Capítulo 522: Nada Demais
Juno não sabia se segurar direito quando o assunto era uma luta. Na verdade, por mais que tentasse, Dante não tinha como pedir que ela fizesse aquilo. Uma coleira em um animal selvagem nunca fez sentido, e não faria agora.
Por isso quando o golpe elétrico acertou sua palma aberta, ele não escondeu o sorriso e também a vontade de lutar mais ainda. E ela sentiu quando não houve recuo. Antes, Dante precisava segurar por conta dos ferimentos da batalha, mesmo depois de meses, contra o Rastro.
Seus pulsos ardiam com golpes fortes, os joelhos rangiam um pouco. Usou Holanda para tratar seus próprios ferimentos, entendendo onde ele deveria deixar ainda mais forte e Vick replicou por meses a imagem do seu pai, criando um ramo de lembranças tanto dele quanto dela para testá-lo.
A luta contra Frok, o aluno de Moonlich, foi apenas uma pequena aparição do que ele queria voltar a fazer.
No rosto de Juno, a surpresa de que seu movimento não causou impacto nenhum mesmo sendo poderoso.
— Distraída no meio da batalha?
Dante girou o corpo tão rápido e num ângulo diagonal, fechando o punho e girando o ombro com tanta força que seu punho ganhou força e aceleração. Rápida, reagiu colocando as duas mãos em frente a barriga para aparar.
Foi lento demais.
O punho mudou de direção, e acertou seu ombro no meio do caminho.
Juno foi enviada para trás, metros de distância, usando o pé para aparar o recuo. Deslizou por alguns segundos, com a cara extremamente chocada. Dante apenas abanou a mão, sorrindo.
— O quê? Vai dizer que eu peguei pesado?
— Não. Não é isso. — O ombro direito dela. Veronica tinha dito, semanas atrás, que um dos seus maiores defeitos era deixar o ombro e parte do pescoço exposta. Um oponente poderia usar isso para causar dor e deixar seus movimentos mais lentos. — Você…
— Estava exposto — ele deu de ombros. — Uma brecha é uma brecha. Eu te ensinei isso.
Ensinou, mas fazia tempo. Dante depois do Rastro era um homem que poucos poderiam levar a sério. O corpo enfraquecido fez dele apenas um instrutor, não um lutador. Juno tinha ouvido de Leonardo e Heian que ele não poderia ser mais o mesmo de antes.
E tinha colocado em sua cabeça que isso era verdade.
— Sentiu também? — Dinamite chegou perto de Juno. Ele abria e fechava os dedos, encarando o velho. — Parece que alguma coisa deixou ele mais forte. Secure e eu sempre conseguimos pelo menos tocar nele, mas hoje…
— Não chegamos nem perto — completou o colega.
Ativando a habilidade de Veronica, as sombras ao redor de Dante cresceram velozmente. Juno tinha usado diversas vezes antes, contra Felroz. As sombras indicavam os possíveis ataques que viriam, como se fosse a ‘possibilidade’ de poder prever as ações do inimigo.
Diferente de Leonardo que usava sua espada para criar um caminho para a vitória, ela podia prever antes mesmo do movimento.
— Merda. — Ouviram sua voz e o sorriso meio torto. — Isso é absurdo.
— O que foi? — Secure perguntou ao observar os olhos de Juno meio azulados. — Essa não é a habilidade da Veronica?
— Sim. Consigo ver de onde pode vir o golpe. — A quantidade não deveria ser tanta. — Veronica me contou que quando eles lutaram a primeira vez, ela viu dezenas, mas isso caiu depois que Dante voltou.
— E agora? — Dinamite não tirou os olhos dela. — Quantos são?
— Uns… 40 ou 50… — A boca dos quatro se fecharam. — É ainda maior do que antes.
A risada de Dante quebrou a concentração deles. O velho levantou o braço, coçando o pescoço e estalou os ombros com facilidade. Juno percebeu que um simples movimento corporal criava e destruía sombras quase que instantaneamente.
— Já se preparam? — Dante deu um passo a frente.
O ar inteiro foi pressionado. Tifany recuou um passo, sentindo o peito arfar. As mãos dela tremularam vagamente ao ver a quantidade de presença e aura sendo enviada na direção dela com tanta força que parecia quebrar seus ossos ao meio.
Por outro lado, Dinamite e Secure sorriram amargamente.
— O que aconteceu no sul, velhote? — Dinamite flexionou as pernas rapidamente. — Secure, Juno, eu não vou conseguir me segurar. Se eu perder a cabeça e machucar o velho, me tirem de lá.
— Me machucar? Parece que Leonardo e Heian realmente estão deixando vocês confiantes para lutar lá fora. Entendi agora porque perderam contra aquele Lagmorato lá no Hospital.
— Nós perdermos porque…
— Agora vocês tem motivos para serem derrotados? Que patético. — Dante continuou dando risadas. — Uma derrota é uma derrota em qualquer lugar. Não existe mérito em dizer onde errou, porque errou, o mérito é só isso. Perder e perder.
Mesmo sendo uma batalha amigável, as narinas de Dinamite se elevaram e abaixaram. Juno conhecia quando o colega estava irritado, mas as palavras de Dante eram duras demais comparadas aos de Clara ou de Marcus, ou Leonardo e Heian.
Eles tinham sido instruídos a não serem mortos, mas a derrota era uma opção quando se entraram em um lugar como o Hospital.
— Você não estava lá — gritou Tifany de volta. — Eles fizeram tudo o que puderam. Lutaram como guerreiros…
— E perderam como amadores — devolveu Dante na mesma medida. — Um Lagmorato foi feito para ser derrotado pelos humanos. O que acha que vai acontecer quando seu joelho falhar? Quando seu ombro ficar exposto? Quando o medo tomar conta do seu coração e sua vida passar diante dos seus olhos? Quando sua Energia cessar?
Eles não sabiam disso. Dante citou a falha de todos eles. Dinamite tinha uma certa fraqueza no joelho, os ombros e pescoços de Juno expostas, o medo de Tifany e a falta de força e energia de Secure.
Suas falhas e fraquezas observadas por um só homem em pouco tempo.
— Eles vão matar vocês como se não fossem nada porque não são nada — concluiu Dante mostrando um desprezo gigante. — O que farão se o inimigo for um segundo Rastro? Quando acordarem, vão sentir o medo de serem caçados por uma criatura que não tem pena e nem misericórdia. Hoje, na frente de vocês, eu vou ser esse monstro. E melhor ainda… — ele esticou os braços para o lado. Nick, Lilo e Nolan saíram pulando e aumentando seus tamanhos. — Não é nada demais se vocês treinarem com todos nós juntos, não é?

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