Desperto, me deparando com um teto iluminado pela luz laranja dos últimos raios do pôr-do-sol.

    Me sento na cama, é estranho acordar nesse horário, afinal é um horário em que nenhum ser humano normal despertaria.

    — Já acordaste? — Olho para a mesa, Perséfone fecha o livro que estava lendo e me encara. — O que pretendes fazer a partir de agora?

    — Boa pergunta, o que fazem vampiros?

    — Alguns se isolam totalmente, mas alguns continuam vivendo entre os humanos.

    — Hmm… creio que prefiro viver entre os humanos, afinal, ainda quero ser um grande compositor…

    — Neste caso, terás que recomeçar do zero, adquirir uma nova identidade. Tu não poderás usar vosso nome atual entre os humanos.

    — Outro nome? Bem…

    Neste sentido, “eu” terei realmente morrido, o compositor chamado Vlad Dracula, contudo semana que vem é quando apresento minha quinta sinfonia…

    Mudar de identidade significa não apenas abandonar meu nome, mas abandonar todas as peças que compus e apresentei.

    Apesar de eu sentir certo orgulho de minhas últimas composições, não me sinto triste de ter que abandoná-las…

     Já minha quinta sinfonia, eu a escrevi usando minha mãe como inspiração, ela ficou tão feliz quando soube que eu a apresentaria…

    Se ela ainda estivesse viva…

    Definitivamente é algo que não quero abandonar, mas… não tem nenhum jeito? De eu mantê-la enquanto adquiro uma nova identidade? Não, afinal, pessoas a conhecem…

    Pessoas conhecem… quem? A orquestra e o burguês que está me financiando, Franz Ludwig…

    Então… se eu os matar…

    — Dracula?

    — Ah, sim? — A voz de Perséfone me desperta. — O que disse mesmo?

    — Que tu deves escolher um novo nome.

    — Um nome… — Penso por um momento, mas a resposta é rápida. — Alucard… Tepes Alucard.

    — Hmm… “Dracula”, mas invertido… Bem, tu és um compositor pouco conhecido, creio que tu podes manter este nome sem problemas.

    Me levanto da cama e checo a janela aberta, a noite começa a cair.

    — Bem, fora isso, não tenho mais nada para dizer-te, creio que tu tens senso comum o suficiente para compreender que tu deves ser cuidadoso sobre vossa aparência.

    — Hm, não se preocupe.

    — Certo… o que pretendes fazer hoje?

    — Bem… caminharei um pouco enquanto penso, muita coisa mudou.

    — Compreendo, neste caso, por favor, sejas cuidadoso. Lembra-te que o castelo Krezeustein pode escondê-lo caso caçadores o persigam.

    Com um aceno, olho pela janela, percebo que não há ninguém na rua, e salto para baixo.

    Lanço um olhar para cima, Perséfone aparece na janela e ergue sua mão, se despedindo.

    Retribuo o gesto e caminho pelas ruas de Vienna.

    — Eu disse que apenas caminharia, mas…

    Por um momento, quase me sinto mal por não apenas estar mentindo para ela, mas como também matarei pessoas para um desejo próprio, um desejo que ela talvez consideraria egoísta, mas… não me importo.

    A questão é, como matarei os músicos? Talvez eu devesse caçá-los um por um… e deixar o burguês por último.

    Mas… não seria muito mais fácil se eu simplesmente os matasse todos de uma só vez? Hoje praticamos, está marcado pra daqui uma hora, então se eu esperar que todos eles se juntem…

    Mas seria perigoso se um deles escapasse, isso atrairia caçadores…

    Deixar escapar? Eu jamais permitiria, talvez um vampiro fraco, que hesitaria, mas eu?

    Sim, está decidido… matarei todos eles hoje, daqui uma hora.

    Manterei minha maior criação ao mesmo tempo que conquistarei uma nova identidade!

    ***

    Vozes preenchem o salão de prática, a maioria dos músicos já está presente, conversando, afinando seus instrumentos.

    Como não estou lá presente, o assunto sobre a conversa é o mesmo para todos, a lua de sangue, sobre como o céu ficou completamente vermelho na noite anterior.

