CAPÍTULO 25 - MORTE POR CONGELAMENTO
“Esse moleque que fez isso?” O orc baixou o olhar em direção ao próprio peito. A pele verde estava enegrecida, a carne exposta fumegava. Seus olhos se estreitaram.
Uma fúria avassaladora tomou conta do seu ser.
“Como ousa, moleque?!” Rugiu, e avançou descontroladamente em direção a Oliver.
“Merda…” A mente de Oliver trabalhava incessantemente, buscando qualquer saída para sua situação. Seu primeiro relâmpago havia sido um golpe de sorte, o orc não esperava. Agora, a criatura sabia exatamente de onde vinha a ameaça.
O orc avançou com tamanha força e brutalidade que fez Jonathan sob o efeito de uma magia de 1º ciclo parecer uma criança aprendendo a engatinhar. O chão de madeira estremeceu sob seus passos pesados.
Oliver não teve tempo de reagir. Fechou os olhos e esperou o impacto.
Para sua surpresa, o golpe foi interceptado por Baldric.
O escudo rachado ainda resistia, danificado, mas não despedaçado. E o impacto não carregava o mesmo poder devastador do soco anterior. O orc havia canalizado toda sua aura naquele primeiro ataque explosivo. Agora, seus golpes eram brutais, mas não letais como o primeiro.
“Vou matar vocês dois!”O orc declarou com um sorriso doentio, enquanto desferia uma enxurrada de socos contra o escudo de Baldric. “E depois brincar com a elfa.”
Oliver aproveitou a distração para começar a preparar outro relâmpago. Concentrou-se, visualizando as partículas ionizando o ar entre seus dedos. Porém, ao observar o orc mais atentamente, percebeu algo diferente: a aura azul ao redor dele não estava sendo canalizada para os punhos como antes. Dessa vez, ela envolvia seu corpo inteiro como uma armadura translúcida.
“Ele está usando a aura como defesa…” Oliver cerrou os dentes. Quando a aura havia se concentrado no punho para aquele soco devastador, o resto do corpo ficou desprotegido, mas o orc conseguiu ativá-la novamente a tempo e resistir ao relâmpago. Agora, com a aura distribuída uniformemente, o raio seria grandemente absorvido e causaria pouco dano.
“Não vai funcionar assim. Preciso que essa barreira desapareça.”
Oliver continuou canalizando mana, mantendo o relâmpago pronto na ponta dos dedos. Não poderia desperdiçá-lo. Precisava esperar o momento exato em que o orc concentrasse a aura novamente num único ponto.
O orc parecia ciente do perigo. Manteve a aura distribuída ao redor do corpo, recusando-se a concentrá-la, mesmo que isso significasse golpes menos poderosos.
Ainda assim, era mais do que suficiente.
O escudo de Baldric já exibia rachaduras profundas que se espalhavam como teias de aranha pela superfície. O homem abandonou qualquer pretensão de contra-atacar e se concentrou exclusivamente em defender. Já havia tentado golpear o orc antes e sabia que seus ataques eram inúteis contra aquele monstro.
Oliver se afastou da luta, mantendo a distância enquanto observava com os olhos fixos, o relâmpago crepitando entre seus dedos.
Com mais alguns impactos, o escudo de Baldric finalmente se despedaçou. Fragmentos de metal e madeira reforçada voaram pelo ar.
“Hahaha! Finalmente.” O orc abriu um sorriso largo, revelando presas amareladas. “Agora você está morto.”
Preparou mais um golpe, e Oliver pôde observar a aura azul se retraindo do resto do corpo e convergindo para o punho direito do orc. Era o mesmo tipo de ataque concentrado que havia arremessado Baldric contra a parede antes.
Era a abertura que Oliver esperava.
Mas Baldric também percebeu a concentração de aura. Sem escudo, tomou sua decisão num instante: segurou a espada com as duas mãos e avançou. Preferiu atacar a tentar se defender desarmado.
Sua decisão se provou fatal.
O punho carregado de aura colidiu com a lâmina de Baldric. Não houve explosão como da vez anterior. O som que se ouviu foi pior, um estalo úmido e contínuo, como galhos verdes sendo torcidos. O punho do orc atravessou o aço como se fosse papel, alcançando o braço de Baldric.
E não parou.
O antebraço de Baldric se deformou numa espiral grotesca, osso, músculo e pele se retorcendo como um pano sendo espremido, e então explodiu.
Sangue, estilhaços de osso e fragmentos de carne salpicaram o chão do bordel Cauda de Sereia.
Baldric desabou de joelhos. Um grito estridente rasgou o ar do bordel enquanto ele agarrava o que restava do seu braço, o sangue jorrando entre seus dedos.
Oliver sentiu o estômago revirar diante da cena, mas não podia hesitar.
“Isso é o que você ganha por—” O orc começou, virando-se para encarar Baldric com desprezo. Havia cometido um erro. Esqueceu-se completamente de Oliver.
