Ao sair, avisto a lua cheia, logo vai amanhecer.

    Preciso encontrar Perséfone…

    Mas onde devo procurar? Vienna? Ela deve estar morando lá, apesar de eu não ter visto nenhuma memória mais recente dela.

    Flexiono minhas pernas e dou um grande salto. Logo o castelo se torna pequeno embaixo de meus pés.

    Com certa pressa, voo e retorno até Vienna.

    Conforme me aproximo, sinto seu doce e gentil cheiro se intensificando, ela está lá, porém não sei dizer a direção exata…

    O sol está nascendo, começo a me sentir levemente sonolento.

    Por algum motivo, meus olhos estão mais sensíveis ao seu brilho, ao ponto de achá-lo irritante.

    Por hora, retornarei até minha casa para descansar, posso procurar por Perséfone depois, já que sei que ela está em Vienna.

    Me aproximo da minha casa, a janela do quarto ainda está aberta.

    Fico parado no chão, hesitando um pouco antes de entrar.

    Aquela casa minúscula, cheirando a putrefação… Por que estou voltando até esse lugar? Mereço algo muito melhor…

    Que seja, hoje dormirei aqui, amanhã mesmo abandonarei esse lugar e encontrarei outro.

    Me preparo para saltar, porém escuto algo curioso vindo de dentro.

    Vozes.

    — Tem certeza de que é aqui? — pergunta uma voz masculina grave e forte. — Esse lugar tá todo revirado.

    — Hm, minha Benção Divina indicou que um vampiro esteve aqui uns dez minutos atrás — responde uma voz neutra de uma mulher…

    — Porra, sério? Então ele já está longe daqui… caralho, por que não nos falou antes? Só perdemos tempo… — A primeira voz de novo, imagino que seja o líder.

    — Bem, isso não é tão ruim né, ainda podemos descobrir a identidade da pessoa que morava aqui, assim, descobriremos o nome do vampiro, né? — Uma terceira voz, animada, um jovem. — A propósito, quando vai poder usar sua habilidade de novo?

    — Preciso dormir no mínimo dez horas para recarregá-la…

    — Uma habilidade que requer sono para poder usá-la… entregue a uma garota com insônia… Por que caralhos fui colocado nesse grupo? — O líder reclama.

    Caçadores na minha casa, maldição…

    Não se passou nem um dia desde que renasci, mesmo assim, estão me importunando demais.

    Vermes… por acaso terei que lidar com isso pela eternidade? Não… nós deveríamos exterminá-los, isso é inadmissível.

    Exponho minhas garras, vou dilacerar todos eles, não posso permitir que descubram meu nome.

    Olho pra cima, me preparo para pular.

    Então… algo atrás de mim toca no meu ombro.

    Um caçador? Há! Farei se arrepender de ter entrado no meu caminho.

    Com um reflexo sobre-humano, me viro já atacando.

    Mas, meu pulso é segurado.

    — Shh… — Com um dedo na frente da própria boca, Perséfone… Espera, quê?!

    — Perséfone?! O que faz aqui?

    — Quieto, deixemos este lugar antes que nos detectem.

    — Sair? Deveríamos matá-los! Vão descobrir minha identidade!

    — Matá-los não adiantará de nada! Enviarão um grupo maior, não podes lutar contra todos eles sozinhos. — Ela começa a puxar minha mão, mas permaneço no lugar.

    Olho pra cima, cerro meus punhos, quero matar esses caçadores…

    — Dracula… por favor… — Seus olhos possuem um misto de tristeza, decepção e cansaço.

    Me lembro das memórias que vi mais cedo… por algum motivo, não quero machucá-la.

    Além disso, o que ela diz faz sentido… eu já planejava abandonar este lugar de qualquer maneira.

    — Está bem… — Dou um passo adiante. — Mas só dessa vez

    Vejo sua expressão se transformar em uma de surpresa.

    — Mesmo?

    — Suas memórias estão me afetando mais do que imagina.

    — Ah, en-entendo… — Ela subitamente cora, desviando o olhar. — De qualquer maneira, deixemos esse lugar imediatamente!

