Índice de Capítulo

    O céu já escurecia quando Siegfried finalmente recobrou a consciência — caído de joelhos na água verde e barrosa do pântano.

    “Onde…?”

    O cavalo lambeu-lhe o sangue seco do rosto e o rapaz finalmente se lembrou… A batalha. Elliot Kroft. Eroth. O Castelo dos Ossos. Não havia tempo a perder. Precisava de respostas. Tinha de retornar.

    “E se não houver mais para onde retornar?”, sussurrou Lili em seu ouvido. “Talvez já seja tarde demais. E a culpa é sua. Nunca devia ter confiado nela.”

    — Cala boca! — disse Siegfried. A voz rouca e fraca, rasgando-lhe a garganta a cada sílaba.

    Sentiu as pernas tremerem diante do próprio peso ao pôr-se de pé. Seu corpo rígido; o frio gelando-lhe os ossos; os ferimentos ardendo e queimando a pele — teriam infeccionado? Mesmo o simples ato de se manter de pé lhe tirou o fôlego. Um aperto no peito. A cabeça zonza. A vista embaçada.

    Respirou fundo, pegou a cabeça decepada de Elliot Kroft e montou no cavalo.

    — Casa — sussurrou e o animal fez o resto.

    O garanhão marrom era, de fato, inteligente. Não precisou guiá-lo; já sabia o caminho e o levou de volta sem problemas. Siegfried não gostava de nomear seus cavalos; a maioria morreria cedo de qualquer modo. Mas achou que este merecia um nome, por isso decidiu batizá-lo de: Sábio.

    Sábio guiou o rapaz de volta por passarelas de madeira escondidas sob a água e, pouco mais de meia-hora mais tarde, chegaram ao vilarejo deserto, onde foram recebidos por neve e nada mais.

    O Relicário Perdido permanecia com as suas portas fechadas, mas transbordava de vida e alegria; música e risadas. As demais casas? Silêncio. Trancadas e barricadas. As cortinas fechadas, com apenas alguns olhos tentando espiar pelas frestas — crianças inquietas em sua maioria, embora houvesse também um ou outro adulto curioso.

    Siegfried ignorou a todos e parou em frente aos portões do Castelo dos Ossos. Chamou pelos guardas e… Nada.

    A neve caía com vigor, seus pequenos flocos dançando ao vento — rasgando-lhe a pele a cada brisa. Suas vestes negras cobertas de branco; úmidas da água do pântano. O corpo tremendo. A respiração pesada. A dormência lhe subindo a partir das extremidades. Sono. Ninguém veio. Algo teria acontecido?

    “Eroth me enganou?”

    Talvez ela já tivesse reconquistado o Castelo dos Ossos. Estariam todos mortos? Chegara tarde demais? Pensamentos ainda piores lhe vieram à mente, até que os portões enfim se abriram. Wayne.

    “Aposto que ele tava dormindo de novo, em algum lugar quentinho”, disse a si mesmo. “A Eroth tá certa, eu tô ficando paranoico.”

    Mas não pôde deixar de notar o quão pouco podia confiar em seus próprios guardas. Se ele não era capaz de manter o seu posto em uma simples nevasca, como poderia esperar que o fizesse durante um cerco?

    Sábio o deixou na porta do prédio principal e, depois que o rapaz desmontou, se virou e foi trotando até o estábulo para fugir da neve.

    O primeiro a encontrar Siegfried foi Esmond Kroft. Tão logo atravessou a porta, esbarrou no garotinho do outro lado. O pequeno lorde destitulado tomou um susto e recuou:

    — Mercenário?! Que merda aconteceu…

    Siegfried estava coberto de neve, sangue e sujeira. Vinha do combate e tinha noção de sua aparência. A aparência de um soldado. Esmond não parecia acostumado à visão…

    E menos ainda à visão da cabeça decepada de seu pai.

    O garotinho gelou e seus olhos vidraram-se aos do cadáver. Medo. Não. Terror. Embora estivesse ciente de que o pai havia morrido, Esmond não chegou a vê-lo — não daquela forma. Tinha apenas dez anos e as crianças custavam a entender o que realmente era a morte, mas ele parecia finalmente entender. E congelou.

    Por um momento, Siegfried lembrou-se de si mesmo. Da criança de nove anos que viu o seu pequeno vilarejo queimar. Oito anos atrás. Uma vida atrás.

    Quase sentiu pena de Esmond.

    As crianças sempre foram o seu ponto fraco. Não gostava de matá-las e tinha dificuldade em deixá-las morrer. Não gostava do garoto, mas tampouco queria traumatizá-lo.

    “Tarde demais”, brincou Lili.

    Siegfried a ignorou, passou por Esmond e se dirigiu até a porta que dava no laboratório de Eroth naquele mesmo andar.

