Capítulo 0197: Uma nova realidade
Siegfried sentou em silêncio no chão de pedra, enquanto as garotinhas riam e lhe faziam tranças no cabelo.
“Podia ser pior”, disse a si mesmo.
O salão de jantar do Castelo dos Ossos era um lugar humilde. Feito de madeira e pedra. Grande? Sim. Mas também escuro e vazio. Nada além de uma única mesa longa, com espaço para não mais do que dezesseis pessoas e uma cadeira ricamente entalhada na sua ponta; embora não fosse um trono de verdade.
Um lugar triste. Exceto por hoje.
Não havia como acomodar os quase duzentos plebeus do vilarejo, mas o inverno havia chegado em seu auge e o rapaz achou por bem convidar as crianças e um pequeno grupo de adultos para tomar conta delas. O resultado? Quarenta crianças entre os três e quatorze anos, mais dez adultos; mulheres em sua maioria, mas havia também dois homens particularmente grandes que mais pareciam guardas — não que tivessem alguma chance contra guardas armados de verdade.
Aceitaram trazer as crianças como Siegfried havia pedido, mas apenas porque temiam as consequências caso tivessem se recusado a fazê-lo. Não haveria nenhuma. Era apenas um convite. Uma gentileza. Não que eles parecessem entender isso.
“Medo é bom, mas não posso governar em cima dele. Não pra sempre.”
Mas embora os adultos estivessem tensos, as crianças corriam e brincavam. Para elas, aquele salão escuro e vazio era quase um palácio. Um lugar novo e divertido. Os mais velhos contavam histórias de terror sobre o falecido Barão Elliot Kroft, enquanto os mais novos se deleitavam com a comida de Andrella e as canções de Mimosa.
A jovem cigana havia recuperado as pernas; tal como Eroth lhe prometeu. Aparentemente, tudo o que precisava fazer era permanecer com o seu novo bracelete de prata com entalhes de runas élficas e pequenas pedras preciosas.
De algum modo, o bracelete parecia também tê-la tornado mais bonita… Ou seria apenas sua impressão? Não. Podia ver isso no modo como as demais garotas olhavam-na com inveja; e nos homens que a despiam com os olhos. Mesmo Wayne não demorou a tentar a sorte novamente com a jovem — e foi prontamente rejeitado.
Mimosa parecia ter recuperado a alegria de viver. Também parecia ter escolhido perdoar Siegfried. Havia se tornado mais próxima do rapaz ultimamente. A ideia de convidar todas aquelas crianças para o salão havia partido dela:
— Adultos são paranoicos. Você pode dar um baú de ouro pra cada um e eles ainda assim não vão confiar no senhor. Crianças não. Dê a elas um pouco de doces e canções que irão falar do senhor por meses. Se não anos. E a maioria dos pais costuma gostar de pessoas que foram gentis com os seus filhos.
E fez como ela lhe disse.
Andrella havia preparado algumas geleias de frutas, mingau de aveia e leite para servir às crianças, enquanto Mimosa lhes cantava uma ou outra canção sobre Siegfried…
Havia escrito uma nova, sobre um príncipe misterioso que derrotou o lorde vampiro que vivia em um terrível castelo no pântano. Na história, a filha do lorde vampiro havia sido mantida prisioneira a sua vida inteira; Elyon então se apiedou da garota e enviou o príncipe misterioso para salvá-la. No final, eles se casaram e o pântano se tornou uma bela floresta mágica, pois era a magia do lorde vampiro que tirava a beleza do lugar.
As crianças mais novas insistiam em escutar a história de novo e de novo — tantas vezes que o próprio Siegfried já havia decorado os versos.
E não importava quantas vezes escutassem, sempre que terminava olhavam para o rapaz com os olhos brilhando de encantamento. Os mais velhos sabiam que era só uma história, mas mesmo eles ficavam em silêncio quando chegava na parte do duelo e, ao final do dia, alguns vieram até Siegfried pedindo para se tornarem guardas ao seu serviço — obviamente foram todos recusados, embora de forma educada.
E assim o inverno passou.
