Capítulo 256 - Ōtsu (3)
A luz do sol filtrava-se pelas frestas do galpão reformado, pintando o interior com tons quentes de dourado. Pela primeira vez na vida, Vini Jin acordou sem o gosto amargo do medo na boca.
O cheiro que o despertou não foi o de lixo queimado ou ferrugem molhada, mas de comida.
— Ei… acorda, dorminhoco.
Neom cutucou seu ombro com o pé, equilibrando-se em uma perna só enquanto prendia o cabelo de qualquer jeito. Havia algo diferente nela. Não apenas mais limpa, mais alimentada — mas mais leve.
— Raiga disse que se você não levantar agora, fica sem os espetos — provocou.
Vini abriu os olhos imediatamente.
— Mentira.
— Testa sua sorte.
Ele se sentou rápido demais e gemeu.
— Ainda dói? — perguntou ela, preocupada.
— Um pouco — respondeu, forçando um sorriso. — Mas dói menos do que antes.
Eles saíram do pequeno quarto improvisado que dividiam. O galpão estava vivo.
Haru corria de um lado para o outro com Sora nas costas, fingindo ser um monstro gigante. Mika gritava instruções como se estivesse comandando uma tropa, enquanto Daichi tentava, inutilmente, manter a ordem.
— VOCÊS VÃO QUEBRAR ALGUMA COISA! — reclamava.
— Relaxa, velho! — respondeu Haru. — Raiga conserta!
— EU NÃO CONSERTO TUDO! — a voz de Raiga ecoou do lado de fora, seguida de uma gargalhada sincera.
Ren estava sentado perto da porta, desenhando com um carvão no chão de pedra. Quando viu Vini, levantou o olhar.
— Bom dia — disse, simples.
Vini assentiu.
— O que você tá desenhando?
Ren empurrou o desenho levemente com o pé, revelando sete figuras de mãos dadas.
— A gente.
Vini sentiu algo apertar no peito.
Do lado de fora, Raiga cuidava da pequena horta improvisada. Fileiras de legumes cresciam em caixas de madeira reaproveitada. Ele cantarolava enquanto regava a terra, os espetos já prontos descansando sobre uma bandeja metálica.
— Bom dia, meus heróis! — disse, ao vê-los. — Dormiram bem?
— Sim! — respondeu Sora, pulando das costas de Haru. — Sonhei que tinha pão todo dia!
Raiga sorriu e bagunçou o cabelo dele.
— Então é um sonho fácil de realizar.
Os dias passaram assim.
Simples.
Quentes.
Humanos.
Vini aprendeu a rir sem olhar por cima do ombro. Aprendeu a correr por diversão, não por fuga. Neom descobriu que gostava de cantar — sua voz era baixa, mas firme, e às vezes Raiga a acompanhava batendo palmas fora de ritmo de propósito, só para fazê-la rir.
Mika mostrou-se feroz nos treinos improvisados que Raiga fazia com eles. Não treinava força — treinava equilíbrio, atenção, cooperação. Haru era rápido demais para sua própria segurança, mas leal até o fim. Daichi cuidava dos menores como um irmão mais velho silencioso. Ren observava tudo, absorvendo cada detalhe, enquanto Sora… Sora finalmente dormia sem pesadelos.
Vini mudou.
Seu olhar ficou mais firme. Sua postura, mais ereta. À noite, às vezes, observava Raiga sentado sozinho, afiando uma lâmina simples ou apenas olhando o céu.
— Ele não parece um rei — sussurrou Neom certa vez.
— Parece um pai — respondeu Vini.
Enquanto isso…
Do outro lado de Ōtsu, Chaejin Choi observava relatórios espalhados sobre a mesa. Gráficos, nomes, rotas de suprimento. Seu rosto permanecia calmo, mas seus olhos estavam frios.
— O apoio popular a Kurohane cresceu mais 12% — informou um assessor. — Principalmente nas zonas mais pobres.
Chaejin entrelaçou os dedos.
— Como esperado.
Ele se levantou e caminhou lentamente pelo salão.
— Raiga não está criando soldados. Está criando símbolos.
— E isso preocupa? — perguntou outro homem.
Chaejin sorriu de leve.