    Alguns acreditam que é uma mensagem dos fins dos tempos, outros tentam buscar alguma explicação científica.

    O vento sobra, alguns dos meus cabelos negros ficam em meus olhos.

    Encaro o céu, a noite está bonita…

    Preciso esperar para que todos estejam presentes.

    Mais pessoas chegam, a hora do início da prática passa em cinco minutos, mas ninguém se importa com minha ausência no momento, pois ainda há alguns atrasados chegando.

    Espero mais dez minutos, só para ter certeza que ninguém chegará depois.

    Conforme o tempo passa, as conversas dos músicos deixam de ser sobre o eclipse e passam a ser sobre mim.

    — Onde está aquele velho ranzinza?

    — Do jeito que tá velho, deve estar parado em alguma rua sem fôlego.

    — Aquele desgraçado se acha demais… sua peça nem é tão boa, e ele se acha no direito de nos ofender.

    Como ousam… estes insetos desprezíveis não sabem nada sobre composição, se soubessem, não seriam simples músicos, seriam compositores como eu!

    Calma… calma, Dracula, logo eles terão o que merecem.

    — Vejamos quem é o ser superior… — Um sorriso se forma no meu rosto, ahh… mal posso esperar.

    Mais alguns minutos se passam, estão inquietos.

    — Bem, hora de terminar isso.

    Dou um salto para baixo, pousando na rua vazia.

    Caminho lenta e confiantemente até a porta fechada, a abro gentilmente para que não faça barulho. Me deparo com o salão apertado, mal tem espaço o suficiente para todos os músicos.

    Poucos me percebem, lançando olhares confusos.

    Me viro, fecho a porta e a tranco, alguns escutam o barulho e aqueles que me notaram primeiro começam a sussurrar, apontar na minha direção, chamando a atenção daqueles que estavam ignorantes da minha presença.

    — Boa noite, caros senhores — falo com uma voz clara e eloquente. — A lua está bela hoje, não acham?

    Todos me encaram, confusos, apreensivos.

    — Com licença, mas quem seria o cavalheiro, por gentileza? — O concertino se levanta e fala comigo com respeito.

    Ah, são as roupas, certo? Estas belas vestes negras, de tecido caro, além de meu jovem e poderoso rosto…

    No fim, todos são uns porcos ignorantes que só ligam para aparências, me destratando quando ainda era humano…

    Estúpidos, tolos… realmente não se passa nada em suas cabeças vazias.

    — Quem sou, vós perguntais, bem, creio que vós sabeis a resposta. — Caminho lentamente com uma postura ereta por volta dos músicos e me dirigindo até meu palco, onde está meu estande de partitura.

    — Ah, sinto muito, tu deves ser o burguês que está financiando esta sinfonia, certo? Perdão pela nossa ignorância.

    Quanta educação… isso me deixa irritado, mas, ao mesmo tempo, satisfeito.

    Finalmente, subo no palco e encaro, com minhas mãos unidas atrás nas minhas costas, a orquestra.

    — Vejo que estão todos presentes, bom, vós, tolos inferiores, deveis respeitar o tempo daqueles que verdadeiramente conhecem sobre arte! — Um sorriso de escárnio se forma no canto da minha boca.

    — Ah, sim, bem…  — O ar fica pesado, vejo alguns olhares indignados, mas ninguém se atreve a me responder. — Em nome de todos, peço desculpas pelos problemas que causamos, senhor…?

    — Vós nem sabeis meu nome? Hmpf, como esperado. — Estufo meu peito. — Pois bem, escutem bem, pois será a última vez que escutarão meu magnífico nome: Tepes Alucard!

    — Isso, senhor Alucard, mais uma vez, pedimos perdão. — O concertino continua com um tom educado, tem experiência com isso, huh? — Senhor, por acaso me daria permissão de dizer algo?

    Com um aceno com a cabeça, sinalizo que continue.

    — Bem, é sobre o compositor, como podes ver, ele não está aqui, e não é apenas isso, ele é rude, teimoso e superestima demais a si mesmo.

    Meus punhos tremem por um momento, sinto meu rosto contorcer brevemente em raiva.

    Como esperado… um rato jamais poderá ser ensinado matemática básica, assim como este humano desprezível jamais poderá compreender o tamanho de meu intelecto.

    — Estás dizendo que Vlad Dracula é um ignorante?! Absurdo! Quem tu pensas que é? — Minha raiva explode, sinto vontade de estraçalhá-lo agora mesmo. — Vós jamais entendereis a profundidade de seu conhecimento!

    Todos ficam assustados, em silêncio.

    Calma… Dracula…

    Relaxo um pouco minhas mãos, por um momento, minhas garras quase rasgaram minhas luvas.

    — Senhor, não desejo ofendê-lo, mas creio que tu foste enganado pela lábia dele, aquele compositor não é tão bom quanto…

    — BASTA! — Dou um forte soco no estande de partitura, que se quebra facilmente em dois. — Não tolerarei esta falta de educação perante minha pessoa!

    Todos ficam tensos, levemente assustados ao perceber o quão deformado ficou a estande, afinal, é feita de metal.

    — Você! Verme! Venha até aqui agora! — Aponto para o concertino, que engole em seco e, hesitantemente, sobe ao meu lado.

    O encaro de cima, sua expressão assustada, sua postura insegura, seu corpo pequeno… Ah… isso me acalma um pouco.

    Apenas um pouco, insuficiente.

    Agarro com força seu rosto, apertando suas bochechas.

    — Quão patético tu és… e tu chamas a si mesmo de músico, de artista…

    — Senhor Alucard, compreendo vossa irritação, — Um flautista se levanta — contudo isso é um pouco…

    — SILÊNCIO! — Minha voz sai poderosa, retumbante. — Estou cansado de me retorquirem!

    Por um momento, vejo todos tremerem de medo.

    Ótimo, é bom que finalmente estão entendendo.

    — Sabem, eu considerava entregar-vos uma morte rápida, misericordiosa. — Usando minha força absoluta, ergo aquele verme no ar pela cabeça. — Contudo… vós esgotastes minha paciência…

    Então, aperto com força seu crânio; sua cabeça explode em vários pedaços e seu sangue mancha meu rosto e minhas roupas.

    Arremesso seu corpo no meio da orquestra, que lança olhares apavorados para o cadáver, então, para mim.

    Caminho lentamente na sua direção, estão todos congelados, suas mentes pararam ao presenciar o poder verdadeiro.

    Conforme me aproximo, lentamente retiro minhas luvas, revelando minhas belas e longas garras negras…

    — Devemos começar?

    Então, avanço rapidamente na direção daqueles que estão mais perto, rasgando suas caras de uma só vez.

    Finalmente, seus instintos primais como os animais que são começam a surtir efeito.

    O caos se instaura, todos tentam correr até a porta e gritos preenchem o salão.

    Melhor acabar com isso logo, suas vozes irritantes vão chamar atenção indesejada.

    Me movo mais rápido, matando vários de uma só vez, suas vozes rapidamente diminuem.

    Alguns alcançam a porta, tentam abri-la, mas é inútil.

    — Não há escapatória! — Avanço contra aqueles na porta e os dilacero.

    Me viro para terminar com o resto, quando, subitamente, percebo algo se aproximando rapidamente pelo canto do meu olho, desvio e ergo o braço por instinto.

    Então, um chicote com espinhos… não, ramos de uma flor da grossura de um cipó e coberto de espinhos pontudos se enrola no meu braço.

    — O quê?! — Olho para a origem daquilo e percebo um homem de estatura forte, cabelo castanho e olhos verdes, o flautista, segurando aquele “chicote”.

    Seu corpo está sendo abraçado pelas folhas de uma flor, e atrás dele uma grande rosa, do tamanho de um humano, desabrocha.

    Uso minha garra livre para cortar aquelas vinhas.

    — Fala sério, por que só pego vampiro maluco? — Ele pega um pequeno saco de couro e tira algumas sementes de plantas de dentro. — Pensei que seu objetivo era comer eles, mas… você só está os assassinando a sangue frio…

    Ele joga as sementes ao redor da sala e, subitamente, enormes plantas carnívoras nascem, suas bocas poderiam facilmente engolir um cavalo inteiro.