O relâmpago cortou o ar.
Um estampido ensurdecedor sacudiu as paredes do bordel, seguido pelo cheiro de fumaça e carne queimada.
O orc teve o peito acertado em cheio mais uma vez. Seu corpo foi arremessado para trás, chocando-se contra a parede de pedra com força suficiente para rachar os tijolos ao redor do ponto de impacto.
Ao contrário da primeira vez, em que havia reagido a tempo e se protegido com uma camada de aura, agora não houve nada entre a descarga elétrica e sua carne. Toda a sua aura estava concentrada no punho quando o raio o atingiu.
O corpo do orc estava devastado. A pele verde havia escurecido até uma tonalidade de carvão, fumaça negra subia em filetes do seu torso, e um cheiro nauseante de carne chamuscada impregnava o ambiente. Mesmo assim, ele se manteve de pé. Seus olhos injetados de ódio encontraram Oliver.
O bordel já havia se esvaziado em grande parte. Muitos clientes fugiram porta afora, os que permaneceram se esconderam atrás de balcões, nos cantos das paredes, sob mesas viradas. Alguns subiram as escadas e espiavam por entre as grades dos corrimões, petrificados.
O orc avançou mais uma vez. Seus passos eram mais lentos agora, cambaleantes, mas carregados de uma determinação assassina. Oliver conseguia sentir a fúria irradiando daquela criatura, totalmente direcionada a ele.
Oliver recuou, preparando-se para correr, já que não poderia preparar outro relâmpago tão rápido assim.
Foi quando percebeu uma movimentação ao seu lado.
Virou-se e ficou paralisado. Sua mãe estava ali, de pé, entre ele e o orc.
“Mãe! Saia daqui!” Oliver agarrou seu braço, tentando puxá-la para longe. Mas Eliandris não se moveu um centímetro. Sua expressão era calma, terrivelmente calma, enquanto encarava a criatura que se aproximava.
“Mãe?” O orc captou a palavra. Um sorriso cruel se abriu em seu rosto desfigurado ao compreender a relação entre os dois.
Imediatamente trocou de alvo, direcionando toda sua fúria para Eliandris.
“Eu não queria ter que fazer isso…” Eliandris pensou. Seus olhos se estreitaram, e algo mudou em sua postura, sutil, quase imperceptível. Ela estava pronta para agir.
Porém, não foi necessário.
A velocidade do orc diminuiu gradativamente. Seus passos, que já eram cambaleantes, tornaram-se lentos como se atravessasse areia movediça. Até que não conseguiu dar mais nenhum passo.
Quando compreendeu o que estava acontecendo, já era tarde demais. Suas pernas estavam cobertas por uma camada de gelo cristalino que subia rapidamente, imobilizando-o da cintura para baixo.
Um silêncio pesado caiu sobre o bordel.
Passos calmos ecoaram no andar de cima. Um homem vestindo um robe azul-marinho e segurando um cetro ornamentado desceu as escadas com tranquilidade. Ao seu lado, uma bela cornídea de asas e chifres o acompanhava.
“Que alvoroço todo é esse?” A voz de Archibald cortou o silêncio. Estava claramente insatisfeito.
Ele chegou ao térreo e varreu o salão com o olhar.
Mesas destruídas. Manchas de sangue espalhadas pelo piso de madeira. Uma disposição horrenda de carne, ossos e tendões diante de Baldric, que ainda gemia no chão segurando o que restava de seu braço.
Archibald franziu o cenho.
O orc permanecia preso no gelo, mas se debatia com toda sua força restante, tentando se libertar.
“Maldito! Solte-me e me enfrente como um guerreiro de verdade!” O orc protestava, cuspindo as palavras.
Archibald não respondeu. Apenas continuou se aproximando com passos medidos. Oliver observou a alma de seu mestre, ela emanava uma cor avermelhada intensa, pulsando com cada passo. Ódio.
O mago parou diante do orc. Com um gesto rápido de mãos e um cântico curto, seu cetro brilhou numa luz azul gélida.
As vias aéreas do orc começaram a congelar por dentro. Ele tentou gritar, mas o som morreu em sua garganta. Tentou respirar, mas o ar não encontrava mais passagem. Seus olhos se arregalaram em puro terror, a boca aberta num grito silencioso.
Magia de 3º Ciclo — [ Morte por Congelamento ]
O gelo se espalhou de dentro para fora, consumindo cada centímetro de carne, cada fibra muscular, cada órgão. O corpo inteiro do orc enrijeceu, transformando-se numa estátua de gelo sólido. Uma fina camada de cristais de gelo recobria sua expressão congelada de pavor.
Archibald ficou a um passo de distância.
Ergueu a mão e, com um simples peteleco na testa do orc, a estátua se desmontou.
Inúmeros pedaços de gelo se espalharam pelo chão do bordel, tilintando como cacos de vidro.
O orc estava morto.

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