    Travo um pouco, sua expressão foi… interessante…

    — Hm.

    Juntos, nos esgueiramos para longe dali, saltando pelos telhados.

    — Por que deixaste o castelo Kreuzenstein? Tu estás seguro lá.

    — Vim atrás de ti! Me deixaste… deixou preocupado.

    — De mim? — Ela subitamente para de se mover, me encarando um tanto confusa. — Por quê?

    — Eu… creio que a chateei, achei que iria embora…

    Um sorriso gentil, um tanto bobo surge em seu rosto.

    — Me desculpe por ter matado aqueles caçadores quando pediste que os poupasse.

    Não me arrependo de tê-los matado, não, faria aquilo novamente, contudo não diante dela.

    — Então tu se sentes arrependido?

    — Eu… — Não, não me sinto. — Sim…

    — Mentiroso… — Ela toca meu rosto gentilmente, fazendo-me encará-la. Ela é um tanto mais baixa, precisa ficar na ponta dos pés, mesmo assim, não alcança minha altura. — Diferente de ti, já assimilei todas vossas memórias, sei que não se arrependes.

    Fico em silêncio, desvio o olhar. É tão frustrante que sabe tudo sobre mim, enquanto eu…

    — Mas… pelo menos crescera um pouco. — Esperava que me desse um sermão, mas o que faz é justamente o oposto. — Me promete que farás o possível para evitares matar um caçador?

    — Eu… prometo, Perséfone, diante de ti, evitarei matar sem necessidade.

    Ela sorri de maneira doce, um tanto calorosa até.

    — Obrigada Dracula, tu és muito gentil.

    — Definitivamente não, afinal, ainda quero matá-los.

    Sim, não matarei ninguém enquanto ela estiver por perto, afinal… afinal o quê? Por qual motivo estou considerando as opiniões e sentimentos dela?

    — Bem, se estás disposto a poupá-los, mesmo quando desejas matá-los, então, para mim, é o suficiente. — Ela sorri pra mim, pura, gentilmente.

    Vendo sua expressão quase me faz me sentir culpado, quase.

    Afinal, estou livre para matar qualquer maldito caçador contanto que ela não esteja presente, e assim farei.

    — Por aqui. — Ela aponta para uma janela no segundo andar de uma loja, sinto cheiro de ervas, remédio. — Se tornara um vampiro hoje, há coisas que precisas saber, ensinar-te-ei agora.

    Entro sem pensar muito, me deparando com um quarto pequeno, apertado. Há estantes abarrotadas de livros, a maioria contos, fabulas, histórias. Procuro pela cama e, após alguns longos segundos, encontro-a soterrada por mais livros.

    — Aqui é onde mora? — Vejo um armário, uma escrivaninha com vários papeis rabiscados… — A loja lá embaixo é tua?

    Ela balança a cabeça negativamente. — Um senhor construiu isso tudo, para um humano, é deveras inteligente, já fora capaz de curar vários.

    — Então o que tu…

    — Sou sua assistente, faço-me de uma garota inteligente e esforçada que tenta aprender seus segredos, ajudo na loja, atendo os clientes quando está fora, cozinho para ele, e em troca, me deixou dormir aqui.

    — Este lugar pequeno e bagunçado? Aquele humano, aquele velho ousa entregar a ti um lugar assim para dormir?

    — Bem, na verdade… — Vejo seu rosto corar, ela une as mãos, seus dedos brincam entre si. — Fui eu quem causou esta bagunça.

    Congelo por um momento no lugar… aquela imun… desordem foi causada por ela?

    Ela me encara, entra em pânico, começa a falar rapidamente enquanto balança suas mãos diante de seu rosto.

    — Bem, é-é que por ser vampira antiga, sei muito sobre quase tudo, portanto a única co-coisa que é capaz de me entreter é literatura, co-compreendes?

    — Ah… bem, faz sentido, creio…

    Por ser vampira, é claro que adquiriu o conhecimento em várias áreas através dos humanos.

    — Não está tão bagunçado, certo? Meu quarto… — Ela me encara, depois desvia o olhar para os livros.