    — Isso… tu és um caçador… — Olho com atenção para os músicos restantes, todos estão ainda mais assustados, não parece ter outro caçador aqui. — Durante este tempo todo que estiveste praticando, tu eras, na verdade, um caçador?

    — É, pois é, tocar música é minha atividade no tempo livre, por isso faltava bastante. — Ele me encara, seus olhos são afiados. — Então você realmente é aquele velho? Tsc, que saco hein, você ia fazer um favor pra todos nós morrendo, mas é claro que você tinha que virar um vampiro…

    Ele derruba mais algumas sementes diante de si, um cacto imediatamente cresce, sua altura quase toca o teto, e seus espinhos são do tamanho de uma espada média.

    Mas as outras duas sementes não reagem.

    Essa Benção Divina dele… é como um super fertilizante ou algo do tipo?

    — Estava esperando a oportunidade para que todos fugissem, e então te matar, mas bem… — Ele arranca um espinho do cacto e aponta para minha direção, usando-o como arma. — Por sua culpa, vou ter que perder meu tempo explicando a eles a situação depois.

    Encaro-o profundamente nos olhos, esse caçador insolente não entende a situação em que está? Sozinho, em um lugar trancado…

    — Então tu acreditas que me derrotará? Patético…

    — Não acredito, eu sei. — Um sorriso confiante surge. — Venha, seu velho desgraçado! Não deixarei que mate mais ninguém!

    Sem esperar um segundo, avanço com tudo na direção dele.

    — Morra!

    Balanço minha garra na direção de seu pescoço, sua postura não muda, afinal, ele nem tem tempo de reagir.

    Então, enquanto me aproximo, percebo um pequeno sorriso surgir em seu rosto.

    — Heh… — Sob meus pés, as sementes crescem subitamente, mamonas duras e com espinhos resistentes explodem, perfurando meu corpo e me empurrando para trás. — Vampiros como você são todos iguais, caminhando até minha armadilha.

    Antes que eu possa reagir, ele avança com a espada de espinho na mão, tentando uma estocada no meu coração.

    — Te peguei!

    Sua espada se aproxima.

    — Merda!

    Dou um salto para o lado, desviando por pouco, sua espada apenas rasga parcialmente minhas roupas.

    Meus pés tocam o chão novamente, hora do contra-ataque.

    Espera… não havia uma planta carnívora aqui, bem atrás de mim?

    Viro meu pescoço rapidamente, quando…

    Groar!

    A planta abre sua boca, tento desviar, mas ela ainda acerta meu braço e me ergue no ar, tentando engolir o resto do meu corpo.

    Tento me libertar, mas sua mordida é forte.

    — Hahaha! O que acha, vampiro? Como se sente ao saber que morrerá para uma plantinha?

    — Desgraçado! Vou te desmembrar! — Com meu braço livre, enfio minha garra na planta, sinto sua boca se abrir um pouco.

    — Nananinanão, você não vai sair!

    Ele pega mais uma semente e a arremessa na minha direção, outra planta carnívora surge, mordendo minhas pernas.

     — Merda… — Olho para a porta, vejo o resto dos músicos, uns quinze, desesperados tentando abrir a porta, batendo contra ela. — Não vou permitir que fujam!

    — Hahaha! Hilário! Não percebe a situação em que você está? Aquele quem mais está preso aqui é você!

    Ele caminha na minha direção, por algum motivo, as plantas não o atacam.

    Ele escala tranquilamente as plantas carnívoras que estão me mordendo. Apontando sua espada para mim.

    Preciso escapar… mas como?

    Espera… sou um vampiro, meus membros se regeneram.

    — Bem, acabarei com isso logo.

    Percebo-o mirando no meu coração…

    Não! Não vou permitir!

    Usando minha mão livre, rasgo, desmembro meu braço e perna que estavam presos pela planta, saltando na direção dos covardes que estão tentando fugir com minha outra perna.

    — Maldito! Volte aqui!

    Todos estão focados na saída, nem percebem minha aproximação.

    Então, ao abrir a boca, cravo meus dentes no primeiro que vejo, arrancando, engolindo sua carne e imediatamente recuperando os membros que arrancei.

