O grupo, agora mais atento à missão de resgatar Pionla, pensa em maneiras de fazer isso, e Bauvalier cita o plano da Roseta.

    — Dá até para fazer, mas vai levar uns 2 dias, e duvido que tenham tanto tempo para passar em Simulacrum — Locista diz, fechando os olhos enquanto pensa. — Mas, em vez disso, dá para fazer algo parecido. Não vou dizer que vai ter a mesma potência.

    — O importante é que tenha o mesmo propósito — Bauvalier fala sério.

    — Com licença, mas a Pionla mandou uma mensagem… só que está toda corrompida — Roseta olha o celular, confusa, tentando decifrar aquelas letras que pareciam rabiscos manchados por tinta após uma explosão de arco-íris.

    — Como sabe que é da Pionla? — Ré se aproxima, vendo aquelas palavras sem lógica aparente.

    — Porque a única parte que não foi corrompida foi: “não sei se terei outra chance de comunicar assim”. Quem mais teria mandado isso, se não a própria Pionla? — Roseta diz, começando a se preocupar mais.

    — Locista, será que consegue fazer algo para decodificar isso? — Ré pega o celular das mãos de Roseta e entrega para ela.

    — Não sei exatamente o que você espera que eu faça… é melhor tacar fogo nessa mensagem. Corrompida desse jeito, não há salvação para qualquer coisa escrita aí — Locista devolve o celular para Roseta.

    — Tá, mas pelo menos sabemos que ela tá viva. Agora precisamos nos concentrar nessa invenção — Ré volta ao ponto importante.

    — Vou tentar fazer uma gambiarra, mas saibam que vai levar algumas horas. Então, sei lá… conversem, porque vai demorar. Eu vou tentar ser rápida — ela coloca os óculos e cria algumas janelas para usar de mesa enquanto pega os materiais.

    Ré se senta no sofá e olha para os amigos.

    — Bauvalier, queria saber uma coisa… quem é Ballet? Pionla citou o nome dela lá na ilha, enquanto estava conversando com a Quineiou, e eu fiquei pensando… quem é ela? — Ré diz, despreocupadamente.

    — É verdade, eu não me recordo desse nome também. Me lembro vagamente… talvez em um livro de história, uma citação distante — Roseta concorda com Ré.

    Os olhos de Bauvalier se fixam em um ponto vazio.

    Seus pensamentos se perdem ao longe, como se estivesse se esquecendo de algo

    .— Então você, minha deusa, quer essas crianças… que coisa mais questionável — o olhar da donzela, vermelho carmim, passa pelos dois irmãos menores. — São tão adoráveis… — a voz dela soa como uma mentira muito bem contada.

    — Ballet, tenho certeza que vai adorar eles. São meus bebês, são meus amorzinhos — Sherine segura a mão das crianças com tranquilidade. — Sejam educados e digam oi para a tia Ballet.

    — Oi… — os dois dizem, nervosos. A aura de Ballet expressa sua raiva.

    — Amorzinhos… podem até ser… mas por que tão de repente? Não estou sendo suficiente? Está se sentindo ainda muito só? — a voz dela é afiada.

    — Sei que não estarei aqui para sempre, então preciso de sucessores. Além disso, por que não ter essas duas fofurinhas? — ela dá um beijinho nos dois, e Ballet olha com ódio.

    — Compreendo, minha deusa… compreendo — a voz dela é quase um sussurro.

    — Que ótimo. Agora vou levá-los para conhecer os outros reinos — Sherine leva as crianças para longe, mas ambas olham para trás e veem a boca de Ballet se mover.

    — “Eu vou acabar com vocês dois…”

    Ambos os irmãos voltam a olhar para frente, tentando ignorar a ameaça.

    Um empurrão faz ele voltar à realidade.

    — Ei, quem foi?! — Bauvalier diz, irritado.

    — Fui eu mesma. Você parou aí do nada, pareceu até que sua mente travou — Ré diz com convicção.

    — Então, Bauvalier… quem é Ballet? — Roseta retoma.

    Bauvalier faz uma expressão irritada com a pergunta.

    — Não vou falar daquela maldita. Nem o nome dela merece sair da minha boca — sua voz sai áspera.

    — Oh… se assim prefere. Mas, quanto menos sabemos, menos estamos preparados para o futuro — Roseta contra-argumenta. — Se não quer falar dela, pelo menos nos diga o quanto devemos nos preocupar.

    — É verdade. Seu passado não pode afetar nossa luta contra ela no futuro — Ré complementa.

    — Querem essa informação? Então tá. Em uma escala… ela é preocupação 100/100. É extremamente perigosa. Não tem nada que a impeça… uma máquina sem medo do futuro e sem nada a perder — Bauvalier diz sério.

    — Independente disso, nós vamos nos preparar e esfregar a cara dela no chão — Ré diz, firme.

    Bauvalier se senta no sofá, e Roseta também se senta ao lado.

    — Talvez sim… talvez não. Vai depender do que o futuro guarda — ele diz, se encostando no braço do sofá.

    Depois de algumas horas, eles estavam quase caindo de sono no sofá, quando um grito de Locista os faz despertar.

    — O que aconteceu?! — Ré pergunta, preocupada.

    Locista estava toda coberta de poeira.

    — Juntei duas coisas que não deviam… e aí explodiu — ela diz irritada, se limpando. — Mas eu terminei a invenção.

    Ela mostra uma caixinha com uma tela, como se fosse um sensor de submarino.

    — Como podemos ter certeza da funcionalidade? — Roseta se aproxima.

    — Vamos testar — Locista liga o aparelho, e o radar acende. Uma bolinha aparece ali perto. — Pelo menos está aparecendo o nosso rei, então deve estar funcio…

    Ela para ao olhar a tela e vê uma bolinha muito maior, parada em uma parte de Simulacrum que foi abandonada.

