Capítulo 8 — Medéia
A neve da tempestade da noite anterior ainda estava grossa no chão; os cavalos precisavam levantar as pernas mais do que o normal e ainda arrastavam um pouco do pó frio. Kayla permanecia na frente, como o fez durante toda a viagem.
Ti’metios parecia mais estável, ainda que estivesse desacordado. Ao longe, as muralhas de Medéia já se mostravam em todo o seu esplendor: pedras lapidadas e organizadas perfeitamente, formando um círculo ao redor da cidade para proteger seus habitantes.
— Caramba, e pensar que as muralhas já foram de madeira — Darian ficou admirando. Era a primeira vez que visitava a capital; sempre estivera no baronato desde suas memórias mais antigas.
— Você vai ficar ainda mais impressionado quando vir o lado de dentro. A torre do relógio é uma maravilha! — Aurelyn comentou, já imaginando como poderia aproveitar seu descanso dentro das muralhas.
— Vamos até a Mansão Elarion primeiro, não podemos deixar Lorde Vaedhion esperando ainda mais. — Kayla seguiu sem se deixar distrair. Um suspiro de alívio escapou quando pensou que poderia dormir em sua cama novamente.
— Ah é, temos que vê-lo primeiro. Pena que o reencontro dele com o Metios vai ser… bem… — Aurelyn olhou para o vampiro apagado no lombo de Moeda. — Com um dos dois incapaz de responder.
Quando chegaram aos portões, os guardas abriram caminho ao avistar Kayla. Normalmente, eles os parariam para uma rápida verificação, mas com a elfa junto, isso não era necessário. A área interna das muralhas não era menos impressionante: os aquedutos passavam por cima, feitos das mesmas pedras que as muralhas, carregando água pela cidade. No centro, acima de tudo, estava erguida a torre do relógio, com ponteiros indicando as horas, minutos e até mesmo a estação; uma obra de engenharia excepcional e um dos orgulhos de Medéia.
As pessoas encaravam, curiosas sobre o quarteto: uma figura conhecida acompanhada de um jovem cavaleiro e uma aventureira, além de um homem baixinho dormindo no lombo de um dos cavalos, obviamente. Elas acenavam e cumprimentavam Kayla com expressões amigáveis, as quais a elfa retribuía com um sorriso leve; sequer parecia que ela estava escondendo ferimentos enfaixados por baixo das roupas.
Darian estava em êxtase, seu olhar indo de um ponto a outro sem parar. Onde quer que olhasse, parecia encontrar algo novo: lojas aos montes com todo tipo de produto, além de uma arquitetura avançada que ele sequer podia compreender direito.
Aurelyn estava… inesperadamente focada no caminho. Seu olhar não desviava muito, com uma ou outra exceção ao avistar roupas que lhe chamavam a atenção; não fazia mal fazer compras de vez em quando, e não era todo dia que ela estava em uma capital.
— Aqui quase não tem madeira, como isso é possível? — Darian questionou, ainda impressionado.
— Longos anos e muito investimento em cada tonelada de pedra, sem contar os engenheiros e outros especialistas. — A elfa apressou o passo. Diferente do lado de fora, o caminho dentro da cidade havia sido limpo, e podiam enfim andar numa velocidade maior com os cavalos.
Em questão de minutos, viram-se diante de uma imponente mansão. Sua estrutura, feita de pedra escura que a destacava das demais residências, e os portões de ferro bem trabalhados e adornados protegiam a entrada junto de um par de guardas, além de outros três que estavam em cima do muro. O terreno era grande o bastante para se equiparar ao de uma pequena fortaleza.
— Ele herdou mesmo o exagero do pai — Aurelyn comentou em um murmúrio.
Darian estava boquiaberto, tão próximo de conhecer uma das maiores lendas vivas e um ídolo seu. O nervosismo do rapaz era quase tangível pela forma como seu olhar não parava quieto e suas mãos tremiam o suficiente para serem notadas.
Kayla olhou para os dois guardas.
— Rapazes.
— Maga Kayla — os guardas responderam e abaixaram suas cabeças.
— Os três estão comigo. Preciso falar com o Conde sobre algo que exige sua atenção imediata.
— Ele está no escritório, vai ficar contente em ver você e Moeda novamente.
Os portões se abriram. O grupo seguiu para dentro, onde havia um estábulo com três cavalos e um pequeno jardim de flores amarelas que nenhum dos três reconheceu. Desceram de suas montarias e Darian carregou Ti’metios em seu ombro.
— Tenho mesmo que carregá-lo?
— Você é um cavaleiro. Nós, damas, não podemos fazer isso quando temos um confiável e nobre guerreiro para fazer por nós — Aurelyn falou com um sorriso delicado.
— Mas é que… aparecer pro Sentinela carregando o vampiro desacordado…
— Ele vai gostar mais de você se o carregar direito.
O cavaleiro resmungou incomodado e começou a carregar Ti’metios nos braços. Aurelyn deixou escapar uma risadinha vendo o “poderoso” general carregado daquela forma. A elfa já estava indo na frente enquanto os dois estavam distraídos, subindo o lance de escadas localizado no fim do salão principal; no segundo andar, uma porta dupla de carvalho era o que separava o escritório do restante da mansão. Ela bateu na porta.
— Lorde Vaedhion, eu retornei.
— Kayla? Entre! — o Conde falou, animado.
A porta se abriu, revelando uma sala elegante com estantes de livros nas laterais e uma cadeira atrás da mesa onde o elfo estava sentado, ao lado de uma pilha de papéis que ele havia recém-terminado de ler e assinar. Na parede atrás dele, uma adaga prateada permanecia em exibição, perfeitamente brilhante.
— Moeda deu muito trabalho dessa vez?
— Bom, ela não me deu trabalho algum, como sempre. Mas ocorreram algumas coisas que precisam da sua atenção, e trouxe companhia comigo, mas eles estão distraídos lá fora. — Ela se aproximou de cabeça erguida.
— Hm, más notícias, eu imagino. Diga, qual o problema dessa vez?
— No caminho para o local onde Moeda sempre vai, fui emboscada por um bando de mercenários. Quase fui morta, se não fosse pela interferência do cavaleiro do Barão Valerius e de um outro homem que… ainda não sei como definir, mas ele está conosco.
— Suspeita que eles tentaram te matar por ser próxima a mim, para me enfraquecer — Vaedhion deduziu em um instante os pensamentos de Kayla. — É possível, mas não temos provas de que eu seja o alvo ou um obstáculo para nossos inimigos misteriosos. Peço perdão por te fazer passar por isso. Deveria ter mandado ao menos alguns dos nossos com você, mesmo sendo inverno.
— Não peça desculpas, você não tinha por que suspeitar que isso aconteceria em uma missão tão simples.
— Recompensarei você quando possível. Afinal, onde estão os seus novos aliad…
— Ô de casa! A gente tá se convidando, com licença! — Aurelyn exclamou enquanto passava pela porta, seu olhar focando em Vaedhion. — Alteza, prazer em te conhecer. Sou Aurelyn, uma andarilha que está acompanhando de curiosa. — Ela notou a adaga em exibição na parede e encarou a arma por um instante, com uma expressão intrigada, antes de voltar a olhar para o Conde.
— Er… prazer… senhorita. — Ele estranhou a entrada exagerada da morena, assim como seu estilo de roupas para o inverno. Seu foco, no entanto, foi tomado pela terceira figura que entrou na sala, o que o fez ficar de pé.
Darian estava entrando com Ti’metios, os passos hesitantes e um pequeno rubor na face por nervosismo.
— S-Sentinela… Senhor… Digo, Alteza! Sou Darian, cavaleiro do Baronato Severin. — Ele abaixou a cabeça, mas suas palavras não pareceram alcançar Vaedhion, que permaneceu em silêncio, encarando o ruivo nos braços do cavaleiro.
— PAI?!!! — Seu grito ecoou em um estrondo. Ele saltou por cima da mesa e se aproximou de Darian com uma rapidez sobrenatural que assustou o jovem. Estendeu os braços para recolher o vampiro, e o cavaleiro, sem hesitar, lhe entregou Ti’metios. — M-mas o quê… como… — As palavras sumiram de sua mente ao observar o rosto de alguém que, há muito, deveria estar morto. Ele abraçou o velho vampiro com força, como se nunca mais quisesse largar.
Kayla e Darian ficaram com os olhos arregalados, surpreendidos com a cena que acabou de se desdobrar à sua frente. Os dois encaravam Vaedhion sem saber o que dizer.
— Bem, acho que temos muito o que conversar, Conde — Aurelyn falou com um sorriso.

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