Capítulo 13 — Momentos de Paz — Parte 2
No pátio, o som de metal colidindo podia ser escutado. Ti’metios enfrentava Darian enquanto mantinha sua mão direita atrás de seu corpo. Ambos empunhavam espadas curtas de treino.
— Vai lá, Darian! Você consegue! — Aurelyn observava afastada, torcendo pelo cavaleiro.
O vampiro estava em uma postura defensiva, bloqueando e defletindo enquanto buscava a chance de criar uma abertura. Sem poder usar de sua força total, ele dependia de sua experiência para se manter em pé de igualdade. Darian investia contra Ti’metios com uma velocidade impressionante. Estocadas e cortes rápidos que passariam pelas defesas de qualquer soldado médio, mas falhavam em alcançar o vampiro.
Com o cavaleiro desacelerando devido à exaustão, Ti’metios avançou com uma estocada, diminuindo a distância entre os dois. Sua mão direita segurou a lâmina de Darian com firmeza, tomando o controle dela. A ponta da arma encostou no peito do jovem, que então suspirou e disse:
— Eu desisto. — Os olhos de Darian, que durante a luta estavam dourados, retornaram ao prata.
— Bom duelo. Você ainda precisa melhorar em gerenciar sua energia e em esconder suas intenções. Alguns meses de treinamento e você vai estar bom o bastante para me vencer com pouca dificuldade.
Ti’metios colocou sua espada no chão, esticando-se em seguida. Ainda estava testando até que ponto seu corpo aguentava antes de desmaiar; até o momento, tinha acesso a apenas metade de suas capacidades — já restritas — antes que o ferimento começasse a agir.
— Que tipo de maníaco segura a espada do inimigo com a mão nua? — Darian largou sua arma, deixando-a cair.
— Eu. Mas eu me regenero quase na hora se der errado, então não tente fazer o mesmo. — O vampiro olhou ao redor, dando falta de alguém. — Onde está a elfa?
— Foi resolver alguns afazeres dela, até onde me lembro. Coisa tediosa — respondeu Aurelyn.
— Hm.
Ti’metios pegou sua adaga e virou-se em direção à mansão, afastando-se sem falar mais nada. Aurelyn foi atrás dele, exclamando:
— Ei! Não foge que temos que começar a te ensinar a ler!
— Não me enche, eu já tô velho para ficar aprendendo escrita de novo.
Logo, a dupla havia deixado o cavaleiro sozinho no pátio. Darian encarou o céu com uma expressão vazia, tentando pensar em como preencher o restante de seu dia. Sua atenção foi capturada por um assovio próximo, vindo de ninguém menos que Vaedhion. O elfo se aproximava vindo dos estábulos, de onde observava enquanto o duelo ocorria.
— Sentinela! O senhor estava assistindo?! — Ele rapidamente recolheu a sua verdadeira espada e prendeu-a em seu cinto. O corpo tensionou-se em uma posição de sentido.
— Não poderia perder meu pai lutando de novo, mesmo que não seja com um terço da força que ele tinha quando eu era jovem. Você estava se segurando, não estava?
— Foi… parte das restrições que ele impôs nos duelos. Já que ele não pode lutar com tudo. Eu achei que seria mais fácil lutar conservando energia, mas fazer isso conscientemente é exaustivo. — Darian abriu e fechou a mão algumas vezes; o ajuste constante de força a havia deixado dolorida.
— Sei como é, já tive que ajudar a treinar muitos nos meus quatro séculos e meio de vida. Deu sorte de ele não estar usando o estilo principal dele.
— A adaga, eu assumo.
— Acertou metade. Espada e adaga. Por mais que ele seja habilidoso com muitas armas, essas eram as principais — Vaedhion explicou.
O cavaleiro, por um momento, ficou preso em sua imaginação. Não conseguia conceber como isso funcionava, pois, até então, apenas encontrara pessoas que usavam uma só arma.
— Então por que ele não está com uma espada? Você deve ter alguma sobrando para ele.
— Tenho, mas ele é chato.
— … O que… isso deveria significar?
Vaedhion coçou seu queixo antes de responder à pergunta, de olhos fechados e com uma expressão incomodada.
— Meu pai é muito específico com a qualidade das armas dele. Aquela adaga mesmo era a que ele usava na guerra; quem sabe, se ele estivesse com ela na última batalha, ele poderia ter vencido sem ser… incendiado.
O cavaleiro ficou o encarando. Uma pequena dúvida permeava sua mente sobre a tal adaga; bem, duas pequenas dúvidas. A primeira seria logo respondida por Vaedhion.
— Quando estávamos no fim de tudo, eu disse para ele que não era necessário ir até aquela batalha. Deixou a adaga comigo pra servir de garantia de que voltaria, o que, como pode notar, não foi o que aconteceu. O que mais quer saber?
— É uma adaga especial?
— É sim. Foi feita especificamente para ele, para que enfrentasse os Santos e outros inimigos perigosos. Consegue canalizar magia em seu metal para fortalecer os cortes. Somente sua velha espada se equiparava em qualidade! Mas ela quebrou na luta.
O elfo suspirou fundo e esticou os braços.
— Foi bom conversar com você, Darian. Mas tenho assuntos pendentes que requerem minha atenção agora.
Darian colocou as mãos atrás do corpo e, criando coragem, fez um simples pedido.
