Capítulo 6: Alianças e Rivalidades (Parte I)
— CONTRABAIXOS! — Aquele velho chato grita mais uma vez. — Quantas malditas vezes tenho que repetir?! Estão atrasados, merda!
Ah… que cansaço… Esse cara exige o impossível da gente… mas tenho que aturar isso, preciso do dinheiro para os remédios da minha filha.
— Vocês ainda chamam a si mesmos de músicos? Vergonha! Cof! Vocês malditos não tem olhos nem ouvidos! Não conseguem me acompanhar nem quando ajudo vocês!
Bem… dessa vez vou ter que concordar com ele, os baixos realmente são um pouco incompetentes.
Tsc, ele continua falando… Como esse velho ranzinza conseguiu um patrocínio? Bem, ele não é ruim, na verdade, essa quinta sinfonia é uma boa peça, mas sua personalidade.
— Ah… Resolvam esse maldito problema até a próxima prática, se não estrangulo vocês… Cof! Cof! Dis-Dispensados…
Finalmente acabou… me levanto, guardo meu violino no estojo e logo saio, quanto antes melhor.
No momento que piso na rua, me sinto refrescado, o ar de fora é muito melhor do que o de dentro, pesado e contaminado por aquele velho.
Só mais uma prática… amanhã é o último dia de prática, depois só resta a apresentação semana que vem.
Sinto vontade de faltar amanhã, mas, já que é a última prática em grupo, farei o esforço para aparecer.
Tudo para que possa pagar os remédios da minha filha…
***
— Tem certeza, Justina?
Eu e Joseph corremos o mais rápido possível até a casa do burguês que patrocinou Dracula.
— Sim, se minhas suspeitas estão corretas, então Dracula matará seu patrocinador.
— Mas por quê?
— Bem… Tenho uma ideia, mas não tenho certeza.
Sua quinta sinfonia era seu objetivo de vida final, a única coisa que o manteve vivo até me encontrar, se não fosse por isso, teria falecido há tempos…
Por isso, baseado na conversa de mais cedo, tenho suspeitas de suas intenções.
— Certo, bem, você tem as memórias dele, não há ninguém que o conhece melhor do que você.
Em pouco tempo chegamos no local, uma mansão digna de um burguês, grande, bem projetada, agradável de se olhar.
Não há muros, apenas uma cerca alta de metal com visão do caminho até a entrada, com uma lagoa artificial, árvores, estátuas… Ele definitivamente prefere deixar suas conquistas à mostra do que escondê-las.
— Não há ninguém em patrulha do lado de fora… percebeste algo?
— Não, creio que podemos entrar.
Com cuidado, saltamos por cima da cerca, nos esgueirando com nossos sentidos aguçados.
Não há ninguém fora… nenhum cheiro, nenhum som.
Por entre as árvores, avançamos até a entrada, há uma porta dupla feita de algum tipo de madeira escura, tão bela que reflete a luz da lua.
Me aproximo e encosto a orelha nela, contudo, no momento que minha cabeça toca a madeira, a porta se abre lentamente.
— Estava aberto… — Imediatamente sinto cheiro de sangue, mas nenhum som. — Joseph.
Ele se aproxima e fica em alerta.
Então, juntos, entramos.
O interior está escuro, iluminado pela luz da lua que entra pela janela, e imediatamente notamos sangue e pessoas mortas.
Dracula…
— Cuidado, pode não ser ele.
Concordo e entramos furtivamente.
O salão de entrada é amplo, nossos passos ecoariam facilmente não fosse nossa destreza em sermos silenciosos.
Há um grande lance de escadas que se divide para ambos os lados, levando até o andar de cima.
Se isso foi feito por ele, então definitivamente teremos que subir as escadas.
Caminhando com cuidado, vou até o segundo andar. Dracula esteve aqui apenas uma vez, contudo é o suficiente para saber um pouco sobre a casa.
Vou até o que acredito ser o quarto do casal, pelo horário, o dono desta residência já estaria dormindo.
Coloco a mão na maçaneta, hesito por um momento, já imaginando o que encontrarei em seguida.
Então, abro a porta e vejo um quarto amplo, contudo meus olhos são atraídos para a cama dupla, onde um homem e uma mulher jazem mortos, o lençol branco está tingido de vermelho.
Procuro ao redor, contudo não encontro nada.
— Já foste embora…?
Olho para a janela, está fechada.
— Procurarei em outro lugar.
Caminho para fora do quarto, contudo, por um breve momento, escuto um som quase inaudível.
Me viro rapidamente e avanço na direção da cortina retraída, alguém sai rapidamente e tenta pular pela janela, eu o seguro.
— Dracula? — Seu rosto é iluminado pela lua. — Então realmente és tu…
Ele se vira para mim, seu rosto possuí uma expressão complicada.
— Por que… tu fizeste isso? Por que tu mataste sua orquestra e esta família?
Escuto passos atrás, Joseph aparece na porta, contudo, ao nos perceber, espera em silêncio.
— Tu me disseste que não mataria! A primeira coisa que fizeste foi justamente o oposto!
Minha mão o agarra com mais força, minha garra rasga um pouco sua roupa.