    — Não os dei permissão de sair… — Mato mais dois rapidamente, focando especialmente aqueles que estavam tentando arrombar a porta à força.

    — Mo-Monstro!

    — Socorro!

    Os outros correm desesperados sem tirar os olhos de mim, alguns se aproximam demais das plantas carnívoras e são devorados.

    — Você realmente é um velho desgraçado, hein? — O caçador avança rapidamente na minha direção, jogando meia dúzia de sementes na minha direção. — Ir atrás dos fracos dessa maneira.

    Avanço ao encontro dele, mas o que surgem são apenas algumas vinhas que tentam me prender.

    — Morra! — Tento cortar seu pescoço, mas ele dobra a própria coluna para trás, desviando por pouco. — Desgra…

    Ao me virar, as vinhas avançam na minha direção, consigo desviar de todas, mas ele aproveita o momento para me cercar.

    — Maldição… — Dou um grande salto para cima, agarrando-me no teto e olhando para baixo. — Essas plantas desgraçadas não param de crescer?!

    As vinhas se espalham rapidamente pela sala, se eu não acabar com isso logo, todo esse lugar vai ficar coberto.

    Olho ao redor, o que posso fazer para matá-lo rápido?

    Então meus olhos travam no cacto gigante e uma ideia brilhante, digna de minha pessoa, cruza minha mente.

    Com um leve impulso, pouso bem ao lado do cacto, o caçador imediatamente avança na minha direção.

    Usando minhas garras, removo alguns dos espinhos, abrindo caminho para que eu me aproxime da planta.

    Então, com meus dois braços, arranco o cacto do chão. Apesar de ser uma planta, seu tamanho faz com que seja extremamente pesado, mas minha força me permite levantá-lo.

    Então, usando-o como uma arma, o balanço na direção do caçador que, pela primeira vez, exibe um olhar de medo.

    Ele se abaixa, desviando por pouco, mas meu ataque ainda é efetivo, pois esmago as malditas plantas carnívoras e o resto dos músicos.

    O caçador avança na minha direção quando percebe minha dificuldade em manusear o cacto, que me faz perder o equilíbrio.

    — Te peguei! — Ele grita confiantemente… ah, vê-lo confiante de sua vitória é até bonitinho…

    Ajusto minha postura e, com uma destreza digna de minha pessoa, balanço o cacto na sua direção.

    — O quê?! — Ele se surpreende com minha manobra, tenta desviar, mas…

    — Pois é… era uma finta… HAHAHA! — Minha risada reverbera quando o atinjo com tudo usando a arma que ele mesmo criou.

    O cacto colide com a parede, causando um barulho alto.

    Todo o lugar treme, mas não desaba, ainda…

    — Bem… isso foi irritante, mas… agora me sinto um pouco melhor…

    Solto o cacto e caminho ao redor dele… é uma vista interessante, ver todos aqueles corpos presos, sangrando.

    Então, percebo o caçador, agonizando, gemendo e perfurado por inúmeros espinhos, o único naquele lugar que ainda vive.

    — Oh? Tu és mais resistente do que esperava…

    — Maldito… sério que vou morrer pra um velho ranzinza? Que merda… — Ele fecha os olhos por um momento, sua voz está trêmula. — Foi mal, pessoal… eu devia ter fugido…

    — Devo admitir, tu és um pouco forte, mas ainda és um mortal patético. — Seguro seu rosto com força. — Como se sente? Morrendo para uma plantinha? — Meus dedos deslizam até seu pescoço.

    — Filho da puta… — Um olhar de raiva e frustração surge em seu rosto. — Nós vamos de caçar… Vamos acabar com tua raça.

    Me aproximo dele, nossos rostos a apenas alguns centímetros de distância.

    — Esperarei, caçador. — Então, corto seu pescoço.

    Ele tenta dizer algo, mas se engasga no próprio sangue.

    Me viro e caminho lentamente até a porta, a destrancando e saindo.

    — Bem… agora só resta matar aquele burguês… Quase me sinto mal, afinal, ele me patrocinou… Bem, fazer o quê, é uma pena.

    Então, dou um grande salto e avanço pelos telhados sob o céu noturno.

