta é entender o sentimento que temos quando pensamos a fundo no que esse enigma nos lembra sobre o passado.
Os três olharam para mim com olhares afiados, Yur rindo como sempre, mas Aikyo e Lucy com seus olhares sérios e incisivos.
— Sentimentos? É isso que você acha? — indagou Aikyo, com um olhar de reprovação para mim.
— Sim, o que você sente quando lê esse enigma? Te lembra algo do passado?
— Não sinto nada, meu passado é normal na CDA.
— Viu, um ponto de vista, “Nem tudo que parece ser a resposta, deve ser escolhido” Cada um tem uma resposta, porque cada um tem sentimento diferente.
— Cada um tem um lugar dentro da sua mente cheio de lembranças que são apresentadas como verdade, mas sem que possa ser tocadas. É isso? — perguntou Lucy,
— Sim, isso mesmo.
— Espera…acho que concluir meu raciocínio depois do que você disse. — comentou Aikyo.
Lucy arregalou os olhos enquanto tirava o cachecol de sua boca, surpresa do que Aikyo disse.
— Eu ajudei você? E o que você concluiu? — perguntou Lucy.
— Logicamente, tudo isso trata de um lugar, que é apresentado como verdade, mas nunca tocado; guia olhares, mas não passos; todos seguem, mas nunca chegarão; existe para todos, mas não é o mesmo para ninguém. Isso tudo no enigma indica um lugar, uma cidade!
— Cidade? Você está louca? Se não é tocado, como é cidade? — perguntou Yur.
— A resposta não é cidade concreto, mas sim lugar. Falácia indicando local, de forma abstrata ligando posição e espaço que pode ser completada por qualquer coisa.
— Acho que você pensou muito além do que o enigma anunciado. — disse, coçando a cabeça.
— E para relacionar com a resposta que é lugar, a palavra que vamos escolher para nome do grupo é Chiheisen, que significa liberdade.
— Chiheisen? — murmurou Lucy.
Minha cabeça doeu um pouco, como se tivesse enfiado algo pontudo bem no meio do meu cérebro.
— Errado! — disse a voz da minha cabeça.
Então é isso, será que agora minha cabeça vai doer toda vez que essa voz misteriosa falar.
Mas o que tem de errado? O que está errado?
— Não significa liberdade. — disse a voz.
O que quer dizer? Que essa palavra não significa liberdade?
Yur se posicionou na cadeira de uma forma mais sociável dessa vez.
— Então quer dizer que a resposta completa é um lugar de liberdade? — indagou Yur.
— Sim! Lembrando bem do horizonte. Quando a gente chegar lá, vamos deixar para trás aquilo que sempre esteve dentro de nós, nossa inocência. Nossa infância.— disse Aikyo.
Lucy cruzou as pernas, ajeitou seu vestido escolar, e arrumando o cachecol sobre sua boca disse:
— Faz sentido, porém ainda tenho ressalvas sobre isso.
Yur assentiu com a cabeça, mas questionou:
— É algo difícil de dizer, ‘lugar’ é muito…ambíguo?
Enquanto discutíamos a professora gritou de fundo:
— Dez segundos para finalizar turma, e vocês sabem que não gosto que passem do tempo.
Aikyo mesmo nesse momento tenso continuou com seu olhar frio e expressão fixa, mas sua voz estava em um tom grosseiro, com raiva do que estava acontecendo.
— Eu sei, mas vocês tem que entender que não temos mais tempos para pensar em algo. Tem que ser agora, vão querer ou não seguir com essa resposta?
Yur e Lucy trocaram olhares duvidosos, mas confirmaram com a cabeça.
Já eu não disse nada, apenas não aceitei que essa fosse a resposta clara.
Se essa voz da minha cabeça disse que não é “liberdade” o significado de Chiheisen, então quer dizer que não é a palavra certa que completa a resposta.
Ainda acho que tem outro significado nesse joguinho, esse enigma, essas palavras.
Arco: Investigação

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