Capítulo 22: Terra da Cavalera Branca
Ré dá um pulão na cama de Pionla, fazendo ela levantar no susto.
— Bom dia, Pionla, já sei para onde eu quero ir — ela diz, animada.
Pionla arruma o chapéu, confusa.
— Como assim…
— Não é óbvio? Eu tô com o braço todo lascado, então eu vou escolher o lugar — Ré sai correndo para fora e vai até a cafeteria da suíte, onde Bauvalier e Roseta conversavam tranquilos.
— Olá, madame Ré. Houve alguma coisa para você vir correndo? — Roseta pega o chá à sua frente.
— Eu só estou animada, já que vou escolher o lugar para onde vamos ser teleportados — ela pega um bolinho de arroz na mesa. — Eu soube que a cidade de BaelTour estava perdida, mas hoje cedo fui perguntar para Charmomilla, e ela disse que os dados daquele lugar estavam salvos no teleporte. Então vamos para lá. Eu tô louca para ver se os boatos são verdadeiros.
— E quando concordamos que você ia escolher? — Bauvalier pergunta, cruzando os braços.
— Eu estou toda arrebentada, o mínimo é eu poder escolher. Além disso, ainda nem tínhamos um lugar para ir, então por que não um lugar como esse? — ela aponta para o braço que não conseguia mexer.
Pionla chega um pouco depois.
— Fiz umas pesquisas e descobri que a dica do próximo artefato está em Ort Jouet — Pionla se senta junto com eles. — E sobre a Ré escolher o lugar, dependendo do lugar podemos até considerar. Onde é?
— É BaelTour — Ré diz, tranquila.
— Mas essa cidade sumiu… como poderíamos ir para lá? E por que ir lá? — Pionla diz, confusa. — Mas é na nossa rota, então acho que dá para ir sim. Eu só queria saber o motivo, é tão de repente…
— Porque… — ela respira fundo, como se fosse contar algo importante — na pequena cidadezinha das festas, perto do Circo das Maravilhas, é onde boatos e fofocas saem soltos, e eu ouvi bem assim:
— “Sabe aquela cidade desaparecida?”
— “Sim, eu sei. O que houve? Ela reapareceu?”
— “Não, mas eu ouvi falar que fulano de tal entrou naquela cidade e saiu… estava em ruínas, um lugar tão belo…”
— “Realmente, eu lembro de ver as fotos, e era realmente bonito. Mas por acaso tinha alguém vivo lá? Ou algo sobrou?”
— “Eu não tenho todas as informações, mas pelo visto não tem mais ninguém, apenas uma casinha. Dizem que nessa casinha a nova deusa da maldade, Rimuru, guardou várias coisas lá… eu imagino o quê.”
— “Eu ouvi falar… eu lembro de ter ouvido que ela guardou um talismã criado por uma tal de Ey, uma fantasma da Terra… me pergunto por que guardar isso.”
— Um talismã… mas por que isso te interessa, Ré? — Roseta se levanta da cadeira e se aproxima. — Há algo te atormentando?
Ré balança a mão, despreocupada.
— Não é isso. É só que eu parei para pensar… se algo como o que aconteceu em Simulacrum acontecer novamente, precisamos estar preparados — o braço dela dói, e ela o segura. — Não quero perder vocês, e também não quero me perder.
Pionla suspira, cansada, e olha para Ré.
— Certo… mas vamos pegar o artefato e zarpar viagem para Ort Jouet, entendeu?
— Certo… mas…
Locista surge de uma janela atrás de Ré.
— Do que vocês estão falando? Eu escutei “Ort Jouet”, escutei certo??? — ela fala, tranquila.
— Sim, será nossa próxima parada. Por quê?
— Sério? Vocês vão para lá? Posso ir junto? Sempre quis ir lá, e agora eu posso! Então deixem eu acompanhar — ela aparece em outra janela e fica de pé na frente dos deuses. — Seria ótimo… eu poderia estar tão perto da minha cantora favorita, Tulipán!
— Por que você não simplesmente usa suas janelas e aparece lá? — Pionla passa a mão no ar, e uma xícara com chá doce aparece. — Mas, se quiser nos acompanhar, seria ótimo. Você é uma companhia muito agradável.
— Agradeço, realmente. Mas o motivo de eu não simplesmente aparecer lá é que minhas janelas ficam mais fracas no mundo real. Além disso, é sempre melhor viajar com amigos — ela sorri.
— Amiga… sim, com certeza. Mas então vamos lá, Ré — Pionla passa a mão nos cabelos.
Todos eles estão na máquina, e Charmomilla termina de programar o destino.