    — Não, não está…

    Está, muito…

    — Está muito… — dizemos em uníssono, a encaro surpreso.

    — Não é?

    Sua expressão é tímida, ela sabe exatamente o que estou pensando.

    — É… está…

    Coço meu próprio cabelo. Até o momento, não me importei muito com a ideia de ela saber tudo sobre mim, mas agora que percebo como ela é capaz de ver através de mim é… assustador?

    Constrangedor? Sim, definitivamente é isso.

    — Perdoe-me, nós, vampiros, não necessitamos de sono, portanto uso este local apenas para manter as aparências, não esperava que o convidaria a entrar. Caso contrário, tu não terias encontrado este lugar em um estado tão deplorável.

    Vejo-a caminhar pelo quarto, um tanto afobada, enquanto tenta abrir algum espaço para nós dois.

    — Pronto, sente-se aqui, por favor. — Ela aponta para sua cama, agora com espaço livre, mas o lençol ainda está bagunçado.

    Faço como ela diz e me sento na cama, pó se ergue, enquanto ela permanece de pé.

    — Não vai se sentar?

    — Ah! Si-Sim, claro.

    Ela puxa a cadeira da escrivaninha e se senta.

    Me pergunto se ela sempre foi assim…

    — Você disse que não precisamos dormir, mas… me sinto um tanto sonolento.

    — O sol nos enfraquece um pouco. Não apenas ficamos um pouco mais lentos e fracos, a luz do sol é mais ofuscante para nós, por isso tu se sentes sonolento. Muitos vampiros se isolam em algum lugar escuro e dormem o dia todo, despertando apenas de noite, enquanto outros, como eu, suportam o sol e não dormem.

    — Mas não dormir seria ruim?

    — Bem, se fores descoberto por alguns caçadores, há o risco de seres morto, fora isso, todos os efeitos negativos do sol desaparecerão assim que se pôr. Nós realmente não precisamos dormir, mas muitos preferem para que o dia passe mais rápido.

    Apalpo o colchão, sentindo sua macies. Não há mais livros a ocupando, mas cada movimento da minha mão faz pó voar, há uma fina camada no lençol.

    — Aparentemente não usa essa cama mesmo.

    Ela nega com a cabeça.

    — Trabalho de dia e vago durante a noite. — Ela me encara, percebendo minhas pálpebras pesadas. — Se quiseres… podes dormir aqui…

    — Não irei te atrapalhar? O velho, dono desse lugar, não aparecerá?

    — Não te preocupes, mesmo que ele apareça, não haverá nenhum problema. Pela noite, explicar-te-ei o que necessitas saber.

    — Certo, neste caso, seguirei sua sugestão. — Me deito na cama e fecho os olhos.

    Por um momento, escuto apenas o som dos pássaros cantando conforme o sol se ergue pelo céu, então, escuto os humanos preenchendo as ruas.

    Mas, mais que tudo isso, escuto a respiração de Perséfone. Ela continua parada no mesmo lugar.

    — Não consegues dormir?

    Abro os olhos e a encaro.

    — Não muito, estou me acostumando a ter uma audição tão aprimorada. Além disso…

    Permaneço em silêncio por um momento, continuo a encarando.

    — Os caçadores disseram que havia um vampiro na minha casa dez minutos antes de nos encontrarmos, era você?

    — Sim, estava me livrando de todas as evidências sobre sua identidade.

    — Ah, certo, obrigado, Perséfone.

    Ela sorri, se levanta e se aproxima, tocando minha testa gentilmente.

    — A propósito, quando estivermos lutando contra caçadores, me chame de Justina, é para proteger minha identidade.

    — E quanto ao nome Proserpina?

    — Nenhum vampiro me chama por Perséfone por… respeito.

    — Compreendo…

    Ela me encara por alguns segundos. — Bem, agora tu deves dormir, esta foi uma longa noite.

    Concordo em silêncio, fechando os olhos novamente.

    A escuto caminhando para longe, ela abre a porta e sai, me deixando sozinho, pensando no que acabou de acontecer.

    De fato, foi uma longa noite.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota