Capítulo 8: Alianças e Rivalidades (Parte III)
Lodron suspira de maneira cansada, se aproxima da sua livraria e pega um mapa, abrindo-o sobre sua mesa.
— Dracula, você sabe sobre as guerras Púnica e Macedônicas?
— Guerras que a República de Roma travou contra a República de Cartago e o Reino da Macedônia. O que algo que aconteceu mil anos atrás tem a ver com isso?
— Deixem-me que digo sobre isso, senhores, afinal, ninguém melhor para explicar ao nosso ilustre convidado sobre a glória de Roma do que eu, o próximo Imperador do Sacro Império.
Franz ergue a mão até o próprio peito de maneira pomposa.
— Desde sua fundação, durante a monarquia, até o império, Roma sempre foi governada por vampiros. Seu objetivo era de expurgar completamente os caçadores pela conquista, os governantes da República de Cartago e o Reino de Macedônia eram, em sua maioria, caçadores.
— Basicamente, o Império Romano queria exterminar os caçadores da Europa e, seu objetivo final, o mundo. — Lodron encara Franz de maneira afiada. — Essas duas guerras foram apenas o começo, mas, como sabe, Roma falhou.
— O Sacro Império é apenas um cadáver de Roma mantido vivo por alguns vampiros que insistem em perseguir sua “glória”, certo, Franz?
O candidato a imperador dá de ombros e mantém seu sorriso confiante.
O Império Romano… cada vez mais sinto que todo conhecimento que tenho sobre o mundo está sendo alterado, desde que me tornei um vampiro me é revelado coisas que julgaria vindo de alguma peça de teatro fantástica.
Mas é inegável que Roma caiu, então como…
— Como Roma falhou?
— Mesmo após terem sido quase extintos, a quantidade de caçadores cresce exponencialmente. Antes de Roma travar as guerras, havia mais ou menos a mesma quantidade de caçadores e vampiros, mas agora… nós estamos ficando em cada vez menor número.
— É exatamente por isso, meu caro Dracula, que devemos unir os vampiros e exterminar de vez os caçadores, essa é nossa última chance, caso contrário nossa raça está condenada. — Franz se aproxima de mim.
— Sabes que não é assim que funciona, humanos comuns sem contato ou parentesco com caçadores despertam suas Benções Divinas subitamente, mesmo se os caçadores forem extintos, apenas ressurgirão.
— Por isso matamos os caçadores primeiro, então eliminamos todo humano assim que desperta uma Benção Divina.
— Isso é inaceitável! Incontáveis inocentes morrerão! — Perséfone ergue a voz, é a primeira vez que a vejo irritada assim.
— Eu realizarei aquilo que Roma falhou, conquistar a Europa, unir os vampiros e exterminar os caçadores, agora, graças à existência de Dracula, isso é possível. — Ele estende a mão na minha direção. — Então, se juntarás à minha causa?
Encaro o possível futuro imperador, então Perséfone, Lodron e Joseph.
Meus interesses definitivamente se alinham com Franz, e ele tem poder e influência, mas… se Roma falhou, então o que garante que o decadente Sacro Império sucederá?
Além disso, a promessa que fiz com Perséfone…
Não, isso não deveria importar, não deveria…
— Preciso pensar a respeito. — É muito cedo para tomar uma decisão, preciso ter uma noção melhor das coisas.
Perséfone e Lodron parecem um tanto aliviados com minha resposta, enquanto Franz tem um olhar compreensível.
— Bem, neste caso, aproveite a hospitalidade de meu forte, Dracula. — Lodron dá a volta pela mesa e se aproxima um pouco. — Vocês viajaram bastante, podem ficar pela noite.
— Agradeço tamanha hospitalidade, caro Paris Lodron. — Franz sorri de maneira confiante a ele. — Aproveitaremos muito bem a pouca hospitalidade que podes oferecer.
Percebo a sobrancelha de Lodron tremer por um momento, mas ele não diz nada.
— Agora, se me dão licença, preciso provar se tua comida é digna do futuro imperador.
Com isso, ele deixa o aposento.
— Quando se decidir se juntar a nós, Dracula, sabe onde nos encontrar. — Joseph o segue pouco depois.
— Sinto muito por tamanha confusão, Dracula, sei que se tornou um vampiro há poucos dias, há muito que não sabe ainda.
— Vamos, Dracula, tu precisas conhecer os outros vampiros, todos estão curiosos sobre ti.
Concordo com Perséfone com um aceno e a sigo para o corredor, enquanto Lodron permanece na sua sala.
— Obrigada, Dracula, por não teres se aliado com Franz.
— Isso é só no momento, se eu julgar que ele tem a capacidade, então me juntarei a ele.
— Mas… sua promessa… inocentes morrerão… — Ela para no meio do corredor, com as mãos unidas diante do próprio peito.
— Os caçadores me matarão se encontrarem a oportunidade, e não quero isso, quero viver para conquistar meus objetivos. — Me viro e me aproximo um pouco dela. — Além disso, devo minha vida a você, e não quero que seja assassinada por um caçador.
Seus olhos se abrem um pouco mais, ela desvia o rosto por um breve momento e, quando me encara novamente, tem uma expressão complicada.
— Eu… fico feliz que penses isto, mas… bem… ainda quero acreditar que é possível coexistirmos sem precisar lutar contra os caçadores.
Ainda… ela é a vampira mais velha, mesmo assim continua acreditando, perseguindo isso…
— Me recuso ser caçado… eu fiz aquela promessa, mas, se soubesse que a situação estava tão terrível, talvez não a teria feito…
Dou minhas costas, mas não antes de perceber uma expressão um tanto dolorosa em seu rosto.
— Dracula… — Ela tenta dizer algo, mas permanece em silêncio. — Vamos… apenas retornar até os outros vampiros…
Caminhamos de volta até o salão principal, percebo uma clara diferença agora, há um pequeno grupo de vampiros ao redor de Franz, conversando animadamente com ele, enquanto os outros se mantém afastados.
Assim que aparecemos, os vampiros aliados com Perséfone e Lodron se aproximam de nós.
Perséfone me apresenta todos aqueles que se aproximam, um nobre influente regionalmente, um dono de uma fábrica, um de patente alta no exército… A maioria dos vampiros dessa facção parecem ocupar cargos altos ou influentes, com exceção dos guardas e funcionários do forte, sinto pelo seu cheiro que são vampiros.
Lanço um olhar para o grupo de Franz, seus aliados parecem pessoas com pouco status… com exceção, claro, do próprio futuro imperador.
Se eu pensar nisso, então realmente tenho mais em comum com a facção de Franz, não apenas no meu status, mas ideais também, porém… a facção Lodron tem uma base mais sólida.
O que seria mais fácil? Me juntar à facção Lodron e tentar mudá-la? Ou me juntar à de Franz e tentar conseguir apoiadores influentes?
Ah… tenho que pensar bem, me aliar com Lodron iria basicamente acabar com as chances de Franz, e se eu me juntar ao futuro imperador… talvez acabe dividindo demais os vampiros…
Eu só queria viver para continuar sendo um compositor, mas por causa desses malditos caçadores, agora estou envolvido nessa confusão.
Dane-se, vou aproveitar a ocasião para provar a comida, só há coisa de qualidade, bem-feita.
Alguns dos seguidores de Franz se aproximam de mim para conversar, os apoiadores de Lodron tentam afastá-los, me dizem que não devo me misturar com eles, mas sinceramente, não me importo de interagir com ambos os lados por enquanto.
Uma coisa interessante sobre eles, é que parecem especialmente interessados sobre eu ter derrotado um caçador de elite.
— Isso mesmo, Dracula matou aquele caçador com a Benção Divina de fertilização, infelizmente não pude ver a batalha. — Joseph fala com animação sobre isso.
— Ele definitivamente era mais forte do que o grupo que enfrentei antes, mas ainda não era o suficiente. — Estufo meu peito, falo com orgulho.
— Impressionante! Caçadores de elite são fortes o suficiente para enfrentar dois vampiros sozinho, e pensar que derrotou um sem ajuda!
Continuo conversando com eles e…
Bam!
A porta da entrada se abre com força, me viro para a origem e vejo…
— Joseph! — Maire, a esposa de Joseph aparece e… está sangrando! — Caçadores… O Heinrich e…
Suas roupas estão rasgadas, cobertas de sangue, talvez dela ou de caçadores.
— Querida! — Joseph corre em sua direção e a ajuda a se manter de pé. — O que houve? Respire fundo, acalme-se.
— Se-Seu pai… su-sua mãe… caçadores apareceram no castelo e… mataram…
Os vampiros exclamam surpresos, Franz e seus seguidores os cercam, já indignados.
— Como ousam!
— Já aturamos sua ousadia por tempo demais!
Joseph cai de joelhos no chão, chorando.
— Não… E nossos filhos? O quê…
— Não es-estavam lá, então estão vivos, acho…
Isso parece aliviar pouco ele… maldição, por mais que seus pais fossem covardes, isso ainda é imperdoável.
Por mais que eu não tenha nenhuma conexão real com ele, sei bem o que é perder alguém amado.
A sala mergulha em um murmurinho, alguns vampiros da facção Lodron-Perséfone dão os pêsames a ele, outros se sentem indignados que alguém aliado a eles foi derrotado dessa maneira.
— Marie, me dê seu sangue…
Ela obedece ao comando do esposo, corta seu pulso usando suas garras e oferece uma única gota a ele.
Após ingerir, seus olhos se abrem, enfurecidos.
— Então esses são seus rostos e nomes… Vou acabar com eles!
Ele se levanta subitamente e começa a caminhar até a porta.
— Joseph, espera! Estás sendo descuidado! — Perséfone tenta segurá-lo pelo braço.
— Diz isso, Proserpina, porque não é seus pais que foram mortos! — Ele se solta dela violentamente. — Você… não, todos vocês da facção Lodron-Proserpina, até quando vão se deixar serem caçados como animais?!
O salão mergulha em silêncio, alguns desviam o olhar, mas ninguém o critica, devem ser inteligentes o suficiente para não serem rudes com alguém que perdeu a família.
— Vou atrás desses caçadores com ou sem ajuda!
— Vamos contigo, Joseph!
— Te ajudaremos!
Alguns dos seguidores de Franz se aproximam de maneira animada e irritada.
Joseph olha ao redor com um sorriso agradecido.
— Pessoal… obrigado… Agora va…
— Vou contigo — declaro com uma voz forte.
Joseph me encara surpreso, mas Perséfone…
— Dra-Dracula? E tua promessa? Além disso, e se tu fores assassinado? Tu não podes…
— Então quer dizer que devemos ficar parados e deixar que eles saiam impunes?
— Não é isso, apenas não que que morra! Afinal, eu…
— Não morrerei, Perséfone, você verá… — Caminho na direção de Joseph. — Vamos.
Ele me encara por um momento, então…
— Obrigado, Dracula. — Com um sorriso confiante, eu, ele e mais uns três vampiros deixamos o salão.
— Dracula!
A voz de Perséfone é a última coisa que escuto.

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