Capítulo 258 - Ōtsu (5)
A tarde avançava lentamente sobre os campos abertos nos arredores de Ōtsu. O vento soprava baixo, arrastando o cheiro de terra seca e grama amassada, enquanto nuvens largas cruzavam o céu como espectadores silenciosos de algo que estava prestes a acontecer. O cenário era amplo demais para ser confortável, aberto demais para ser seguro — o tipo de lugar onde decisões importantes eram tomadas longe dos olhos do povo.
Chaejin caminhava com passos tranquilos, quase displicentes, as mãos nos bolsos do casaco escuro. Entre os dedos, um cigarro queimava vagarosamente, liberando uma fumaça fina que se dissolvia no ar como se tivesse medo de permanecer ali por muito tempo. Seu olhar era atento, calculista, mas havia nele algo de profundamente sereno, como o de alguém que já havia aceitado todas as consequências possíveis de seus atos.
Atrás dele, caminhavam os dois irmãos da Geração Zero.
Ambos tinham o mesmo sobrenome — Baek — um nome que, por si só, carregava peso suficiente para silenciar conversas e endurecer expressões.
Baek Seong-il, o mais velho, tinha o corpo largo, marcado por cicatrizes que não faziam questão alguma de se esconder sob a roupa simples. Seus olhos eram duros, sempre atentos ao redor, como um animal que nunca desligava o instinto de caça.
Ao seu lado, Baek Mu-yeon, mais magro, mais contido, mas com uma presença igualmente sufocante. Ele caminhava com as mãos relaxadas, quase frouxas, como se nada naquele mundo fosse digno de sua preocupação imediata — justamente o tipo de postura que mais aterrorizava quem o conhecia.
— Ele vai vir — disse Seong-il, quebrando o silêncio, a voz grave ecoando levemente no campo aberto. — O cheiro de ambição dele já chegou antes do corpo.
Chaejin sorriu de lado, puxando o cigarro mais uma vez antes de soltá-lo lentamente.
— Charles sempre foi assim. Nunca soube esperar… nem quando era criança.
Mu-yeon inclinou levemente a cabeça.
— Ainda assim, ele não viria sozinho. — Seus olhos se moveram pelo horizonte. — Ele não é burro o suficiente para isso.
— Não — concordou Chaejin. — Mas é arrogante o bastante.
O vento mudou de direção.
Foi sutil, quase imperceptível, mas os três sentiram ao mesmo tempo. Algo havia entrado no campo.
Passos ecoaram atrás deles.
Chaejin parou.
Não se virou de imediato.
— Você demorou — disse, com naturalidade.
O som de sapatos elegantes contra a terra seca se aproximou até cessar a poucos metros de distância.
— Precisei garantir que ninguém estivesse me seguindo — respondeu uma voz calma, educada demais para a tensão daquele lugar. — Não queria interromper seu passeio.
Chaejin finalmente se virou.
Charles Choi estava ali.
Vestia um terno claro, caro demais para aquele ambiente, perfeitamente ajustado ao corpo magro. O sorriso em seu rosto era controlado, afiado, como o de alguém que nunca sorria por alegria, apenas por cálculo. Seus olhos analisavam tudo: o campo, os irmãos Baek, a postura relaxada de Chaejin. Nada escapava.
— Então… — Charles abriu os braços levemente. — É aqui que você decidiu me chamar?
— Eu não chamei — corrigiu Chaejin. — Você veio porque quis.
O sorriso de Charles se alargou um pouco mais.
— Verdade. Quando se trata daquele documento… eu não podia ignorar.
O ar pareceu ficar mais pesado.
— O Envelope Preto — continuou Charles. — Você leu algo que não devia.
Chaejin apagou o cigarro com a sola do sapato, com calma.
— Pelo contrário. Eu li exatamente o que precisava.
Os olhos de Charles perderam o brilho por um instante.
— Então você sabe — murmurou. — Sabe da falha. Do erro que, se revelado…
— Destruiria tudo o que você construiu — completou Chaejin, sem elevar o tom. — Sua imagem. Sua influência. Seu “legado”.
Silêncio.
Charles respirou fundo.
— Eu pedi que você destruísse o documento — disse ele, agora mais frio. — Foi uma oferta generosa.
— Foi uma ordem disfarçada — respondeu Chaejin. — E eu não costumo obedecer ordens de homens desesperados.
Os músculos do rosto de Charles se contraíram por um breve segundo.
— Cuidado com as palavras — avisou. — Ainda posso acabar com isso agora.