    ***

    A lua está bela, o clima, fresco.

    É estranho, estive viva por… dois mil anos? Mais? Tempo é algo que não faz mais sentido.

    Já vi aquela mesma lua, imutável, tantas vezes que deixei de me importar com ela, contudo, agora que finalmente fui capaz de vampirizar alguém… é como se o mundo tivesse reganhado alguma cor.

    Tenho as memórias de milhares de vidas comigo, contudo a de Dracula é especial…

    Ele definitivamente é uma pessoa com uma personalidade difícil, e agora que se transformou, pode ter uma moral dúbia…

    Sim, ele definitivamente é uma pessoa que, apesar de minha vontade, talvez não deveria ser vampirizado, contudo isso não importa mais, ele é… especial.

    Ele pelo menos tem a capacidade de mudar, de ser misericordioso, por mim…

    Por isso, preciso fazer meu melhor para mudá-lo, para torná-lo uma pessoa boa.

    Contanto que eu não o deixe descobrir sobre…

    — O que aconteceu?

    — Um massacre!

    Na distância, escuto vozes horrorizadas. Por um momento sinto um suave cheiro de sangue.

    Curiosa, vou atrás da origem da comoção.

    Após caminhar por um tempo, me deparo com cerca de uma dúzia de pessoas diante de uma construção.

    Estão horrorizadas, o cheiro de sangue é forte, e há um guarda tentando controlar a situação, contudo ele é apenas um entre dez pessoas.

    Imediatamente reconheço o local…

    Me aproximo mais, quando percebo uma pessoa familiar.

    — Joseph Baltazar? Boa noite. — O cumprimento, um tanto curiosa. — Sabes… o que aconteceu?

    Tenho um sentimento ruim sobre isso…

    — Justina… na verdade, estava prestes a entrar para ter certeza. Deseja me acompanhar?

    — Hm, este local… — Sinto um aperto no meu peito. — É aqui onde… ele e sua orquestra estavam praticando.

    Ele imediatamente entende o significado daquilo.

    — Certo, fique perto.

    Percebo um olhar preocupado em seu rosto.

    Joseph caminha na frente e, no momento que o guarda o percebe, abre caminho para que entre, eu o sigo logo atrás.

    Então, nos deparamos com uma visão terrível… dezenas de pessoas mortas, desmembradas, assassinadas; há sangue para todo lado.

    Metade do interior está coberto em vinhas, há algumas plantas carnívoras gigantes esmagas e uma grande rosa.

    Contudo aquilo que mais chama a atenção é um enorme cacto com pessoas, músicos, presos em seus espinhos, tão longos quanto espadas.

    — Isso definitivamente é uma Benção Divina… — Joseph olha ao redor, procurando entre as pessoas mortas. — Dracula enfrentou um caçador aqui, mas quem saiu vitorioso?

    Me aproximo do cacto, é o lugar mais provável para encontrar alguma resposta.

    Então, me deparo com uma figura familiar.

    — Esta pessoa…

    — Conhece ele? — Joseph me escuta e se aproxima.

    — Sim, é um caçador… de elite…

    — O quê?! Quer dizer que… — Joseph percebe que está falando alto e começa a sussurrar. — Dracula matou um caçador de elite sozinho?

    — Sim, este é um caçador do Reino da França. Seu grupo já matou dezenas de vampiros.

    — Bem, ele estiva sozinho e despreparado… mesmo assim, não tenho certeza se ganharia sozinho contra um…

    Joseph toca o próprio queixo, pensativo…

    Então, percebo um sorriso se formar em seu rosto.

    Isso não é bom…

    — Preciso encontrar Dracula… — Ele se vira e caminha apressadamente até a porta.

    Olho ao redor, vendo aquela carnificina.

    Sinto um aperto em meu coração, uma tristeza profunda.

    — Dracula… Tu prometeste que não mataria…

    — Justina, vamos embora antes que outros caçadores cheguem.

    — Certo…

    Caminho até Joseph, sua expressão animada me causa calafrios na espinha. Já consigo sentir, a dinâmica de poder entre as facções dos vampiros mudando… e Dracula no centro disso tudo…

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