— Símbolos sobrevivem à morte.
Ele parou diante de um mapa de Ōtsu.
— Por isso não vamos atacá-lo diretamente. Vamos cercá-lo. — Olhou para o mapa como um jogador de xadrez. — Quando a cidade estiver pronta… ele cairá sozinho.
Em outro ponto da mansão, Charles Choi arrumava suas malas.
— Tokyo? — perguntou um subordinado. — Não é cedo demais?
Charles fechou a mala com calma.
— Nunca é cedo para plantar uma semente.
— O que vai buscar lá?
Charles sorriu, ajustando o casaco.
— Algo que Ōtsu ainda não conhece.
Ele saiu, deixando para trás apenas o eco de seus passos e a sensação incômoda de que algo estava prestes a se mover.
De volta ao galpão, à noite, todos se reuniram ao redor da fogueira. Raiga distribuía espetos, como sempre, com alegria no rosto.
— Ei, Vini — chamou Haru. — Amanhã a gente corre até o rio?
— Se você não trapacear — respondeu Vini, rindo.
Neom observava a cena em silêncio, o coração aquecido.
Por alguns dias…
Por algumas semanas…
Eles foram apenas crianças.
Mas Ōtsu nunca dormia por muito tempo.
E, enquanto risadas ecoavam sob um teto simples,
sombras se moviam além dos muros,
afiando planos,
esperando o momento certo
para tentar destruir aquilo que jamais entenderiam:
um homem verdadeiro
e as crianças que ele escolheu amar.
Três anos passaram como um sopro longo e silencioso.
Ōtsu não havia se tornado um lugar gentil — isso jamais aconteceria —, mas, dentro de certos limites invisíveis, algo havia mudado. Não nas ruas principais, nem nos prédios altos, nem nas mansões afastadas. A mudança acontecia em espaços menores, quase imperceptíveis, onde decisões simples criavam rachaduras no destino.
O galpão de Raiga já não parecia um abrigo improvisado. Tornara-se uma casa.
E, para aquelas crianças, um lar.
Aos treze anos, Vini Jin caminhava todos os dias por ruas que antes só conhecia correndo para escapar. Agora, atravessava-as com uma mochila simples nas costas, o caderno preso contra o peito, os olhos atentos, porém calmos. Não havia arrogância em sua postura, tampouco medo. Apenas vigilância — um hábito que Ōtsu jamais deixava morrer.
A escola ficava em um prédio antigo, reformado com o mínimo necessário para funcionar. As paredes tinham rachaduras, as janelas rangiam, mas, ainda assim, aquele lugar representava algo que nenhum deles imaginara possuir: futuro.
— Anda logo, Vini! — gritou Haru do portão. — Se chegar atrasado de novo, a professora vai te matar com o olhar.
— Ela já desistiu de mim — respondeu Vini, sem pressa.
Neom caminhava alguns passos à frente. Diferente dos outros, ela parecia pertencer àquele ambiente. O uniforme simples caía bem em seu corpo agora mais firme, o cabelo preso com cuidado, os olhos atentos e focados.
Ela era brilhante.
Os professores a respeitavam.
Os alunos a invejavam.
Neom entendia números com facilidade, aprendia a ler mapas complexos, escrevia com clareza e falava com convicção. Sua mente parecia sempre alguns passos à frente. Quando respondia às perguntas em sala, o silêncio se instalava — não por admiração pura, mas por comparação cruel.
— Ela acha que é melhor que todo mundo — sussurrou uma garota certa vez.
— Claro que acha — respondeu outra. — Vive com aquele homem estranho… e aqueles garotos.
Vini ouvia.
Sempre ouvia.
Mas Neom nunca se importava.
— Se eu parar por causa deles, nunca saio de Ōtsu — disse ela certa tarde, enquanto voltavam para casa. — Eu não estudei pra agradar ninguém.
Vini sorriu de leve.
— Você fala como se já tivesse ido embora daqui.
— Um dia — respondeu ela, firme. — A gente vai.
Naquele dia, porém, o destino decidiu mostrar os dentes.
A aula havia terminado mais cedo. O pátio estava quase vazio quando Neom seguiu pelo corredor lateral, carregando livros demais para alguém de treze anos. Não percebeu quando os passos começaram a ecoar atrás dela.