    Tal como esperava, encontrou a elfa cercada por pergaminhos, livros, papéis e frascos em todas as cores e formas. E não estava sozinha.

    Embora cega, Kira ajudava como podia. Em cada frasco havia letras em relevo para que pudesse identificá-los pelo nome; e se isso não fosse o suficiente, ainda cheirava o seu conteúdo antes de misturá-lo em um pequeno caldeirão de ferro.

    Tom também ajudava, embora parecesse um tanto quanto desanimado. O seu trabalho era simplesmente organizar as coisas e entregar o que as garotas lhe pedissem.

    Siegfried jogou a cabeça de Elliot Kroft para Eroth, que a observou rolar no chão, antes de finalmente parar aos seus pés. A sua reação? Nenhuma. A elfa prestou atenção na cabeça decepada por um instante e então deixou de se importar com ela; virou-se para Siegfried e sorriu:

    — Lorde Blackfield. Em que posso ajudá-lo?

    — É o Elliot — disse. A voz ainda rouca e lhe rasgando a garganta. — Ele me atacou essa tarde. Tem caçado os plebeus há quase uma semana. Gostaria de me explicar como?

    Eroth pegou a cabeça como se fosse um de seus livros e começou a examiná-la. Dentes, olhos, orelhas, cabelo. Olhou cada pedaço e não demonstrou qualquer simpatia pelo que um dia havia sido o seu marido. Examinou o crânio como quem examina uma maçã. Dois minutos, e então…

    — Interessante. Consigo ver um pouco de miasma nos seus dentes e ouvidos. Hum. Creio que tenha se tornado um morto-vivo.

    — Tá me dizendo que ele simplesmente voltou dos mortos e você não tem nada a ver com isso?

    — De forma alguma. Pessoas não simplesmente ‘voltam dos mortos’. Se eu tivesse de adivinhar, diria que foi devido aos meus experimentos anteriores, depois que o senhor o matou pela primeira vez. Ou melhor: quase o matou.

    — E por que não me avisou?

    — Bem! Na época, eu estava um pouco… Enrolada. Além do mais, não imaginei que ele fosse sobreviver a uma decapitação. Eu usei minha magia para lhe negar o beijo da morte, sim. Mas não era meu plano que ele fosse imortal, tampouco que se tornasse um monstro. Imagino que isso tenha sido uma consequência inesperada do próprio terreno. Existe muito miasma neste pântano. Minha suposição? A magia do pântano fortaleceu a minha e o trouxe de volta. E temo que o fará novamente.

    — O que quer dizer?

    — Veja o crânio.

    E Siegfried viu. Estava apodrecendo; só que um pouco rápido demais. Seu cabelo branco já começava a cair, a pele desmanchando ao toque e o cérebro escorrendo pelos orifícios. Não era normal um cadáver se decompor tão depressa.

    — O que tá acontecendo?

    — Suponho que ele esteja se regenerando.

    — O quê?!

    — Bem! Você o decapitou. Imagino que ele precise crescer uma cabeça nova agora. O que significa que ele não precisa mais desta. Suponho que esse crânio tenha perdido sua ligação com o corpo principal e agora não é mais do que uma cabeça comum. Qualquer habilidade regenerativa que ele tenha, já não se aplica mais a esta cabeça. Claro que é só uma suposição.

    — Tá dizendo que ele ainda tá vivo?

    — Provavelmente.

    — E como eu mato ele!?

    — Hum. Boa pergunta. Bem! É provável que a própria magia do pântano esteja mantendo ele vivo. Imagino que se o tirarmos daqui e o levarmos para bem longe, tudo ficará bem.

    — E se não ficar?

    — Sugiro enterrá-lo bem fundo. Pelo menos assim, vai levar mais tempo para vir atrás do senhor.

    Foi uma piada? Siegfried não tinha certeza. Ainda assim, fez como lhe foi dito. Ou melhor: ordenou que Wayne o fizesse.

    Tal como Eroth havia suposto, Elliot Kroft já estava em processo de regeneração. O seu torso já começava a crescer pernas e uma cabeça de bebê do tamanho do seu punho. A visão lhe deu náuseas.

    Voltou a mutilar o cadáver de Elliot e pôs os seus restos mortais num caixão de madeira maciça; trancado e envolto em correntes. O caixão foi posto em uma carroça puxada por duas mulas e entregue a Wayne com ordens claras de levá-lo para bem longe do pântano e enterrá-lo em um buraco tão fundo que ele pudesse ficar de pé dentro.

    Wayne partiu naquela madrugada e voltaria apenas após oito dias de viagem.

    Embora não pudesse admitir, Siegfried ficou um pouco decepcionado por Wayne não ter sido atacado no caminho. O pântano estava cheio de monstros ultimamente; era esperar muito que algum deles o devorasse?

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