— Filha, depois você volta, por favor… — ela dá um beijo na testa de Locista.
— Claro, mãe. Eu juro. Depois que eu for lá, eu volto. Não precisa se preocupar, eu já sou uma mulher e consigo me cuidar — ela sorri, enquanto o teleporte os leva ao destino.
Eles surgem em uma cidade escura, como um eterno tempo nublado. Plantas acinzentadas e mortas, casas destruídas… um silêncio tão cortante que doía.
— Tá, agora temos que achar a casinha — Ré vai na frente, procurando com o olhar.
Eles andam pelos destroços e observam a destruição enquanto procuram o tal local.
— Por que tudo está assim? — Locista se aproxima, se escondendo atrás de Ré. — Houve uma guerra para tudo ficar assim… ou talvez uma calamidade… ou… — ela escuta um barulho e pula para longe.
— Não me parece algo causado por uma guerra. Está quebrado de forma que uma destruição como uma guerra ou calamidade não varia assim — Roseta segura a rapieira com força. — Mas não vamos descartar essas opções.
Bauvalier, com um movimento, faz uma pilastra surgir abaixo de alguns destroços que estavam no caminho, fazendo-os subir, e depois os transforma em bolhas.
— Não sei, mas pouco importa. Agora que estamos com nossos poderes, qualquer dificuldade se torna ínfima — Bauvalier levanta o braço até o céu nublado, e uma lâmpada surge, iluminando o lugar.
Eles andam até chegarem na praça da cidadezinha.
— Ainda nada da casa… — Pionla vê uma mulher parada, olhando o lago que já estava cinza. — Madame…
Ela se vira para eles. O sorriso era tranquilo, mas seu corpo tinha rachaduras; o mármore se movia rigidamente em direção a eles.
— Olá… — ela diz, com a voz exausta e baixa. — É tão bom ver vocês, princesa e príncipe… vocês cresceram tanto… estão tão respeitáveis…
— O que aconteceu com esse lugar… com você? — Pionla estende a mão, mas a mulher a afasta com respeito.
— Logo saberão… mas é bom conversar com alguém… era meu último desejo… — ela volta para perto do lago e aponta, com dificuldade, para uma direção. — Espero poupar o tempo de vocês…
Eles seguem na direção indicada, mas Bauvalier olha para trás e não vê mais a mulher, apenas uma pilha de pedras de mármore. Ele fecha os punhos e faz uma careta de angústia ao perceber o destino daquele lugar.
— Realmente está aqui… — Ré se aproxima, mas a porta estava trancada.
— Deixa eu tentar — Pionla se aproxima, e a porta abre sozinha. — Pelo jeito, realmente é coisa da tia Rimuru.
Eles entram. Era só uma sala com uma TV de tubo, uma fita, um pequeno livrinho e o talismã preso em uma caixinha de vidro, em cima da TV.
— Só isso? — Bauvalier diz, indignado. — Não posso acreditar que tia Rimuru deixaria tão poucas coisas em uma casa no meio de uma terra já em ruínas.
— Tia Rimuru sempre foi alguém misteriosa, e, além disso, motivos ela deve ter. Vamos ver essas coisas — Pionla se aproxima, pega a fita e a coloca no compartimento da TV. — Veremos o que ela preparou.
A TV liga, e todos se sentam no chão, próximos. Na tela surge o rosto de Rimuru, com os cabelos maiores, roupas mais divinas e, em cima do chapéu, uma lua de carmim em miniatura.
— Olá, Pionla e Bauvalier. Eu sei que vocês vieram aqui… eu vi no futuro. Minha onisciência não é brincadeira, eu sei — ela sorri de leve. — Mas eu não podia deixar vocês à deriva, então achei uma brecha, um momento em que eu poderia ser útil.
— Eu fiz uma coisa que resultaria em outra… e, para ajudar, esse talismã de uma antiga amiga. Cuidem bem disso. Ey foi uma ótima amiga, uma das fantasmas mais gentis que já conheci… mas o tempo cobra. Esse talismã vai amparar vocês em sua jornada, só precisam ativá-lo. Eu confio em suas capacidades.
— Até mais, meus sobrinhos… e amigos dos meus sobrinhos. Mas agora… — ela boceja — é hora de eu adormecer. A gente se vê, talvez… ou talvez não. Só o tempo vai dizer, não o futuro.
A fita sai do aparelho, desligando a TV.
— Os boatos estavam certos — Ré diz animada, enquanto pega o livrinho. — “A Cavaleira Branca”… parece um livro infantil.
