O trio estava observando de longe o vampiro caminhar. Bom, Darian não estava prestando tanta atenção nele, de fato, mais interessado na padaria que avistou do outro lado da rua. Aurelyn e Kayla viam Ti’metios encarando uma placa com uma expressão confusa.

    — Ele tá lendo já faz um tempo.

    — É só uma placa de rua — Kayla disse, ainda encarando.

    Ti’metios esfregou os olhos e leu a placa novamente — ou tentou, porque ele não estava entendendo nada do conteúdo dela.

    — Quem foram os malditos que mudaram a gramática, mas deixaram as falas as mesmas?

    Incomodado com o fato de que a cidade não se parecia remotamente com a do passado, ele tinha que admitir que conseguiu se perder na mísera uma hora desde que saiu da mansão. Olhou para um guarda comum fazendo sua ronda e se aproximou dele.

    — Ei, com licença, sabe me dizer onde fica o cemitério?

    O guarda analisou Ti’metios de cima a baixo; a qualidade das roupas o enganou, fazendo-o pensar que falava com um nobre peculiar.

    — Seguindo esta rua, o senhor vai alcançar a rua principal. Vire para a esquerda e vá reto. O cemitério tem o símbolo de uma lápide gravado no portão e fica próximo da muralha. Precisa que eu o acompanhe, senhor? — O guarda gesticulou as direções com a mão.

    — Não é necessário, obrigado.

    Os três espectadores acompanharam Ti’metios pelo caminho. Aurelyn e Kayla ouviram o distinto som de mastigação de algo crocante e, quando voltaram a atenção para Darian, ele estava com um biscoito na boca.

    — Quando foi que você teve tempo pra comprar isso?

    — Não tinha fila na loja.

    — Pegou pra gente também?

    — Peguei, toma aí. — Ele estendeu um biscoito de baunilha para Aurelyn, que sorriu e mordeu a guloseima.

    — Vocês dois, foco. — Kayla estava tentando manter a seriedade da conversa. Um biscoito de chocolate apareceu no canto de sua visão; ela relutantemente o pegou e mordeu. — Pra não jogar o dinheiro fora.

    Ti’metios olhava os arredores com uma expressão perdida. Nada do que lembrava havia se mantido: as estradas de terra demarcadas pelos passos de milhares de pessoas, as simples casas de madeira e tendas de vendas. Também havia ficado muito mais movimentado.

    Sua atenção se prendeu na torre do relógio que entrou no alcance de seus olhos; ele não entendeu do que se tratava o grande dispositivo.

    — Para o que é que isso aponta? — Coçou o queixo enquanto analisava, até decidir que não valeria seu tempo, e continuou o caminho em direção ao cemitério.

    O trio que o seguia não estava tão oculto quanto imaginava. O vampiro estava bem ciente de que os três estavam em seu encalço e, desde que não atrapalhassem, não haveria problemas. Ao menos não foram questionar o que houve entre ele e Vaedhion.

    Os portões do cemitério enfim apareceram; uma simples lápide quadrada gravada no portão indicava isso, exatamente como o guarda havia dito. Estavam abertos, ainda em horário de funcionamento, para sua sorte. Entrando, ele não sabia por onde começar a procurar. Sua incapacidade de ler a nova gramática não contribuía para identificar o túmulo que buscava.

    Caminhando entre as lápides, Ti’metios buscava uma específica. Perguntou-se quantos deles eram descendentes de seus soldados, ou até mesmo os próprios soldados daquela época. Enquanto buscava, viu algo que fez com que um sorriso se abrisse em seu rosto.

    Uma rapieira cravada numa das sepulturas — uma arma que ele reconheceria mesmo se tivessem se passado mil anos a mais. Aproximou-se da lápide e retirou a neve de cima dela.

    — E aí, Duncan. Foi mal a demora pra visitar. Esqueci de trazer alguma coisa para bebermos. — O vampiro se sentou no chão, a neve servindo de um assento mais confortável do que a terra dura. — Mal acordei e já discuti com o garoto. Ele se preocupa comigo, não quer que eu me envolva nos problemas dele enquanto estou assim. Você ficaria do lado dele.

    O trio estava agachado atrás de lápides separadas, assistindo sem conseguir ouvir o que Ti’metios balbuciava.

    — De quem é o túmulo? — Darian questionou, sem conseguir ler a identificação dali.

    — É do velho Duncan, sabe, o meio-elfo? — Kayla respondeu e aguardou a reação do cavaleiro.

    — Claro que sei quem é! Ele é outra lenda!

    — Shhhh, vocês vão fazer ele perceber a gente — Aurelyn interveio. Tentava ler os lábios do vampiro, mas o ângulo não permitia.

    O vampiro respirou fundo antes de continuar falando.

    — Bom, se você ficaria do lado dele, significa que estou sendo teimoso. É só… incômodo ver o garoto sentindo que tem que cuidar de mim. Ver que vocês fizeram tudo sem mim. — Ti’metios se levantou e colocou a mão sobre a pedra gelada, como se a cumprimentasse. — Dê um “oi” para o pessoal por mim, até chegar a minha hora de me unir com vocês de novo.

    Ele se virou na direção dos três escondidos atrás das lápides, e exclamou:

    — Aurelyn, consigo ver seu cabelo daqui. Darian, seu casaco. Kayla… você eu só sei que tá aí porque notei vocês me seguindo mais cedo, tá bem escondida.

    O trio rapidamente saiu de seus esconderijos e se uniu ao vampiro.

    — Não tinham nada melhor para fazer?

    — Eu só tava dando uma surra no Darian — Aurelyn afirmou, e o cavaleiro pareceu ofendido.

    — Era só treino, eu estava me segurando! — ele exclamou, tentando defender sua honra como combatente.

    — Sim, eu tinha coisas melhores para fazer. Mas estou encarregada de cuidar de vocês enquanto estiverem sob os cuidados de Lorde Vaedhion.

    — Awn, vai dizer que não é porque somos amigos? — Aurelyn cutucou a bochecha da elfa com o indicador.

    Kayla não respondeu, apenas empurrou o dedo gentilmente para baixo.

    Ti’metios cruzou os braços; um sorriso de canto se mostrou em seu rosto.

    — Tá, e o que vão fazer agora?

    — Ir para a mansão? — Darian sugeriu.

    — O quê? Nem pensar, o dia ainda tá claro e estamos na cidade. Agora que alguém já acordou, eu quero é fazer compras! Depois a gente joga a culpa no Metios.

    — Ei, não fica inventando moda — o vampiro protestou contra a última parte.

    — O quê? Eu vi que você ficou curioso sobre as coisas por aqui também. — Aurelyn começou a se mover em direção à saída do cemitério. — Vambora!

    Ti’metios suspirou, indo ao lado da morena. Kayla e Darian seguiram logo atrás.

    — Aliás, gostei da nova roupa, combina com você — ela falou para o vampiro.

    Ele olhou no rosto de Aurelyn, com as sobrancelhas arqueadas.

    — Isso não pareceu uma das suas tentativas de humor sem graça.

    — Foi só um elogio. Bicho chato você, hein?

    Ti’metios desviou o olhar para o canto brevemente.

    — Obrigado. — Depois de uma pausa curta, ele questionou: — Quem foi que me tirou da floresta, afinal?

    — Euzinha! — Aurelyn apontou para si mesma com orgulho.

    — Hm, obrigado de novo, então. — Ele não pensou mais a fundo nisso, convencido de que devia ter sido enganado por sua mente quando pensou ter visto chamas negras. Parou de repente quando sentiu um olhar em sua nuca, e olhou em direção ao topo da muralha de pedra.

    O trio parou também, olhando na mesma direção.

    — Está tudo bem? — Kayla perguntou, pois não via nada fora de ordem.

    Ti’metios encarou a muralha por mais um tempo antes de voltar a andar.

    — Achei que tinha alguém ali, nada demais. Vamos, antes que o Vaedhion mande algum dos dele ir atrás da gente e atrapalhe nossa saída.

    E assim o grupo seguiu para o centro da cidade novamente, para aproveitar o restante da tarde.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota