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    O cômodo agora voava sob meu comando. Aquela sala do trono era uma clara representação do meu grande poder.

    — Vocês ainda são fracos. Muito fracos — disse, segurando duas montantes. — Já que vocês estão em muitos, lutarei um pouco mais a sério.

    [O Complexo espera sua resposta.]

    Que porcaria de “Complexo”, caralho! Não queria ver aquela merda na minha frente. Estava em um momento importante, e uma mera ilusão não seria o suficiente para me enganar.

    — Vejo que trouxeram truques sujos… — continuei, abrindo um grande sorriso.

    Pareciam confusos com minha fala, algo que não deveria ter ignorado. Mas assim fiz, afinal, eles eram inimigos.

    Que mais truques na manga eles teriam? 

    Sem qualquer apresentação ou aviso, todos os onze avançaram contra mim sem qualquer piedade. Não pareciam estar lutando contra alguém que os criou, e sim contra uma inimiga.

    Uma inimiga de uma nação diferente.

    Era justo. Nunca pertenci a esse lugar e não sei se iria pertencer algum dia. Essa mentira parei de contar a mim mesma quando completei dezoito anos.

    Todos ali eram lentos aos meus olhos, por mais que um estivesse vendado. Não era uma batalha muito justa, confesso.

    Defendi todos seus golpes com facilidade. As aberturas deixadas eram quase zero, afinal, minha defesa era impenetrável.

    O terceiro me atacou pelas costas, como um covarde imundo, e não conseguiu finalizar seu ato. Movi meu cabelo com precisão para que defendesse sua espada. 

    Aquela ponta que sempre rastejava pelo chão estava imbuída em veneno. Um veneno paralisante.

    — Droga! — resmungou o soldado, vomitando sangue pela boca. — Você… Você é um monstro.

    — Hahaha! Me surpreende que vocês estejam tão fracos. Percebo que mal seguiram meus ensinamentos quando abandonaram os postos! — bradei, tacando a espada em um dos soldados.

    Corri atrás da lâmina, utilizando-a como um escudo. A força com que fora jogada foi o suficiente para que a armadura dele fosse quebrada no instante do impacto, atravessando seu ombro.

    Arranquei-a, levando aquele ser ao chão. Minha lâmina agora estava suja.

    Não poderia me desfazer desse ato. Era um caminho sem volta.

    [O Complexo ainda aguarda sua resposta.]

    Eu não me importo. 

    — Venham. Me ataquem — disse, limpando o sangue de minha espada ao balançá-la.

    Quase cederam a provocação, mas o primeiro interviu, indo para frente dos soldados que restavam. 

    Duas pessoas já haviam sido incapacitadas de lutar. Não estavam completamente mortos, mas… Bem, eles só sobreviveriam se abandonassem aquela batalha.

    Era uma escolha. Matar a tirana ou salvar seus companheiros? E essa decisão iria decidir se estava tudo bem morrer ou não para eles.

    — Eu vou enfrentá-la sozinho. Não há necessidade de machucar mais ninguém se só eu lutar, certo? — Parecia estar muito abalado ao ver seus companheiros caídos. Aquilo era uma terceira alternativa que não estava nos meus planos, mas parecia muito mais do que perfeita.

    — Sim, não existirá necessidade de derramar sangue sem necessidade. Mas você tem coragem o suficiente para isso?

    Ele fez um sinal para que os outros ajudassem os dois feridos, olhando para mim com desgosto. Um ódio que cultivou por anos.

    Aquilo era belo! Muito belo! Não poderia ficar menos ansiosa por essa batalha.

    Mais uma vez, sem qualquer receio, ele avançou. Sua velocidade parecia ter aumentado.

    Porém, seus golpes eram fracos. Comparados a uma mosca tentando matar um leão. Pode até ser rápida, mas… sua força ainda era pouca.

    Tão pouca que nem poderia perfurar minha pele com aquela espada.

    Correu para trás de mim. Um erro já cometido por outro soldado, então, nem me importei com aquilo. Já estava preparada o suficiente contra seus golpes.

    — Vejo o temor em seus olhos. Mas… eu prefiro que você me mostre seu orgulho. Deixará que eu o vença? Mate todos os seus companheiros? Não… Não vai. Lute!

    Ele atacou pela frente, sua montante indo em direção à minha cabeça. Me preparei para defender, cruzando as espadas.

    Contudo, no último segundo, sua trajetória mudou. Ele agachou-se, mirando em minha costela.

    Meus olhos o acompanharam, então movimentei a lâmina de meu cabelo para defender o ponto enfraquecido. Foquei-me no que estava em minha frente, e esse foi meu maior erro. 

    Atravessei seu corpo, mas nenhum sangue saiu.

    Era um mero vislumbre do passado. Quase como um vulto, feito pra me enganar. 

    Percebi isso tarde demais.

    Apenas pude sentir sua lâmina atravessando meu peito. Uma dor de perfuração, algo que nunca havia sentido em toda a minha vida. Havia perdido pela primeira vez na vida, e não poderia ficar menos satisfeita.

    Quero dizer, ainda sentia um pouco de medo da morte. É claro que eu sentia medo da morte.

    Todos nós sentimos. Não é algo com que se possa acostumar. Ela bate à sua porta sem avisar e leva o que quiser sem pedir.  Dessa vez fui eu quem ela veio levar.

    Mas…

    Por que eu sinto que meu trabalho não está completo?

    Sua lâmina saiu de meu peito, encharcada de um sangue sujo. Eu não deveria morrer.

    Era forte. 

    Tinha tudo. 

    Tive tudo.

    Não.

    Não queria mesmo morrer. 

    Fiz tudo isso por meu plano, mas hesitei no final de tudo. 

    Eles…

    Eles não eram dignos de governar esse mundo. Seus truques sujos não deveriam ser considerados justos diante ao Código dos Cavaleiros. 

    — Vocês usaram feitiços para aumentar a capacidade corporal — levantei-me do chão, apoiando meu corpo no montante. — Isso… é imperdoável. Muito imperdoável.

    Logo, o cristal foi revelado. Preso na minha pele.

    “Querido Gahaal, deixe-me executar o julgamento desses servos mal-amados.”

    Foi o que pensei enquanto cuspia sangue. 

    O soldado que estava perto de mim logo recuou ao perceber o perigo. É claro que ele recuou! Não passava de um inseto imundo. 

    Coloquei minha mão no buraco em meu peito, atravessando-a de um lado para o outro com o objetivo de estancar o sangue. E, ao completar minha ação, cortei meu braço fora para que o sangue apenas saísse pelo que sobrará colado ao ombro.

    Doía. 

    É óbvio que dóia muito. Mas ainda tinha um grande trabalho a fazer.

    Em instantes me encontrei ao lado de todos os soldados sem que os mesmos pudessem reagir.

    Um.

    Dois.

    Três cabeças foram cortadas em milésimos, e mais dois foram envenenados sem que pudessem reagir. Estampava um sorriso no rosto. Um grande sorriso de excitação!

    A morte me chamava, mas antes disso, levaria algumas oferendas para essa deusa lasciva pelo desespero.

    Verde. Essa era a cor da pedra em meu peito.

    Pelo menos até instantes antes dela se tornar vermelha. Um vermelho vívido.

    Meus cabelos pareciam acompanhar a mudança, com mechas e mais mechas se transformando no escarlate. 

    Um fogo surgiu de meu braço antes arrancado, e mesmo doendo, ele parou todo o sangramento daquele membro. Estava eufórica o suficiente para não me importar com isso.

    O primeiro cavaleiro não pode reagir a tudo que estava acontecendo. Acabou de ver quase todo o esquadrão morrer na sua frente, e logo, o desespero ia dominar sua mente.

    Era inevitável.

    Humanos são assim. 

    Sentimentais. 

    — Pensei que você fosse digno — disse, pulando em segundos para sua frente. — Mas estava enganada. Você queria o trono por ganância, e, por causa dela, você vai perder seus companheiros. 

    — Você é um monstro! — Tremia, mas não largava a sua espada por nada. Tentou me perfurar várias vezes, utilizando sua velocidade sobre-humana, mas nada adiantava.

    Dessa vez era possível diferenciar o que era real ou não. Minha percepção estava se treinando sozinha contra esse inimigo tão fraco.

    Fraco.

    Fraco.

    Fraco.

    Vocês…

    Nossas lâminas se encontraram num embate de força, mas logo venci com facilidade, jogando-o para longe.

    [O Complexo interferiu na realidade com o propósito de aumentar o tempo de vida daquele que recebeu a proposta do ████████████.]

    — Não era uma ilusão? — murmurei, olhando para a tela ao meu lado. — Que idiota… Pelo visto tenho que agradecer a essa pessoa depois. 

    Como o primeiro guerreiro estava debilitado, virei-me para os outros três que restavam. O medo em seus olhos era muito claro, e isso me deixava eufórica!

    Hahaha!

    Como poderia sentir algo diferente? São apenas vermes que pensam em sentar no trono da justiça! Pensam que podem sentar no meu Trono de Metal.

    Andei com calma até aqueles que sobraram, rastejando a lâmina de minha espada no chão. Era um aviso de que eu era a morte para eles.