    — O que é isso? — Bauvalier pergunta, confuso.

    — Eu não sei… mas acho que deveríamos descobrir — Locista sugere.

    — Não acho que temos tempo para isso — Roseta responde.

    — Mas e se for algo pior que tenhamos que lidar depois… — Ré contra-argumenta, se encostando na parede.

    Todos se entreolham.

    — Certo… vamos ver isso. Mas não vamos demorar, tudo bem? — Bauvalier pega a invenção da mão de Locista. — Perder tempo não é opção.

    Locista abre uma janela holográfica no chão, fazendo todos caírem e irem para a parte abandonada. Eles caem no meio do lugar, conseguindo aterrissar de pé.

    — Ótimo, chegamos. Agora, onde está o ponto? — Roseta pergunta, olhando ao redor e vendo uma cidade apagada e sem vida.

    — Meio que… estamos bem no meio do ponto — ele mostra para todos.

    — Então onde está toda essa energia? — Ré força o olhar… até ver algo.

    Uma dama dourada, sentada sobre uma estrutura de ferro que um dia já foi algo maior. Seus cabelos, como fios de ouro, balançam longos ao vento.

    — Gente… — Ré aponta para a dama, que percebe que está sendo observada.

    Todos olham para a mulher estranha quando, de repente, ela salta do alto, cai no chão e aparece atrás deles.

    — Suponho que não deviam estar aqui — a voz da dama é extremamente calma.

    Os fios de cabelo dela se enroscam no corpo de todos.

    — Tia Linyâte… — Bauvalier diz, em um suspiro.

    — Bauvalier… então chegaram até aqui. Frustrante, antes de qualquer coisa — ela passa os dedos pelo cabelo. — E deprimente me ver tão fraca assim.

    — Madame Linyâte, mas como você está fraca se vimos no radar sua aura… e ela continua gigante? — Roseta questiona.

    — E desde quando aura é parâmetro para dizer que alguém está fraca ou não? Além disso, acho que aqueles bichinhos acabaram inflando a minha aura — ela aponta para alguns ratos feitos de energia, peludinhos, do tamanho de gatos gordos.

    Ré dá um pulo em direção aos bichinhos e os abraça. Impressionantemente, eles também se aproximam dela.

    — Aqueles… não são os R.A.T.O.? Soam como a descrição que vocês deram — Roseta permanece no mesmo lugar, ainda olhando com estranhamento para as criaturas fofas.

    — Parece… mas eles são tantos e pequenos. O R.A.T.O era grande, bem maior que um carro. Parece que algo deve ter acontecido… talvez uma procriação assexuada, mas não posso afirmar — ele olha novamente para a tia. — Mas esse não é o ponto. Já que te encontramos, mesmo que acidentalmente, pode nos acompanhar para encontrar minha irmã?

    O pedido da divindade recai sobre o olhar da deusa maior. Seus cabelos se agitam e, por um momento, se lançam em várias direções, mas logo retornam.

    — Encontrei a dama de marfim… mas ela está diferente. Vocês verão — ela passa a mão pelo cabelo. — Então, iremos logo, senão a maldição de minha tia será o menor dos problemas.

    Bauvalier concorda com a cabeça e volta o olhar para Ré.

    — Mesmo que esses bichos não sejam o R.A.T.O, ainda podem ser úteis. Então precisamos levá-los… talvez sirvam como energia quando tirarmos o artefato da Opala — ele observa pensativo as criaturinhas que se mexem, ainda abraçadas em Ré. — Mas como vamos fazer isso?

    Locista se aproxima dos bichinhos, abre uma janela e pega uma das criaturinhas, colocando-a dentro.

    — Pela… isso era uma das magias da minha espécie. Como você tá fazendo isso, garota? — Ré pergunta, confusa e um pouco irritada.

    — Era uma magia útil demais para ser descartada pelo tempo. Além disso, com a queda dos Coelhos dos Relógios, não havia motivo para não tentar recriar algo tão incrível — ela prossegue, colocando mais bichinhos na janela, como se fosse um inventário de jogo, com espaços limitados. — Mas mesmo as mentes mais brilhantes não conseguiram recriar completamente… só fazer uma paródia. Os Bagueiros das Maravilhas ainda são uma magia só sua, então não se preocupe.

    Ré faz uma careta. Mesmo com a explicação, saber dessa “cópia” de uma magia que ela achava exclusiva soa amargo.

    — Mas por onde vamos? — Roseta pergunta, calma.

    — Por lá. — Um fio dourado traça um caminho que segue para um ponto distante.

    Locista termina de guardar as criaturinhas no inventário, somando exatamente 41 bichinhos.

    — Quase encheram minha bag… mas, graças aos deuses, deu certo — Lcista se aproxima do grupo junto com Ré.

    — Tá… então vamos lá — Ré se espreguiça.

    — Gastei mó recurso e agora nem vão usar minha invenção — Locista fala irritada.

    — Locista, seja madura. Ou você é uma criança que não sabe que nem tudo que é feito vai ser usado pra sempre? — Ré diz, debochada.

    — Mas só uma vez é sacanagem — ela retruca.

    — Vamos parar de palhaçada. Garotinha, usa sua magia logo — Bauvalier diz, já sem paciência.

    — Tanto faz…

    Locista se aproxima do fio de ouro.

    Ela encosta no fio e o conecta com uma das janelas. Todos entram… e aparecem em um estoque escuro. Atrás de algumas caixas, uma luz estranha se infiltra pelos cantos.

    — Pionla! — todos dizem ao mesmo tempo, menos Locista e Linyâte.

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