— Ei, prodígio — chamou uma voz feminina.
Neom parou.
Três garotas e dois garotos se aproximaram. Todos mais velhos. Todos maiores. Os olhos carregavam algo feio: ressentimento.
— O que vocês querem? — perguntou Neom, sem baixar a cabeça.
— Nada demais — respondeu uma delas, sorrindo. — Só conversar.
O primeiro empurrão veio rápido demais.
Neom caiu contra a parede, os livros se espalhando pelo chão. Tentou se levantar, mas um chute atingiu suas costelas. O ar escapou de seus pulmões.
— Para… — tentou dizer.
— Sempre tão melhor que todo mundo — cuspiu um dos garotos. — Vamos ver se continua assim agora.
Os golpes vieram em sequência.
Puxões de cabelo.
Chutes.
Risadas.
Vini chegou tarde.
Quando dobrou o corredor e viu Neom caída, protegendo a cabeça com os braços, algo dentro dele congelou.
— NEOM!
Ele correu.
Mas parou.
Cinco contra um.
Maiores.
Mais fortes.
Um dos garotos virou-se.
— Olha só — disse, rindo. — O cachorro dela chegou.
Vini sentiu o corpo inteiro tremer.
Queria avançar.
Queria morder, bater, gritar.
Mas não se moveu.
E aquele segundo…
Aquele único segundo de impotência…
Gravou-se em sua alma como ferro quente.
Quando os adultos chegaram, já era tarde.
Neom foi levada desacordada.
Naquela noite, o galpão estava silencioso como nunca.
Raiga limpava cuidadosamente os ferimentos de Neom. Seu rosto permanecia calmo, mas seus olhos… seus olhos estavam sombrios. Os outros observavam em silêncio, com raiva e medo misturados.
Vini estava parado perto da porta.
Imóvel.
— Não foi culpa sua — disse Raiga, sem olhar para ele. — Você não fez nada errado.
Vini não respondeu.
— Vini — chamou Raiga, agora olhando diretamente para ele. — Olhe pra mim.
Vini obedeceu.
— Força não resolve tudo — continuou Raiga. — Se você tivesse atacado, teria sido pior.
Vini fechou os punhos.
— Mas eu não fiz nada — respondeu, com a voz falhando. — Nada.
Raiga suspirou.
— Às vezes, sobreviver já é fazer o suficiente.
Vini balançou a cabeça.
— Não pra mim.
Naquela noite, ele não dormiu.
Ao amanhecer, encontrou Raiga do lado de fora, cuidando da horta como sempre, os espetos já preparados.
— Me treina — disse Vini, sem rodeios.
Raiga não se virou.
— Não.
— Por favor.
— Não.
Vini avançou um passo.
— Eu não vou deixar isso acontecer de novo.
Raiga finalmente se virou.
— E quem decide isso? — perguntou, sério. — A força? O punho?
— A escolha — respondeu Vini. — A minha.
O silêncio caiu pesado.
— Se eu for mais forte — continuou Vini —, eu posso proteger. Não pra machucar. Pra impedir.
Raiga o encarou por longos segundos.
— Força cria monstros — disse. — Eu já vi demais.
— Então me ensina a não virar um — respondeu Vini.
As palavras ficaram no ar.
Raiga fechou os olhos por um instante.
— Se eu te treinar… — disse, lentamente — …não posso treinar só você.
Vini franziu a testa.
— O quê?
Raiga abriu os olhos.
— Força sem vínculo destrói. — Olhou para o galpão. — Se um cresce, todos crescem.
Haru, Mika, Daichi, Ren e até Sora haviam parado atrás deles, ouvindo.
— Então — continuou Raiga —, se eu fizer isso… treinarei todos vocês.
O coração de Vini bateu forte.
— Eu aceito.
Raiga pegou um espeto, mordeu um pedaço de legumes e sorriu, daquele jeito simples de sempre.
— Então preparem-se. — Seu tom era firme, mas caloroso. — Porque aprender a ser forte… é muito mais difícil do que aprender a bater.
E, naquele instante,
não nascia apenas um treinamento.
Nascia a semente
da força que um dia faria
Ōtsu tremer.

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