Foi então que Chaejin estalou os dedos.
O som foi seco, curto… definitivo.
Do nada, como sombras se desprendendo do próprio campo, mais de trinta homens surgiram, espalhando-se em semicírculo ao redor de Chaejin. Armados. Preparados. Silenciosos. Cada um deles com o corpo posicionado para matar ou morrer sem hesitação.
Os irmãos Baek avançaram um passo à frente.
A atmosfera mudou completamente.
Charles olhou ao redor, os olhos se movendo rapidamente, contando, avaliando. E então… ele riu.
Uma risada baixa, genuinamente divertida.
— Interessante… — disse, passando a mão pelo cabelo. — Eu realmente nunca pensei que mataria tanta gente assim em um único dia.
— Você não vai matar ninguém — respondeu Chaejin. — Pelo menos não hoje.
Charles abriu a boca para responder —
mas parou.
Algo havia mudado atrás dele.
O vento… havia parado.
Uma presença surgiu lentamente, como se o próprio ar tivesse se afastado para dar espaço.
Passos leves. Deliberados.
Chaejin estreitou os olhos.
Os irmãos Baek se enrijeceram.
De trás de Charles, uma figura feminina emergiu.
Yummi.
Aos dezessete anos, ela carregava uma postura impossível de ignorar. O corpo ereto, os ombros relaxados, o semblante neutro demais para alguém tão jovem. Seus cabelos escuros balançavam suavemente, e quando ela ergueu o rosto, seus olhos negros com íris branca refletiam algo que poucos ali compreendiam.
Ela estava no estado de Ler o Vento.
Cada mínima variação do ar, cada intenção hostil, cada movimento antes mesmo de acontecer… tudo estava diante dela.
— Você chamou atenção demais, Charles — disse ela, a voz firme, sem emoção. — O campo inteiro está gritando.
Charles sorriu, satisfeito.
— Achei que seria educado trazê-la — respondeu. — Afinal, esse encontro pode ficar… turbulento.
Yummi olhou para Chaejin.
Por um breve momento, seus olhares se cruzaram.
Ela não demonstrou surpresa. Nem medo.
Apenas reconhecimento.
— Então é você — murmurou. — O homem que leu o documento.
— E você é mais perigosa do que as linhas que li — respondeu Chaejin. — Mesmo tão jovem.
O silêncio voltou a dominar o campo.
Trinta homens seguravam a respiração.
Dois monstros da Geração Zero aguardavam o primeiro erro.
Um estrategista sorria.
Uma garota lia o mundo.
E ali, naquele pedaço esquecido de Ōtsu, todos sabiam:
Aquilo não era apenas um encontro.
Era o início de uma ruptura que mudaria o destino de muitos — inclusive daqueles que, naquele momento, ainda treinavam em ignorância, acreditando que o mundo podia ser protegido apenas com força e boas intenções.
O silêncio que se seguiu não foi natural.
Não era a ausência de som — o vento ainda tocava a grama, o tecido das roupas ainda reagia ao ar —, mas sim a ausência de intenção comum. Cada pessoa ali estava presa em um ritmo diferente do mundo, como se o tempo tivesse se fragmentado em camadas sobrepostas.
Yummi deu um passo à frente.
Foi apenas um passo.
Mas o campo inteiro reagiu.
A grama sob seus pés se curvou na direção oposta ao movimento, como se o vento tivesse sido empurrado para trás à força. Pequenos fragmentos de terra vibraram, e alguns dos homens armados sentiram um arrepio involuntário percorrer a espinha, um aviso primitivo do corpo dizendo que algo estava profundamente errado.
— Não avancem — disse Chaejin, em voz baixa, sem tirar os olhos dela.
Os trinta homens obedeceram sem questionar.
Os irmãos Baek, no entanto, não se moveram.
Eles apenas sentiram.
— …Ela não está se movendo sozinha — murmurou Mu-yeon. — O ambiente inteiro está se ajustando a ela.
Yummi inclinou levemente a cabeça, como se tivesse ouvido.
— Ler o Vento não é observar o ar — disse ela, calmamente. — É entender a vontade do mundo no instante antes dela nascer.
E então… ela desapareceu.
Não houve explosão.
Não houve deslocamento visível.
Yummi simplesmente não estava mais ali.
O primeiro impacto veio de trás.
Um dos homens de Chaejin sequer teve tempo de reagir. Seu corpo foi lançado vários metros adiante, rodopiando no ar antes de atingir o chão com um som seco, como um saco vazio sendo jogado fora. O segundo caiu logo depois, o pescoço torcido em um ângulo impossível.
— Linha quebrada! — gritou alguém.
Tarde demais.
Yummi reapareceu no centro do grupo, girando o corpo com precisão cirúrgica. Seus movimentos não eram amplos nem exagerados; eram curtos, eficientes, quase elegantes. Cada passo era acompanhado por uma alteração súbita do vento, como se ela estivesse abrindo caminhos invisíveis no ar.
Um golpe de palma.
Um chute baixo.
Um giro de ombro.
Três homens caíram.
— Ela não está usando força bruta… — percebeu Seong-il, os olhos arregalados. — Ela está redirecionando tudo.
Charles observava de longe, as mãos nos bolsos, o sorriso intacto.
— Yummi não luta contra pessoas — disse ele. — Ela luta contra possibilidades.
Um disparo ecoou.
Uma bala cortou o ar em direção a Yummi.
Ela não se esquivou.
O vento dobrou.
A bala desviou por poucos centímetros, raspando sua bochecha sem sequer tocá-la, e atingiu outro homem atrás, que caiu sem entender o que havia acontecido.
Chaejin cerrou os dentes.
— Chega.
Ele avançou um passo.
Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, Charles se moveu.
Até então, Charles parecia apenas um observador. Um estrategista. Um homem comum cercado por monstros.
Essa ilusão morreu naquele instante.
Charles retirou as mãos dos bolsos.
E o ar ao redor dele afundou.
Não foi pressão.
Não foi energia visível.
Foi como se a presença dele criasse um vazio gravitacional.
— Eu realmente não queria intervir — disse, em tom quase educado. — Mas ainda não posso permitir que esse jogo termine aqui.
Ele deu um passo.
O chão rachou sob seus pés.
Os irmãos Baek reagiram no mesmo instante.
Seong-il avançou primeiro, o punho envolto em uma aura densa, brutal, condensada por décadas de violência e sobrevivência. Um golpe que, em outra época, teria derrubado muralhas.
Charles levantou a mão.
Apenas isso.
O punho de Seong-il parou a poucos centímetros de seu rosto.
Não por bloqueio.
Por negação.
— Força sem direção é barulho — disse Charles, os olhos frios. — E barulho… me cansa.
Com um movimento mínimo dos dedos, ele empurrou.
Seong-il foi lançado para trás como se tivesse sido atingido por um caminhão invisível, rasgando o chão até parar a dezenas de metros, o corpo enterrado parcialmente na terra.
Mu-yeon apareceu ao lado de Charles no mesmo instante, a lâmina curta surgindo de dentro da manga, mirando o pescoço.
Charles virou o rosto.
A lâmina quebrou ao tocá-lo.
Mu-yeon recuou no mesmo instante, o olhar sério pela primeira vez.
— Ele… — murmurou. — Ele distorce o impacto antes do contato.
Yummi reapareceu ao lado de Charles, o corpo intacto, a respiração controlada.
— Quer que eu continue? — perguntou.
— Não — respondeu ele. — Já mostramos o suficiente.
O campo estava destruído.
Dos trinta homens, mais da metade estava no chão, inconscientes ou incapacitados. Os irmãos Baek estavam feridos, mas de pé. Chaejin permanecia imóvel, o olhar fixo em Charles, não com medo… mas com compreensão.
— Então é isso — disse Chaejin. — Esse é o seu verdadeiro nível.
Charles sorriu.
— Não. — Ele inclinou levemente a cabeça. — Isso foi apenas para evitar atrasos.
O vento voltou a soprar.
Yummi fechou os olhos por um breve instante, saindo do estado de Ler o Vento. Quando abriu novamente, havia algo diferente neles — não arrogância, não orgulho, mas certeza.
— Ōtsu não vai cair hoje — disse ela, olhando para Chaejin. — Mas o mundo fora daqui… já está se movendo.
Charles deu as costas.
— Pense bem no documento — disse por cima do ombro. — Ele pode ser sua arma… ou sua sentença.
E então, como se nunca tivessem estado ali, os dois começaram a se afastar.
Deixando para trás um campo marcado, corpos no chão…
e a prova irrefutável de que algumas forças já haviam ultrapassado o limite do humano há muito tempo.
Em algum lugar distante, crianças treinavam acreditando que força era algo que se conquistava com esforço.
Naquele campo, ficava claro:
Havia pessoas que reescreviam as regras do próprio mundo.

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