— Você sabe, Perséfone, você tem minhas memórias… — Ele me encara com um olhar determinado. — Para trazer comigo minha quinta sinfonia mesmo na minha identidade nova.
— Tu mataste tanta gente inocente, quantas famílias ficarão devastadas?! — Minha indignação é substituída pela raiva. — Tu podes sempre compor algo no…
— NÃO! — Ele move o braço violentamente, fazendo-me soltá-lo. — Eu sei o que prometi, mas dessa vez… apenas dessa vez me deixe ser egoísta.
Ele me encara profundamente, seu olhar não demonstra arrependimento, nem culpa, mas… há algum conflito neles.
— Eu jamais poderia abandonar esta peça… você sabe como é importante para mim…
Consideração… é isso que há nos olhos dele.
Ele não se arrepende de ter matado, contudo, pelo menos, ele se lembra da promessa que fez para mim.
Dracula… tu realmente és uma pessoa terrível, talvez a pior pessoa que eu poderia ter transformado.
Contudo… tu não és um caso perdido…
— Tu… prometes que não fará nada assim? Que não matarás humanos inocentes?
Por favor… caso continue neste caminho… terei que…
— Não tenho motivos de matar humanos, este foi um caso único.
O encaro profundamente, buscando qualquer sinal de mentira, contudo seus olhos são honestos.
— Está bem… — Não posso negar isso, algo tão importante a ele. — Contudo… por que mataste toda a família e os empregados? Não era necessário…
— Eu não podia arriscar, era preciso para proteger minha identidade.
Olho para trás, para o casal morto, e me lembro da carnificina ao redor da mansão.
Eu temia que ele fez isso por uma sede de sangue, bêbado por poder, contudo, se fosse mesmo o caso, ele não seria tão compreensível.
Dou as costas a ele e caminho na direção da porta.
Passo por Joseph, contudo paro ao seu lado, lançando um olhar sombrio em sua direção.
— Sei o que tu queres com ele. — Percebo-o ficando tenso. — Forte Hohensalzburg, certo?
Ele concorda em silêncio.
— Muito bem, vamos.
Então, nós três caminhamos para fora da mansão, nos preparando para uma viagem.
***
A carruagem trepida na estrada de pedra.
Enquanto suporto a maldita luz do sol, espio por uma fresta para fora, avistando comerciantes, soldados, cidadãos caminhando, alguns indo até Vienna, outros seguem o mesmo caminho que nós.
Fecho a cortina, mergulhando o interior da carruagem em uma penumbra.
Ao meu lado está Joseph, e diante de mim está Perséfone, com os olhos fechados e uma expressão quase imperceptivelmente frustrada.
— Devemos chegar em Salzburg ao anoitecer, será o momento perfeito. — Joseph me encara. — Lembre-se de ser respeitoso, sei que você matou um caçador de elite sozinho, mas não fique confiante demais, ok? Você já vai causar uma boa primeira impressão.
Não respondo e lanço outro olhar a Perséfone, ela mantém os olhos fechados.
Joseph não me explicou direito o que estamos indo fazer no forte Hohensalzburg, ele apenas insistiu bastante para que fossemos até lá depois que confirmei que fui eu quem matou aquele caçador das plantas.
Em contrapartida, enquanto ele está animado, Perséfone parece ter ficado de mal humor.
E pensar que aquele cara era um caçador de elite… heh, isso só prova como sou superior.
— Encontraremos com Paris Lodron, ele é o vampiro com maior autoridade da região. Preciso avisá-lo que ele não é um homem ruim, porém ele e sua facção são totalmente contra nossos ideais, portanto, por enquanto, evite expor sua opinião sobre os caçadores, certo?
— Por que eu deveria temê-lo?
— Talvez tu não temas apenas um homem, contudo tu não compreendes quantos aliados Paris Lodron tem. — Perséfone abre os olhos e finalmente me encara. — Tente sequer agir de maneira brusca com ele e tu serás morto por dez de seus seguidores.
Aliados… facções… Há tanto que não sei sobre vampiros ainda… quanto mais nomes escuto, mais me surpreendo que figuras histórias de décadas, alguns até séculos atrás ainda vivem como vampiros.
— Estou surpreso que decidiu nos acompanhar, Perséfone — diz Joseph. — Achei que tentaria nos parar.
— Mesmo se eu vos parasse, estaria apenas adiando o inevitável, sei que tu levarias Dracula até o forte Hohensalzburg eventualmente. — Ela me encara com um olhar duro, mas preocupado. — Além disso, tu precisas aprender sobre as facções e a como conviver em nossa sociedade.
— Não vai deixar fácil pra mim, não é? — Joseph esboça um pequeno sorriso. — Está bem, mas saiba que terei Dracula, entendeu?
— Fico lisonjeado que me tem em alta estima, Joseph, mas não fale de mim como se fosse um objeto. — Lanço um olhar levemente irritado a ele. — Eu farei o que bem entender.
— Si-Sim, claro, peço desculpas, Dracula.
— Hmpf. — Cruzo meus braços e fecho meus olhos.
Depois dessa conversa, seguimos em silêncio até a cidade de Salzburg.

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