Siegfried voltou a chamar as crianças para o castelo em mais duas ou três ocasiões, quando a nevasca se tornou intensa demais. Também reuniu os homens do vilarejo para consertar algumas casas e incutir neles um senso de comunidade.
Mimosa continuou a fazer canções e a visitar as crianças em suas casas quando elas não eram convidadas ao castelo. Em certa altura, já não havia sequer uma única pessoa no vilarejo que não soubesse a canção. Mesmo Eva havia sido seduzida pela história e agora acreditava que Siegfried realmente fosse um príncipe misterioso enviado por Elyon.
Podia ver que a garotinha tentava agir mais como uma esposa, mas tinha apenas sete anos e poucos modelos para se inspirar. Andrella e Melias não poderiam estar mais distantes um do outro; e Eroth dificilmente foi uma esposa amorosa antes de Siegfried executar o seu marido. No final, tudo o que ela podia fazer era imitar as garotas mais velhas do castelo — trocar elogios, segui-lo por aí e usar roupas bonitas. Por outro lado, também havia assumido a responsabilidade pela administração da limpeza do castelo; algo com o qual tinha bastante experiência. Uma voz de autoridade sobre as servas.
“Ela tá começando a agir feito uma lady.”
E não era a única crescendo a sua influência.
Sem que Siegfried percebesse, Eroth havia conquistado muitas lealdades. As pernas de Mimosa não foram as únicas coisas que a elfa consertou…
Kira agora conseguia enxergar através de um gato preto com o qual havia estabelecido um elo psíquico ou algo do tipo. Embora não tenha curado os olhos da garota, esta agora era capaz de perceber tudo o que o seu gato via — e não era um gato comum, pois fazia apenas as vontades de Kira; nem ao menos se movia sem que este fosse o seu desejo, embora ocasionalmente o visse andar sozinho pelo castelo. Estaria testando os limites de sua conexão?
Tom também havia recebido um toque dos poderes da bruxa. Seu braço esquerdo fora substituído por outro; verde, escamoso e de força sobrenatural — um braço reptiliano. O rapaz o mantinha completamente enfaixado para que ninguém notasse, mas Siegfried já o havia visto e lembrava da sua aparência. Tom também parecia mais confiante, para não mencionar seus reflexos e habilidades de combate. Não era apenas o braço. Eroth havia feito-o melhor.
Mas Tom e Kira não foram os únicos a terem sido seduzidos pela elfa. As próprias servas do castelo pertenciam agora a ela. Viam-na quase como uma mãe; pediam conselhos e pequenos feitiços. Sabia também que Eroth havia tomado algumas delas como amantes, embora suspeitasse que esta fosse apenas outra tática de manipulação — a bruxa não amava ninguém. Ainda assim…
“Depois de todo o inferno que eu passei pra derrotá-la, nada mudou. Esse castelo ainda é dela.”
Se Eroth quisesse, talvez não tivesse tanta dificuldade em derrubar Siegfried. Bastaria uma adaga no meio da noite ou duas gotas de veneno na sua bebida; algo que qualquer serva poderia fazer. Por outro lado, esta não parecia ser a sua intenção. Governar não era mais do que uma preocupação insignificante para ela. Estava disposta a deixar que Siegfried fosse o lorde, tal como deixou que Elliot Kroft desempenhasse este papel antes dele. Que diferença faz quem senta no trono, se o poder de verdade reside nas mãos dela?
Melias Kroft talvez não pensasse assim.
Embora tivesse bem menos poder que Eroth, suas ambições pareciam ser maiores. Havia se distanciado de Andrella e agora vinha treinando Esmond Kroft como escudeiro.
— O garoto precisa aprender como ser um homem para que possa parar de agir feito uma criança — explicou. — Deixá-lo solto por aí pode ser ainda mais perigoso. Estou dando a ele um motivo pra seguir em frente. Esquecer o passado e recomeçar. Pelo menos assim ele fica ocupado.
Mas à Siegfried parecia apenas que Melias Kroft estava treinando Esmond para ajudá-lo a tomar o Castelo dos Ossos, tal como havia tentado fazer com Tom e Kira, quando ainda era Elliot Kroft quem governava sobre aquelas terras.
Talvez estivesse apenas sendo paranoico.

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