— Deixa eu ver isso — Roseta pega o livro e começa a ler.
“Era uma vez uma garota de mármore. Ela, tão corajosa, queria proteger seu reino e sua cidade. Com muito esforço, tornou suas limitações uma vantagem contra todos, e assim ficou conhecida como a Torre da Guerra. Dessa forma, tornou-se cavaleira pessoal de Sherine.
Mas, em mais uma guerra, sua cidade foi destruída, e, com muita tristeza, pediu à sua deusa ajuda. A deusa disse que poderia ajudar, mas seriam apenas uma sequência de movimentos, repetindo e repetindo, baseados nas memórias da cavaleira. Ela concordou, e assim criou-se um cenário onde todos ainda estavam vivos.
Com isso, ela se esquece de tudo, exceto de seu propósito e nome: Ladytsar, a Cavaleira Branca, que, com suas vitórias, se tornou ainda mais forte. Infelizmente, o tempo não a faria ruir, mas também não desejava cair sem uma luta digna.
Mas, um dia, uma deusa mascarada, agora assumindo a regência da maldade, não gostou de ver memórias, almas que nunca iriam descansar. Então, ela fez esse lugar se tornar real, e aquelas memórias tiveram a chance de viver mais algum tempo. O tempo iria ruí-las, mas era uma segunda chance que a cavaleira nunca entenderia: que a ruína nem sempre era algo ruim.
Mas havia apenas um problema: ela precisava usar esse lugar para algo… e, no passado, preparou isso para o futuro.”
Escrito por: Rimuru
Roseta se cala e devolve o livro para Ré.
— Acho melhor agora irmos para Ort Jouet. Já sabemos das coisas… coisas até demais — Pionla pega o talismã e entrega para Ré. — Fica com isso, guarda e tenta ativar. E você, Locista, se puder procurar mais sobre a Ey, eu ficaria grata, porque quanto mais rápido descobrirmos como ativar isso, melhor.
Todos saem e vão até a porta da cidade, que é só escuridão, como uma névoa eterna. Todos ficam se olhando. Então, Roseta respira fundo e entra na névoa; logo Bauvalier a segue, e todos, então, tomam coragem e entram.
Quando olham ao redor, percebem que estão em uma estrada.
— Onde a gente veio parar? — Pionla pergunta, confusa. — Locista, pode ver nossa localização?
— Certo — ela abre uma janela e vê que estavam no meio do caminho para Ort Jouet, onde a antiga cidade perdida existia. Ela vira a janela holográfica para eles verem. — Estamos no caminho certo.
Pionla e Bauvalier concordam com a cabeça e então criam outra carruagem, onde todos entram. Roseta, junto com Bauvalier, dirige a carruagem, enquanto o resto fica conversando na parte de trás.
— Tô tão animada… imagina se realmente madame Tulipán estiver lá — Locista mexe tranquila em sua janela holográfica enquanto fala.
— Essa Turipan não é filha da Carmellia? Se for, provavelmente vamos encontrá-la. Alguém com a fama dela não desperdiçaria um encontro conosco — Pionla toma um gole de café.
— Ela é sim filha da Carmellia, mas ela não vai nos encontrar. Ela está de luto desde que o marido dela morreu há dois anos — Ré comenta.
— Coitada… mas é a vida. Mesmo assim, eu sei que ela é famosa, e ficar dois anos reclusa não me parece o jeito mais inteligente de aproveitar essa influência.
— Ela não é só famosa, ela é muito famosa. E, além disso, não é porque ela está fechada em tristeza que quer dizer que não pode fazer músicas no quarto. Tipo essa aqui, olha:
— “Dito quase um pensar, se a vida vem me alegrar,
Sem alguém pudesse lembrar…
Quem sou eu, quem é tu, meu amor,
Um anjo, minha luz, minha lu… lu… luz…”
A música continua, e Bauvalier acaba escutando da parte da frente. Ele vira a cabeça e diz, em voz alta:
— Que música linda… e essa voz, realmente magnífica…
Bauvalier se assusta quando Roseta dá uma ombrada nele.
— Não se esqueça, senhor Bauvalier, você é quem está dirigindo. Atenção ao caminho. Mas, realmente, a voz dessa jovem é encantadora… não posso dizer que nunca a escutei, ela manda bem — sua voz é calma, mas com uma pitada de algo que nem ela sabe o que é.
— Vamos ver… talvez a sorte nos dê a chance de vê-la — Pionla passa a mão no cabelo levemente, enquanto escuta a música.
E, enquanto isso, a cidade de brinquedos estava tão perto que já se podiam ver os muros e o portão decorado.

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