— E-eu poderia te acompanhar? E… ouvir algumas histórias no caminho, por favor? — Ele perguntou visivelmente envergonhado. Seu olhar foi de encontro ao chão, com um leve rubor em sua face.
Vaedhion deixou escapar um sorriso de canto e respondeu:
— Histórias curtas. E você me espera do lado de fora. Pode ser?
— Claro!
O rosto do jovem se acendeu de alegria ao receber permissão de acompanhar seu ídolo.
— Vamos a pé, é dentro da cidade.
Enquanto a dupla caminhava em direção à praça principal, Darian escutava atento as histórias de Vaedhion. Contos de lutas contra exércitos inimigos, magos poderosos, criaturas místicas. As inúmeras coisas que o cavaleiro sonhava em enfrentar para criar sua fama e história. Mas tinha seus deveres como cavaleiro do barão; até mesmo sua estadia na capital era temporária.
Em apenas alguns dias, ele voltaria para o feudo Severin, longe das muralhas de pedra e do movimento da grande cidade. Tudo de volta ao seu normal. O que não agradava seu desejo de algo maior.
— Com a serpente presa na armadilha de raios, eu girei minha alabarda e cortei sua cabeça com um golpe limpo. — O elfo contava sobre quando caçou uma serpente gigante que causou problemas ao norte, eliminando vilarejos inteiros para saciar sua fome.
— Isso é incrível! Por que não ouço mais dessas histórias?
— Porque ninguém registra esse tipo de evento. As pessoas compartilham histórias por falas; é inevitável que não alcancem certas partes e que sejam distorcidas. Assim como existem poucos registros da guerra, você mesmo deve ter ouvido muito pouco sobre ela.
— Bom… eu sei que foi longa. Que havia deuses que controlavam o mundo por meio dos seus Santos e que eles perderam.
— Vê o que quero dizer? De toda forma, chegamos.
Estavam diante de um edifício alto e largo com decorações elaboradas na parede. Era ali onde o conselho da cidade se reunia para discutir o que quer que fosse necessário.
— Espere aqui fora, não deve ser uma reunião longa.
— Ah, muito bem.
As portas foram abertas para Vaedhion pelos serventes e fechadas logo em seguida. Darian procurou uma parede próxima para se apoiar e esperar enquanto observava os pedestres, ficando um tanto distante do edifício em si. Medéia não tinha uma grande variedade de raças; na verdade, só havia visto Kayla e Vaedhion como exemplos de não humanos.
— Será que o Senhor Ti’metios conta como humano? Ele era um humano antes, afinal… hm.
Começou a ocupar sua mente com pensamentos que não levavam a resultado algum. Perguntas simples que foram substituídas em um instante menor que um segundo.
A primeira coisa que o alcançou foi a luz amarelada de uma bola de fogo imensa vinda de dentro do edifício do conselho, cegando-o brevemente. E então a onda de choque acompanhada do som poderoso da explosão. Tampou seus ouvidos, que agora zuniam, incapazes de detectar outros sons. Se não fosse pela parede na qual se apoiava, teria perdido seu equilíbrio.
Sua mão foi rapidamente para o cabo de sua espada, sacando a lâmina e mantendo-a erguida apesar de não poder enxergar. Aos poucos, seus olhos voltaram a ser capazes de processar a luz. As paredes decoradas haviam se transformado em centenas de pilhas de pedras desorganizadas e espalhadas pelo chão. A explosão atingiu os civis: alguns mortos pela onda de impacto, outros por estilhaços lançados, outros feridos e perdendo seu sangue em um fluxo contínuo.
E quando, enfim, sua visão e audição haviam voltado, encarou as chamas que tomaram o conselho.
— SENTINELA!
— Você de novo? — Uma voz amarga soou oposta a Darian. Uma que ele não havia esquecido ainda.
O mercenário de lâmina branca, Voron, que enfrentara apenas poucos dias atrás, estava diante dele. Acompanhado de outros três.
— Você! Como puderam fazer isso?!
— Somos pagos para isso.
O som de lutas começou a se espalhar por cada canto da capital. Não era um grupo de quatro mercenários, mas centenas distribuídos pela área. Darian rangeu os dentes e se preparou para lutar.
— Não esperava que fosse tão fácil matar o “lendário” Sentinela! — comentou uma das mercenárias que acompanhava Voron. Uma maga, a julgar pela sua falta de armas. Soltou uma leve risada. — Uma faísca e alguns barris de pólvora!
— Eu desejava uma luta com ele! — o maior dos quatro afirmou, carregando um porrete que mais parecia uma viga retirada de alguma casa.
A terceira mercenária desconhecida portava um arco e flecha. Não disse nada, seus olhos vidrados nas chamas da explosão.
— Garoto, você veio para a capital em um mau momento. — Voron disse, exibindo sua lâmina.
Suor frio escorreu de Darian, que não seria capaz de sobreviver a uma luta contra quatro ao mesmo tempo. Seus olhos se tornaram dourados.
— Olhem o fogo — disse a arqueira em um tom morto.
A atenção de todos se voltou para os destroços do edifício. Uma figura se formou saindo das chamas com uma alabarda em sua mão direita. O vulto parou e bateu o cabo contra o chão três vezes; a vibração se estendeu por toda a cidade como um tremor perceptível.
— Qual de vocês…
Com um balançar da grande arma, Vaedhion extinguiu as chamas e se revelou com não mais do que ferimentos leves, portando sua alabarda negra.
— Deseja ser o primeiro a morrer?

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