    Levantei minha espada para o céu, preparada para finalizar mais três indignos, mas fui parada pelo guerreiro que acabara de levantar. 

    — Você… Você deve lutar contra mim. — Sua força de vontade era impressionante, pois se encostava nos destroços do castelo apenas para ser o foco em vez dos seus irmãos. — Eu me propus a lutar contra você para que não houvesse mortes, majestade! Por que quebrou nosso acordo? Isso… Eu confiava em você.

    — Você quem quebrou nosso acordo — respondi, quebrando o pescoço de um dos soldados que ali restava. — O perdão é inalcançável a toda sua linhagem.

    O sangue escorreu pela minha boca. Talvez meu corpo não aguentasse tanto poder que transbordava daquela joia, mas tentei suportar. Pelo menos o suficiente para acabar com isso tudo.

    Em uma velocidade sônica ele chegou até mim, segurando uma segunda espada que pegou do companheiro caído por perto. 

    Já que estava indo com tudo… decidi que faria o mesmo. Um último ataque para resolver tudo isso.

    A minha lâmina foi consumida por chamas e sua bainha se modificou para que se assemelhasse a uma maça de ferro. Um ferro que surgiu do mais absoluto nada. 

    Era melhor deixar as perguntas para depois. Agora não é a hora para isso.

    Avancei na mesma velocidade em sua direção, preparada para cruzar nossos ataques.

    Corte.

    Em segundos, paramos ao lado contrário de onde estávamos vindo. Naquele momento, só um de nós poderia ter saído vivo, e eu tinha certeza de que…

    Vomitei muito mais sangue que o normal. Olhei para meu peito, vendo um buraco aberto em minha barriga que não poderia ser tapado mais. Era um convite sem recusa para me encontrar nos braços de quem tanto rejeitei nos meus últimos minutos. 

    Olhei para trás, vendo o mesmo cavaleiro cortado ao meio no chão. Era uma vitória para mim. Sem aqueles que poderiam considerar um líder a maldade não iria se erguer por um bom tempo.

    [Você aceita o contrato?]

    — É… Ainda tem essa merda — resmunguei, meu sangue jorrando cada vez mais no chão. — Claro… Se for para subjugar o mal eu aceitaria qualquer coisa.

    Milhões de informações inundaram minha mente em segundos. O futuro, presente e passado se entrelaçavam numa linda comunhão. Aquilo era um conhecimento determinado para mim.

    A pessoa digna de tudo. 

    — A vocês dois que sobreviveram — disse, apontando para o céu. — Espalhem por todos os mundos que criarei. Espalhem que um dia irei voltar para essa terra! Salvarei a todos aqueles que um dia se sentiram oprimidos e matarei os porcos gananciosos no poder. 

    Corpos são só receptáculos passageiros.

    A única coisa certa é a alma. Ela é eterna para sempre e pula de corpo em corpo com os mesmos princípios. 

    [Instaurando o Complexo.]

    [Criando os conceitos de um novo mundo.]

    [O universo se moldou aos seus desejos.]

    [O ciclo se iniciará a partir de sua morte.]

    Cabos desceram dos céus, ligando-se a cada um dos onze corpos daqueles soldados, e logo o último caiu, conectando-se ao meu. Brilhava numa cor divina.

    — Esse é apenas o começo da história. Você, minha querida reencarnação, deve saber apenas o seu propósito: limpar esse mundo. Limpar esse maldito mundo! Hahahaha!

    Senti como se minha alma fosse dividida em duas. Aquela casca não suportava todo o conhecimento que em minha mente residia. Duas de mim. Duas reencarnações. A mesma alma presa duas vezes no mesmo ciclo.

    Isso dói. 

    Uma parte de mim foi tirada, e eu deveria encontrá-la.

    Mas…

    Tudo se escureceu em segundos, fui expulsa daquele lugar e voltei ao meu corpo.

    Sentia minha mão mais uma vez, meus olhos ainda estavam turvos por tudo que acabara de lembrar. Uma memória de uma vida passada. Me encontrava no chão. Estava por um fio de desmaiar.

    — Como foi? Descobriu seu verdadeiro propósito, querida Seven? — perguntou o Anjo, ajoelhando-se ao meu lado. 

    — Eu… Eu não quero acreditar nisso tudo — comecei, ainda processando tudo que acabara de acontecer. — Mas… se é isso que tenho de fazer… devo concluir. 

    Chorava. Óbvio que chorava! O sentimento era horrível, afinal, havia memórias presas que me entristeciam.

    — Você fez bem, Scarlett. Dessa vez tudo vai acontecer de acordo com o plano.


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